{"id":1195,"date":"2008-11-05T00:00:00","date_gmt":"2008-11-05T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2008\/11\/05\/religion-y-homofobia\/"},"modified":"2008-11-05T00:00:00","modified_gmt":"2008-11-05T02:00:00","slug":"religion-y-homofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/religion-y-homofobia\/1195\/","title":{"rendered":"Religi\u00f3n y homofobia"},"content":{"rendered":"<p>Um estudo desenvolvido por uma equipe de pesquisadores da Escola de Servi\u00e7o Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revela que h\u00e1 posi\u00e7\u00f5es diferentes quanto \u00e0 homossexualidade e ao acolhimento de pessoas LGBT nas igrejas, mesmo entre l\u00edderes de uma mesma denomina\u00e7\u00e3o religiosa, a despeito da tend\u00eancia do movimento de homogeneizar tais posi\u00e7\u00f5es. A pesquisa, intitulada &ldquo;Homofobia e viol\u00eancia: um estudo sobre os discursos e as a\u00e7\u00f5es das tradi\u00e7\u00f5es religiosas brasileiras em rela\u00e7\u00e3o aos GLBT&rdquo; e financiada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, teve como objetivo apreender as percep\u00e7\u00f5es das lideran\u00e7as de cinco religi\u00f5es &ndash; cat\u00f3lica, evang\u00e9lica, esp\u00edrita, afro-brasileira e judaica &ndash; e as carreiras sexuais de fi\u00e9is LGBT, com o prop\u00f3sito de fornecer subs\u00eddios para as a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 homofobia e \u00e0 viol\u00eancia contra esses segmentos sociais.<BR>  <P>&ldquo;Nossa id\u00e9ia era conhecer as percep\u00e7\u00f5es acerca da diversidade sexual e suas poss\u00edveis associa\u00e7\u00f5es com a homofobia e a viol\u00eancia e identificar as concep\u00e7\u00f5es de sexualidade e de g\u00eanero no discurso das lideran\u00e7as religiosas&rdquo;, afirma a soci\u00f3loga Maria das Dores Campos Machado, coordenadora do projeto.<BR>  <P>O estudo, realizado entre outubro de 2007 e outubro de 2008 (portanto, iniciado antes da decis\u00e3o do movimento pela invers\u00e3o das letras G e L), buscou levantar tamb\u00e9m as trajet\u00f3rias de vida e carreiras sexuais dos adeptos e adeptas de tais religi\u00f5es que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo. Na entrevista a seguir, Maria das Dores Machado fala dos resultados da pesquisa. Segundo ela, o que se observou \u00e9 que a Igreja Cat\u00f3lica, por exemplo, vem&nbsp;trabalhando no sentido de adaptar-se \u00e0 realidade cultural contempor\u00e2nea. Verificou-se tamb\u00e9m, na umbanda e no candombl\u00e9, uma certa desvaloriza\u00e7\u00e3o das travestis e das\/dos transexuais, assim como a dificuldade em se aceitar o casamento religioso de parceiros do mesmo sexo, apesar dessas tradi\u00e7\u00f5es de matriz afro serem consideradas mais abertas e acolhedoras.<BR>  <P><B>Como a diversidade sexual est\u00e1 colocada pelas diversas entidades religiosas pesquisadas?<\/B>  <P>Identificamos tend\u00eancias mais ou menos abertas e mais ou menos contradit\u00f3rias para responder \u00e0s quest\u00f5es sobre sexualidade de uma forma mais geral e, em particular, sobre a homossexualidade e \u00e0s id\u00e9ias de igualdade de direitos. As tradi\u00e7\u00f5es religiosas, como portadoras de uma moral e representantes de uma \u00abverdade\u00bb eclesi\u00e1stica, possuem significativa capacidade de influ\u00eancia nas diferentes esferas da vida social brasileira. Nesse sentido, os l\u00edderes religiosos direcionam os fi\u00e9is a partir de concep\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, fam\u00edlia e sexualidade, expressando, ainda que implicitamente, uma posi\u00e7\u00e3o frente aos movimentos LGBT. A diversidade sexual, quando posta por estes movimentos na agenda de discuss\u00e3o dos direitos humanos e sexuais, faz com que as distintas entidades religiosas se manifestem frente ao tema.<BR>  <P><B>E como tais entidades se manifestam?<\/B>  <P>Encontramos uma certa unanimidade quanto \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da monogamia e uma tentativa de normatizar as rela\u00e7\u00f5es homoafetivas, mesmo entre aqueles que dizem estarem abertos para o acolhimento de gays e l\u00e9sbicas e que se colocam favor\u00e1veis aos direitos para os homossexuais. A promiscuidade aparece como o elemento contr\u00e1rio ao padr\u00e3o monog\u00e2mico de casamento. Num jogo de acusa\u00e7\u00f5es espelhado, as lideran\u00e7as consideradas homof\u00f3bicas acusam os movimentos LGBT de agressivos e autorit\u00e1rios. Em rela\u00e7\u00e3o aos fi\u00e9is, os resultados apontam para a influ\u00eancia das religi\u00f5es, que buscam, de forma diferenciada, o controle da sexualidade e das rela\u00e7\u00f5es afetivas de seus fi\u00e9is, nos modelos de subjetividades masculinas e femininas. Essas normas, geralmente constru\u00eddas a partir de uma cultura heterossexual, tensionam os desejos e valores dos fi\u00e9is com orienta\u00e7\u00f5es sexuais alternativas, que lan\u00e7am m\u00e3o de recursos diversos para permanecer no grupo religioso e desenvolver sua sexualidade. Os depoimentos indicam ainda que a capacidade de interfer\u00eancia de algumas institui\u00e7\u00f5es religiosas nas esferas moral e at\u00e9 mesmo jur\u00eddica favorece a viol\u00eancia simb\u00f3lica contra os gays e as l\u00e9sbicas que participam do grupo e a dissemina\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas homof\u00f3bicas na sociedade.<BR>  <P><B>O que \u00e9 mais recorrente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade nos discursos das lideran\u00e7as religiosas?<\/B>  <P>A an\u00e1lise dos discursos das lideran\u00e7as religiosas revela a import\u00e2ncia das perspectivas naturalistas nas percep\u00e7\u00f5es da sexualidade e nas a\u00e7\u00f5es junto aos sujeitos sexuais. Nesse sentido, a natureza da pessoa humana \u00e9 um eixo fundamental que distingue o princ\u00edpio no qual os enunciados est\u00e3o baseados. Percebemos duas ra\u00edzes de onde partem os discursos. Uma entende o homem a partir da id\u00e9ia b\u00e1sica de natureza humana, percebida em sua dualidade: corpo e alma, corpo e esp\u00edrito, corpo e psiquismo. E, na qual, o sexo \u00e9 visto como natureza. Estas dualidades podem ser percebidas em um mesmo discurso que ora enfatiza o aspecto mais religioso e doutrin\u00e1rio, ora enfatiza o discurso psicologizado ou mesmo cient\u00edfico. Encontramos neste conjunto, tanto discursos mais radicais contra a homossexualidade (doen\u00e7a e pecado) quanto mais propensos ao acolhimento e \u00e0 compreens\u00e3o da diferen\u00e7a.