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Valorizem as mulheres negras, seja qual for a sua profissão

A discussão acadêmica das relações, identidades e desigualdades raciais no Brasil teve nas últimas décadas desenvolvimentos instigantes, inovadores e desafiadores, nos quais as intersecções com gênero e sexualidade tiveram um papel fundamental. Ana Paula da Silva é antropóloga, coordenadora da Licenciatura Interdisciplinar em Educação do Campo INFES/UFF e da linha de pesquisa O campo educacional e o estudo de categorias interseccionais: estruturas de privilégio e exclusão no Núcleo de Estudos e Pesqui-sas em Direitos Humanos, Bioética e Educação e Pesquisadora do laboratório de Etnografia Metropolitana - LeMetro (IFCS/UFRJ). Nesta vibrante entrevista, Ana Paula revela os desafios do campo de estudos sobre raça, sexualidade e gênero através da sua trajetória acadêmica. Faz também um balanço dos impactos do sistema de cotas no ensino e das estratégias de resistência perante o acirramento de discursos racistas no Brasil.

 

Por Carolina Silveira*, Ariana Santos** e Claudia Mora***

 

Poderia nos relatar um pouco da sua trajetória ao se descobrir mulher negra e posteriormente ao se tornar pesquisadora negra? O que a conduziu a eleger a antropologia como marco de referência para pensar as relações entre raça e sexualidade? Que autores e autoras mais a influenciaram?

Não tive um momento em que me descobri mulher negra. Eu sempre soube, porque minha mãe é uma mulher politizada. Como professora do Estado do Rio de Janeiro do antigo ensino fundamental, sempre participou de sindicatos e da organização de comandos de greve. E a questão racial era discutida na minha casa. Não numa vertente acadêmica, mas de vivência. Eu e minha irmã crescemos ouvindo histórias da minha mãe e de membros da família que sofriam ou sofreram preconceitos. Minha mãe sempre nos ensinou como lidar com a situação e o que responder, caso fôssemos alvos de alguma situação discriminatória ou vexatória. Por conta dessa politização em casa, acho que fui pro-curar ciências sociais. Sempre fui muito questionadora e tinha vontade de me aprofundar e entender as questões sociais. Fiz ciências sociais no IFCS, na UFRJ.
 
Fui uma das primeiras mulheres da minha geração na família a cursar uma universidade. Minha mãe ficou muito feliz com minha conquista, no entanto, lembro das mulheres mais velhas como minha madrinha e minha avo por parte de pai, que não compreendiam tanto o porquê de se comemorar uma menina negra e de classe trabalhadora fazer uma universidade, ao invés, de procurar emprego. Isso, para elas, era mais valorizado que estar num curso superior. Àquela época eu já trabalhava em ocupações de meio expediente e fazendo bicos, como garçonete de buffet infantil, auxiliar de secretária, vendedora de assinatura de revistas e jornais, etc. No entanto, essas mulheres queriam que eu encontrasse um emprego integral para sustentar a família, ao invés, de trilhar, já que meu pai nunca foi presente no sustento da casa. Isso já demonstra como, na minha época, havia resistências em relação a universidade e, como alcançar essa meta era ainda um sonho distante para famílias como a minha: negra, pertencente a classe trabalhadora, e chefiada por mulheres.
 
A minha trajetória acadêmica foi se construindo aos poucos. Quando comecei o curso, demorei um tempo para me adaptar e ter certeza do que queria. Digo que só defini meu caminho profissional mesmo, no mestrado que também cursei no Programa de Pos- Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/IFCS/UFRJ).
 
Durante a minha graduação tentei fazer disciplinas abrangentes e testar todas as possibilidades para quando eu decidisse o que queria fazer na carreira, já ter alguma iniciação.
 
Eu não comecei minha pesquisa estudando gênero, raça e sexualidade. Na graduação, fui bolsista de iniciação científica num programa de pesquisa sobre África Austral, coordenado então pelo professor Peter Fry. Passei quatro anos estudando Moçambique e em contato com alunos moçambicanos que faziam intercâmbio no Brasil a partir de um convênio da fundação Ford e a UFRJ. Esse convênio tinha como objetivo, trazer estudantes moçambicanos para cursarem ciências sociais na universidade e retornarem às cidades especializados e atuarem nas mais diversas áreas. Foi através desse tema, que me aproximei às questões raciais mais acadêmicas. Apesar de ser uma pesquisa ligada a Moçambique, fazíamos muitas leituras sobre o Brasil e análises comparativas com esse pais do continente africano, e como a herança colonial portuguesa produziu consequências para o sistema de classificação racial dos dois países.
 
