{"id":1198,"date":"2009-01-13T00:00:00","date_gmt":"2009-01-13T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2009\/01\/13\/iglesias-inclusivas\/"},"modified":"2009-01-13T00:00:00","modified_gmt":"2009-01-13T02:00:00","slug":"iglesias-inclusivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/iglesias-inclusivas\/1198\/","title":{"rendered":"\u201cIglesias inclusivas\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Auto-denominada &ldquo;inclusiva&rdquo;, a Igreja Crist\u00e3 Contempor\u00e2nea integra um movimento de vertente evang\u00e9lica que n\u00e3o v\u00ea a homossexualidade como uma doen\u00e7a a ser curada. Muito pelo contr\u00e1rio. Tais congrega\u00e7\u00f5es religiosas, pesquisadas pelo antrop\u00f3logo Marcelo Natividade em sua tese de doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (IFCS\/UFRJ), t\u00eam um discurso positivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade sexual, abrindo a possibilidade para que l\u00e9sbicas e gays se tornem n\u00e3o apenas fi\u00e9is, mas tamb\u00e9m pastores.<BR>  <P>&ldquo;Ser gay dentro de uma igreja conservadora \u00e9 uma impossibilidade, n\u00e3o h\u00e1 lugar para essa pessoa, a menos que ela venha a aderir \u00e0 norma e se torne ex-homossexual, por exemplo. A diferen\u00e7a do movimento inclusivo para as outras igrejas \u00e9 que nele o poder eclesial \u00e9 concedido \u00e0s pessoas LGBT, j\u00e1 que h\u00e1 uma proposta pol\u00edtica de desconstru\u00e7\u00e3o da homofobia religiosa&rdquo;, explica Natividade.<BR>  <P>Do lado de fora de uma delas, sediada na Lapa, tradicional bairro bo\u00eamio do Rio de Janeiro, um letreiro sugere o que l\u00e1 dentro se deve encontrar: uma igreja <I>&ldquo;diferente, ungida e sem preconceitos&rdquo;<\/I>. De maneira geral, observa o pesquisador, as igrejas inclusivas t\u00eam o compromisso de construir uma teologia que entenda positivamente a diversidade sexual e, nesse sentido, a pr\u00f3pria homossexualidade. &ldquo;Orienta\u00e7\u00f5es sexuais plurais podem ser vistas como uma ben\u00e7\u00e3o divina, uma obra de Deus, algo natural. \u00c9 uma perspectiva de aceita\u00e7\u00e3o&rdquo;, afirma Natividade.<BR>  <P>Assim, passagens da B\u00edblia que geralmente s\u00e3o lidas como &ldquo;prova&rdquo; de que a homossexualidade \u00e9 pecado s\u00e3o, em algumas dessas igrejas, reinterpretadas. A tentativa, segundo o antrop\u00f3logo, \u00e9 de compreender tais passagens a partir de uma perspectiva hist\u00f3rica e contextual. O pecado que levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o das cidades de Sodoma e Gomorra &ndash; atribu\u00eddo \u00e0 homossexualidade por evang\u00e9licos conservadores &ndash; \u00e9 compreendido, por exemplo, como resultado do sexo n\u00e3o consentido. Como este, v\u00e1rios trechos s\u00e3o relidos, buscando-se reconstruir a exclus\u00e3o do povo LGBT da teologia crist\u00e3 tradicional. Outro esfor\u00e7o dessas igrejas \u00e9 no sentido de comparar as tradu\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, j\u00e1 que, segundo avaliam, algumas s\u00e3o especialmente excludentes. Por fim, h\u00e1 iniciativas que tentam ainda resgatar a participa\u00e7\u00e3o de pessoas LGBT dentro da pr\u00f3pria hist\u00f3ria b\u00edblica.