<BR>  <P>Uma outra vertente parte de uma id\u00e9ia da natureza social do ser humano. Este \u00e9 percebido em sociedade e, diferentemente de uma natureza corp\u00f3rea imut\u00e1vel, o ser social \u00e9, basicamente, um ser contextualizado, que se modifica. Neste conjunto de discursos procura-se, tamb\u00e9m, a doutrina, mas, neste caso, para pensar e agir sobre as quest\u00f5es postas hoje pela sociedade, como a diversidade sexual. Os l\u00edderes que expressam de forma mais clara esta tend\u00eancia em seus discursos argumentam que as doutrinas devem ser relidas e, nesta releitura, a subst\u00e2ncia encontrada \u00e9 o amor, que desconsidera as diferentes orienta\u00e7\u00f5es sexuais. Portanto, buscam adequar-se \u00e0s mudan\u00e7as sociais, colocando a necessidade de voltar aos textos doutrin\u00e1rios e religiosos para dar conta da realidade contempor\u00e2nea. Assim, identificamos tend\u00eancias mais ou menos abertas e mais ou menos contradit\u00f3rias para responder \u00e0s quest\u00f5es sobre sexualidade de uma forma mais geral e, em particular, sobre a homossexualidade e \u00e0s id\u00e9ias de igualdade de direitos.<BR>  <P>Entretanto, parece existir uma recorr\u00eancia em todos os discursos que tratam da natureza humana: enquanto o sexo e a sexualidade s\u00e3o compreendidos como pr\u00f3prios da condi\u00e7\u00e3o humana, o discurso sobre a homossexualidade est\u00e1 associado \u00e0 particularidade dos indiv\u00edduos, na qual cabe a id\u00e9ia de op\u00e7\u00e3o e de escolha, de doen\u00e7a e de pecado, de acordo com as diferentes interpreta\u00e7\u00f5es religiosas. De qualquer maneira, chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de que esse substrato comum, o naturalismo, n\u00e3o resulta em uma univocidade de posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao tema das sexualidades alternativas e dos direitos sexuais.<BR>  <P><B>Mesmo na Igreja Cat\u00f3lica?<\/B>  <P>Sim, mesmo no grupo religioso hegem\u00f4nico em nossa sociedade, o de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, no qual existe uma organiza\u00e7\u00e3o centralizada e fortemente hierarquizada, constatou-se a exist\u00eancia de um processo de reinterpreta\u00e7\u00e3o da sexualidade humana com o intuito de adequar a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica ao contexto contempor\u00e2neo. A postura mais tradicionalista e refrat\u00e1ria \u00e0s demandas dos movimentos LGBT foi identificada na fala de um leigo que lidera o Movimento de Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica. Por outro lado, a posi\u00e7\u00e3o mais dissonante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coloca\u00e7\u00f5es do Vaticano foi a de um sacerdote jesu\u00edta, que n\u00e3o s\u00f3 realiza celebra\u00e7\u00f5es e debates com gays e l\u00e9sbicas cat\u00f3licos, como tamb\u00e9m vem participando ativamente do debate p\u00fablico mediante a publica\u00e7\u00e3o de artigos em jornais de grande circula\u00e7\u00e3o no Estado e em revistas especializadas.<BR>  <P>As atitudes pastorais em rela\u00e7\u00e3o aos integrantes dos coletivos LGBT mais freq\u00fcentemente identificadas foram de acolhimento, compaix\u00e3o, miseric\u00f3rdia, amor, caridade, entre outras. Nesse sentido, deve-se registrar que a \u00eanfase no sofrimento dos fi\u00e9is que integram as comunidades sexuais marginalizadas favorece a comunica\u00e7\u00e3o e a flexibiliza\u00e7\u00e3o das normas no dia a dia das par\u00f3quias ou dos grupos comunit\u00e1rios. Contudo, a orienta\u00e7\u00e3o pastoral aos que buscam ajuda \u00e9 de que se deve manter a castidade, procurar ajuda psicol\u00f3gica e viver a sexualidade com responsabilidade &ndash; monogamia e rela\u00e7\u00f5es est\u00e1veis. De qualquer maneira, se o discurso sobre o indiv\u00edduo homossexual enfatiza o sofrimento e a atitude de miseric\u00f3rdia a ser assumida pelos religiosos, o movimento social LGBT, enquanto ator coletivo, \u00e9 visto como agressivo e autorit\u00e1rio, despertando muita apreens\u00e3o entre os entrevistados.<BR>  <P><B>E como a quest\u00e3o \u00e9 percebida entre os evang\u00e9licos?<\/B>  <P>Na tradi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, verificou-se que, embora o apego \u00e0 heteronormatividade seja mais acentuado entre os pentecostais, n\u00e3o existe uma forma \u00fanica de interpreta\u00e7\u00e3o da homossexualidade e nem de lidar com os homossexuais que procuram as igrejas, seja entre esses segmentos seja entre os hist\u00f3ricos. Nesse sentido, constatou-se que s\u00e3o as lideran\u00e7as das comunidades religiosas com sistemas de distribui\u00e7\u00e3o de autoridade mais assim\u00e9tricos em rela\u00e7\u00e3o aos g\u00eaneros que apresentam maior rejei\u00e7\u00e3o aos comportamentos e estilos de vida dos segmentos LGBT.<BR>  <P>Entre os evang\u00e9licos hist\u00f3ricos, foram encontradas concep\u00e7\u00f5es distintas da sexualidade humana e da homossexualidade, assim como maneiras d\u00edspares de lidar com as demandas dos integrantes dos movimentos pela diversidade sexual. Embora os l\u00edderes enfatizem que a sexualidade n\u00e3o se encontre mais diretamente relacionada \u00e0 dimens\u00e3o da procria\u00e7\u00e3o, revelam vis\u00f5es distintas sobre o exerc\u00edcio da mesma em fun\u00e7\u00e3o de seus la\u00e7os com as matrizes teol\u00f3gicas luterana e calvinista. Nesse sentido, constatou-se que a atua\u00e7\u00e3o do movimento LGBT na sociedade brasileira come\u00e7a a produzir tens\u00f5es e rupturas nas comunidades confessionais, nas quais algumas lideran\u00e7as v\u00eam demonstrando maior abertura para o di\u00e1logo com as subculturas sexuais.<BR>  <P>No espectro pentecostal, observou-se a tend\u00eancia das lideran\u00e7as a apresentarem uma leitura mais literal da b\u00edblia e de valorizarem o Antigo Testamento. Com isso, as percep\u00e7\u00f5es sobre a sexualidade apresentam alguns pontos de contato com aquelas emitidas pela lideran\u00e7a judaica ortodoxa que enfatiza a fidelidade aos fundamentos de sua tradi\u00e7\u00e3o que se encontram nesse livro sagrado. Contudo, existem nuan\u00e7as tamb\u00e9m entre os pentecostais com algumas lideran\u00e7as ressaltando fatores espirituais e outras destacando fatores biol\u00f3gicos e psicol\u00f3gicos, assim como &ldquo;problemas de car\u00e1ter&rdquo;, isto \u00e9, fatores morais, em suas reflex\u00f5es sobre as causas da homossexualidade.<BR>  <P>As atitudes pastorais em rela\u00e7\u00e3o aos fi\u00e9is homossexuais que foram mencionadas mais frequentemente foram: o aconselhamento e o interdito a cargos eclesi\u00e1sticos e outras formas de representa\u00e7\u00e3o do grupo confessional. E a orienta\u00e7\u00e3o pastoral a esses sujeitos sexuais \u00e9 a de que devem obedecer \u00e0s leis de Deus e alimentar o esp\u00edrito &#8211; castidade e canaliza\u00e7\u00e3o da sexualidade para o matrim\u00f4nio, segundo o paradigma heterossexual.