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Filosofia é coisa de preto

Mirani Barros*
 
Naiara Paula, escritora, mestra em Crítica e História da Arte, doutoranda em Filosofia e organizadora do 1º Congresso de Filosofia Africana e Afrodiaspórica da UERJ
 
O mês da consciência negra congrega uma série de atividades em diversos espaços e também nas universidades. Na UERJ, destacamos o 1º Congresso de Filosofia Africana e Afrodiaspórica, refirmando a importância e incentivando todos ao debate em perspectiva descolonial, que acontecerá de 27 a 30 de novembro. Para falar sobre o evento, entrevistamos Naiara Paula – escritora, mestra em Crítica e História da Arte e doutoranda em Filosofia –, que falou sobre a importância, os conteúdos e as expectativas do congresso, do qual ela é uma das organizadoras.
 
Para Naiara Paula, o fato de no Brasil sermos educados de forma a acreditar que a história da poulação preta começa com o sequestro de africanos para exercer trabalho forçado em território brasileiro constitui a principal justificativa para a organização do congresso, bem como para a decisão de realizá-lo aberto a toda população e não apenas à academia.
 
A educação formal nega todo o passado de influências intelectuais pretas na formação da nação brasileira, assim como o grandioso passado no próprio continente africano. Por isso, chamar toda a comunidade, além da academia e dos ciclos da educação formal, se faz importante. O mapeamento das estratégias educacionais da população preta, principalmente estas que a mantêm ligada às produções e ao que é o continente africano, ao que dele se resguarda e ao que se produz a partir dele, é fundamental. Não somente para novas produções intelectuais, mas também para uma boa saúde mental dessa população, que não se vê no processo educacional formal e menos ainda nas universidades. Ou, pior, se vê negativamente, sob a análise sutil e naturalizante de inverdades opressoras ou dos apagamentos provindos de uma filosofia branca e europeia, numa episteme ainda não disputada na intensidade necessária.
 
Os conhecimento de África estão, em sua maioria, fora da academia como resultado do racismo, que exclui tantas outras “coisas de pretos”, e cirurgicamente a intelectualidade e o pensamento pretos. Assim, tem sido importante trazer a comunidade e seus conhecimentos tradicionais ou pesquisas independentes para o interior da academia – não como forma de validá-los, pois são ricos e suficientes em si mesmos. O movimento é de reafirmar ou reconstituir espaços e práticas, já que África tem uma longa história de educação acadêmica e filosófica; possibilitar um leque maior para uma pesquisa que não seja racista nem exclusivista. Naiara afirma:
 
Não estamos com isso querendo dizer que tudo é filosofia, mas que precisamos investigar antes de dizermos o que não é, e também estamos querendo dizer que genuinamente filosofia significa ‘amor pela sabedoria’, e que nós queremos amar também a sabedoria africana”.
 
Para a escritora, a UERJ cumpre um papel intransferível nesse movimento, haja vista que a universidade é conhecida por suas pesquisas ousadas e abrangentes e por seu pioneirismo no sistema de cotas para pessoas pretas. Assim, em 2011, influenciada ou alavancada por pedidos, propostas e outras manifestações que aconteciam por parte dos alunos pretos e interessados em filosofia africana, a UERJ publicou, na revista on line “Ensaios Filosóficos”, um texto inédito do filósofo africano Mogobe Ramose, traduzido pela Professora Dirce Eleonora Solis (chefe de departamento na pós-graduação de Filosofia) e seus orientandos Roberta Cassiano e Rafael Medina. O referido artigo, que tratava da legitimidade do estudo de filosofia africana, significou uma injeção de ânimo inicial e mais formal ao nível institucional. É importante também pensar que a UERJ está numa área bem estratégica para o estudante e a população que chegam pelo trem e metrô, vindos da Baixada Fluminense e das favelas. Nesse sentido, se a inteção é alcançar a população preta através da educação, a UERJ é uma ponta de lança em vários sentidos, desde suas politicas inclusivas e os debates diapóricos até sua localização geográfica.
 