<BR>  <P>Natividade, por\u00e9m, chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o movimento inclusivo \u00e9 bastante plural, havendo consider\u00e1veis varia\u00e7\u00f5es entre as igrejas que dele fazem parte. Nesse sentido, mesmo que praticamente todas compartilhem um <I>ethos<\/I> evang\u00e9lico &ndash; o pesquisador localizou apenas um grupo cat\u00f3lico &ndash;, \u00e9 poss\u00edvel observar \u00eanfases diferenciadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cosmologias. Isto \u00e9, enquanto algumas podem ser consideradas &ldquo;mais protestantes&rdquo;, na medida em que privilegiam a palavra b\u00edblica e a liturgia &ndash; como \u00e9 o caso daquelas que promovem uma releitura da B\u00edblia &ndash;, outras se identificam mais com igrejas pentecostais, enfatizando experi\u00eancias m\u00edsticas, em cultos que t\u00eam como marca a emo\u00e7\u00e3o e a entoa\u00e7\u00e3o de louvores.<BR>  <P>Segundo o pesquisador, o fato de as igrejas inclusivas serem majoritariamente evang\u00e9licas encontra rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria din\u00e2mica da expans\u00e3o dessas igrejas no Brasil, que est\u00e1 diretamente associada \u00e0 aus\u00eancia de uma hierarquia religiosa centralizada, como ocorre com a Igreja Cat\u00f3lica. Este fator permite que o universo evang\u00e9lico desfrute de uma maior liberdade, j\u00e1 que \u00e9 &ldquo;poss\u00edvel sair de uma igreja e fundar outra que seja mais adequada ao <I>ethos<\/I> privado dos fi\u00e9is&rdquo;, observa Natividade, que destaca a exist\u00eancia de um variado mercado de ofertas religiosas.<BR>  <P>Durante a pesquisa, o autor buscou recuperar a hist\u00f3ria do movimento inclusivo no Rio de Janeiro e, nesse processo, analisa o surgimento da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM) no Brasil para, dois anos mais tarde, investigar a cis\u00e3o que deu origem \u00e0 Igreja Crist\u00e3 Contempor\u00e2nea (ICC).<BR>  <P>Fundada nos Estados Unidos, a ICM possui um vi\u00e9s ativista, identificando-se como uma igreja que tem como proposta a defesa dos direitos humanos, o que inclui a luta contra a homofobia religiosa. A ICM chegou ao pa\u00eds em 2003, mas j\u00e1 durante a d\u00e9cada de 1990 havia um intenso contato entre militantes brasileiros &ndash; entre os quais representantes do movimento Atob\u00e1 &ndash; e membros da igreja.<BR>  <P>&ldquo;Fui \u00e0 primeira confer\u00eancia da ICM no Brasil, em 2004, e l\u00e1 assisti a um show de <I>drags gospel<\/I>. Era o louvor cantado por uma <I>drag<\/I>. A igreja tem essa dimens\u00e3o, que \u00e9 a de produzir uma teologia aberta para a diversidade sexual&rdquo;, conta Natividade, lembrando ainda do lan\u00e7amento do primeiro CD <I>gospel<\/I> cantado e direcionado a pessoas LGBT.<BR>  <P>De acordo com o antrop\u00f3logo, a ICM, no Rio de Janeiro, e a Igreja Acalanto, em S\u00e3o Paulo, despontaram como as primeiras igrejas no Brasil abertamente voltadas para a inclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o LGBT. Dois anos depois, por\u00e9m, teve in\u00edcio a autonomiza\u00e7\u00e3o da matriz americana, que deu origem \u00e0 Igreja Crist\u00e3 Contempor\u00e2nea. Tal processo veio acompanhado de uma busca por construir uma identidade brasileira que singularizasse a congrega\u00e7\u00e3o religiosa, o que se traduziu na ado\u00e7\u00e3o de um vi\u00e9s que se poderia definir como &ldquo;mais pentecostal&rdquo;. Al\u00e9m do nome, portanto, as mudan\u00e7as implicaram tamb\u00e9m em um rompimento com a proposta ativista que predominava na igreja vinda dos EUA.