Quando estava finalizando a graduação e sem saber que rumo tomar, soube que um grupo de amigas estavam se preparando para a prova do mestrado e decidi também tentar essa possibilidade. Fizemos grupos de estudos e fui aprovada no Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/IFCS/UFRJ). Eu não queria continuar trabalhando com África Austral e sim estudar relações raciais no Brasil. E decidi estudar a primeira lei de cotas promulgada no município do Rio de Janeiro e as propagandas da Prefeitura do Rio. Defendi a dissertação “Menino do Rio: cenários do negro na Propaganda”, sob orientação da Profa Yvonne Maggie.
 
A essa altura estava decidida a dar continuidade a minha carreira acadêmica e então resolvi ingressar no doutorado no mesmo programa, onde defendi a tese “Pelé e o complexo de vira-latas: discursos sobre raça e modernidade no Brasil”.
 
Foi durante meu doutorado, que comecei também a explorar o campo da raça, gênero e sexualidade. Eu e meu atual companheiro, também co-pesquisador, Thaddeus Blan-chette, decidimos fazer algum trabalho em conjunto. Na época nós dois estávamos no doutorado e resolvemos pesquisar a cena noturna em Copacabana. Na época, namoráva-mos. Justamente por termos passado por inúmeros constrangimentos por sermos um casal biracial e binacional, decidimos investigar mais sobre as relações afetivo-sexuais entre mulheres brasileiras e homens estrangeiros. Pegamos como centro do nosso trabalho, a antiga Boate Help, situada no Posto 6 de Copacabana, onde, atualmente, está sendo construído o Museu da Imagem e do Som (MIS). Surgiu nosso primeiro artigo sobre as temáticas do turismo sexual, prostituição e sexo transacional, que foi intitulado “Nossa Senhora da Help: sexo, turismo e deslocamento transnacional em Copacabana”.
 
Após a publicação desse artigo sobre a Boate Help, percebi que essa temática de pesquisa sobre raça e sexualidades abriam campos para estudos da prostituição e turismo sexual que colocavam um amplo expectro de possibilidades, em que, as categorias gênero, raça e classe eram centrais no entendimento dessas questões. Era efetivamente um tema interseccional, pois, não é possível entender esses fenômenos sem pensarmos essas categorias de forma articuladas. Também o complexo prostituição/turismo sexual/tráfico de pessoas, constituíam-se no que chamamos de fato social total, pois, a relação que se imagina entre elas (na prática são fenômenos bem distintos), revelam os medos, desejos, preconceitos e superfícies de emergência, presentes na sociedade brasileira.
 
