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8M Greve Internacional de Mulheres

Por Alessandra Brigo* e Renata Carvalhaes**

 

O 8 de março é um dia de luta, que em 2018 assume a forma de uma greve. Milhares de mulheres estarão na rua para manifestar e pedir políticas públicas diferentes. Neste ano o Brasil terá novas eleições, o qual ativa os debates sobre o corpo e o lugar da mulher na sociedade. Para melhor entender o que o 8M pode significar nesse ano entrevistamos as sociólogas Adriana Mota, ativista da Articulação de Mulheres Brasileiras, e Marielle Franco, vereadora da Câmara do Rio de Janeiro.

Qual o significado do 8 de março para a conjuntura política e social atual?

Adriana - O 08 de março é um marco na agenda das mulheres em todo o mundo. Essa é, sem dúvida, a data mais importante para as mulheres, no sentido de afirmar nossa identidade e também nossas pautas específicas no campo das políticas públicas e dos movimentos sociais. No entanto, a luta das mulheres e o 08 de março não se constroem a parte do contexto local e das contradições, desafios e oportunidades que este contexto aponta. Portanto, não podemos imaginar um 08 de março no Brasil em que as críticas ao processo de criminalização da democracia estejam silenciadas, ou onde não se pense em fazer a conexão entre os retrocessos da reforma trabalhista e da previdência e seus impactos na vida das mulheres. Portanto, o 08 de março precisa a um só tempo, dar voz às mulheres, amplificando nossas demandas singulares e conectar essas demandas à realidade mais ampla do país, da América Latina e do mundo.

Marielle - É importante ressaltar que a data do 8 de março passou a ocupar espaço fundamental no calendário de luta das mulheres feministas já há muitas décadas. O 8 de Março se consolidou e acontece independentemente da conjuntura, mas é claro que na atual conjuntura ele ganha contornos específicos. Nos últimos anos, algumas articulações mundiais começaram a se desenhar de maneira mais concreta. Com o movimento Nenhuma a Menos (iniciado na Argentina em 2016), a organização das mulheres estadunidenses que resultou na Marcha das Mulheres Contra Trump, com forte atuação de mulheres negras, como Angela Davis, e no Paro Internacional de Mulheres, ocorrido no 8 de março de 2017. No Brasil, por exemplo, o Paro Internacional teve algum nível de articulação com a luta das mulheres contra as reformas trabalhista e da previdência. Ao redor do mundo essas mobilizações também se conectaram com processos de luta contra as políticas de austeridade e o avanço do conservadorismo.

Em 2018, especificamente no Rio de Janeiro, a resposta do Estado para a crise tem sido a militarização, que foi reforçada com a Intervenção Militar a qual chamam de Intervenção Federal. Estas medidas do governo ilegítimo demonstram ainda mais a necessidade de ocuparmos as ruas com nossos corpos sempre em busca da liberdade e de mais direitos. A iminência da perda de direitos já conquistados tem mobilizado as mulheres desde sempre, mas com ainda mais potência desde o Fora Cunha em 2015. No 8 de março de 2018 não será diferente.

Sendo um dia de luta e não de comemoração, como a luta feminista se desenvolverá durante esse 2018, ano de eleições?
 
Adriana - Sem dúvida 2018 impõe às mulheres um desafio a mais que é discutir amplamente as nossas estratégias para aumentar a representação feminina nos espaços de poder. Essas estratégias devem fazer parte da construção do 08 de março e de todos os espaços de luta do feminismo e precisam ser implementadas o quanto antes, É urgente! No ranking divulgado pela União Interparlamentar em 2017, o Brasil está na 154ª posição entre 193 países com relação à ocupação de mulheres nos parlamentos. No continente latino americano, somos o 3º pior colocado, atrás somente de Belize (183º) e Haiti (187º). Na América do Sul, somos o país com menor representação parlamentar feminina. A média de ocupação feminina dos cargos eletivos no Brasil é hoje de 14%, uma das mais baixas taxas do planeta. Este precisa ser um tema central do feminismo em 2018, para termos mais chance de contar com um Congresso que faça jus à presença das mulheres em outros setores da vida, como as artes, a economia, a cultura, o trabalho, a educação, etc. Queremos votar em mulheres que nos representem.
 
Marielle - A partir da minha atuação parlamentar, já pensando neste cenário, tenho refletido muito sobre o papel das mulheres tanto no processo eleitoral como na ocupação em si dos cargos públicos. É claro que o movimento feminista já pauta esse tema há décadas e isso sempre se colocou para mim e para o meu partido (PSOL) como uma questão essencial para o avanço da luta das mulheres. Mas foi a partir da vereança que acumulamos elementos para, inclusive, trazer outras mulheres para pensar conosco esta questão não só no âmbito partidário. Organizamos, no final do ano passado, o Mulheres na Política, um evento cheio de potencialidades organizado em conjunto com mulheres negras, trans, lésbicas, trabalhadoras, enfim, mulheres de toda parte da cidade, que mobilizam e fazem política em suas localidades. A ideia era mostrar a força das mulheres que desejam ocupar e construir política coletivamente, além de deixar cada vez mais evidente que não é possível que os espaços de decisão não sejam compostos por mulheres em toda a sua diversidade de olhares e diferentes contribuições.
 
