{"id":1212,"date":"2009-06-24T00:00:00","date_gmt":"2009-06-24T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2009\/06\/24\/homosexualidad-y-psicoanalisis\/"},"modified":"2009-06-24T00:00:00","modified_gmt":"2009-06-24T03:00:00","slug":"homosexualidad-y-psicoanalisis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/homosexualidad-y-psicoanalisis\/1212\/","title":{"rendered":"Homosexualidad y psicoan\u00e1lisis"},"content":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e homossexualidade dificilmente pode ser considerada est\u00e1vel. A posi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio fundador da disciplina, que possu\u00eda uma compreens\u00e3o &ldquo;perversa polimorfa&rdquo; da sexualidade, na qual&nbsp;<I>&ldquo;todos os seres humanos s\u00e3o capazes de fazer uma escolha de objeto homossexual e que de fato a consumaram no inconsciente&rdquo;<\/I>, era que a homossexualidade <I>&ldquo;n\u00e3o \u00e9 motivo de vergonha, n\u00e3o \u00e9 uma degrada\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um v\u00edcio e n\u00e3o pode ser considerada uma doen\u00e7a&rdquo;<\/I> Apesar disso, durante d\u00e9cadas as institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas promoveram uma vis\u00e3o moralizante da conduta sexual, entronizando a heterossexualidade reprodutiva como destino de uma sexualidade supostamente normal.<BR>  <P>Este debate perpassou a hist\u00f3ria da psican\u00e1lise, sendo abordado de maneiras diversas na esteira dos seus movimentos te\u00f3ricos e institui\u00e7\u00f5es. Dois psicanalistas do Rio de Janeiro, Antonio Quinet (UVA)&nbsp;e Marco Antonio Coutinho Jorge (UERJ), prop\u00f5em retomar os conceitos de Freud e de Lacan para trazer \u00e0 luz para a sociedade o que a psican\u00e1lise tem a dizer sobre o assunto. Para comemorar os 40 anos do Stonewall, evento fundador do movimento homossexual, eles organizaram o col\u00f3quio &ldquo;Homossexualidades na Psican\u00e1lise&rdquo;, que&nbsp;aconteceu na&nbsp;sexta feira, dia 26 de junho,&nbsp;no campus Tijuca da Universidade Veiga de Almeida. <a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=5502&amp;sid=3&amp;UserActiveTemplate=_BR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Clique aqui para ver a programa\u00e7\u00e3o<\/A>.<BR> <\/P> <P>Em conversa com o antrop\u00f3logo Horacio S\u00edvori, pesquisador do CLAM, Antonio Quinet e Marco Antonio Coutinho Jorge repassaram os modos como a homossexualidade foi abordada ao longo de mais de um s\u00e9culo de psican\u00e1lise, e como essa quest\u00e3o continua a instigar a teoria e pr\u00e1tica psicanal\u00edtica.<BR> <\/P> <P>Horacio S\u00edvori &ndash; Parece curioso a psican\u00e1lise se preocupar com a homossexualidade quando, na compreens\u00e3o freudiana, a sexualidade \u00e9 uma for\u00e7a cujo impulso se estruturaria para al\u00e9m, ou a despeito, de classifica\u00e7\u00f5es sexol\u00f3gicas convencionais, como a distin\u00e7\u00e3o entre hetero, homo e bissexualidade.<BR>  <P>Antonio Quinet &#8211; Freud elaborou o conceito de puls\u00e3o, para tratar justamente da &ldquo;for\u00e7a&rdquo; do &ldquo;impulso&rdquo; sexual. A puls\u00e3o sexual &ndash; a <I>Trieb<\/I> freudiana, infelizmente designada como &ldquo;instinto&rdquo; na tradu\u00e7\u00e3o brasileira &ndash; se distingue do instinto sexual pr\u00f3prio do animal, pois ela \u00e9 determinada pelo inconsciente. O &ldquo;representante da puls\u00e3o&rdquo; \u00e9 uma &ldquo;energia&rdquo; que Freud designa de &ldquo;libido&rdquo;, que \u00e9 da ordem do prazer, do desejo e do gozo. Essa puls\u00e3o est\u00e1 al\u00e9m, ou a despeito, como voc\u00ea diz, de qualquer classifica\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 ela que vai qualificar esta ou aquela atividade