Após a publicação desse artigo sobre a Boate Help, percebi que essa temática de pesquisa sobre raça e sexualidades abriam campos para estudos da prostituição e turismo sexual que colocavam um amplo expectro de possibilidades, em que, as categorias gênero, raça e classe eram centrais no entendimento dessas questões. Era efetivamente um tema interseccional, pois, não é possível entender esses fenômenos sem pensarmos essas categorias de forma articuladas. Também o complexo prostituição/turismo sexual/tráfico de pessoas, constituíam-se no que chamamos de fato social total, pois, a relação que se imagina entre elas (na prática são fenômenos bem distintos), revelam os medos, desejos, preconceitos e superfícies de emergência, presentes na sociedade brasileira. Nesse momento, aproximei-me dos movimentos organizados das prostitutas, conheci Gabriela Leite e o DaVida, na época, ONG que militava pelos direitos civis e políticos das prostitutas. A partir desse período, passei a trabalhar paralelamente com esses temas, em conjunto, com meu doutorado. Atualmente, continuo trilhando as pesquisas entorno do trabalho sexual e os direitos das prostitutas por acreditar que esse tema ainda coloca desafios e instigantes análises para pensar o papel da mulher negra no mercado de trabalho e suas possibilidades e oportunidades numa realidade absolutamente desigual, principalmente, quando se trata da ascensão de mulheres negras, onde, a mobilidade é baixíssima. Afirmo, assim, como outrxs pesquisadxs do tema tem pensado, apesar das críticas e as polêmicas que envolvem a questão, que o trabalho sexual se situa dentro daquilo que chamo no meu artigo "Por amor, por dinheiro? Trabalho (re) produtivo, trabalho sexual e a transformação da mão de obra feminina" (2017), como triângulo do trabalho feminizado precarizado. Esse triângulo gira entorno de ocupações como ser empregada doméstica, caixa de supermercado, atendente de telemarketing, entre outros, o trabalho sexual e casamentos tradiconais. Dentro desse contexto, a prostiuição é o que tem aberto oportunidades e experiências concretas importantes para que essas mulheres consigam alguma mobilidade possam possibilitar a sua família e aos seus filhos. Obviamente, o estigma e o preconceito que uma mulher sofre ao desempenhar o trabalho sexual é brutal. Mesmo que este não seja crime, constando, inclusive, no Código Brasileiro de Ocupações (CBO), é moralmente estigmatizado e condena a mulher que escolhe essa ocupação como digna de pena, ou, da lei que deve ser reprimida, controlada e colocada como pária social. Esse debate é difícil, mas necessário, principalmente, quando atentamos para o fato de que grande parte das mulheres que exercem essa função são negras e pobres. Quando se condena essa ocupação, condena-se ao estigma, a criminalização e a exclusão, em sua maioria, mulheres negras e pobres. Nesse sentido, é urgente que a discussão saia dessa esfera da criminalização social e da visão moralista dos conservadores que estão presentes nas esferas sociais, inclusive, dentro de pequenas parcelas dos movimentos sociais que contribuem para que essas mulheres sejam excluídas da vida social e não possam lutar por seus direitos trabalhistas e sociais.
 
Logo que terminei meu doutorado fui, então, fazer um pós-doutorado na USP, sob a supervisão da Profa. Laura Moutinho, trabalhando sob a temática de gênero, raça e sexualidade, sob o título “O que a brasileira tem?: estudos sobre “cor” e sexualidade entre mulheres brasileiras e homens estrangeiros”, com bolsa da FAPESP. Atualmente meus temas de pesquisa continuam circundando nessas áreas e com a realização dos megaeventos esportivos no Brasil, também retornei a algumas análises sobre o campo dos esportes, tema do meu doutorado.
 
Acredita que o sistema de cotas e o consequente aumento no número de pesquisadores negros contribuíram para o aumento de pesquisas que discutem raça?
 
Certa vez, mostrei à minha sobrinha, Mayara, as fotos da época em que estudei no IFCS no tempo da graduação; pois ela, atualmente, também, faz ciências sociais no IFCS. E ficamos comparando as minhas fotos com as de sua turma em termos de diversidade. Era evidente a maior diversidade na turma do IFCS que Mayara frequenta hoje do a que eu vivenciei, na minha época de graduação e até mesmo na pos-graduação.
 
Eu sempre estudei em escola pública e sempre senti a diferença. Na escola municipal onde cursei o antigo primário, eu morava no subúrbio carioca de Cascadura, e a totalidade dos estudantes era da minha cor. Quando fui estudar no Colégio Pedro II, esse número diminuiu drasticamente e foi assim, diminuindo, até terminar a pós-graduação. Era algo que sempre notei e me incomodava. É inegável que as cotas mudaram a cor da universidade. Hoje sou professora da UFF e faço palestras em universidades e, mesmo nos cursos mais elitizados, houve uma mudança entre os estudantes. Essa conquista não tem preço e acredito que só fez crescer a universidade em termos de qualidade e experiências. A universidade não se resume apenas na capacitação e aprendizagem, mas também na interação das experiências. É extremamente enriquecedor quando as múltiplas trajetórias se entrecruzam e precisam conviver. É nesse processo que o conhecimento é ampliado e valorizado e o respeito à diversidade é conquistado.
 
É muito triste que estejamos passando por um momento crítico na vida política e social brasileira, em que direitos garantidos estão sendo constantemente ameaçados. Ao invés, de discutirmos as melhorias e aprimoramento de políticas como essas, estamos com medo de perdermos o pouco que foi conquistado, quando ainda se tem muito trabalho a fazer para diminuir as desigualdades em muitos níveis, principalmente a educacional.
 
