{"id":1199,"date":"2009-02-12T00:00:00","date_gmt":"2009-02-12T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2009\/02\/12\/el-rey-momo-y-el-arco-iris\/"},"modified":"2009-02-12T00:00:00","modified_gmt":"2009-02-12T02:00:00","slug":"el-rey-momo-y-el-arco-iris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/el-rey-momo-y-el-arco-iris\/1199\/","title":{"rendered":"El Rey Momo y el Arco iris"},"content":{"rendered":"<p>O que \u00e9 carnaval? Como entender esta festa que interrompe as atividades cotidianas no Brasil a cada ano? Por alguns dias, blocos e escolas de samba competem entre si com enredos car\u00edssimos e ef\u00eameros, enquanto homens e mulheres se rendem aos prazeres da carne. No livro <I>O Rei Momo e o Arco-\u00cdris: homossexualidade e carnaval<\/I> (CLAM\/Garamond), que ser\u00e1 lan\u00e7ado no dia 18 de fevereiro de 2009, \u00e0s 19h,&nbsp;na Livraria DaConde (rua Cde Bernadotte, 26, loja 125, Leblon), o antrop\u00f3logo Fabiano Gontijo (UFPI) procura compreender os significados do carnaval, especificamente para aqueles &ldquo;que mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es sexuais preferencialmente com pessoas do mesmo sexo&rdquo;. A defini\u00e7\u00e3o, segundo o autor, permite manter clara a distin\u00e7\u00e3o entre desejos e pr\u00e1ticas sexuais, por um lado, e as identidades, por outro. Nesta entrevista, Fabiano Gontijo revela os questionamentos que o levaram a realizar a pesquisa que resultou no livro, avalia as conseq\u00fc\u00eancias sociais e culturais da AIDS e destaca como o ritual carnavalesco abre caminho para uma maior permissividade e visibilidade da homossexualidade. &ldquo;O ritual cria experi\u00eancia&rdquo;, afirma o autor, acrescentando ser esta uma das maiores li\u00e7\u00f5es que a Antropologia o ensinou.<BR>  <P><B>Quais foram as inquieta\u00e7\u00f5es que o motivaram a realizar a pesquisa que resultou no livro?<\/B>  <P>Enquanto cursava a gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia, com \u00eanfase em Etnologia, na Universidade da Proven\u00e7a, no sul da Fran\u00e7a, comecei a me interessar, de maneira mais cr\u00edtica, pelos efeitos nefastos da AIDS ao meu redor, na vida social da qual eu fazia parte. Em minhas leituras dos textos que problematizavam a AIDS naquele momento, in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, eu me dei conta de que, mais do que simplesmente um v\u00edrus, a tal &ldquo;pandemia&rdquo; envolvia uma s\u00e9rie de representa\u00e7\u00f5es, imagens, pensamentos, percep\u00e7\u00f5es, matrizes de classifica\u00e7\u00e3o, enfim, uma s\u00e9rie de elementos simb\u00f3licos que constitu\u00edam um contexto social bem particular. Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que a AIDS, em suas conseq\u00fc\u00eancias sociais e culturais, estava contribuindo para a estrutura\u00e7\u00e3o de um certo modelo de sociedade: qualquer pesquisa que eu fizesse, principalmente aquelas que tratariam dos aspectos simb\u00f3licos e representacionais dos corpos, das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e da sexualidade, teria que levar em considera\u00e7\u00e3o esse contexto. Nesse momento, eu precisava realizar uma pesquisa para meu trabalho de conclus\u00e3o de curso. Procurei entender como se organizavam aqueles territ\u00f3rios extremamente identit\u00e1rios freq\u00fcentados por homossexuais nas praias do Rio de Janeiro, em particular aquele situado em frente ao Copacabana Palace Hotel e conhecido pelos freq\u00fcentadores como &ldquo;Bolsa de Copacabana&rdquo;. Minha preocupa\u00e7\u00e3o era a de compreender como aqueles homossexuais se serviam daquele espa\u00e7o-tempo de sociabilidade da praia para formular e reformular suas identidades, tendo as conseq\u00fc\u00eancias sociais e culturais da AIDS como pano de fundo. Minha imers\u00e3o naquele mundo de corpos seminus, por\u00e9m marcados socialmente, me fez entender outra coisa: aqueles