er\u00f3tica: a puls\u00e3o oral, anal, esc\u00f3pica, etc., constituem a sexualidade, independentemente do sexo do parceiro. No sexo, o que interessa \u00e0 puls\u00e3o sexual \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o da zona er\u00f3gena (a boca, o \u00e2nus, os genitais, mamilos, etc.). O parceiro do sexo \u00e9 um objeto que, &ldquo;na cama&rdquo;, o sujeito recorta do corpo do outro. E isso independe do g\u00eanero dos parceiros sexuais. A puls\u00e3o \u00e9 sempre parcial. E o coito genital n\u00e3o \u00e9 absolutamente uma exig\u00eancia da sexualidade, nem uma suposta &ldquo;maturidade&rdquo; da puls\u00e3o; e muito menos uma norma. A psican\u00e1lise se op\u00f5e \u00e0 pedagogia do desejo, pois esta \u00e9 uma fal\u00e1cia. N\u00e3o se pode educar a puls\u00e3o sexual. N\u00e3o se pode desvi\u00e1-la para acomod\u00e1-la aos ideais da sociedade. A puls\u00e3o segue os caminhos tra\u00e7ados pelo inconsciente, que \u00e9 individual e singular.<BR>  <P>HS &ndash; Ent\u00e3o, qual seria o lugar das chamadas identidades sexuais na teoria e pr\u00e1tica psicanal\u00edtica?<BR>  <P>AQ &#8211; Sobre a quest\u00e3o do que chamamos de orienta\u00e7\u00e3o sexual, Freud utiliza o termo de &ldquo;escolha de objeto&rdquo; para designar uma escolha homo ou heterossexual, e prop\u00f5e o conceito de bissexualidade estrutural para todo ser humano. Para a psican\u00e1lise, assim como a homossexualidade, o interesse exclusivo de um homem por uma mulher tamb\u00e9m merece esclarecimento. A investiga\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, diz Freud em seu texto premiado sobre Leonardo da Vinci, op\u00f5e-se \u00e0 tentativa de separar os homossexuais dos outros seres humanos como um \u00abgrupo de \u00edndole singular\u00bb, pois \u00abtodos os seres humanos s\u00e3o capazes de fazer uma escolha de objeto homossexual e que de fato a consumaram no inconsciente\u00bb. O complexo de \u00c9dipo, que cai no esquecimento do Inconsciente, comporta, tamb\u00e9m a liga\u00e7\u00e3o libidinal do filho para com o pai e da menina para com a m\u00e3e, al\u00e9m das liga\u00e7\u00f5es do filho com a m\u00e3e e da filha com o pai. Assim, o n\u00famero de homossexuais que se proclamam como tais, diz Freud, &ldquo;n\u00e3o \u00e9 nada em compara\u00e7\u00e3o com os homossexuais latentes&rdquo;. H\u00e1 uma diversidade enorme na homossexualidade tanto na praticada quanto na latente e sublimada. Devemos falar, portanto, de &ldquo;homossexualidades&rdquo; no plural, como est\u00e1 no t\u00edtulo de nosso Col\u00f3quio.<BR>  <P>A quest\u00e3o das identidades sexuais \u00e9 complexa. O termo identidade n\u00e3o \u00e9 um termo psicanal\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 um conceito com o qual o psicanalista opera. Este lida com as identifica\u00e7\u00f5es do sujeito que, como sujeito da linguagem, \u00e9 dividido, por estrutura, sempre entre dois significantes. N\u00e3o h\u00e1 &ldquo;gay em an\u00e1lise&rdquo; (t\u00edtulo de um congresso de psicanalistas realizado na Fran\u00e7a), e sim sujeito de desejo, sujeito do inconsciente, cuja unicidade \u00e9 falaciosamente suposta por meio de suas identifica\u00e7\u00f5es. A identifica\u00e7\u00e3o a um grupo, ou a um nome (ou a um significante definidor desse grupo) e at\u00e9 mesmo, dir\u00e1 Lacan, ao &ldquo;homem&rdquo; e \u00e0 &ldquo;mulher&rdquo; n\u00e3o define absolutamente o sujeito. E muito menos sua escolha de objeto, ou sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. Freud, como ele mesmo o diz, est\u00e1 mais pr\u00f3ximo dos gregos da Antiguidade que valorizavam mais a puls\u00e3o do que seu objeto. Ao radicalizar a separa\u00e7\u00e3o, operada por Freud, da posi\u00e7\u00e3o sexuada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 