{"id":1177,"date":"2008-06-12T00:00:00","date_gmt":"2008-06-12T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2008\/06\/12\/lo-que-nos-une\/"},"modified":"2008-06-12T00:00:00","modified_gmt":"2008-06-12T03:00:00","slug":"lo-que-nos-une","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/lo-que-nos-une\/1177\/","title":{"rendered":"Lo que nos une"},"content":{"rendered":"<p>Autor de v\u00e1rias pesquisas que enfocam experi\u00eancias de gays, l\u00e9sbicas, travestis e trang\u00eaneros &ndash; especialmente as din\u00e2micas de discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia contra essa popula\u00e7\u00e3o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=57&amp;sid=75\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">(veja a pesquisa Pol\u00edtica, Direitos, Viol\u00eancia e Homossexualidade)<\/A> &ndash; o antrop\u00f3logo S\u00e9rgio Carrara (CLAM\/IMS\/UERJ) acredita que a I Confer\u00eancia Nacional LGBT, realizada em Bras\u00edlia na semana passada, inaugura uma terceira fase na hist\u00f3ria do movimento no Brasil, trinta anos depois da cria\u00e7\u00e3o do primeiro grupo ativista &ndash; o SOMOS, em S\u00e3o Paulo.<BR>  <P>&ldquo;S\u00e3o trinta anos do movimento LGBT &ndash; que nasceu movimento homossexual brasileiro e depois foi sendo realinhado na medida em que as diferentes identidades iam se constituindo no plano pol\u00edtico e se diferenciando, fazendo com que a homossexualidade se transformasse em diversidade sexual e de g\u00eanero. Ent\u00e3o, a Confer\u00eancia estaria inaugurando uma terceira fase da hist\u00f3ria da diversidade sexual e de g\u00eanero em nosso pa\u00eds. Esta \u00e9 uma fase mais aberta e mais inclusiva, na qual se disp\u00f5em grupos com experi\u00eancias muito diferentes&rdquo;, avalia Carrara, que participou da Confer\u00eancia como observador.<BR>  <P>Para ele, a presen\u00e7a do presidente da Rep\u00fablica, Luis In\u00e1cio Lula da Silva, neste evento, marca o reconhecimento pelo Estado brasileiro das quest\u00f5es do movimento LGBT como quest\u00f5es de governo. &ldquo;Quest\u00f5es estas que j\u00e1 vinham sendo reconhecidas em cada pol\u00edtica setorial&rdquo;, observa o pesquisador. Na entrevista a seguir, o antrop\u00f3logo analisa a Confer\u00eancia, que foi convocada pelo Estado para discutir pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas para a popula\u00e7\u00e3o LGBT &ndash; iniciativa at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita no mundo &ndash; e faz uma reflex\u00e3o em torno da crescente segmenta\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria do movimento. &ldquo;A divis\u00e3o enfraquece politicamente. O caminho da segmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 perigoso porque corre-se o risco de perder de vista que a natureza da estigmatiza\u00e7\u00e3o, do preconceito e da discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma, embora se module diferentemente para cada indiv\u00edduo, para cada grupo. Devido \u00e0 transgress\u00e3o das conven\u00e7\u00f5es de g\u00eanero &ndash; incluindo-se aqui transgress\u00f5es corporais e de sexualidade-, todos se encontram numa mesma situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o e t\u00eam que enfrentar um momento em que a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 colocada&rdquo;.<BR>  <P><B>Por qu\u00ea, em sua an\u00e1lise, a Confer\u00eancia inaugura uma terceira fase do movimento LGBT brasileiro?<\/B>  <P>Uma das raz\u00f5es \u00e9 que a Confer\u00eancia coloca o movimento em uma outra din\u00e2mica, em di\u00e1logo mais direto com suas &ldquo;bases&rdquo;. As decis\u00f5es foram tomadas em conjunto por pessoas que se identificam como gays, l\u00e9sbicas, travestis e transexuais ou que trabalham com essa quest\u00e3o, seja no Estado, seja na sociedade civil, e n\u00e3o apenas pelos ativistas. \u00c9 uma diretriz negociada entre o movimento e uma base social muito mais ampla.