homossexuais se constru\u00edam, em termos identit\u00e1rios, por compara\u00e7\u00e3o ou por oposi\u00e7\u00e3o com os homossexuais freq\u00fcentadores de um outro territ\u00f3rio identit\u00e1rio, aquele da praia de Ipanema, em frente \u00e0 Rua Farme de Amoedo. Eu estava diante de dois &ldquo;mundos&rdquo;, com suas pr\u00e1ticas, suas regras, suas singularidades&#8230; Copacabana, bairro decadente, tinha em seu territ\u00f3rio &ldquo;gay&rdquo; uma grande diversidade de tipos ou &ldquo;imagens identit\u00e1rias&rdquo;, como passei a chamar a partir de ent\u00e3o, t\u00edpica da efervesc\u00eancia social do final da d\u00e9cada de 1970 e do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Ao passo que Ipanema, bairro em voga, tinha em seu territ\u00f3rio &ldquo;gay&rdquo; menos diversidade e muito mais homogeneidade em suas &ldquo;imagens identit\u00e1rias&rdquo;, basicamente representadas por corpos &ldquo;malhados&rdquo;, &ldquo;definidos&rdquo;, t\u00edpicas da d\u00e9cada de 1990&#8230; Por um lado, os corpos afeminados e marcados pelas in\u00fameras aplica\u00e7\u00f5es de silicone e outros produtos das travestis e transexuais, os corpos morenos e moldados pelo servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio dos <I>boys<\/I> e mich\u00eas, os corpos peludos e envelhecidos das <I>mariconas<\/I>, etc. Por outro, os corpos masculinizados constru\u00eddos em academias de gin\u00e1stica, os corpos sadios e &ldquo;energizados&rdquo; oriundos das preocupa\u00e7\u00f5es com a sa\u00fade individual&#8230; Na verdade, aquilo era a ponta de um iceberg, a ponta do <I>meu<\/I> iceberg de observa\u00e7\u00e3o: eu estava diante de dois modelos societais, um &ldquo;moderno&rdquo;, pr\u00e9-AIDS, e um modelo &ldquo;p\u00f3s-moderno&rdquo; ou &ldquo;supermoderno&rdquo; ou sei-l\u00e1-o-que, p\u00f3s-AIDS. Tentei aprofundar essa oposi\u00e7\u00e3o estrutural na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. Lembrei que meus entrevistados falavam com muita freq\u00fc\u00eancia do carnaval, o tempo todo, e eu via, durante o carnaval, a maneira singular como se comportavam. Algo acontecia que eu n\u00e3o sabia ainda explicar ou interpretar&#8230; Por que tantos homossexuais gostavam do carnaval e consideravam aquele o momento mais importante do ano? Foi quando, aprofundando minhas leituras de teoria antropol\u00f3gica, com a ajuda de meu orientador na \u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Science Sociales (EHESS), Michel Agier, fui levado a perceber a import\u00e2ncia dos espa\u00e7os-tempos rituais para a formula\u00e7\u00e3o das identidades. Limitei meus trabalhos de disserta\u00e7\u00e3o de mestrado e de tese de doutorado ao estudo de alguns espa\u00e7os-tempos rituais que me pareciam, em hip\u00f3tese, realmente fundamentais para a formula\u00e7\u00e3o e a reformula\u00e7\u00e3o das identidades homossexuais no contexto do Rio de Janeiro: os ensaios e desfiles das escolas de samba, as &ldquo;sa\u00eddas&rdquo; dos blocos e bandas, os bailes e festas carnavalescas. Ao longo da segunda metade da d\u00e9cada de 1990 e da primeira metade da d\u00e9cada de 2000, etnografei a fundo essas &ldquo;situa\u00e7\u00f5es&rdquo; rituais do carnaval carioca, n\u00e3o s\u00f3 para a disserta\u00e7\u00e3o e para a tese na EHESS, mas tamb\u00e9m para o est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.<BR>  <P><B>Como foi a experi\u00eancia de mergulhar no universo do carnaval carioca?