anatomia, Lacan prop\u00f5e formas distintas de gozo: o gozo f\u00e1lico, que \u00e9 o sexual propriamente dito tanto para homens quanto para mulheres, qualificado de &rdquo;masculino&rdquo;; e um gozo para al\u00e9m do falo, o &ldquo;gozo feminino&rdquo;, que ultrapassa o sexo e at\u00e9 mesmo a linguagem. Em suas &ldquo;f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o&rdquo;, Lacan situa, por exemplo, as mulheres hist\u00e9ricas do lado masculino; e do lado feminino todo aquele que se encontra no lugar de objeto de desejo, sem que isso corresponda a uma defini\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Nesse sentido, subverte totalmente a quest\u00e3o da &ldquo;identidade&rdquo;, dos grupos, redutos e guetos. O que n\u00e3o quer dizer que, em termos de estrat\u00e9gia pol\u00edtica, o tema de identidade n\u00e3o tenha sua utilidade. Mas sem que o sujeito se engane sobre essa suposta defini\u00e7\u00e3o de sua &ldquo;identidade&rdquo; singular.<BR>  <P>HS &#8211; Qual o alcance atual da despatologiza\u00e7\u00e3o da homossexualidade promovida no campo psi h\u00e1 mais de 30 anos? <\/P> <P>Antonio Quinet &#8211; Ao responder a uma m\u00e3e preocupada com a homossexualidade do filho, Freud, em 1935, aponta que esta n\u00e3o \u00e9 nenhuma desvantagem, nem tampouco uma vantagem, <I>\u00abela n\u00e3o \u00e9 motivo de vergonha, n\u00e3o \u00e9 uma degrada\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um v\u00edcio e n\u00e3o pode ser considerada uma doen\u00e7a\u00bb<\/I>. Apesar dessa indica\u00e7\u00e3o de Freud em 1935 &ndash; o qual cinco anos antes assinara uma peti\u00e7\u00e3o a favor da descriminaliza\u00e7\u00e3o da homossexualidade &ndash;, s\u00f3 em 1973 a American Psychiatric Association (APA) deixou de considerar a homossexualidade como doen\u00e7a. E isso, depois que ativistas gays, por duas vezes (1970 e 1971), invadiram o encontro anual da APA. Mas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, analistas da IPA (Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Psican\u00e1lise) se colocaram contra e fizeram um manifesto com duzentas assinaturas contra a retirada da homossexualidade da lista de doen\u00e7as. Acabaram vencidos e, mesmo assim, s\u00f3 em 1993 a OMS retirou-a da sua classifica\u00e7\u00e3o internacional de doen\u00e7as. Essas duas correntes continuam existindo na psican\u00e1lise. Hoje em dia, os analistas adeptos da concep\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a s\u00e3o menos expl\u00edcitos, pois n\u00e3o fica bem ser homof\u00f3bico. Seus discursos s\u00e3o menos violentos e repressores, mas n\u00e3o deixam de existir.<BR> <\/P> <P>Marco Antonio Coutinho Jorge &#8211; Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, os psicanalistas talvez tenham sido os que mais reagiram a esta despatologiza\u00e7\u00e3o, e ainda reagem hoje bastante a ela. Haja vista a querela sobre a homoparentalidade ocorrida na Fran\u00e7a h\u00e1 alguns anos que op\u00f4s dois grupos de psicanalistas: de um lado, Elizabeth Roudinesco e Sabine Prokhoris, entre outros, defenderam a legaliza\u00e7\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as por casais homossexuais e reconheceram o desejo deles de filia\u00e7\u00e3o como plenamente leg\u00edtimo; de outro, Jean-Pierre Winter e Charles Melman, entre outros, se opunham a isso e usavam a teoria psicanal\u00edtica como argumento para sustentar suas posi\u00e7\u00f5es altamente conservadoras. \u00c9 impressionante ver psicanalistas lacanianos assumirem posturas t\u00e3o conservadoras e mals\u00e3s, condizentes com as opini\u00f5es menos esclarecidas da popula\u00e7\u00e3o. Os psicanalistas, quando se trata de homossexualidade, se tornam freq\u00fcentemente religiosos, no sentido