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Meu encontro com os outros

O médico José de Albuquerque, autoproclamado sexólogo e andrologista, embora tenha enfrentado tabus, levantado polêmicas e causado rebuliço na elite carioca nos anos 1930, ficou esquecido ao longo das décadas seguintes. Mas agora esse importante personagem da história da sexualidade no Brasil volta à cena com a publicação de sua autobiografia até então inédita, Meu Encontro com os Outros. A publicação é, ela própria, fruto de encontros. Foi com surpresa que Pedro, filho de José de Albuquerque, encontrou os originais da autobiografia após a morte do pai, em 1984. Muito tempo se passou até que Pedro decidisse buscar referências a seu pai na internet. E foi novamente com surpresa que encontrou um estudo sobre a Campanha de Educação Sexual de José de Albuquerque realizado pelo antropólogo Sérgio Carrara. Pedro e Sérgio se encontraram, e depois houve o encontro com a Editora Fiocruz. O resultado é o novo volume da coleção História e Saúde, selo Clássicos e Fontes, tema desta entrevista do antropólogo e professor da UERJ Sérgio Carrara concedida à Editora Fiocruz.

Na condição de pesquisador, como descreveria a surpresa do encontro com Pedro de Albuquerque, que lhe apresentou a autobiografia do pai?

Meu encontro com o dr. Pedro foi surpreendente em vários sentidos, alguns bastante pessoais. Quando, na década de 1990, desenvolvi meu trabalho sobre a ‘luta antivenérea’ no Brasil, tomei conhecimento, através do acervo da Biblioteca Nacional, das campanhas de José de Albuquerque em prol da educação sexual e da institucionalização da andrologia. Poderíamos dizer, nos termos atuais, que ele foi um incansável e corajoso ativista, dadas as brigas que ‘comprava’ no desenvolvimento de suas ações. Nunca imaginaria, 20 anos depois de ter feito minhas pesquisas sobre ele, encontrar-me com seu filho, Pedro, que guardava relíquias impressionantes sobre a atuação do pai, como as Memórias ou as partituras originais do Hino à Educação Sexual e da Ode ao Sexo. Minha surpresa aumentou muito mais quando descobri que a minha história pessoal se enredava de modo quase inacreditável com a história do próprio José de Albuquerque. Na primeira conversa que tive com dr. Pedro, soube que sua mãe, esposa de José de Albuquerque, a paulista Antonieta Morábito, vinha a ser tia-avó de um grande amigo meu dos tempos da faculdade, cursada entre 1979 e 1982 na Unicamp. Fiquei sabendo que Antonieta Morábito era irmã do avô desse meu amigo e que tal avô, por sua vez, havia se casado com a única irmã de José de Albuquerque. Ou seja, meu amigo dos tempos da faculdade era, ele mesmo, por parte de sua avó paterna, um Albuquerque.

Por que uma clínica andrológica nunca chegou a ser legitimada e consolidada?

Hoje em dia, como Marcos Carvalho e eu apontamos na apresentação do livro, a andrologia aparece como especialidade da urologia. Configuração bastante diferente daquela proposta por Albuquerque, que a via, juntamente com a ginecologia, como especialidade da sexologia. Como ele argumentava, então, o ‘sistema reprodutivo’ masculino apenas se situava corporalmente próximo do ‘sistema urinário’ e, dadas sua especificidade e importância, merecia ser objeto de um campo de estudos separado. Obviamente que a institucionalização da andrologia nos quadros de uma sexologia entrava em choque com convenções de gênero poderosas, segundo as quais os homens não têm ‘problemas sexuais’. Por muito tempo tais problemas foram considerados vergonhosos por colocarem em questão a potência masculina, atributo definidor da própria masculinidade. Dito de outro modo, procurar um urologista não levantava suspeitas sobre a potência sexual dos homens e, portanto, sobre sua masculinidade. Se algum médico resolvesse abrir uma clínica publicamente voltada a homens com problemas sexuais, não teria muitos clientes... É claro que tais convenções de gênero estão há algumas décadas em profunda transformação e tal transformação tem permitido que a saúde e a sexualidade dos homens entrem em debate, do mesmo modo que a saúde e a sexualidade das mulheres. Disso tratamos um pouco na apresentação das Memórias.