<\/B>  <P>Toda pesquisa etnogr\u00e1fica envolve dor e prazer. No meu caso, acho que foi mais prazeroso do que doloroso. Pelo fato de ter ido muito jovem realizar meus estudos na Fran\u00e7a, eu me sentia meio estrangeiro quando lan\u00e7ava meu olhar para as coisas do Brasil. E foi meio assim que mergulhei no carnaval, como algu\u00e9m que pouco conhecia aquela realidade e, sobretudo, algu\u00e9m que n\u00e3o tinha muito a ver com carnaval&#8230; Apoiado na no\u00e7\u00e3o de &ldquo;situa\u00e7\u00e3o social&rdquo;, escolhi um conjunto de situa\u00e7\u00f5es sociais do carnaval carioca para, a partir de observa\u00e7\u00f5es <I>in locu<\/I>, buscar elementos que levassem a interpreta\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis sobre a rela\u00e7\u00e3o entre homossexualidades identit\u00e1rias e ritualiza\u00e7\u00f5es carnavalescas. O carnaval carioca \u00e9 constitu\u00eddo por uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es, como os ensaios e os desfiles das escolas de samba, as &ldquo;sa\u00eddas&rdquo; dos blocos e bandas e os bailes e festas alternativas. De 1995 a 2002, freq\u00fcentei e observei, de maneira sistem\u00e1tica, centenas de ensaios de escolas de samba de todos os tipos (ensaios de &ldquo;curti\u00e7\u00e3o&rdquo;, ensaios &ldquo;t\u00e9cnicos&rdquo;, ensaios de bateria, ensaios de baianas, etc) e fui, durante quatro anos, aos desfiles no Samb\u00f3dromo para examinar e fotografar, principalmente, os &ldquo;bastidores&rdquo; da festa, ou seja, a &ldquo;concentra\u00e7\u00e3o&rdquo; e a &ldquo;dispers\u00e3o&rdquo; das escolas, al\u00e9m de ter convivido assiduamente com os preparativos dos desfiles em ateli\u00eas e &ldquo;barrac\u00f5es&rdquo;. Em <I>O Rei Momo e o Arco-\u00cdris<\/I>, n\u00e3o trato das escolas de samba, devido \u00e0 enorme quantidade de informa\u00e7\u00f5es coletadas, optando por uma publica\u00e7\u00e3o posterior espec\u00edfica sobre essas situa\u00e7\u00f5es sociais. No livro, apresento alguns resultados sobre as situa\u00e7\u00f5es bem conhecidas dos cariocas, mas pouco estudadas de maneira sistem\u00e1tica: os blocos e bandas que comp\u00f5em o chamado <I>carnaval de rua<\/I> e os bailes e festas alternativas que fazem o <I>carnaval de sal\u00e3o<\/I>. Participei de centenas de &ldquo;sa\u00eddas&rdquo; de blocos e bandas pelas ruas dos bairros de todas as zonas da cidade do Rio de Janeiro e de Niter\u00f3i, prestigiando, para fins de an\u00e1lise, a pioneira Banda de Ipanema e uma de suas dissidentes, a Banda Carmen Miranda. Esta \u00faltima surgiu no mesmo momento em que despontou o Simpatia \u00c9 Quase Amor, uma das bandas-sensa\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 2000, juntamente com o Suvaco de Cristo, tamb\u00e9m como dissid\u00eancia da Banda de Ipanema: a primeira, estruturando-se como uma banda abertamente homossexual, enquanto a segunda, como uma banda mais &ldquo;alternativa&rdquo; e menos &ldquo;pop&rdquo;, ou, por que n\u00e3o dizer, menos gay do que a banda-m\u00e3e. Buscamos, no livro, mostrar como o carnaval de rua do Rio de Janeiro parte dos cord\u00f5es, ranchos e blocos, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e chega \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, na d\u00e9cada de 1960, por intelectuais, jornalistas e artistas, moradores da zona sul da cidade, da Banda de Ipanema, t\u00e3o exaltada por homossexuais na d\u00e9cada de 1970 e, a partir da d\u00e9cada de 1980, inchada, geradora de in\u00fameras bandas, transformando-se na pioneira de um modelo novo de carnaval. O que representou a Banda Carmen Miranda, ao longo da d\u00e9cada de 1990 at\u00e9 seu desaparecimento, para aqueles indiv\u00edduos que freq\u00fcentavam suas coloridas, divertidas e animadas &ldquo;sa\u00eddas&rdquo;? E a Banda de Ipanema, o que representa, ao longo da mesma d\u00e9cada e na d\u00e9cada atual? As respostas est\u00e3o no livro.