de que pregam uma vers\u00e3o \u00fanica da verdade para todos. Ora, n\u00f3s sabemos que a singularidade do desejo do sujeito \u00e9 a mola mestra da \u00e9tica da psican\u00e1lise, tal como sustentada por Lacan, de modo que qualquer ideal de normativiza\u00e7\u00e3o do pensamento ou do comportamento deve ser considerada anti-freudiana e anti-lacaniana. <\/P> <P>Antonio Quinet &#8211; Do ponto de vista da psican\u00e1lise, podemos pensar que esses analistas adotam o senso comum quanto ao homossexual, que provoca o imagin\u00e1rio de um gozo outro, t\u00e3o diferente &ndash; e ao mesmo tempo t\u00e3o semelhante &ndash; ao do &ldquo;normal&rdquo; que amea\u00e7a. Ent\u00e3o, para a consci\u00eancia da norma, \u00e9 melhor qualific\u00e1-lo de pervertido, n\u00e3o-confi\u00e1vel, pois \u00e9 um gozo perif\u00e9rico, da\u00ed ser peri-goso. Por outro lado, a exemplo de Ana Freud, a aceita\u00e7\u00e3o da homossexualidade do outro se encontra na depend\u00eancia de como o sujeito lida com a sua pr\u00f3pria. Quanto mais ele a rejeita em si mesmo, menos saber\u00e1 lidar com ela, podendo fazer desse outro um objeto de \u00f3dio, de agress\u00f5es e at\u00e9 de assassinato. O desejo pelo outro, ao ser recusado, pode se transformar em \u00f3dio. Da homofobia ao homoterrorismo \u00e9 um passo. Um pouco mais de an\u00e1lise n\u00e3o faria nada mal a esses analistas!<BR> <\/P> <P>HS &ndash; Existe uma pol\u00eamica desde o surgimento da psican\u00e1lise e a partir da transmiss\u00e3o dela para os disc\u00edpulos de Freud. V\u00e1rios historiadores da psican\u00e1lise mencionam uma &ldquo;puritaniza\u00e7\u00e3o&rdquo; da psican\u00e1lise, particularmente por parte de analistas norte-americanos, de quem o pr\u00f3prio Freud disse, &ldquo;eles n\u00e3o sabem que estamos a trazer a peste&rdquo;.<BR>  <P>AQ &#8211; N\u00e3o h\u00e1 um consenso e isso tem uma hist\u00f3ria que se encontra nos p\u00f3s-freudianos. Ernest Jones, bi\u00f3grafo de Freud, vai contra a posi\u00e7\u00e3o de Freud de permitir o acesso normal de homossexuais \u00e0 forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Freud considerava existir v\u00e1rios tipos de homossexualidade, e que cada caso deveria ser apreciado, assim como qualquer candidato. A historiadora da psican\u00e1lise Elisabeth Roudinesco relata que Jones, ao contr\u00e1rio, considerava que a homossexualidade &ldquo;\u00e9 um crime repugnante; se um de nossos membros o cometesse, ser\u00edamos objeto de grande descr\u00e9dito&rdquo;. Ana Freud tamb\u00e9m foi contra o pai, deturpando sua teoria, militando contra o acesso de homossexuais na psican\u00e1lise e tentando em sua cl\u00ednica converter os homossexuais em bons pais de fam\u00edlia. Logo ela que nunca foi vista com homem nenhum, e partilhou toda sua vida com uma mulher sem nunca ter se assumido homossexual. Roudinesco tamb\u00e9m lembra que Melanie Klein considerava a homossexualidade como um dist\u00farbio esquiz\u00f3ide para se defender da paran\u00f3ia. Este quadro \u00e9 o legado freudiano que chegou aos Estados Unidos e se expandiu pela Europa!<BR>  <P>Depois do Congresso da IPA de Barcelona em 1997, em que Ralph Roughton, analista didata, e outros se declararam homossexuais e tra\u00e7aram o hist\u00f3rico da quest\u00e3o do ponto de vista institucional e te\u00f3rico, podemos dizer que n\u00e3o se p\u00f4de mais tratar o tema da mesma forma repressiva na IPA. Com Lacan, houve uma retomada dos princ\u00edpios e da \u00e9tica da psican\u00e1lise, o que n\u00e3o impede hoje alguns p\u00f3s-lacanianos de tamb\u00e9m deturparem seu ensino e retomarem teses que, embora sofisticadas, s\u00e3o impregnadas da concep\u00e7\u00e3o de desvio e anormalidade, que ser\u00e3o retomadas em detalhes em nosso Col\u00f3quio.