<BR>  <P><B>Qual a sua an\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s propostas que foram apresentadas? <\/B> <P>O que estava se discutindo eram dois modelos de inclus\u00e3o social ou de justi\u00e7a social para a sociedade brasileira. De um lado, o modelo que podemos chamar de &ldquo;separados, mas iguais&rdquo;, onde todos t\u00eam o mesmo direito mas cada um em seu espa\u00e7o separado. Esta l\u00f3gica estava presente, por exemplo, nas propostas da cria\u00e7\u00e3o das delegacias LGBT, do Estatuto LGBT , de uma Vara Criminal LGBT ou de servi\u00e7os m\u00e9dicos especializados direcionados a esta popula\u00e7\u00e3o. Havia um outro horizonte de inclus\u00e3o que eu chamaria de &ldquo;iguais e misturados&rdquo;. Esta posi\u00e7\u00e3o vai enfatizar a necessidade se capacitar diferentes profissionais e institui\u00e7\u00f5es para lidar com a popula\u00e7\u00e3o LGBT e n\u00e3o criar servi\u00e7os e espa\u00e7os especiais para ela. O confronto entre esses dois modelos estava subjacente o tempo todo. Interessante porque esta tens\u00e3o tamb\u00e9m estava presente no in\u00edcio do movimento, quando se pensava que os ent\u00e3o chamados homossexuais teriam uma natureza distinta dos heterossexuais. \u00c9 curioso como essa discuss\u00e3o l\u00e1 do in\u00edcio do movimento reaparece agora numa proposta mais pol\u00edtica de como a sociedade se organiza em rela\u00e7\u00e3o a essa popula\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>Um outro ponto que deve ser discutido \u00e9 o modo como as pr\u00f3prias identidades foram disputando espa\u00e7o e visibilidade dentro da confer\u00eancia, como na decis\u00e3o sobre a mudan\u00e7a na posi\u00e7\u00e3o das letras na sigla do movimento, que vai afetar servi\u00e7os e pol\u00edticas que de agora em diante, ap\u00f3s decis\u00e3o tomada na Confer\u00eancia, ter\u00e3o que se auto-designar como LGBT.<BR>  <P><B>Isto acabou abrindo brechas para outras coisas, como o uso de palavras como lesbofobia e transfobia, e n\u00e3o apenas homofobia, como se tem usado. Este tipo de mudan\u00e7a n\u00e3o acaba por fragmentar muito o movimento? <\/B> <P>Esta discuss\u00e3o tem que ser feita pelo movimento e pela comunidade primeiramente para verificar se a natureza da viol\u00eancia que atinge os LGBTs \u00e9 da natureza da &ldquo;fobia&rdquo;. Existe um conjunto razo\u00e1vel de autores que v\u00e3o criticar a id\u00e9ia de &ldquo;fobia&rdquo; nesse contexto, uma vez que geralmente esta faz com que o f\u00f3bico fuja da fonte da fobia e n\u00e3o reaja violentamente a ela. Ent\u00e3o fobia n\u00e3o \u00e9 uma palavra muito precisa, al\u00e9m de patologizar e individualizar uma posi\u00e7\u00e3o preconceituosa.<BR>  <P><B>E qual seria uma palavra ou express\u00e3o mais precisa? <\/B> <P>Uma express\u00e3o que me parece mais interessante \u00e9 &ldquo;discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia por preconceito de g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual&rdquo;. A \u00fanica quest\u00e3o \u00e9 que esta express\u00e3o \u00e9 menos sint\u00e9tica do que homofobia, lesbofobia ou transfobia, mas seria muito mais abrangente, e muito mais apropriada \u00e0 natureza deste tipo de atitude.<BR>  <P><B>E qual a inquieta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra homofobia? <\/B> <P>Do ponto de vista do movimento, ela se remete \u00e0 homossexualidade, que, se antes era mais abrangente, cada vez mais se restringe aos homens gays. Ent\u00e3o, dentro da l\u00f3gica da segmenta\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, h\u00e1 um certo desconforto em rela\u00e7\u00e3o a essa express\u00e3o. Nessa quest\u00e3o temos que discutir n\u00e3o s\u00f3 a id\u00e9ia de fobia, mas se vale a pena ficar picotando essa viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 outra tens\u00e3o presente na Confer\u00eancia e que vale a pena avaliar: segmenta-se, mas qual o solo comum que esses diversos grupos compartilham?