Sou favorável à manutenção da educação pública e gratuita sem qualquer restrição. Precisamos lutar pela ampliação do sistema para todos e não restringir o acesso ou mesmo criar mais desigualdades. Essa sempre será minha bandeira de luta. Ou o ensino é universal de fato e na prática ou não existirá. Prefiro que permaneça público, gratuito e que mais grupos diversos possam estar na universidade.
 
Poderia comentar as contribuições das análises inspiradas na perspectiva da interseccionalidade e em particular aquelas que ajudam a compreender o lugar (agências/constrangimentos sociais e estruturais, representações) das mulheres negras em diversos âmbitos, como trabalho, saúde e mercado erótico-afetivo?
 
Com relação à interseccionalidade, é preciso resgatar a história desse conceito. Ele aparece no Brasil através dos trabalhos de Kimberly Creshaw, essa autora é referência porque cunhou o termo, mas essa discussão já fazia parte dos movimentos feministas negros desde seu fortalecimento nos anos 1970. Podemos colocar a obra de Angela Davis, Raça , Classe e Gênero, como pioneira nesse debate, mesmo que ela nunca tenha usado essa expressão: interseccionalidade. Essa foi uma demanda das mulheres negras que, em linhas gerais, não eram contempladas de forma satisfatória nos movimentos feministas e negros. Era preciso entender que as mulheres negras eram atravessadas por marcadores sociais da diferença que as colocavam em situações de desigualdades diferenciadas. Isso não quer dizer que eram mais exploradas que outros grupos minoritários, mas que o fato de ser mulher e negra implica estar presente em duas categorias de diferenciação que coloca outras questões importantes para serem pensadas.
 
Dentro dos movimentos negros, a questão de gênero é uma temática que muitas vezes fica em segundo plano e no movimento feminista, a questão da cor/etnia não aparecia com tanta força. O importante é que a noção de interseccionalidade, é um recurso metodológico que trabalha os marcadores sociais da diferença a partir da visão de que essas categorias agem de forma efetiva e ao mesmo tempo nas trajetórias dos indivíduos. Sendo que, uma não se sobrepõe sobre a outra.
 
Para pensar as desigualdades, é necessário observar as múltiplas categorias que estão em ação na vida cotidiana. Não é possível explicar as desigualdades raciais, sem pensarmos em gênero, ou classe, por exemplo. As análises interseccionais rejeitam a tese de que qualquer único eixo de diferenciação pode ser suficiente, por si só, para explicar. a constituição da realidade social. Embora um ou outro eixo pode ser dominante ou mais visível (classe, por exemplo, numa sociedade capitalista), outros eixos (gênero e raça, nas variantes mais clássicas da teoria) vão cruzar, ou interceptar esse de tal maneira, que constitui desigualdades sociais.
 
A forma como as categorias se entrecruzam são importantes para entender as complexas relações sociais estabelecidas. As experiências são múltiplas e, dando um exemplo, para entendermos na prática, não e porque se e uma mulher negra, que, todas passarão pelos mesmo critérios de discriminações, ou as mesmas oportunidades. Como estudiosas do tema, nos explicam, em seus artigos, as mulheres não são todas iguais e não passam pelas mesmas experiências porque são mulheres. O fato de pertencerem a esse grupo as unem em algumas similaridades, mas, quando cruzamos as categorias classe e cor, por exemplo, aparecem uma infinidade de trajetórias e diversidades de se experienciar as desigualdades, preconceitos, o acesso as oportunidades, as micro políticas de agência e sobrevivência.
 
Desde sua inserção no Comitê de Gênero e Sexualidade da Associação Brasi-leira de Antropologia (ABA) e tendo em vista o próximo congresso da ABA (Brasília, dezembro) quais os tópicos em pauta e desafios pela frente?
 