<BR>  <P><B>E qual \u00e9 o discurso das lideran\u00e7as esp\u00edritas em rela\u00e7\u00e3o aos sujeitos com pr\u00e1ticas sexuais alternativas ao padr\u00e3o hegem\u00f4nico?<\/B>  <P>Os esp\u00edritas destacam-se, nessa pesquisa, por apresentarem uma configura\u00e7\u00e3o religiosa nascida de um di\u00e1logo entre a esfera religiosa e a cient\u00edfica, caracter\u00edstica que vai influenciar seu discurso A cosmologia dessa tradi\u00e7\u00e3o faz com que a homossexualidade seja pensada na chave da reencarna\u00e7\u00e3o e do processo de evolu\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos. E, nessa perspectiva, a id\u00e9ia de ajuste de contas com as vidas passadas \u00e9 central na explica\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas formas da sexualidade e na \u00eanfase ao tratamento caridoso, respeitoso e digno aos sujeitos sexuais, independente da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Isso n\u00e3o impede que algumas lideran\u00e7as se mostrem mais restritivas do que outras no trato com o p\u00fablico LGBT e nem deve ser interpretado como um questionamento da ordem heteronormativa. Pois, aqui, como nas demais tradi\u00e7\u00f5es religiosas, a concep\u00e7\u00e3o do sistema g\u00eanero baseia-se no paradigma da heterossexualidade e os atores coletivos que lutam pela diversidade sexual despertam temor nos l\u00edderes. De qualquer maneira, deve se registrar que, nesse subconjunto, tamb\u00e9m se verificou a tend\u00eancia de releitura dos ensinamentos com uma das lideran\u00e7as trabalhando no sentido de adapt\u00e1-los \u00e0 realidade cultural contempor\u00e2nea.<BR>  <P><B>\u00c9 dito que em religi\u00f5es de matriz afro, como umbanda e candombl\u00e9, a diversidade sexual \u00e9 bem mais aceita. Isto \u00e9 uma verdade?<\/B>  <P>Na tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira, foram identificadas distin\u00e7\u00f5es nas concep\u00e7\u00f5es de sexualidade e de homossexualidade, assim como na maneira de lidar com os sujeitos sexuais. Essas distin\u00e7\u00f5es resultam da matriz religiosa da umbanda, que incorpora elementos das religi\u00f5es afro, do kardecismo e do pr\u00f3prio catolicismo. Nesse sentido, observa-se uma maior moralidade por parte desse bra\u00e7o da tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira do que no candombl\u00e9, embora nessa \u00faltima tamb\u00e9m tenha se constatado a preocupa\u00e7\u00e3o de controlar as performances dos homossexuais dentro do terreiro e, mais especialmente, durante os cultos. Verificou-se, nos dois subconjuntos, a desvaloriza\u00e7\u00e3o das travestis e dos transexuais, assim como a dificuldade em se aceitar o casamento religioso de parceiros do mesmo sexo. Seguindo a tend\u00eancia identificada entre os setores mais abertos ao di\u00e1logo com as m\u00faltiplas identidades e discursos dos atores coletivos, os religiosos da tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira tamb\u00e9m criticam a promiscuidade e estimulam seus filhos-de-santo e consulentes homossexuais a estabelecerem rela\u00e7\u00f5es monog\u00e2micas.<BR>  <P><B>E como a diversidade sexual \u00e9 vista pela tradi\u00e7\u00e3o judaica, popula\u00e7\u00e3o historicamente marcada por uma forte discrimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a\/etnia?<\/B>  <P>A tradi\u00e7\u00e3o judaica, que apresenta uma forte dimens\u00e3o \u00e9tnica, demonstra uma grande resist\u00eancia para debater as formas de sexualidades alternativas ao padr\u00e3o heterossexual. Mesmo no segmento liberal, o discurso \u00e9 calcado na heteronormatividade, observando, ainda, uma tend\u00eancia de caracterizar a homossexualidade como um desvio de conduta do indiv\u00edduo e de encaminhar os membros da sua comunidade com estas pr\u00e1ticas para os psic\u00f3logos e psiquiatras. De qualquer maneira, os rabinos percebem esses comportamentos como desvios de cunho individual e que, por esta raz\u00e3o, devem ser trabalhados individualmente. Demonstram tamb\u00e9m certa dificuldade de dialogar com os coletivos LGBT, ainda que aceitem a proposta de uni\u00e3o civil de parceiros do mesmo sexo.<BR>  <P><B>Em geral, h\u00e1 uma tend\u00eancia de os membros dos diversos coletivos LGBT de enxergarem as posi\u00e7\u00f5es religiosas como homof\u00f3bicas. As lideran\u00e7as religiosas se v\u00eaem como tal?<\/B>  <P>A maioria dos entrevistados, independentemente da tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o interpreta a atua\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio grupo como homof\u00f3bica, aqui associada \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica contra os sujeitos sexuais, atitudes que todos eles condenam. De modo geral, defendem o direito dos religiosos de interpretarem as m\u00faltiplas formas da sexualidade com base em suas doutrinas e expressar livremente essa percep\u00e7\u00e3o junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica brasileira. Nesse sentido, assim como os movimentos LGBT tendem a homogeneizar as posi\u00e7\u00f5es dos grupos religiosos, apresentando-os como homof\u00f3bicos, os dirigentes desses grupos desqualificam aqueles coletivos, representando-os como autorit\u00e1rios, uma vez que pretendem criminalizar a homofobia.<BR>  <P><B>Mesmo os discursos mais liberais dentro dessas religi\u00f5es?<\/B>  <P>\u00c9 interessante destacar ainda que os discursos mais liberais nas diferentes tradi\u00e7\u00f5es apontam para a cria\u00e7\u00e3o de uma nova normatiza\u00e7\u00e3o para as subculturas sexuais. Encontramos uma unanimidade quanto \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da monogamia, mesmo entre aqueles que dizem estarem abertos para o acolhimento de gays e l\u00e9sbicas e que se colocam favor\u00e1veis aos direitos para os homossexuais. A promiscuidade aparece como o elemento contr\u00e1rio ao padr\u00e3o monog\u00e2mico de casamento. A monogamia representa a normalidade e os padr\u00f5es de comportamento aceitos segundo os quais se espera um decoro nos espa\u00e7os p\u00fablicos e religiosos em particular. Esta dicotomia monogamia\/promiscuidade aparece, tamb\u00e9m, com o segundo termo sendo substitu\u00eddo por poligamia, cabendo a esta categoria a condi\u00e7\u00e3o de natureza, uma vez que a monogamia representa conten\u00e7\u00e3o e, portanto, estaria na ordem da cultura: &ldquo;somos polig\u00e2micos por natureza&rdquo;.<BR>  <P><B>A pesquisa buscou investigar tamb\u00e9m o outro lado, isto \u00e9, os adeptos e adeptas de tais religi\u00f5es que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo. H\u00e1 um conflito entre o pertencimento religioso e suas carreiras sexuais?