<BR>  <P>Quanto aos bailes e \u00e0s festas alternativas, tentei mostrar como, ao longo do s\u00e9culo XX, alguns bailes realizados em teatros v\u00e3o se tornando a &ldquo;coqueluche&rdquo; do tr\u00edduo momesco e, em particular, como \u00e9 que alguns desses bailes se difundem como &ldquo;abertamente&rdquo; homossexuais, ainda que os termos usados para designar os homens que <I>mais visivelmente<\/I> mantinham rela\u00e7\u00f5es sexuais com outros homens e constitu\u00edam suas identidades afeminadas a partir dessa pr\u00e1tica variassem de acordo com o momento: almofadinhas, enxutos, bonecas&#8230; Chega-se, por exemplo, no final da d\u00e9cada de 1970 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, a uma presen\u00e7a bastante louvada e divulgada pela m\u00eddia de travestis, transformistas e caricatas aos principais bailes da cidade. Muitas s\u00e3o as fotografias publicadas na prestigiad\u00edssima revista Manchete nesse per\u00edodo. Na d\u00e9cada de 1990, assim como para as bandas, acontece algo interessante com os bailes: come\u00e7am a ser realizadas, em locais muitas vezes ins\u00f3litos, festas que se diziam alternativas \u00e0 folia carnavalesca do samba, onde se escutava m\u00fasica eletr\u00f4nica tocada por DJs e a anima\u00e7\u00e3o ficava por conta, n\u00e3o mais de caricatas e transformistas, mas de <I>drag queens<\/I>. Os maiores organizadores, divulgadores e freq\u00fcentadores desse tipo novo de festas carnavalescas alternativas eram, precisamente, aqueles freq\u00fcentadores do territ\u00f3rio &ldquo;gay&rdquo; da praia de Ipanema: a &ldquo;gera\u00e7\u00e3o sa\u00fade&rdquo;, a turma &ldquo;muderninha&rdquo;, os &ldquo;barbies&rdquo;, os tais &ldquo;GLS&rdquo;&#8230; A revista Manchete perde o status de ve\u00edculo maior de difus\u00e3o de imagens impressas do carnaval e, no que resta da revista, os bailes perdem o espa\u00e7o privilegiado&#8230; ao mesmo tempo em que ganham espa\u00e7o, na cidade, as festas alternativas &ldquo;anunciadamente&rdquo; gays! Gays? N\u00e3o&#8230; Melhor, &ldquo;GLS&rdquo;. Escolhi duas situa\u00e7\u00f5es do carnaval de sal\u00e3o para tratar mais detalhadamente no livro, por se tratarem de situa\u00e7\u00f5es &ldquo;abertamente&rdquo; homossexuais: os bailes realizados numa grande casa de espet\u00e1culos da cidade, mais voltados para travestis, e as festas organizadas numa gafieira do centro da cidade, mais voltados para &ldquo;barbies&rdquo; e &ldquo;boys&rdquo;.<BR>  <P><B>Voc\u00ea comenta no livro que durante o carnaval h\u00e1 uma maior permissividade e visibilidade da homossexualidade. Acredita que esta experi\u00eancia abre a possibilidade de haver uma maior integra\u00e7\u00e3o ou aceita\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as para al\u00e9m dos quatro dias de folia?<\/B>  <P>O que observei nessas situa\u00e7\u00f5es que cito acima \u00e9 que &ldquo;esse&rdquo; carnaval bem particular que eu descrevo n\u00e3o parece funcionar igualzinho \u00e0quilo que a literatura acad\u00eamica sobre o carnaval brasileiro vem propondo ou impondo&#8230; Carnaval, rito de passagem e de invers\u00e3o, como pregou brilhantemente Roberto DaMatta? Carnaval, exacerba\u00e7\u00e3o recontextualizada e ritualizada das fraturas, mazelas e desigualdades sociais brasileiras, como avan\u00e7ou severamente Maria Isaura Pereira de Queiroz? Ambas as interpreta\u00e7\u00f5es me parecem boas, mas incompletas ou at\u00e9 mesmo injustas. Carnaval \u00e9 rito de invers\u00e3o, sim, mas tamb\u00e9m de pervers\u00e3o, de transvers\u00e3o, de revers\u00e3o, de contravers\u00e3o, de avers\u00e3o, de intravers\u00e3o, de divers\u00e3o&#8230; Ritual \u00e9 vers\u00e3o e, como tal, verte sobre algo&#8230; Quando uma banda passa, pessoas que est\u00e3o nas imedia\u00e7\u00f5es correm para ver a banda, remexem o corpo ao ritmo da m\u00fasica, mas outras pessoas fogem da banda ou ficam a observar de longe, \u00e0s vezes do alto de seus apartamentos, refletindo sobre e espantando-se com o que est\u00e1 acontecendo&#8230; No meio da banda, corpos suados e seminus se esfregam uns nos outros com sensualidade e tes\u00e3o, cervejas e bebidas alco\u00f3licas e cigarros e certas subst\u00e2ncias alucin\u00f3genas s\u00e3o ingeridos a dois passos de policiais que tentam controlar o tr\u00e2nsito e a multid\u00e3o, vendedores ambulantes empurram violentamente seus carrinhos pensando em maximizar seu lucro, jovens ladr\u00f5es