<BR>  <P>&ldquo;Quando retornei para iniciar o campo foi justamente nesse momento de separa\u00e7\u00e3o e a\u00ed o trabalho foi o de buscar entender essa nova identidade que a igreja estava tentando assumir&rdquo;, revelou Natividade. Uma das preocupa\u00e7\u00f5es da nova denomina\u00e7\u00e3o era a de n\u00e3o ser identificada como uma &ldquo;igreja gay&rdquo;, propondo-se a se tornar uma igreja para todos os exclu\u00eddos. &ldquo;A id\u00e9ia era ampliar o p\u00fablico dessa igreja, chamar os heterossexuais, os divorciados, os negros, transformar a Igreja Crist\u00e3 Contempor\u00e2nea em uma igreja aberta a todos, n\u00e3o direcionada a um grupo especifico&rdquo;.<BR>  <P>Na pr\u00e1tica, destaca o pesquisador, o dilema que hoje permeia o movimento inclusivo &ndash; e que tamb\u00e9m est\u00e1 presente no movimento gay &ndash; \u00e9 exatamente esse: a tens\u00e3o entre adotar uma estrat\u00e9gia particularista, o que implica na cria\u00e7\u00e3o de igrejas espec\u00edficas e na dissemina\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia de um orgulho gay, ou optar por um discurso universalista, que minimiza as diferen\u00e7as e prev\u00ea a cria\u00e7\u00e3o de igrejas para todos, homossexuais inclusive.<BR>  <P>O mesmo dilema se reflete nos posicionamentos adotados pelas duas congrega\u00e7\u00f5es religiosas. A ICM, por um lado, assume um discurso de orgulho da diferen\u00e7a e cr\u00ea que, para combater a homofobia religiosa, \u00e9 necess\u00e1rio que inicialmente haja uma igreja espec\u00edfica. Al\u00e9m disso, \u00e9 freq\u00fcente a participa\u00e7\u00e3o de l\u00edderes dessa institui\u00e7\u00e3o em paradas gays e f\u00f3runs pol\u00edticos LGBT, contribuindo para a discuss\u00e3o, por exemplo, da implementa\u00e7\u00e3o do PL122\/2006, que prev\u00ea a criminaliza\u00e7\u00e3o da homofobia. A estreita rela\u00e7\u00e3o entre a ICM e a milit\u00e2ncia se comprova no fato de a igreja funcionar dentro da sede do <a href=\"http:\/\/corsa.wikidot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Grupo Corsa<\/A>, reconhecida organiza\u00e7\u00e3o ativista de S\u00e3o Paulo. Outra atua\u00e7\u00e3o da congrega\u00e7\u00e3o religiosa est\u00e1 relacionada \u00e0 luta contra a Aids, bandeira que levanta desde sua funda\u00e7\u00e3o, assim como a den\u00fancia da exclus\u00e3o de pessoas LGBT da hist\u00f3ria do cristianismo. Por outro lado, a ICC revela uma preocupa\u00e7\u00e3o em ampliar o universo de fi\u00e9is, buscando atrair para os cultos tamb\u00e9m heterossexuais. Nesse processo, o foco \u00e9 transferido aos exclu\u00eddos de maneira mais ampla, como mulheres, negros e todos aqueles que por algum motivo n\u00e3o tenham encontrado espa\u00e7o nas igrejas crist\u00e3s devido aos dogmas. Por tr\u00e1s dessas mudan\u00e7as est\u00e1, segundo Natividade, a inten\u00e7\u00e3o de se tornar uma igreja legitimamente aceita no universo hegem\u00f4nico, livre dos estigmas comumente imputados aos homossexuais.<BR>  <P>&ldquo;Eles v\u00e3o aderir a uma vis\u00e3o, presente no universo religioso mais amplo, de que a sexualidade deve ser regulada. Em termos de uma moral sexual, portanto, eles t\u00eam maior di\u00e1logo com as igrejas mais convencionais, embora entendam que a miss\u00e3o de seu grupo tamb\u00e9m esteja associada \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o da homofobia religiosa. A monogamia e as rela\u00e7\u00f5es conjugais est\u00e1veis s\u00e3o valorizadas nesse ambiente religioso inclusivo mais pentecostal. Nesse sentido, h\u00e1 toda uma tentativa de formular os princ\u00edpios de uma homossexualidade santificada, crist\u00e3&rdquo;, em continuidade com certos valores do <I>ethos<\/I> evang\u00e9lico hegem\u00f4nico, destaca o pesquisador.