<\/B>  <P>No que se refere \u00e0 an\u00e1lise das hist\u00f3rias de vida dos fi\u00e9is, estas permitem aprofundar alguns pontos de compara\u00e7\u00e3o entre as tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Esses pontos abordam o tema central da pesquisa, que \u00e9 o cruzamento entre identidades homossexuais, carreiras homossexuais e pertencimento religioso. Nesse sentido, na tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira ganhou destaque a dimens\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o entre o decoro na vida ritual e a esfera da vida \u00edntima de cada fiel, com a demonstra\u00e7\u00e3o de regras r\u00edgidas em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento de homens e mulheres durante as celebra\u00e7\u00f5es. Os fi\u00e9is apontaram em seus discursos a presen\u00e7a de uma vigil\u00e2ncia constante das fronteiras entre o mundo externo e o mundo do espa\u00e7o sagrado, como duas ordens que, embora se comuniquem, n\u00e3o devem se confundir. Essa preocupa\u00e7\u00e3o em delimitar as esferas de atua\u00e7\u00e3o dos sujeitos sexuais foi identificada na fala das lideran\u00e7as, que embora apresentem a sua casa, s\u00edtio ou terreiro como abertos aos homens sexuais, revelam certa ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o desse segmento nos cultos.<BR>  <P>Nas trajet\u00f3rias esp\u00edritas, apareceu com for\u00e7a a tens\u00e3o entre livre arb\u00edtrio e determina\u00e7\u00e3o, oferecendo-se ao praticante esp\u00edrita certa margem de manobra em rela\u00e7\u00e3o as suas &ldquo;escolhas sexuais&rdquo;. Em termos comparativos, o espiritismo \u00e9 a religi\u00e3o que mais difunde entre os fi\u00e9is um ambiente de auto-reflex\u00e3o permanente. Ambiente que conjuga tr\u00eas elementos para a constru\u00e7\u00e3o das narrativas afetivas e sexuais pessoais: o mundo dos esp\u00edritos, a livre escolha terrena e o encontro do amor verdadeiro. A constru\u00e7\u00e3o de um roteiro de vida homossexual implica na articula\u00e7\u00e3o dessa combina\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>Nas trajet\u00f3rias judaicas, ficou expl\u00edcita a completa dissocia\u00e7\u00e3o entre pertencer \u00e0 comunidade judaica e assumir uma identidade homossexual. Entre os judeus entrevistados, estabeleceu-se uma completa disson\u00e2ncia entre esses processos. A identidade judaica, embora questionada em v\u00e1rios aspectos, sobretudo em sua dimens\u00e3o propriamente religiosa, \u00e9 um atributo do qual n\u00e3o se pode escapar, pois se est\u00e1 ligado a ele inexoravelmente pelos la\u00e7os familiares consang\u00fc\u00edneos, pelas experi\u00eancias da socializa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e pelo encontro cotidiano com n\u00e3o-judeus (como a pr\u00f3pria entrevista). A carreira homossexual e a identidade homossexual passam por outros condicionantes. Seu car\u00e1ter negociado ao longo da vida \u00e9 ressaltado. Mesmo que em um dos casos, o entrevistado tenha apresentado uma vis\u00e3o essencialista de sua pr\u00f3pria homossexualidade, argumentando que ele sempre foi assim e que acredita que a homossexualidade est\u00e1 inserida em sua constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, ele tamb\u00e9m afirma que chegou a essa conclus\u00e3o depois de pesquisar muito sobre o tema, ou seja, a pr\u00f3pria ess\u00eancia requer uma elabora\u00e7\u00e3o pessoal, amparada em leituras de psicologia, psiquiatria e medicina.<BR>  <P>Em termos de rela\u00e7\u00e3o entre os fi\u00e9is e as institui\u00e7\u00f5es religiosas se destacam que: nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas onde o poder \u00e9 mais descentralizado, como nas esp\u00edrita e afro-brasileiras, h\u00e1 maior peso na rela\u00e7\u00e3o pessoal entre o fiel e a lideran\u00e7a. Os conflitos, por sua vez, s\u00e3o estabelecidos nas intera\u00e7\u00f5es entre o fiel homossexual e a lideran\u00e7a e\/ou outros membros da entidade. J\u00e1 nos grupos confessionais em que a forma de governo \u00e9 mais centralizada, os conflitos s\u00e3o estabelecidos com a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tanto frente a outros fi\u00e9is ou lideran\u00e7as individuais. O que, certamente, favorece a migra\u00e7\u00e3o daqueles que questionam as regras institucionais para um grupo ou igreja &ldquo;inclusiva&rdquo; no seio da tradi\u00e7\u00e3o antes freq\u00fcentada. A &ldquo;inclus\u00e3o&rdquo;, nesse caso, assume uma forma institucional, ou seja, a reflex\u00e3o em torno da conjuga\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e homossexualidade passa, n\u00e3o pela interpreta\u00e7\u00e3o do fiel como indiv\u00edduo, mas pela formula\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia coletiva de pertencimento religioso institucional compat\u00edvel com a homossexualidade. Temos, portanto, esferas de negocia\u00e7\u00e3o distintas para os conflitos advindos da rela\u00e7\u00e3o entre professar uma f\u00e9 e elaborar uma carreira e uma identidade homossexual.<BR>  <P><B>Atualmente observa-se um crescimento no n\u00famero de igrejas mais &ldquo;inclusivas&rdquo;. Estas seriam a solu\u00e7\u00e3o para esse conflito?<\/B>  <P>Constatamos, por parte dos(as) fi\u00e9is homossexuais uma \u00eanfase na busca por um espa\u00e7o de aceita\u00e7\u00e3o da homossexualidade no interior das Igrejas, com a presen\u00e7a de estrat\u00e9gias mais claras de enfrentamento ao preconceito na viv\u00eancia religiosa. Nesse sentido, verificou-se a cria\u00e7\u00e3o de grupos e mesmo de &ldquo;igrejas inclusivas&rdquo;, assim como foram constantes as refer\u00eancias dos pr\u00f3prios fi\u00e9is \u00e0 busca por &ldquo;acolhimento&rdquo; e a expectativa de virem a ser aceitos em suas tradi\u00e7\u00f5es religiosas. A entrada em grupos e igrejas inclusivas revelou-se para esses fi\u00e9is como uma possibilidade concreta de harmonizar dois tra\u00e7os significativos de suas vidas pessoais, a participa\u00e7\u00e3o congregacional com a manuten\u00e7\u00e3o e explicita\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Os dilemas enfrentados em rela\u00e7\u00e3o a ter que esconder da comunidade religiosa sua homossexualidade s\u00e3o aliviados no contexto da entrada em par\u00f3quias e igrejas que contam com lideran\u00e7as religiosas mais receptivas aos homossexuais. Um estudo desenvolvido por uma equipe de pesquisadores da Escola de Servi\u00e7o Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revela que h\u00e1 posi\u00e7\u00f5es diferentes quanto \u00e0 homossexualidade e ao acolhimento de pessoas LGBT nas igrejas, mesmo entre l\u00edderes de uma mesma denomina\u00e7\u00e3o religiosa, a despeito da tend\u00eancia do movimento de homogeneizar tais posi\u00e7\u00f5es. A pesquisa, intitulada &ldquo;Homofobia e viol\u00eancia: um estudo sobre os discursos e as a\u00e7\u00f5es das tradi\u00e7\u00f5es religiosas brasileiras em rela\u00e7\u00e3o aos GLBT&rdquo; e financiada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, teve como objetivo apreender as percep\u00e7\u00f5es das lideran\u00e7as de cinco religi\u00f5es &ndash; cat\u00f3lica, evang\u00e9lica, esp\u00edrita, afro-brasileira e judaica &ndash; e as carreiras sexuais de fi\u00e9is LGBT, com o prop\u00f3sito de fornecer subs\u00eddios para as a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 homofobia e \u00e0 viol\u00eancia contra esses segmentos sociais.