<BR>  <P><B>H\u00e1 um solo comum? <\/B> <P>Sim, porque h\u00e1 uma discrimina\u00e7\u00e3o de todas as pessoas que de algum modo n\u00e3o se conformam \u00e0s conven\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e de sexualidade. Se \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel separar g\u00eanero de sexualidade muito facilmente. H\u00e1 um campo comum, mas a din\u00e2mica pol\u00edtica leva \u00e0 segmenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que este \u00e9 um caminho perigoso, porque, embora haja especificidades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia &ndash; as mulheres l\u00e9sbicas sofrem um tipo de viol\u00eancia que se modula de um modo diferente da que atinge os gays &ndash; a natureza profunda dessa viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 diferente. Se o processo de segmenta\u00e7\u00e3o continuar como vem acontecendo daqui a algum tempo n\u00e3o teremos mais uma confer\u00eancia LGBT, e sim uma L, uma T e uma G.<BR>  <P><B>Essa segmenta\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria tamb\u00e9m n\u00e3o seria prejudicial \u00e0 pr\u00f3pria agenda pol\u00edtica do movimento e \u00e0s conquistas pol\u00edticas que o movimento deseja alcan\u00e7ar? <\/B> <P>A divis\u00e3o enfraquece politicamente. Al\u00e9m disso, corre-se o risco de perder de vista que a natureza da estigmatiza\u00e7\u00e3o, do preconceito e da discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma, embora se module diferentemente para cada indiv\u00edduo, para cada grupo. A experi\u00eancia de uma travesti \u00e9 diferente da experi\u00eancia vivida por uma l\u00e9sbica. Por\u00e9m, devido a uma transgress\u00e3o ao que \u00e9 socialmente atribu\u00eddo, todos se encontram numa mesma situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o e t\u00eam que enfrentar um momento em que a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 colocada.<BR>  <P><B>O movimento tem isso em mente? <\/B> <P>N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto o movimento est\u00e1 discutindo essas quest\u00f5es a fundo neste momento, mas ele tem que lidar com um certo impasse entre reconhecer as diferen\u00e7as e explicitar o que os une. As duas coisas t\u00eam que caminhar junto. Mesmo que se reconhe\u00e7am as diferen\u00e7as e as especificidades, n\u00e3o se pode perder de vista a quest\u00e3o que tem unificado este movimento. Muita gente se refere ao movimento como uma sopa de letrinhas. Acho que temos que pensar qual \u00e9 o caldo dessa sopa, o que conecta essas letras. Se n\u00e3o \u00e9 mais a grande categoria da homossexualidade e a teoria da invers\u00e3o sexual, \u00e9 uma experi\u00eancia de n\u00e3o conformidade com as regras de g\u00eanero e de sexualidade. E \u00e9 essa experi\u00eancia em comum que vai gerar a discrimina\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia, que se modula de forma diferente para cada uma dessas &ldquo;letrinhas&rdquo;. Ent\u00e3o, isto tem que ser pensado de forma estrat\u00e9gica: se vamos recortar essa viol\u00eancia e dar diferentes nomes para ela, ou se vamos construir uma express\u00e3o que seja suficientemente abrangente para t\u00ea-las todas contempladas. N\u00e3o se pode construir uma express\u00e3o que negue a especificidade nem cair num especifismo t\u00e3o estrito que as pessoas percam de vista o que as une. Pode-se desenvolver o argumento de que exista uma &ldquo;intersexofobia&rdquo; ou uma &ldquo;bifobia&rdquo;, por exemplo, que n\u00e3o foram nem contempladas pela Confer\u00eancia. O problema da especifica\u00e7\u00e3o \u00e9 esse. Parece n\u00e3o ter fim, est\u00e1 sempre deixando algu\u00e9m de fora. O drama \u00e9 reconhecer especificidades sem perder de vista o que \u00e9 comum.