<BR>  <P>O aumento do rigor em termos doutrin\u00e1rios se traduziu na amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de fi\u00e9is: no per\u00edodo em que foi conduzida a pesquisa a Igreja Crist\u00e3 Contempor\u00e2nea passou de 20 membros para cerca de 200, muitos dos quais homossexuais provenientes de outras igrejas evang\u00e9licas, como a Assembl\u00e9ia de Deus, a Batista e a Universal do Reino de Deus. No entanto, a igreja inclusiva com maior n\u00famero de fi\u00e9is hoje no Brasil se encontra em S\u00e3o Paulo. Batizada de Comunidade Crist\u00e3 Nova Esperan\u00e7a, tamb\u00e9m de vertente pentecostal, a igreja conta com aproximadamente 400 membros. Natividade destaca ainda que o movimento n\u00e3o se limita ao eixo Rio-S\u00e3o Paulo, havendo iniciativas em Bras\u00edlia, Belo Horizonte, Fortaleza, entre outras capitais brasileiras.<BR>  <P>Mas se o movimento inclusivo hoje se disseminou e atingiu certa visibilidade, tal resultado se deve \u00e0 iniciativa de um pastor heterossexual. Nehemias Marien foi o primeiro, na d\u00e9cada de 1990, a manifestar a inten\u00e7\u00e3o de que seus cultos, conduzidos na Igreja Presbiteriana de Copacabana (IPC), pudessem alcan\u00e7ar todos aqueles de alguma maneira se sentiam exclu\u00eddos da f\u00e9 crist\u00e3. Apesar da amplitude da proposta &ndash; de fato, a IPC n\u00e3o se classifica como uma igreja inclusiva &ndash; havia a freq\u00fc\u00eancia de fi\u00e9is homossexuais e a igreja passou a ser noticiada pela m\u00eddia como &ldquo;igreja gay&rdquo;.<BR>  <P>&ldquo;Junto a essa igreja surge um movimento de milit\u00e2ncia em torno da quest\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Esse foi um marco pioneiro das igrejas inclusivas no Rio de Janeiro, a primeira tentativa de produzir uma jun\u00e7\u00e3o do cristianismo com uma vis\u00e3o positiva da homossexualidade&rdquo;, comenta o antrop\u00f3logo.<BR>  <P>Buscar romper com o paradigma da homossexualidade entendida como pecado, n\u00e3o foi (como ainda n\u00e3o \u00e9) uma tarefa simples. Na ocasi\u00e3o, o pastor Nehemias foi extremamente atacado no universo evang\u00e9lico, chegando inclusive a ser destitu\u00eddo, anos mais tarde, da hierarquia da denomina\u00e7\u00e3o. Segundo Natividade, agress\u00f5es verbais at\u00e9 hoje s\u00e3o freq\u00fcentes e l\u00edderes religiosos que est\u00e3o \u00e0 frente de igrejas inclusivas s\u00e3o, n\u00e3o raro, classificados como &ldquo;pastores do diabo&rdquo; e &ldquo;falsos profetas&rdquo;. O desafio dessas pessoas \u00e9, na avalia\u00e7\u00e3o do pesquisador, lidar com a tentativa de desqualifica\u00e7\u00e3o da teologia da qual s\u00e3o adeptos e com a percep\u00e7\u00e3o de que, para a maioria, sua miss\u00e3o religiosa \u00e9 encarada como uma afronta a Deus.