<BR> <\/P> <P>&ldquo;Nossa id\u00e9ia era conhecer as percep\u00e7\u00f5es acerca da diversidade sexual e suas poss\u00edveis associa\u00e7\u00f5es com a homofobia e a viol\u00eancia e identificar as concep\u00e7\u00f5es de sexualidade e de g\u00eanero no discurso das lideran\u00e7as religiosas&rdquo;, afirma a soci\u00f3loga Maria das Dores Campos Machado, coordenadora do projeto.<BR>  <P>O estudo, realizado entre outubro de 2007 e outubro de 2008 (portanto, iniciado antes da decis\u00e3o do movimento pela invers\u00e3o das letras G e L), buscou levantar tamb\u00e9m as trajet\u00f3rias de vida e carreiras sexuais dos adeptos e adeptas de tais religi\u00f5es que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo. Na entrevista a seguir, Maria das Dores Machado fala dos resultados da pesquisa. Segundo ela, o que se observou \u00e9 que as religi\u00f5es enfocadas pelo estudo v\u00eam trabalhando no sentido de adaptar-se \u00e0 realidade cultural contempor\u00e2nea. Verificou-se tamb\u00e9m, na umbanda e no candombl\u00e9, uma certa desvaloriza\u00e7\u00e3o das travestis e das\/dos transexuais, assim como a dificuldade em se aceitar o casamento religioso de parceiros do mesmo sexo, apesar dessas tradi\u00e7\u00f5es de matriz afro serem consideradas mais abertas e acolhedoras.<BR>  <P><B>Como a diversidade sexual est\u00e1 colocada pelas diversas entidades religiosas pesquisadas?<\/B>  <P>Identificamos tend\u00eancias mais ou menos abertas e mais ou menos contradit\u00f3rias para responder \u00e0s quest\u00f5es sobre sexualidade de uma forma mais geral e, em particular, sobre a homossexualidade e \u00e0s id\u00e9ias de igualdade de direitos. As tradi\u00e7\u00f5es religiosas, como portadoras de uma moral e representantes de uma \u00abverdade\u00bb eclesi\u00e1stica, possuem significativa capacidade de influ\u00eancia nas diferentes esferas da vida social brasileira. Nesse sentido, os l\u00edderes religiosos direcionam os fi\u00e9is a partir de concep\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, fam\u00edlia e sexualidade, expressando, ainda que implicitamente, uma posi\u00e7\u00e3o frente aos movimentos LGBT. A diversidade sexual, quando posta por estes movimentos na agenda de discuss\u00e3o dos direitos humanos e sexuais, faz com que as distintas entidades religiosas se manifestem frente ao tema.<BR>  <P><B>E como tais entidades se manifestam?<\/B>  <P>Encontramos uma certa unanimidade quanto \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da monogamia e uma tentativa de normatizar as rela\u00e7\u00f5es homoafetivas, mesmo entre aqueles que dizem estarem abertos para o acolhimento de gays e l\u00e9sbicas e que se colocam favor\u00e1veis aos direitos para os homossexuais. A promiscuidade aparece como o elemento contr\u00e1rio ao padr\u00e3o monog\u00e2mico de casamento. Num jogo de acusa\u00e7\u00f5es espelhado, as lideran\u00e7as consideradas homof\u00f3bicas acusam os movimentos LGBT de agressivos e autorit\u00e1rios. Em rela\u00e7\u00e3o aos fi\u00e9is, os resultados apontam para a influ\u00eancia das religi\u00f5es, que buscam, de forma diferenciada, o controle da sexualidade e das rela\u00e7\u00f5es afetivas de seus fi\u00e9is, nos modelos de subjetividades masculinas e femininas. Essas normas, geralmente constru\u00eddas a partir de uma cultura heterossexual, tensionam os desejos e valores dos fi\u00e9is com orienta\u00e7\u00f5es sexuais alternativas, que lan\u00e7am m\u00e3o de recursos diversos para permanecer no grupo religioso e desenvolver sua sexualidade. Os depoimentos indicam ainda que a capacidade de interfer\u00eancia de algumas institui\u00e7\u00f5es religiosas nas esferas moral e at\u00e9 mesmo jur\u00eddica favorece a viol\u00eancia simb\u00f3lica contra os gays e as l\u00e9sbicas que participam do grupo e a dissemina\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas homof\u00f3bicas na sociedade.<BR>  <P><B>O que \u00e9 mais recorrente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade nos discursos das lideran\u00e7as religiosas?<\/B>  <P>A an\u00e1lise dos discursos das lideran\u00e7as religiosas revela a import\u00e2ncia das perspectivas naturalistas nas percep\u00e7\u00f5es da sexualidade e nas a\u00e7\u00f5es junto aos sujeitos sexuais. Nesse sentido, a natureza da pessoa humana \u00e9 um eixo fundamental que distingue o princ\u00edpio no qual os enunciados est\u00e3o baseados. Percebemos duas ra\u00edzes de onde partem os discursos. Uma entende o homem a partir da id\u00e9ia b\u00e1sica de natureza humana, percebida em sua dualidade: corpo e alma, corpo e esp\u00edrito, corpo e psiquismo. E, na qual, o sexo \u00e9 visto como natureza. Estas dualidades podem ser percebidas em um mesmo discurso que ora enfatiza o aspecto mais religioso e doutrin\u00e1rio, ora enfatiza o discurso psicologizado ou mesmo cient\u00edfico. Encontramos neste conjunto, tanto discursos mais radicais contra a homossexualidade (doen\u00e7a e pecado) quanto mais propensos ao acolhimento e \u00e0 compreens\u00e3o da diferen\u00e7a.<BR>  <P>Uma outra vertente parte de uma id\u00e9ia da natureza social do ser humano. Este \u00e9 percebido em sociedade e, diferentemente de uma natureza corp\u00f3rea imut\u00e1vel, o ser social \u00e9, basicamente, um ser contextualizado, que se modifica. Neste conjunto de discursos procura-se, tamb\u00e9m, a doutrina, mas, neste caso, para pensar e agir sobre as quest\u00f5es postas hoje pela sociedade, como a diversidade sexual. Os l\u00edderes que expressam de forma mais clara esta tend\u00eancia em seus discursos argumentam que as doutrinas devem ser relidas e, nesta releitura, a subst\u00e2ncia encontrada \u00e9 o amor, que desconsidera as diferentes orienta\u00e7\u00f5es sexuais. Portanto, buscam adequar-se \u00e0s mudan\u00e7as sociais, colocando a necessidade de voltar aos textos doutrin\u00e1rios e religiosos para dar conta da realidade contempor\u00e2nea. Assim, identificamos tend\u00eancias mais ou menos abertas e mais ou menos contradit\u00f3rias para responder \u00e0s quest\u00f5es sobre sexualidade de uma forma mais geral e, em particular, sobre a homossexualidade e \u00e0s id\u00e9ias de igualdade de direitos.