<BR>  <P>HS &#8211; Quais as defini\u00e7\u00f5es ou usos atuais da categoria \u00abpervers\u00e3o\u00bb, se n\u00e3o associada ao desvio de um desejo sexual considerado mais leg\u00edtimo ou sadio?<BR>  <P>MACJ &#8211; A homossexualidade n\u00e3o \u00e9 uma pervers\u00e3o, porque a no\u00e7\u00e3o de pervers\u00e3o implica, antes de mais nada, em que haja uma vers\u00e3o correta! \u00c9 digno de nota que a homossexualidade foi considerada originalmente uma invers\u00e3o, antes de ser tratada como uma pervers\u00e3o. A invers\u00e3o significa que algo est\u00e1 totalmente de cabe\u00e7a para baixo. V\u00ea-se que de fato trata-se sempre de crer na exist\u00eancia de uma vers\u00e3o normal e conforme da sexualidade. Esta n\u00e3o \u00e9 a minha concep\u00e7\u00e3o nem acredito que seja a de Freud. Porque a homossexualidade \u00e9, no fundo, uma subvers\u00e3o radical. Mais essencialmente ainda, considero que a homossexualidade \u00e9, na verdade, a revela\u00e7\u00e3o da subvers\u00e3o inerente \u00e0 sexualidade humana, que n\u00e3o se subordina a nenhum ideal. Se n\u00e3o h\u00e1 inscri\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual no inconsciente, como demonstraram Freud e Lacan, cada sujeito construir\u00e1 uma sexualidade &ndash; homo, hetero ou bi &ndash; absolutamente leg\u00edtima. Pois n\u00e3o cabe a ningu\u00e9m autorizar a sexualidade de ningu\u00e9m. Isso sim seria pervers\u00e3o, querer tomar-se pelo Outro e querer fazer a Lei para o desejo do Outro. Nada mais distante da psican\u00e1lise do que isso.<BR>  <P>AQ &ndash; Apesar do termo &ldquo;pervers\u00e3o&rdquo; estar articulado historicamente a &ldquo;desvio da norma&rdquo; sexual e \u00e0 no\u00e7\u00e3o de perversidade e periculosidade, a psican\u00e1lise o utiliza de maneira bem diferente. Em primeiro lugar, Freud generaliza a pervers\u00e3o: a sexualidade \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 perversa, mas &ldquo;polimorfo-perversa&rdquo;, pois a sexualidade admite toda a varia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, sendo seu objetivo unicamente a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. A conex\u00e3o da sexualidade com a reprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 um dado cient\u00edfico-religioso que o sexo desconhece. Por outro lado, pervers\u00e3o \u00e9 uma das &ldquo;estruturas cl\u00ednicas&rdquo;, ao lado da neurose e da psicose. N\u00e3o \u00e9 mais patol\u00f3gica do que as outras. S\u00e3o tr\u00eas modos de se lidar com a castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ou melhor, tr\u00eas meios de neg\u00e1-la, pois ela, tanto para o homem quanto para a mulher, gera ang\u00fastia e amea\u00e7a. Para a psican\u00e1lise, um homossexual pode ser neur\u00f3tico (hist\u00e9rico, obsessivo, f\u00f3bico), psic\u00f3tico (esquizofr\u00eanico, paran\u00f3ico) ou perverso (fetichista, s\u00e1dico, masoquista, voyeur, etc.). E mesmo dentro de cada tipo cl\u00ednico, a diversidade \u00e9 imensa. S\u00e3o tamb\u00e9m tr\u00eas maneiras de gozar: o neur\u00f3tico n\u00e3o sabe como gozar, o psic\u00f3tico atribui o gozo ao Outro, e o perverso se faz de instrumento do gozo do Outro.<BR>  <P>Identificar todo homossexual \u00e0 pervers\u00e3o \u00e9 algo que a cl\u00ednica desmente e s\u00f3 pode advir de uma leitura apressada, de preconceito ou de homofobia (a respeito da pr\u00f3pria homossexualidade ou da homossexualidade dos outros). N\u00e3o existe &ldquo;O Homossexual&rdquo;, e sim homossexuais, tanto quanto neur\u00f3ticos, psic\u00f3ticos e perversos. Lacan aproxima a pervers\u00e3o da sublima\u00e7\u00e3o, mostrando que s\u00e3o duas formas de se atingir um gozo para al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, que \u00e9 da ordem da