<BR>  <P>Com efeito, no campo religioso evang\u00e9lico o discurso sobre a cura e a liberta\u00e7\u00e3o da homossexualidade \u00e9 hegem\u00f4nico. Ao longo da pesquisa, Natividade observou inclusive o surgimento de v\u00e1rios grupos que se auto-denominam &ldquo;movimentos de apoio&rdquo; e que buscam auxiliar aqueles interessados em &ldquo;curar-se&rdquo; da homossexualidade. Entre estas iniciativas inter-denominacionais &ndash; assim classificadas por congregarem v\u00e1rias vertentes religiosas &ndash; se encontra o Movimento pela Sexualidade Sadia, o Corpo de Psic\u00f3logos e Psiquiatras Crist\u00e3os e a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Apoio aos que Desejam Deixar a Homossexualidade. Articulados na proposta de terapia de cura e de retorno \u00e0 heterossexualidade, os integrantes de tais grupos em geral associam o tratamento religioso do tema \u00e0 suas forma\u00e7\u00f5es laicas (em medicina, psicologia, entre outras \u00e1reas). O resultado s\u00e3o terapias h\u00edbridas, que unem religi\u00e3o, ci\u00eancia e magia, em torno da id\u00e9ia de que a sexualidade pode ser objeto de &ldquo;cura espiritual&rdquo;.<BR>  <P>De acordo com o antrop\u00f3logo, a forma como a quest\u00e3o da sexualidade \u00e9 tratada no campo evang\u00e9lico hegem\u00f4nico faz parte de uma tentativa mais ampla de lidar com os &ldquo;problemas da vida moderna&rdquo;. N\u00e3o \u00e0 toa, h\u00e1 uma vasta literatura, parte do que se poderia chamar de um &ldquo;fen\u00f4meno de auto-ajuda&rdquo; dentro do universo evang\u00e9lico. Tal bibliografia busca dar orienta\u00e7\u00f5es sobre como lidar, seguindo os princ\u00edpios de uma vida crist\u00e3, n\u00e3o apenas com a quest\u00e3o da homossexualidade, mas tamb\u00e9m com situa\u00e7\u00f5es de depress\u00e3o, conflitos familiares, entre outros temas.<BR>  <P>Interessado n\u00e3o s\u00f3 na cosmologia das igrejas inclusivas, mas tamb\u00e9m nos personagens que comp\u00f5em esta hist\u00f3ria, Natividade buscou compreender e mapear as trajet\u00f3rias religiosas das pessoas que integram estes movimentos. Entre os 32 entrevistados, uma parcela pertencia a igrejas convencionais, mas procurava conciliar sua orienta\u00e7\u00e3o sexual ao pertencimento religioso. Entre estes, o pesquisador p\u00f4de perceber que o &ldquo;cultivo do segredo&rdquo; foi a estrat\u00e9gia adotada para gerenciar as identidades vistas como conflitantes.<BR>  <P>&ldquo;Dentro de uma igreja evang\u00e9lica pentecostal, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel ser gay? Sim, desde que isso seja gerenciado pelo cultivo do segredo. Quer dizer, os pastores n\u00e3o podem saber. Porque quando a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 revelada existem san\u00e7\u00f5es institucionais, propostas de regenera\u00e7\u00e3o moral, convites para participar de correntes de liberta\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 a pr\u00f3pria perda de cargos. Essa \u00e9 uma importante dimens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de poder dentro dos espa\u00e7os religiosos conservadores hoje&rdquo;, analisa.<BR>  <P>Ainda sobre esta parcela dos entrevistados, Natividade chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a maioria vivencia enormes conflitos subjetivos, na medida em que se percebe como gay, mas se sente em pecado, j\u00e1 que compartilha a id\u00e9ia de que sua orienta\u00e7\u00e3o sexual implica em um afastamento de Deus. De acordo com o pesquisador, h\u00e1 pessoas que chegam a abrir m\u00e3o de exercer determinadas fun\u00e7\u00f5es na igreja, como a de obreiro, por exemplo, por acharem que n\u00e3o comungam