Desde que eu fui convidada para integrar o Comitê de Gênero e Sexualidade da ABA, o debate no cenário político nacional se deteriorou nessas temáticas. Desde as eleições de 2014, a pauta moral e de costumes empunhada pela bancada conservadora no legislativo nacional tem nos obrigado a reagir e a montar uma verdadeira frente de resistência às imposições desse grupo no Legislativo. Essa resistência tem se dado em forma de notas de repúdio e posicionamento da ABA sobre diversas questões, como por exemplo, a garantia de direitos das populações LGBTs, sobre a descriminalização do aborto, a liberdade dos estudos de gênero, nota de apoio as trabalhadoras sexuais etc. Nessa próxima ABA, o debate deve circundar em torno da construção de novas colunas de resistências diversas, pois, as previsões para o cenário político nos próximos quatro anos são terríveis para esse campo de estudos, em um contexto em que até mesmo as universidades públicas estão ameaçadas, tanto na sua manutenção, quanto no exercício do livre pensamento e desenvolvimento de pesquisas. Os desafios para os próximos anos serão muitos e a resistência dura, visto que a politica vigente é de tentativa de aniquilação de toda uma área de estudos e debates nas universidades e nas escolas como um todo.
 
Tendo em vista sua trajetória docente, como você avalia a incorporação da abordagem de gênero, raça e saúde nos espaços acadêmicos, particularmente nas instituições publicas, e estratégias de formação e divulgação nos cursos de ensino superior educação e saúde?
 
Avalio que houve avanços nas temáticas de gênero de forma contundente e também, consistente, no entanto, acredito que os estudos interseccionais entre raça, gênero e sexualidade ainda precisam ter mais espaço no contexto da saúde. Isso não quer dizer que não exista. Nos últimos 20 anos, essa perspectiva, atualmente, tem muita relevância e importância e já existem estudos que contemplam essas temáticas, mas ainda é preciso que mais trabalhos sejam desenvolvidos dentro dessa perspectiva. No próximo semestre eu e Profª. Claudia Mora, do IMS, ofereceremos uma disciplina em conjunto, para tentar dar conta das produções publicadas na área do campo da saúde que estudam sob essa perspectiva e, também, apontar para as possíveis lacunas no campo, onde, uma análise interseccional ainda não faz parte das pesquisas na saúde.
 
Na introdução do seu livro Pelé e o complexo de vira-latas: discursos sobre raça e modernidade no Brasil (2014, Editora EDUFF), você conta a história de André Luiz, um menino que acredita que com esforço e disciplina seria capaz de transpor as barreiras da raça e classe no Brasil. Hoje muitos brasileiros, negros inclusive, defendem essa ideia. Como despertar a consciência racial para além do espaço acadêmico, em meio a um cenário político que propaga as idéias de igualdade racial e meritocracia? Haja vista o cenário social e político brasileiro atual, como você vê as condições para a difusão de práticas e discursos racistas ? E como isso irá repercutir nas dinâmicas dos movimentos sociais, em particular aqueles que defendem os direitos raciais, de gênero e orientação sexual, feminismos, entre outros?
 
Acredito que os problemas das desigualdades no Brasil sejam um dos grandes dramas que enfrentamos. No entanto, as pessoas acreditam em meritocracia e na igualdade racial. Minha hipótese é que, no caso brasileiro, as dificuldades são imensas, a mobilidade absolutamente restrita e muito pouco eficiente; que o indivíduo quando alcança algum sucesso, a sensação é que essa situação pode ser encarada como se fosse apenas um esforço pessoal. O grande desafio que temos é traduzirmos as excelentes pesquisas que temos no campo em uma narrativa que seja capaz de fazer refletir e dialogar com a grave situação das desigualdades no Brasil.
 
Dentro desse contexto, ainda se difunde, por exemplo, a noção de que o preconceito seria apenas de classe, que se uma negra ou um negro tem sucesso e dinheiro, os preconceitos desaparecem, o que não é verdade. Sucesso e dinheiro não apagam a cor. Como meu próprio livro demonstra, mesmo sendo o Pelé, considerado por muitas pessoas ligadas aos movimentos sociais, como sendo uma figura conservadora, mesmo ele passou por episódios de constrangimentos. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão e, portanto, em termos históricos ainda sofremos as consequências tardias dessa decisão, que resultou na não incorporação de negras e negros como cidadãos. A política e a própria ciência se esforçaram para que o “problema racial” fosse solucionado a partir de políticas de enbranquecimento, ou, de repressão e controle com a tipificação de leis que tem levado um grande número de pessoas para o sistema prisional. Existe um racismo estrutural que perpassa a vida social brasileira que é intrínseco aos indivíduos. Nesse sentido, as oportunidades são distribuídas de maneira desigual no Brasil. No entanto, essa realidade é difícil de ser entendida pela população.
 