<BR>  <P>Entretanto, parece existir uma recorr\u00eancia em todos os discursos que tratam da natureza humana: enquanto o sexo e a sexualidade s\u00e3o compreendidos como pr\u00f3prios da condi\u00e7\u00e3o humana, o discurso sobre a homossexualidade est\u00e1 associado \u00e0 particularidade dos indiv\u00edduos, na qual cabe a id\u00e9ia de op\u00e7\u00e3o e de escolha, de doen\u00e7a e de pecado, de acordo com as diferentes interpreta\u00e7\u00f5es religiosas. De qualquer maneira, chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de que esse substrato comum, o naturalismo, n\u00e3o resulta em uma univocidade de posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao tema das sexualidades alternativas e dos direitos sexuais.<BR>  <P><B>Mesmo na Igreja Cat\u00f3lica?<\/B>  <P>Sim, mesmo no grupo religioso hegem\u00f4nico em nossa sociedade, o de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, no qual existe uma organiza\u00e7\u00e3o centralizada e fortemente hierarquizada, constatou-se a exist\u00eancia de um processo de reinterpreta\u00e7\u00e3o da sexualidade humana com o intuito de adequar a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica ao contexto contempor\u00e2neo. A postura mais tradicionalista e refrat\u00e1ria \u00e0s demandas dos movimentos LGBT foi identificada na fala de um leigo que lidera o Movimento de Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica. Por outro lado, a posi\u00e7\u00e3o mais dissonante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coloca\u00e7\u00f5es do Vaticano foi a de um sacerdote jesu\u00edta, que n\u00e3o s\u00f3 realiza celebra\u00e7\u00f5es e debates com gays e l\u00e9sbicas cat\u00f3licos, como tamb\u00e9m vem participando ativamente do debate p\u00fablico mediante a publica\u00e7\u00e3o de artigos em jornais de grande circula\u00e7\u00e3o no Estado e em revistas especializadas.<BR>  <P>As atitudes pastorais em rela\u00e7\u00e3o aos integrantes dos coletivos LGBT mais freq\u00fcentemente identificadas foram de acolhimento, compaix\u00e3o, miseric\u00f3rdia, amor, caridade, entre outras. Nesse sentido, deve-se registrar que a \u00eanfase no sofrimento dos fi\u00e9is que integram as comunidades sexuais marginalizadas favorece a comunica\u00e7\u00e3o e a flexibiliza\u00e7\u00e3o das normas no dia a dia das par\u00f3quias ou dos grupos comunit\u00e1rios. Contudo, a orienta\u00e7\u00e3o pastoral aos que buscam ajuda \u00e9 de que se deve manter a castidade, procurar ajuda psicol\u00f3gica e viver a sexualidade com responsabilidade &ndash; monogamia e rela\u00e7\u00f5es est\u00e1veis. De qualquer maneira, se o discurso sobre o indiv\u00edduo homossexual enfatiza o sofrimento e a atitude de miseric\u00f3rdia a ser assumida pelos religiosos, o movimento social LGBT, enquanto ator coletivo, \u00e9 visto como agressivo e autorit\u00e1rio, despertando muita apreens\u00e3o entre os entrevistados.<BR>  <P><B>E como a quest\u00e3o \u00e9 percebida entre os evang\u00e9licos?<\/B>  <P>Na tradi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, verificou-se que, embora o apego \u00e0 heteronormatividade seja mais acentuado entre os pentecostais, n\u00e3o existe uma forma \u00fanica de interpreta\u00e7\u00e3o da homossexualidade e nem de lidar com os homossexuais que procuram as igrejas, seja entre esses segmentos seja entre os hist\u00f3ricos. Nesse sentido, constatou-se que s\u00e3o as lideran\u00e7as das comunidades religiosas com sistemas de distribui\u00e7\u00e3o de autoridade mais assim\u00e9tricos em rela\u00e7\u00e3o aos g\u00eaneros que apresentam maior rejei\u00e7\u00e3o aos comportamentos e estilos de vida dos segmentos LGBT.<BR>  <P>Entre os evang\u00e9licos hist\u00f3ricos, foram encontradas concep\u00e7\u00f5es distintas da sexualidade humana e da homossexualidade, assim como maneiras d\u00edspares de lidar com as demandas dos integrantes dos movimentos pela diversidade sexual. Embora os l\u00edderes enfatizem que a sexualidade n\u00e3o se encontre mais diretamente relacionada \u00e0 dimens\u00e3o da procria\u00e7\u00e3o, revelam vis\u00f5es distintas sobre o exerc\u00edcio da mesma em fun\u00e7\u00e3o de seus la\u00e7os com as matrizes teol\u00f3gicas luterana e calvinista. Nesse sentido, constatou-se que a atua\u00e7\u00e3o do movimento LGBT na sociedade brasileira come\u00e7a a produzir tens\u00f5es e rupturas nas comunidades confessionais, nas quais algumas lideran\u00e7as v\u00eam demonstrando maior abertura para o di\u00e1logo com as subculturas sexuais.<BR>  <P>No espectro pentecostal, observou-se a tend\u00eancia das lideran\u00e7as a apresentarem uma leitura mais literal da b\u00edblia e de valorizarem o Antigo Testamento. Com isso, as percep\u00e7\u00f5es sobre a sexualidade apresentam alguns pontos de contato com aquelas emitidas pela lideran\u00e7a judaica ortodoxa que enfatiza a fidelidade aos fundamentos de sua tradi\u00e7\u00e3o que se encontram nesse livro sagrado. Contudo, existem nuan\u00e7as tamb\u00e9m entre os pentecostais com algumas lideran\u00e7as ressaltando fatores espirituais e outras destacando fatores biol\u00f3gicos e psicol\u00f3gicos, assim como &ldquo;problemas de car\u00e1ter&rdquo;, isto \u00e9, fatores morais, em suas reflex\u00f5es sobre as causas da homossexualidade.<BR>  <P>As atitudes pastorais em rela\u00e7\u00e3o aos fi\u00e9is homossexuais que foram mencionadas mais frequentemente foram: o aconselhamento e o interdito a cargos eclesi\u00e1sticos e outras formas de representa\u00e7\u00e3o do grupo confessional. E a orienta\u00e7\u00e3o pastoral a esses sujeitos sexuais \u00e9 a de que devem obedecer \u00e0s leis de Deus e alimentar o esp\u00edrito &#8211; castidade e canaliza\u00e7\u00e3o da sexualidade para o matrim\u00f4nio, segundo o paradigma heterossexual.<BR>  <P><B>E qual \u00e9 o discurso das lideran\u00e7as esp\u00edritas em rela\u00e7\u00e3o aos sujeitos com pr\u00e1ticas sexuais alternativas ao padr\u00e3o hegem\u00f4nico?