Como as ideias de José de Albuquerque conseguiram espaço em meios de divulgação popular, como rádios e jornais?

Essa é uma questão interessante e deve ser compreendida à luz do clima intelectual do período de entreguerras, momento em que também a psicanálise começa a se difundir entre nós mais amplamente, como estudado pela antropóloga Jane Russo. É realmente fabuloso imaginar que nossos avós e bisavós puderam um dia se reunir no Theatro Municipal do Rio de Janeiro para ouvir a execução da Ode ao Sexo ou do Hino à Educação Sexual. Ou que, ainda escolares, tenham visitado o Museu do Círculo Brasileiro de Educação Sexual. Ao que parece, dentro do projeto mais amplo de modernização das sociedades ocidentais, que se consolida nos anos 1930, a questão da sexualidade passa mais explicitamente a frequentar os espaços públicos, seja em nome de um projeto de liberação individual, o que seria aprofundado com a eclosão da contracultura, nos anos 1960, seja em nome da preservação da raça e da nação, através de políticas higienistas e eugênicas. Essa questão parecia ser particularmente importante no Brasil, cuja sociedade era vista por muitos como vítima de um ardor sexual particularmente problemático. Lembremos que a sexualidade no Brasil ou a sexualidade dos brasileiros é um dos grandes temas de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, obra publicada bem no início da década de 1930.

Apesar de toda a agitação provocada por José de Albuquerque, ele não pertenceu a prestigiosas academias ou sociedades científicas. Por que ele permaneceu à margem do meio acadêmico?

Não tenho dúvida de que contribuíram para isso não apenas o tema que Albuquerque elegeu para refletir, o sexo e a sexualidade, mas também o modo como ele se engajou em uma campanha pública para divulgar suas ideias. Lembremos que fez muitos inimigos, principalmente nos círculos católicos.

Algumas ações da campanha de educação sexual, como editar o Jornal de Andrologia em cinco idiomas, deviam ter um custo elevado. Como José de Albuquerque financiava a campanha?

Não tenho informações precisas sobre isso. Ele mantinha sua atividade clínica e não provinha de uma família sem recursos.

José de Albuquerque era um homem à frente de seu tempo, que, só para citar um exemplo, combatia a abstinência sexual inclusive de mulheres solteiras e viúvas. Mas o médico também tinha um lado relativamente conservador, que considerava a masturbação normal somente até a adolescência e condenava certos aspectos do carnaval e a pornografia. De que modo isso contribuiria para que ele conquistasse tanto aliados como opositores na elite carioca?

José de Albuquerque, do meu ponto de vista, era um homem de seu tempo. Ele apenas defendia o que pensavam muitos médicos sem concessões à moral sexual dita ‘tradicional’. Nesse sentido, pode ser considerado um radical. Talvez possamos dizer que ele não conseguia viver sob o double bind em cujos termos a sexualidade era, simultaneamente, uma ‘função biológica’ natural, entre várias outras, e uma atividade humana especialmente perigosa, sobre qual não se devia falar em público. Não parece ser pertinente utilizar em relação a ele, como aliás em relação a diversas questões, a oposição ‘conservador’ versus ‘progressista’.

José de Albuquerque defendeu direitos sexuais das mulheres. Pode-se afirmar que a trajetória do médico se aproximou do movimento feminista?

É muito importante a participação de mulheres, sobretudo pedagogas (mas também poetas, maestrinas etc.), em suas campanhas e no próprio Círculo Brasileiro de Educação Sexual. Ele também defendia algumas pautas importantes para o feminismo naquele momento, como o direito ao divórcio. Mas, até onde consegui apurar, ele não se apresentava como defensor do feminismo ou mantinha relações com grupos feministas.