<BR>  <P><B>O sr. acha que nesse terceiro momento o movimento est\u00e1 mais maduro? Ficou claro na Confer\u00eancia isso? <\/B> <P>Eu acho que sim! Acho que h\u00e1 um amadurecimento do movimento, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Manter esse di\u00e1logo com o Estado do modo como foi mantido, no curto tempo para prepara\u00e7\u00e3o das propostas &ndash; essa Confer\u00eancia foi aprovada em novembro do ano passado. Conseguir organizar isso nesse tempo \u00e9 um sinal de amadurecimento, mas ao mesmo tempo eu acho que essa Confer\u00eancia abre um conjunto de outros desafios para o movimento.<BR>  <P><B>Tais como&#8230; <\/B> <P>Por exemplo, o modo como o movimento vai se relacionar com as suas bases, que emergem nessa Confer\u00eancia. Eu acho que h\u00e1 toda uma quest\u00e3o de linguagem a ser tratada. N\u00e3o \u00e9 a toa que a Confer\u00eancia escolheu abrir com uma discuss\u00e3o sobre o que \u00e9 orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero. A exist\u00eancia desse primeiro painel na Plen\u00e1ria aponta para uma caracter\u00edstica do pr\u00f3prio movimento e da quest\u00e3o LGBT. Ou seja, que as identidades n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o claramente recortadas como se pode pensar quando se olha apenas para o plano pol\u00edtico, onde os diversos grupos se colocam em embates. Se essas coisas fossem t\u00e3o claras, n\u00e3o precisaria ter havido esse painel. Se esse painel existiu \u00e9 por que essas identidades t\u00eam fronteiras muito flu\u00eddas. Eu acho que reconhecer a fluidez das categorias, das identidades, n\u00e3o significa negar que elas sejam fundamentais para a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Eu acho que seria muito dif\u00edcil organizar um movimento que n\u00e3o fosse identit\u00e1rio no pa\u00eds. As identidades s\u00e3o importantes por que elas mobilizam as pessoas, inclusive emocionalmente, elas s\u00e3o cruciais para a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Agora, ao mesmo tempo, n\u00e3o se pode tom\u00e1-las como algo essencial, como algo que v\u00e1 muito al\u00e9m de uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica, de um artefato pol\u00edtico. Ent\u00e3o, aquele primeiro painel n\u00e3o deixava de ter uma fun\u00e7\u00e3o &ldquo;civilizat\u00f3ria&rdquo; nesse di\u00e1logo que a Confer\u00eancia inaugura de fato de uma maneira sistem\u00e1tica, pelo menos entre as lideran\u00e7as do movimento e a popula\u00e7\u00e3o LGBT que n\u00e3o \u00e9 militante no Pa\u00eds.<BR>  <P><B>Como avalia a proposta da cria\u00e7\u00e3o de um Estatuto para essa popula\u00e7\u00e3o? <\/B> <P>Eu n\u00e3o analisei profundamente a quest\u00e3o do estatuto, mas esta me parece uma proposta muito mais adequada ao modelo de sociedade &ldquo;iguais, mas separados&rdquo;.<BR>  <P><B>Como a id\u00e9ia das delegacias? <\/B> <P>Como a id\u00e9ia das delegacias! Isso \u00e9 uma quest\u00e3o. Outra coisa que o estatuto coloca \u00e9 a quest\u00e3o da tutela. Os estatutos que n\u00f3s temos geralmente dizem respeito muito diretamente a popula\u00e7\u00f5es tuteladas pelo Estado, como o estatuto do \u00edndio, da crian\u00e7a e do adolescente, do idoso. S\u00e3o popula\u00e7\u00f5es que claramente, em algum plano, necessitam da tutela do Estado.<BR>  <P><B>E a popula\u00e7\u00e3o LGBT n\u00e3o? <\/B> <P>A popula\u00e7\u00e3o LGBT necessita do respeito do Estado, necessita de uma pol\u00edtica anti-discriminat\u00f3ria bem feita. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>El antrop\u00f3logo Sergio Carrara analiza los resultados de la I Conferencia Nacional LGBT. 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