do &ldquo;estado de pureza&rdquo; necess\u00e1rio para tal. H\u00e1 tamb\u00e9m casos de rompimento com a religi\u00e3o e sa\u00edda da denomina\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>Um segundo grupo de entrevistados, por outro lado, estava buscando aderir \u00e0 norma e mudar de orienta\u00e7\u00e3o sexual. Naquele momento, se percebiam em luta na esfera da sexualidade e viviam uma imensa tens\u00e3o entre aceitar-se ou n\u00e3o. A motiva\u00e7\u00e3o do pesquisador ao procurar essas pessoas era compreender o poder de atra\u00e7\u00e3o das igrejas, com suas promessas de cura e liberta\u00e7\u00e3o, \u00e0queles que enfrentam dilemas no que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual. A partir das entrevistas, o antrop\u00f3logo concluiu que a ades\u00e3o a essas igrejas est\u00e1 relacionada \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o alvos de discrimina\u00e7\u00e3o, ao sofrimento que isso implica e \u00e0 tentativa de se adequarem ao modelo proposto pela religi\u00e3o. Em comum esses entrevistados t\u00eam o fato de que muitos foram criados em fam\u00edlias religiosas, assim como aqueles que freq\u00fcentam as igrejas inclusivas. Com efeito, alguns s\u00e3o filhos e netos de pastores, isto \u00e9, lidam com a quest\u00e3o da hierarquia religiosa dentro do pr\u00f3prio ambiente dom\u00e9stico.<BR>  <P>Sobre os fi\u00e9is das igrejas inclusivas, o \u00faltimo grupo de entrevistados, Natividade afirma ter identificado uma importante mudan\u00e7a, na medida em que essas pessoas passam a desenvolver uma vis\u00e3o positiva de si, percebendo-se n\u00e3o mais como pecadoras, mas como sujeitos que podem conciliar a vida religiosa e suas prefer\u00eancias sexuais.<BR>  <P>&ldquo;H\u00e1 todo um aprendizado na igreja de que Deus os aceita, de que os inclui, independentemente da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Nesse sentido, h\u00e1 formula\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas naturalizantes, que informam que a orienta\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o divina e por isso certos indiv\u00edduos &lsquo;nascem&rsquo; homossexuais. Na hermen\u00eautica inclusiva, essa sexualidade \u00e9 positiva, uma &lsquo;b\u00ean\u00e7\u00e3o divina&rsquo;, n\u00e3o uma possess\u00e3o ou influ\u00eancia de Satan\u00e1s, percep\u00e7\u00e3o que prevalece nas igrejas convencionais&rdquo;, conclui o antrop\u00f3logo. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor de tesis de doctorado sobre las llamadas &ldquo;iglesias inclusivas&rdquo;, el antrop\u00f3logo brasile\u00f1o Marcelo Natividad considera que la particularidad de estas iglesias&nbsp;es su propuesta pol\u00edtica de deconstrucci\u00f3n de la homofobia religiosa. <EM>(Texto en portugu\u00e9s)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>\u201cIglesias inclusivas\u201d - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/iglesias-inclusivas\/1198\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u201cIglesias inclusivas\u201d - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Autor de tesis de doctorado sobre las llamadas &ldquo;iglesias inclusivas&rdquo;, el antrop\u00f3logo brasile\u00f1o Marcelo Natividad considera que la particularidad de estas iglesias&nbsp;es su propuesta pol\u00edtica de deconstrucci\u00f3n de la homofobia religiosa. 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