As parcerias com UFRRJ, UFRJ e IFRJ não nascem apenas nesse momento do congresso; ao contrário, pode-se pensá-lo exatamente como fruto dessas parcerias. Naiara destaca palestras e discussões que acontecem há anos sobre filosofia africana, muitas delas tendo o professor da UFRRJ e filósofo Renato Nogueira como colaborador e incentivador. Portanto, nada mais justo e prazeroso, segundo ela, que estender e fortalecer esses laços. Com o IFRJ o romance é recente, diz ela, mas muito valioso e significativo; têm ocorrido trocas entre alunos e professores e há interesse de ambas as instiuições em expandir e conectar suas pesquisas. Segundo Naiara, todos os envolvidos consideram essa conexão e construção de rede crucial para fortalecer o campo das pesquisas afrocêntricas. Um produto importante dessa parceria culmina na oferta de um dia inteiro de atividades do congresso no IFRJ, na Baixada Fluminense. Essa região conta com grande número de comunidades de terreiros – algo maravilhoso tanto do ponto de vista dos conhecimentos tradicionais quanto da contribuição para a luta contra o racismo religioso, que vem recrudescendo na região, com ataques cada vez mais frequentes (os quais não são novidades, mas surpreendem pela intensidade em curto espaço de tempo). Desse modo, espera-se que o congresso na Baixada Fluminense seja um grande festejo do conhecimento, de todo tipo, capaz de despertar consciências. Segundo Naiara:
 
“Realizar o congresso também na Baixada é responder aos conservadorismos que avançam. É também quebrar a barreira ideológica que, de alguma forma, faz o fluminense acreditar que não deveria produzir academicamente se assim o quiser. É construir uma ponte de mão dupla”.
 
O congresso também recebe o apoio da UFRJ, na pessoa do professor e filósofo Rafael Haddock-Lobo, que comporá mesa no congresso junto com seus orientandos em filosofia africana.
 
As mesas e GTs apresentam temas diversificados, como: saúde global, saúde mental, psicologia, direito, comunicação e mídia, cinema, literatura, arte e mais. Haverá uma exposição de arte coletiva chamada “Amewa”, que ocorrerá na COART, sob a curadoria de Marcelo Campos, Fernanda Pequeno, Thiago Ortiz e da própria Naiara Paula, com performances e conversas variadas com os artistas, numa bonita programação de interação com o público.
 
Por fim, Naiara diz que, tendo a UERJ a tamanha importância que tem no Brasil, a organização tem a humilde e sincera expectativa de – num futuro que não começa aqui, pois, historicamente, muitas outras manifestações brilhantes vêm acontecendo nessa universidade – contribuir, efetivamente e com competência, para a pesquisa em filosofia africana e afrodiaspórica – a exemplo de grandes universidades pelo mundo que abordam o tema com naturalidade e maturidade, dando a ele sua devida importância para o campo do conhecimento. Que as comunidades, acadêmica e não acadêmica, se sintam à vontade para contribuir nessa construção.
 
Para o CLAM, tais debates são cruciais por oferecerem subsídios teóricos e permitirem vislumbrar desafios práticos para nossas pesquisas, cujos sujeitos seguem imersos nas interesecções com raça/etnia/cor da pele. Seguramente, o Congresso de Filosfia Africana e Afrodiaspórica, como expressão do ethos e de diferentes estilos de pensamento da academia, virá oferecer um leque de perspectivas descoloniais cuja aplicação aos objetos a que o CLAM tem se dedicado é premente. Na abordagem da diversidade sexual e de gênero em uma perspectiva de direitos, não se podem subtrair nem a diversidade de corpos nos quais sexualidade e gênero se expressam, nem tampouco as relações de poder imanentes. A afro-episteme e a perspectiva descolonial oferecem lentes que já não podemos mais recusar.
 
Que a UERJ sobreviva ao sucateamento programado. Que sigamos resistindo! Que experimentemos as profundas e incômodas reflexões transformadoras de nós e do nosso mundo.
 
*Mestre em Saúde Coletiva, colaboradora do CLAM - IMS/UERJ

Publicada em: 16/11/2017



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