Sabemos que a política institucional é formada apenas por 10% de mulheres. Este é um dado alarmante sobre como as políticas são criadas e como as decisões são tomadas em todos os cantos deste país, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. Essa semana o TSE tomou uma decisão muito importante, e que pode ajudar a diversificar a política institucional, determinando que mulheres trans devem disputar as eleições ocupando os espaços destinados para todas as mulheres, mostrando respeito pela identidade de gênero delas e garantindo assim uma maior pluralidade. Esses avanços precisam continuar e deixarem de ser algo pontual. Precisamos mudar esse quadro, que ainda não é favorável, para que as políticas sejam feitas por e para todas as mulheres e, é claro, que no 8 de março esta questão será pautada. Esperamos que nas eleições de 2018 possamos colher vitórias nesse sentido e que a participação das mulheres seja maior e mais representativa.
 
Acredita que este dia de luta é um bom ponto de partida para avaliar os programas/ políticas existentes e pensar em novas ações?
 
Adriana - Acredito que a avaliação das políticas existentes se dá ao longo de um processo maior, de avaliação do atual estado da arte das políticas para as mulheres. Em âmbito federal essas políticas foram reduzidas de forma drástica, tanto em status, pois hoje são uma secretaria dentro de um ministério, quanto em termos orçamentários e até de legitimidade. As políticas federais para as mulheres estão desmontadas e completamente alienadas da agenda feminista brasileira. Enquanto as mulheres, no final de 2017, saíam às ruas para pedir o arquivamento da PEC 181, que cerceia os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, a Secretaria Nacional não foi capaz de elaborar uma única proposta no sentido de garantir e ampliar o acesso ao aborto legar e seguro para as mulheres que sofrem violência sexual. As políticas federais estão enterradas num mar de marasmo e fundamentalismo. No estado do Rio a situação é igualmente desastrosa. As políticas para as mulheres fluminenses não estão conseguindo minimamente manter em funcionamento os serviços de atendimento às que sofrem violência. Ou seja, nem a violência galopante e cada vez mais grave consegue ser traduzida em políticas para as mulheres que sejam eficientes e duradouras.
 
Marielle - As mulheres lidam diariamente com a implementação (ou a não implementação) das políticas públicas e suas precariedades, se organizando ao longo do ano em suas comunidades, movimentos, organizações não governamentais e instituições. Com a notoriedade desta data do 8 de março, este acaba sendo um importante momento de visibilidade das pautas das mulheres tanto em torno das políticas públicas como das liberdades individuais. As mulheres continuam, independentemente do 8 de março, se organizando em diversos espaços, assim, o próprio processo de construção das atividades e manifestações do 8 de março acabam sendo momentos de troca sobre essas políticas e o cotidiano das mulheres. Por isso, é importante estarmos atentas às pautas que surgem no março feminista, mas não apenas nesta data. A luta e a busca por direitos precisam ser diárias, afinal a todo momento existe a tentativa de retirada de direitos, de retrocesso no que se refere aos direitos das mulheres. Portanto, o 8 de março é sim um marco, seja historicamente, coletivamente e mesmo individualmente, na vida das mulheres que buscam sua autonomia e maior conquista de direitos; mas essa busca precisa ser sempre, cotidiana.
 
Como as ações do movimento feminista tem alcançado as pessoas (inclusive as mulheres trans), de cidades do interior, áreas rurais, pesqueiras e quilombolas?
 
Adriana - O feminismo precisa compreender que a sua diversidade é uma grande potência e deve ser utilizada para que possamos cada vez mais agregar e não marcar diferenças. As construções cotidianas em nossos movimentos e organizações devem marcar nossas especificidades, mas a construção do 08 de março é um momento de afirmar o que nos une: a luta contra todas as opressões de gênero. Mulheres trans, negras, das favelas, moradoras de rua, das áreas rurais, jovens, idosas, trabalhadoras, desempregadas, todas devem se sentir acolhidas pelo feminismo e pelas atividades do 08 de março. Para que isso se efetive, precisamos fortalecer a democracia antirracista, feminista e popular.
 
Marielle - O movimento feminista está aí há muitos anos, travando pautas, lutando por maiores conquistas das mulheres, e nos últimos anos tem surgido novas frentes feministas, como a maior visibilidade das mulheres trans, os grupos organizados de mulheres indígenas. A Sônia Guajajara, por exemplo é uma liderança indígena que traz a pauta do feminismo e compõe o movimento Mulheres na Política. Também entidades como a Universidade Livre e Feminista e a AMB, por exemplo, e as mulheres organizadas dos movimentos populares, como MST e MTST, cumprem esse papel de manter o movimento feminista articulado pelo Brasil a dentro, organizando mulheres de vários lugares.
 
 
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*Doutoranda do IMS/UERJ e colaboradora do CLAM 
**Mestranda do IMS/UERJ e colaboradora do CLAM
 

 

Publicada em: 08/03/2018



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