<\/B>  <P>Os esp\u00edritas destacam-se, nessa pesquisa, por apresentarem uma configura\u00e7\u00e3o religiosa nascida de um di\u00e1logo entre a esfera religiosa e a cient\u00edfica, caracter\u00edstica que vai influenciar seu discurso A cosmologia dessa tradi\u00e7\u00e3o faz com que a homossexualidade seja pensada na chave da reencarna\u00e7\u00e3o e do processo de evolu\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos. E, nessa perspectiva, a id\u00e9ia de ajuste de contas com as vidas passadas \u00e9 central na explica\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas formas da sexualidade e na \u00eanfase ao tratamento caridoso, respeitoso e digno aos sujeitos sexuais, independente da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Isso n\u00e3o impede que algumas lideran\u00e7as se mostrem mais restritivas do que outras no trato com o p\u00fablico LGBT e nem deve ser interpretado como um questionamento da ordem heteronormativa. Pois, aqui, como nas demais tradi\u00e7\u00f5es religiosas, a concep\u00e7\u00e3o do sistema g\u00eanero baseia-se no paradigma da heterossexualidade e os atores coletivos que lutam pela diversidade sexual despertam temor nos l\u00edderes. De qualquer maneira, deve se registrar que, nesse subconjunto, tamb\u00e9m se verificou a tend\u00eancia de releitura dos ensinamentos com uma das lideran\u00e7as trabalhando no sentido de adapt\u00e1-los \u00e0 realidade cultural contempor\u00e2nea.<BR>  <P><B>\u00c9 dito que em religi\u00f5es de matriz afro, como umbanda e candombl\u00e9, a diversidade sexual \u00e9 bem mais aceita. Isto \u00e9 uma verdade?<\/B>  <P>Na tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira, foram identificadas distin\u00e7\u00f5es nas concep\u00e7\u00f5es de sexualidade e de homossexualidade, assim como na maneira de lidar com os sujeitos sexuais. Essas distin\u00e7\u00f5es resultam da matriz religiosa da umbanda, que incorpora elementos das religi\u00f5es afro, do kardecismo e do pr\u00f3prio catolicismo. Nesse sentido, observa-se uma maior moralidade por parte desse bra\u00e7o da tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira do que no candombl\u00e9, embora nessa \u00faltima tamb\u00e9m tenha se constatado a preocupa\u00e7\u00e3o de controlar as performances dos homossexuais dentro do terreiro e, mais especialmente, durante os cultos. Verificou-se, nos dois subconjuntos, a desvaloriza\u00e7\u00e3o das travestis e dos transexuais, assim como a dificuldade em se aceitar o casamento religioso de parceiros do mesmo sexo. Seguindo a tend\u00eancia identificada entre os setores mais abertos ao di\u00e1logo com as m\u00faltiplas identidades e discursos dos atores coletivos, os religiosos da tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira tamb\u00e9m criticam a promiscuidade e estimulam seus filhos-de-santo e consulentes homossexuais a estabelecerem rela\u00e7\u00f5es monog\u00e2micas.<BR>  <P><B>E como a diversidade sexual \u00e9 vista pela tradi\u00e7\u00e3o judaica, popula\u00e7\u00e3o historicamente marcada por uma forte discrimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a\/etnia?<\/B>  <P>A tradi\u00e7\u00e3o judaica, que apresenta uma forte dimens\u00e3o \u00e9tnica, demonstra uma grande resist\u00eancia para debater as formas de sexualidades alternativas ao padr\u00e3o heterossexual. Mesmo no segmento liberal, o discurso \u00e9 calcado na heteronormatividade, observando, ainda, uma tend\u00eancia de caracterizar a homossexualidade como um desvio de conduta do indiv\u00edduo e de encaminhar os membros da sua comunidade com estas pr\u00e1ticas para os psic\u00f3logos e psiquiatras. De qualquer maneira, os rabinos percebem esses comportamentos como desvios de cunho individual e que, por esta raz\u00e3o, devem ser trabalhados individualmente. Demonstram tamb\u00e9m certa dificuldade de dialogar com os coletivos LGBT, ainda que aceitem a proposta de uni\u00e3o civil de parceiros do mesmo sexo.<BR>  <P><B>Em geral, h\u00e1 uma tend\u00eancia de os membros dos diversos coletivos LGBT de enxergarem as posi\u00e7\u00f5es religiosas como homof\u00f3bicas. As lideran\u00e7as religiosas se v\u00eaem como tal?<\/B>  <P>A maioria dos entrevistados, independentemente da tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o interpreta a atua\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio grupo como homof\u00f3bica, aqui associada \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica contra os sujeitos sexuais, atitudes que todos eles condenam. De modo geral, defendem o direito dos religiosos de interpretarem as m\u00faltiplas formas da sexualidade com base em suas doutrinas e expressar livremente essa percep\u00e7\u00e3o junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica brasileira. Nesse sentido, assim como os movimentos LGBT tendem a homogeneizar as posi\u00e7\u00f5es dos grupos religiosos, apresentando-os como homof\u00f3bicos, os dirigentes desses grupos desqualificam aqueles coletivos, representando-os como autorit\u00e1rios, uma vez que pretendem criminalizar a homofobia.<BR>  <P><B>Mesmo os discursos mais liberais dentro dessas religi\u00f5es?<\/B>  <P>\u00c9 interessante destacar ainda que os discursos mais liberais nas diferentes tradi\u00e7\u00f5es apontam para a cria\u00e7\u00e3o de uma nova normatiza\u00e7\u00e3o para as subculturas sexuais. Encontramos uma unanimidade quanto \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da monogamia, mesmo entre aqueles que dizem estarem abertos para o acolhimento de gays e l\u00e9sbicas e que se colocam favor\u00e1veis aos direitos para os homossexuais. A promiscuidade aparece como o elemento contr\u00e1rio ao padr\u00e3o monog\u00e2mico de casamento. A monogamia representa a normalidade e os padr\u00f5es de comportamento aceitos segundo os quais se espera um decoro nos espa\u00e7os p\u00fablicos e religiosos em particular. Esta dicotomia monogamia\/promiscuidade aparece, tamb\u00e9m, com o segundo termo sendo substitu\u00eddo por poligamia, cabendo a esta categoria a condi\u00e7\u00e3o de natureza, uma vez que a monogamia representa conten\u00e7\u00e3o e, portanto, estaria na ordem da cultura: &ldquo;somos polig\u00e2micos por natureza&rdquo;.<BR>  <P><B>A pesquisa buscou investigar tamb\u00e9m o outro lado, isto \u00e9, os adeptos e adeptas de tais religi\u00f5es que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo. H\u00e1 um conflito entre o pertencimento religioso e suas carreiras sexuais?