passeiam suas m\u00e3os entre bolsos e bolsas no af\u00e3 de encontrar algum dinheiro que lhes permita suprir a necessidade de cola de sapateiro, turistas que fotografavam a paisagem da praia coroada pelo Morro Dois Irm\u00e3os s\u00e3o pegos de surpresa no turbilh\u00e3o enlouquecedor&#8230; Enquanto isso, do outro lado da cidade, um traficante est\u00e1 reunido com seus s\u00faditos para distribuir a droga rec\u00e9m-chegada em seu feudo e saudar um grupo de novos &ldquo;avi\u00f5ezinhos&rdquo;, fi\u00e9is evang\u00e9licos est\u00e3o pregando a palavra do Senhor na Pra\u00e7a Quinze e discutem com um grupo de foli\u00f5es embriagados que estava a caminho de casa em Niter\u00f3i, garis est\u00e3o limpando a sujeira deixada pelos blocos na noite anterior na Avenida Rio Branco e conversam sobre a &ldquo;popozuda&rdquo; estampada na capa da \u00faltima Playboy, tr\u00eas porteiros nordestinos de uma mesma fam\u00edlia est\u00e3o se despedindo de seus parentes na rodovi\u00e1ria antes de embarcar de volta para Ipu, enfim&#8230; A vida continua friamente para muita gente, sem invers\u00e3o, mesmo para alguns que est\u00e3o no centro do calor da folia. Para aqueles homossexuais que est\u00e3o no meio de uma banda, por exemplo, algumas coisas parecem que podem ser feitas ali, naquele momento e naquele lugar, e que n\u00e3o poderiam ser feitas, seja naquele lugar mas em outros momentos, seja naquele momento mas em outro lugar&#8230; O ritual permite isso, <I>permissividade<\/I>&#8230; Quem est\u00e1 de fora, v\u00ea coisas que n\u00e3o veria em outros momentos: senhoras que saem da missa de 16hs na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, em pleno domingo de carnaval, se deparam, meio que sem querer, com a banda passando e, no interior da banda, trenzinhos de homens se beijando. Ficam chocadas? Talvez, num primeiro momento, sim. Fingem que n\u00e3o v\u00eaem, mas as imagens atormentam sua mem\u00f3ria ao longo do ano. Mas, acabam se habituando com a vis\u00e3o e se chocam menos das pr\u00f3ximas vezes. Pois, sabem que&#8230; ali \u00e9 carnaval! Mas, ao longo do tempo, essas senhoras percebem que aquele beijo \u00e9 forma de demonstra\u00e7\u00e3o de carinho, da mesma forma que aqueles rapazes que se beijavam ali e naquele momento come\u00e7am a se beijar tamb\u00e9m fora dali e daquele momento: <I>visibilidade<\/I>. O ritual cria experi\u00eancia. Essa \u00e9 uma das maiores li\u00e7\u00f5es que a Antropologia me ensinou.<BR>  <P><B>No livro voc\u00ea critica as reivindica\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o de fato da uni\u00e3o civil entre homossexuais e afirma que grande parte dos homossexuais adapta-se ao sistema hier\u00e1rquico de g\u00eanero. Poderia desenvolver essas quest\u00f5es?<\/B>  <P>Termino o livro com uma an\u00e1lise cr\u00edtica, ainda que bem cheia de lacunas e humilde, da maneira como os movimentos sociais de gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transg\u00eaneros estavam pautando suas reivindica\u00e7\u00f5es ao longo da d\u00e9cada de 1990. Tenho tentado demonstrar em outros trabalhos, publicados ao longo da d\u00e9cada de 2000 e instigados pela minha rela\u00e7\u00e3o com os movimentos homossexuais piauienses, que pol\u00edticas de (re)distribui\u00e7\u00e3o devem necessariamente se alinhar a pol\u00edticas de reconhecimento, como sugere Nancy Fraser. Ou seja, n\u00e3o bastaria um conjunto de leis que assegurassem certos direitos a homossexuais se n\u00e3o houvesse, paralelamente, uma esp\u00e9cie de &ldquo;trabalho cultural&rdquo; para fazer com que muitas pessoas n\u00e3o mais se choquem diante de um beijo p\u00fablico entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. N\u00e3o sou contr\u00e1rio \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es dos movimentos homossexuais, nem poderia ser, pois ajudei na estrutura\u00e7\u00e3o dos movimentos homossexuais piauienses. Nem sou