Embora defendesse ideias pouco tradicionais, José de Albuquerque não se identificava com setores mais à esquerda do espectro político. Como o médico se posicionava em relação ao cenário político da época?

Até onde consigo ver, politicamente, José de Albuquerque pode ser considerado um liberal. Para ele, nada deveria ser compulsoriamente implementado (fosse o exame pré-nupcial, fosse a chamada ‘profilaxia antivenérea’). Talvez por isso ele não se sentisse muito confortável entre comunistas (apesar de ter recebido apoio importante de Pedro Ernesto) e menos ainda entre os integralistas, com os quais teve sérios atritos. Para ele, a força de qualquer transformação social deveria residir na educação.

José de Albuquerque chegou a ter voz na Hora do Brasil para divulgar o Dia do Sexo e cogitou fortemente lançar-se candidato a deputado federal. Mas depois foi relegado ao esquecimento. Por quê?

Ele de fato lançou-se como candidato independente e tinha uma ‘plataforma sexológica’. Mas as eleições foram suspensas com o Golpe de 1937. Em relação ao esquecimento, em grande medida a memória das pessoas sobrevive através das instituições que as consagram. Como José de Albuquerque teve uma trajetória independente, isso talvez tenha tido impacto na não preservação de sua atuação. Além disso, com o fim da Segunda Grande Guerra, o panorama moral das sociedades ocidentais se transformaria profundamente, tornando ‘ultrapassada’ a configuração intelectual na qual José de Albuquerque se movia.

Quais aspectos da campanha de educação sexual empreendida por José de Albuquerque permanecem atuais e quais já foram totalmente superados?

Uma certa valorização do prazer sexual, a defesa do divórcio, a problematização da sexualidade masculina e o acesso mais livre a informações sobre a sexualidade são aspectos da campanha de Albuquerque que permanecem, mesmo que com outras implicações e fora do enquadramento estritamente médico e científico com que Albuquerque os abordava. Outros, como a condenação da camisinha como método de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, aparecem hoje completamente superados. De todo modo, é importante ter em mente que Albuquerque operava em determinado tempo e segundo certa lógica, que incluía a ideia de que apenas a ciência, no caso a medicina, poderia libertar os espíritos de seus preconceitos e promover o progresso moral da sociedade. Essa lógica foi criticada em seu conjunto, o que torna muito complicado pensar em ‘aspectos’ que permaneceriam ou seriam ‘ultrapassados’. Devemos, como fazem os antropólogos, compreender Albuquerque ‘em seus próprios termos’. Mas, se há um aspecto em que ele foi definitivamente moderno, foi na utilização intensa dos meios de comunicação, alguns ainda em seus primórdios, como o rádio, para difundir suas ideias.

De que forma a biografia de José de Albuquerque pode contribuir para a melhor compreensão de dilemas, conflitos e impasses que até hoje persistem em torno da questão da sexualidade?

De um lado, é importante ter em conta que o que alguns autores chamam de ‘cultura sexual brasileira’ (eu preferiria a expressão ‘culturas’, no plural) tem uma história e que essa história não se resume apenas às construções freyrianas sobre as relações entre senhores e escravas durante o período colonial. As memórias do sexólogo contribuem para que conheçamos esse passado. Além disso, mesmo que os termos fossem outros – naquele momento, José de Albuquerque talvez nem sonhasse, por exemplo, com o que viria a ser proposto pelo movimento feminista e pelo movimento LGBT em relação à transformação da moral sexual –, fica evidente como o sexo e a sexualidade já operavam como tensores em um complexo campo no qual se confrontavam religião, ciência e política. Essas tensões, em novos termos e em torno de outros ‘problemas sexuais’, permanecem e, no momento atual, produzem intenso debate em torno da chamada diversidade sexual e de gênero. Algumas forças sociais, como as relativas às doutrinas cristãs, que se opunham às campanhas de José de Albuquerque, também se opõem hoje à luta pela afirmação dos direitos sexuais. Mas os tempos são outros, como são outros os ativistas e as questões em jogo.

 

Crédito: Portal Fiocruz

Publicada em: 19/10/2016



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