<\/B>  <P>No que se refere \u00e0 an\u00e1lise das hist\u00f3rias de vida dos fi\u00e9is, estas permitem aprofundar alguns pontos de compara\u00e7\u00e3o entre as tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Esses pontos abordam o tema central da pesquisa, que \u00e9 o cruzamento entre identidades homossexuais, carreiras homossexuais e pertencimento religioso. Nesse sentido, na tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira ganhou destaque a dimens\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o entre o decoro na vida ritual e a esfera da vida \u00edntima de cada fiel, com a demonstra\u00e7\u00e3o de regras r\u00edgidas em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento de homens e mulheres durante as celebra\u00e7\u00f5es. Os fi\u00e9is apontaram em seus discursos a presen\u00e7a de uma vigil\u00e2ncia constante das fronteiras entre o mundo externo e o mundo do espa\u00e7o sagrado, como duas ordens que, embora se comuniquem, n\u00e3o devem se confundir. Essa preocupa\u00e7\u00e3o em delimitar as esferas de atua\u00e7\u00e3o dos sujeitos sexuais foi identificada na fala das lideran\u00e7as, que embora apresentem a sua casa, s\u00edtio ou terreiro como abertos aos homens sexuais, revelam certa ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o desse segmento nos cultos.<BR>  <P>Nas trajet\u00f3rias esp\u00edritas, apareceu com for\u00e7a a tens\u00e3o entre livre arb\u00edtrio e determina\u00e7\u00e3o, oferecendo-se ao praticante esp\u00edrita certa margem de manobra em rela\u00e7\u00e3o as suas &ldquo;escolhas sexuais&rdquo;. Em termos comparativos, o espiritismo \u00e9 a religi\u00e3o que mais difunde entre os fi\u00e9is um ambiente de auto-reflex\u00e3o permanente. Ambiente que conjuga tr\u00eas elementos para a constru\u00e7\u00e3o das narrativas afetivas e sexuais pessoais: o mundo dos esp\u00edritos, a livre escolha terrena e o encontro do amor verdadeiro. A constru\u00e7\u00e3o de um roteiro de vida homossexual implica na articula\u00e7\u00e3o dessa combina\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>Nas trajet\u00f3rias judaicas, ficou expl\u00edcita a completa dissocia\u00e7\u00e3o entre pertencer \u00e0 comunidade judaica e assumir uma identidade homossexual. Entre os judeus entrevistados, estabeleceu-se uma completa disson\u00e2ncia entre esses processos. A identidade judaica, embora questionada em v\u00e1rios aspectos, sobretudo em sua dimens\u00e3o propriamente religiosa, \u00e9 um atributo do qual n\u00e3o se pode escapar, pois se est\u00e1 ligado a ele inexoravelmente pelos la\u00e7os familiares consang\u00fc\u00edneos, pelas experi\u00eancias da socializa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e pelo encontro cotidiano com n\u00e3o-judeus (como a pr\u00f3pria entrevista). A carreira homossexual e a identidade homossexual passam por outros condicionantes. Seu car\u00e1ter negociado ao longo da vida \u00e9 ressaltado. Mesmo que em um dos casos, o entrevistado tenha apresentado uma vis\u00e3o essencialista de sua pr\u00f3pria homossexualidade, argumentando que ele sempre foi assim e que acredita que a homossexualidade est\u00e1 inserida em sua constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, ele tamb\u00e9m afirma que chegou a essa conclus\u00e3o depois de pesquisar muito sobre o tema, ou seja, a pr\u00f3pria ess\u00eancia requer uma elabora\u00e7\u00e3o pessoal, amparada em leituras de psicologia, psiquiatria e medicina.<BR>  <P>Em termos de rela\u00e7\u00e3o entre os fi\u00e9is e as institui\u00e7\u00f5es religiosas se destacam que: nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas onde o poder \u00e9 mais descentralizado, como nas esp\u00edrita e afro-brasileiras, h\u00e1 maior peso na rela\u00e7\u00e3o pessoal entre o fiel e a lideran\u00e7a. Os conflitos, por sua vez, s\u00e3o estabelecidos nas intera\u00e7\u00f5es entre o fiel homossexual e a lideran\u00e7a e\/ou outros membros da entidade. J\u00e1 nos grupos confessionais em que a forma de governo \u00e9 mais centralizada, os conflitos s\u00e3o estabelecidos com a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tanto frente a outros fi\u00e9is ou lideran\u00e7as individuais. O que, certamente, favorece a migra\u00e7\u00e3o daqueles que questionam as regras institucionais para um grupo ou igreja &ldquo;inclusiva&rdquo; no seio da tradi\u00e7\u00e3o antes freq\u00fcentada. A &ldquo;inclus\u00e3o&rdquo;, nesse caso, assume uma forma institucional, ou seja, a reflex\u00e3o em torno da conjuga\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e homossexualidade passa, n\u00e3o pela interpreta\u00e7\u00e3o do fiel como indiv\u00edduo, mas pela formula\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia coletiva de pertencimento religioso institucional compat\u00edvel com a homossexualidade. Temos, portanto, esferas de negocia\u00e7\u00e3o distintas para os conflitos advindos da rela\u00e7\u00e3o entre professar uma f\u00e9 e elaborar uma carreira e uma identidade homossexual.<BR>  <P><B>Atualmente observa-se um crescimento no n\u00famero de igrejas mais &ldquo;inclusivas&rdquo;. Estas seriam a solu\u00e7\u00e3o para esse conflito?<\/B>  <P>Constatamos, por parte dos(as) fi\u00e9is homossexuais uma \u00eanfase na busca por um espa\u00e7o de aceita\u00e7\u00e3o da homossexualidade no interior das Igrejas, com a presen\u00e7a de estrat\u00e9gias mais claras de enfrentamento ao preconceito na viv\u00eancia religiosa. Nesse sentido, verificou-se a cria\u00e7\u00e3o de grupos e mesmo de &ldquo;igrejas inclusivas&rdquo;, assim como foram constantes as refer\u00eancias dos pr\u00f3prios fi\u00e9is \u00e0 busca por &ldquo;acolhimento&rdquo; e a expectativa de virem a ser aceitos em suas tradi\u00e7\u00f5es religiosas. A entrada em grupos e igrejas inclusivas revelou-se para esses fi\u00e9is como uma possibilidade concreta de harmonizar dois tra\u00e7os significativos de suas vidas pessoais, a participa\u00e7\u00e3o congregacional com a manuten\u00e7\u00e3o e explicita\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Os dilemas enfrentados em rela\u00e7\u00e3o a ter que esconder da comunidade religiosa sua homossexualidade s\u00e3o aliviados no contexto da entrada em par\u00f3quias e igrejas que contam com lideran\u00e7as religiosas mais receptivas aos homossexuais. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Una investigaci\u00f3n coordinada por la soci\u00f3loga brasile\u00f1a Maria das Dores Machado sobre discursos y acciones religiosas respecto a temas LGBT muestra que las posiciones de las diversas religiones no son tan homog\u00e9neas como parecen. <EM>(Texto en portugu\u00e9s)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1195","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Religi\u00f3n y homofobia - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/religion-y-homofobia\/1195\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Religi\u00f3n y homofobia - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Una investigaci\u00f3n coordinada por la soci\u00f3loga brasile\u00f1a Maria das Dores Machado sobre discursos y acciones religiosas respecto a temas LGBT muestra que las posiciones de las diversas religiones no son tan homog\u00e9neas como parecen. 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