contr\u00e1rio \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o civil entre homossexuais. Tenho visto, em algumas discuss\u00f5es de certas parcelas dos movimentos homossexuais, uma tentativa perigosa, a meu ver, de adequar ou adaptar suas experi\u00eancias da conjugalidade e da parentalidade \u00e0quelas delimitadas, at\u00e9 ent\u00e3o, pela heteronormatividade caduca&#8230; e, logo, reproduzindo o sistema hier\u00e1rquico de g\u00eanero. Minhas pesquisas atuais e as pesquisas de alguns colegas, como Anna Paula Uziel, Luiz Mello e Miriam Grossi, v\u00eam mostrando formas de conjugalidades e de parentalidades bastante diferentes, por\u00e9m muitas vezes ainda consideradas mais ou menos ileg\u00edtimas. \u00c9 necess\u00e1rio, no entanto, que a valoriza\u00e7\u00e3o e o respeito da diversidade cultural, em todos os seus aspectos, sejam divulgados como um princ\u00edpio b\u00e1sico da vida social nos dias de hoje.<BR>  <P><B>Segundo suas palavras, no Brasil somente o modelo econ\u00f4mico tenta realmente integrar os homossexuais \u00e0 &ldquo;normalidade&rdquo;. A que atribui isto?<\/B>  <P>A categoria &ldquo;GLS&rdquo;, gays, l\u00e9sbicas e <I>simpatizantes<\/I>, teria sido forjada em meados da d\u00e9cada de 1990 para designar, parece-me, n\u00e3o somente gays e l\u00e9sbicas, mas <I>sobretudo<\/I> esses tais &ldquo;simpatizantes&rdquo;. Escrevi um artigo sobre esses <I>simpatizantes<\/I> para o Boletim Sexualidade, G\u00eanero e Sociedade, do IMS\/UERJ. Esperava que fosse ter certa repercuss\u00e3o, mas, curiosamente, n\u00e3o teve. Sem me aprofundar muito aqui, eu percebi, j\u00e1 na tese que agora vira livro, que na economia de mercado global, com seus mecanismos de exclus\u00e3o e <I>tamb\u00e9m de inclus\u00e3o<\/I>, a pauta da &ldquo;pol\u00edtica das identidades&rdquo; e a diversidade cultural pareciam ter certa posi\u00e7\u00e3o privilegiada, dentro de certos limites, claro. O termo &ldquo;GLS&rdquo; \u00e9 forjado para dar conta de uma parcela do mercado, baseando-se, talvez, na id\u00e9ia de que o consumo, mais do que a produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o, \u00e9 a atividade mais prestigiada da economia no mundo de hoje. E o consumo <I>identit\u00e1rio<\/I> ainda mais, principalmente nessa &ldquo;era do reconhecimento&rdquo; que caracteriza nosso tempo. No entanto, partes dos movimentos homossexuais t\u00eam dificuldade em aceitar o mercado como poss\u00edvel lugar de reden\u00e7\u00e3o ou, melhor, como elemento-chave na estrutura\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. Da\u00ed o fato, por exemplo, de essas partes dos movimentos homossexuais rejeitarem o termo &ldquo;GLS&rdquo; e, at\u00e9 certo ponto, negarem a exist\u00eancia de algo que pudesse ser designado como &ldquo;simpatizantes&rdquo;. N\u00e3o desenvolvo essa discuss\u00e3o no livro, mas deixo um questionamento que ser\u00e1 aprofundado mais tarde, por mim ou por outros.<BR> <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>El antrop\u00f3logo Fabiano Gontijo (UFPI), autor de <EM>O Rei Momo e o Arco-\u00edris: homossexualidade e carnaval no Rio de Janeiro <\/EM>que se presentar\u00e1 el 18 de febrero, analiza c\u00f3mo el ritual carnavalesco abre camino para una mayor visibilidad de la homosexualidad. <EM>(Texto en portugu\u00eas)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>El Rey Momo y el Arco iris - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/el-rey-momo-y-el-arco-iris\/1199\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"El Rey Momo y el Arco iris - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"El antrop\u00f3logo Fabiano Gontijo (UFPI), autor de O Rei Momo e o Arco-\u00edris: homossexualidade e carnaval no Rio de Janeiro que se presentar\u00e1 el 18 de febrero, analiza c\u00f3mo el ritual carnavalesco abre camino para una mayor visibilidad de la homosexualidad. 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