Por outro lado, existe um outro dado, não menos importante, chave para entendermos a crença na meritocracia, o Brasil vive sob a égide capitalista e moderna que prega a noção do individualismo em que se diz, em linhas gerais, que o esforço pessoal será recompensado e, portanto, basta o indivíduo trabalhar e lutar que todos serão ricos. O nosso desafio é demonstrarmos que na prática a realidade é outra. Penso que já avançamos muito nesse quesito, tanto que analiso essa onda ultra-conservadora que assola o país como reação aos avanços que foram conquistados na vida social, com os debates na esfera pública acerca das desigualdades de gênero, raça e sexualidades, classe, etc. O que essa nova onda deseja é reconstruir e/ou apagar as conquistas do período democrático e colocar todos de volta ao seus lugares. Talvez, seja o último sopro dessa ordem vigente. É importante também lembrarmos que existe um contexto nacional, com questões internas, mas essa onda, é uma tendência em muitos países ao redor do mundo e existe um movimento transnacional em relação ao retorno de uma visão mais conservadora e um posicionamento de um revisionismo, uma negação em torno das discussões sobre as muitas desigualdades produzidas pelo capitalismo.
 
As próximas décadas serão de tempos muito difíceis, principalmente, para os campos que discutem as desigualdades raciais, de gênero e sexualidades e outras. Estamos vivendo um deja vu, um retorno ao passado como estratégia para manter privilégios, num momento em que o capitalismo no modelo como nós conhecemos demonstra nítido desgaste, uma vez, que, os avanços tecnológicos não se reverteram efetivamente para a vida das pessoas. O empobrecimento é uma realidade e as soluções possíveis mais sustentáveis exigem que se faça concessão dos privilégios dos grupos mais abastados, o que, obviamente, não acontecerá. A política de representação partidária não tem dado conta das angústias e demandas de uma população cada vez mais despolitizada e que, acertadamente, não tem se sentido representada pelo sistema.
 
Esses momentos de crise são propícios ao retorno desses discursos criminalizadores e discriminatórios contra grupos historicamente entendidos como “indesejáveis” e “problemáticos”. Parece que tudo se resolverá se todos reconhecerem seus lugares e esses grupos compreenderem seu papel, de sua submissão histórica, em relação aqueles que são “naturalmente” privilegiados. Essa situação não é nova, quando olhamos para a história.
 
As últimas eleições foram um duro golpe num pensamento mais crítico sobre os padrões normatizados. Talvez, seja o momento de repensarmos as conquistas, mas também entendermos como criar novas narrativas para atingirmos um público que até o momento não tem sido tocado pelos debates que mencionei acima. É preciso pensar estratégias de diálogos com esse público.
 
As forças conservadoras que triunfaram no Brasil, nessas últimas eleições, sabem que existe um potencial nas universidades e escolas para se reinventarem e criarem estratégias criativas de dialogar com a população em geral; principalmente com a democratização do ensino. Não é por acaso que são esses espaços que estão sendo duramente atacados através de projetos como o “Escola Sem Partido” e a ideia de “doutrinação” nas universidades. Vamos precisar resistir bravamente a esse momento, que talvez, demore algumas décadas para ser mudado.
 
Em um país colonialista e de pensamento eurocêntrico, onde as formas de classificação são vivenciadas desde o nascimento, você percebe a influência do racismo na vivência acadêmica? Quais os obstáculos para uma pesquisadora negra em um ambiente branco e patriarcal? Que passos deveriam ser dados a partir das políticas de reparação na busca por equiparação representativa no meio acadêmico?
 
A academia é uma instituição social e as desigualdades, discriminações e preconceitos atravessam as instituições como um todo. O mundo acadêmico, não está imune a tudo isso. A academia é um espaço de pensamento e reflexão desses processos, mas ela própria produz e reproduz essas hierarquias. Não existe espaço neutro, mesmo sendo ele, um lugar de pensamento sobre esses temas.
 
Dito isto, acredito que essas desigualdades devem ser pensadas também no meio acadêmico. É preciso, porém, tomar cuidado para não cairmos no revanchismo ou processos acusatórios, mas entendermos que as desigualdades e hierarquias são reproduzidas institucionalmente e as instituições perpassam os indivíduos. Contudo, precisamos tomar cuidado para que os processos não descambem para um punitivismo descontrolado, onde esses espaços pratiquem ações inquisitórias ao invés de produzir reflexão sobre como as discriminações e preconceitos atravessam a estrutura institucional. Precisamos focar mais nos processos que formam a máquina burocrática que, em muitos casos, é excludente, muito mais do que nos indivíduos. Óbvio, que casos flagrantes de má conduta por discriminação por esta, ou aquela pessoa, deva ser debatido, no entanto, o foco deve ser o entendimento dos processos mais gerais.
 
Agora, como parte da comunidade acadêmica, acho que precisamos nos conscientizar que debates acerca do racismo, machismo, transfobia, lesbofobia, homofobia etc. estão na ordem do dia e essas demandas, por mais que haja debates e ações no sentido de diminuir essas desigualdades, não desaparecerão das universidades. À medida que esses novos sujeitos passam a integrar esses espaços, essas serão questões do debate acadêmico. Acho que sempre tudo deve ser discutido e explanado, precisamos obviamente conter os exageros e radicalismos. Acredito que só a ampliação dessas pautas por todos os extratos da universidade poderá fomentar reflexões e saídas para essas questões, como, inclusive conter os possíveis radicalismos.
 
Como pesquisadora negra, é lógico que encontro barreiras dentro da universidade. É inevitável, dado o grau de desigualdade produzido na sociedade brasileira e que se reproduz nas instituições. Ainda se estranha muito uma mulher negra professora universitária, pesquisadora, ocupando um cargo administrativo. É difícil. Tenho passado por situações constrangedoras de flagrante discriminação de não reconhecimento do meu lugar como acadêmica e pesquisadora, portanto, existe uma negação de que eu seja uma igual no trato das questões acadêmicas. Essas dificuldades vão desde a simples expressão: “Nossa! é você que é a professora”, até situações de enfrentamento complicadas, onde enxergo que, caso eu fosse um homem e/ou branco, certamente não receberia o tratamento que alguns pares me destinam quando interajo com eles, particularmente, nos momentos de conflito e discordâncias. Aliás, são justamente nesses momentos que os preconceitos e discriminações aparecem com muita força, pois entrar em conflito com alguém é de certo modo ter que se posicionar dentro de uma situação e, por isso, os marcadores (cor/raça, gênero, lugar de origem, etc) são colocados à frente.
 
Existe sim ainda sexismo e racismo na universidade. Não generalizo, pois a estrutura é complexa e existe uma infinidade de situações e pessoas, mas nesse último ano tenho passado por muitas dificuldades ocupando um cargo administrativo que tem me mostrado como o fato de ser quem sou e ocupar dentro da universidade certas posições (mesmo que modestas, pois não considero que esteja em nenhum cargo estratégico dentro da máquina administrativa) incomoda.
 
Ainda existe uma visão arcaica de que uma mulher negra dentro da universidade só deve exercer a função de empregada na empresa de limpeza. Nesse caso, não estou desmerecendo o trabalho dessas mulheres que fazem a universidade acontecer, mas, dou esse exemplo, para demonstrar como as funções exercidas pelas mulheres negras são desqualificadas, não porque a função seja desqualificante, mas por ser exercida por essas pessoas. Por isso, não importando o cargo que ocupe, parece que só existe um único lugar possível para as mulheres negras. Como resolver a situação? Coloquem mais mulheres negras nos cargos estratégicos e de chefias. Valorizem as carreiras das senhoras que desenvolvem um trabalho exemplar na limpeza e atendimento geral nesses espaços. Valorizem as mulheres negras, seja qual seja qual a função que elas estejam desempenhando.
 
 
*enfermeira e mestre em Saúde Coletiva IMS/UERJ.
**enfermeira e mestranda em Saúde Coletiva IMS/UERJ.
***professora adjunta IMS/UERJ).

 

Publicada em: 28/11/2018



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