cria\u00e7\u00e3o &ndash; o perverso com a fantasia e o artista com a obra. E, no final de seu ensino, nos anos setenta no semin\u00e1rio RSI, &ldquo;Real, Simb\u00f3lico, Imagin\u00e1rio&rdquo;, ele desconstr\u00f3i o conceito fazendo um trocadilho entre <I>perversion<\/I> e <I>p\u00e8re-version<\/I>, apontando que a pervers\u00e3o \u00e9 uma vers\u00e3o do pai, que ele designa como &ldquo;aquele pai que tem uma mulher como objeto de desejo&rdquo;. L\u00e1 onde se esperava a norma, Lacan coloca a pervers\u00e3o, como a caracter\u00edstica por excel\u00eancia da sexualidade.<BR>  <P>HS &#8211; S\u00e3o freq\u00fcentes os relatos de pacientes e de profissionais que transitaram numa an\u00e1lise ou numa forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, de pr\u00e1ticas homof\u00f3bicas por parte de analistas e de institui\u00e7\u00f5es, como a tentativa de \u00abcurar\u00bb tend\u00eancias homossexuais, ou a regra (formal ou informal, expl\u00edcita ou n\u00e3o) que impedia um\/a homossexual assumido de se tornar analista. MACJ &#8211; Tudo decorre da mesma no\u00e7\u00e3o normativizante, e eu diria mesmo pr\u00e9-freudiana, da sexualidade. Freud foi t\u00e3o claro e sereno quanto a isso: ao finalizar sua obra mais importante sobre a sexualidade, os <I>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade<\/I>, ele asseverou que \u00abquando a homossexualidade n\u00e3o \u00e9 considerada um crime [sim, porque na \u00e9poca esta quest\u00e3o era colocada desse modo em muitos lugares da Europa], ver-se-\u00e1 que ela responde amplamente \u00e0s inclina\u00e7\u00f5es sexuais de um n\u00famero n\u00e3o pequeno de pessoas\u00bb. O col\u00f3quio tratar\u00e1 desse aspecto em especial, com a apresenta\u00e7\u00e3o de pesquisas feitas sobre a homofobia nas institui\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise e na literatura psicanal\u00edtica.<BR>  <P>AQ &ndash; Conhe\u00e7o v\u00e1rios casos de homossexuais cujos analistas tentaram &ldquo;cur\u00e1-los&rdquo;, seja por pedido deles mesmos por n\u00e3o aceitarem sua atra\u00e7\u00e3o pelo mesmo sexo, seja da parte dos analistas que queriam &ndash; baseados na teoria freudiana da bissexualidade &ndash; &ldquo;desrecalcar&rdquo; a heterossexualidade latente. N\u00e3o conhe\u00e7o nenhum analista que tenha tentado fazer o contr\u00e1rio. Ouvi tamb\u00e9m relatos de pacientes cujos analistas queriam fazer o sujeito masculino ter rela\u00e7\u00f5es com mulheres para &ldquo;perder o medo do outro sexo&rdquo; e &ldquo;afrontar a castra\u00e7\u00e3o&rdquo;. E at\u00e9 mesmo, m\u00e1ximo do cinismo, ouvi um caso em que o analista tentou ensinar o sujeito a fazer sexo oral com uma mulher. Quando o analisante n\u00e3o sai dessa an\u00e1lise, os resultados podem ser catastr\u00f3ficos, indo at\u00e9, por exemplo, a produ\u00e7\u00e3o de um quadro delir\u00f3ide\/delirante, como j\u00e1 tive a oportunidade de observar. Essas condu\u00e7\u00f5es de an\u00e1lise por esses analistas causam o descr\u00e9dito da psican\u00e1lise, impedindo que aquele sujeito se beneficie da an\u00e1lise para ultrapassar suas reais dificuldades. Quanto \u00e1 forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 uma regra escrita, que eu conhe\u00e7a, em nenhuma Sociedade ou Escola de Psican\u00e1lise que impe\u00e7a homossexuais de entrarem numa forma\u00e7\u00e3o, mas o boicote se d\u00e1 ainda em muitos lugares, atrav\u00e9s de diversos procedimentos que v\u00e3o da coa\u00e7\u00e3o a impedimentos at\u00e9 a indiferen\u00e7a na institui\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>HS &ndash; Que matizes s\u00e3o poss\u00edveis na produ\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica atual, a respeito da abordagem das homossexualidades e do que \u00e9 chamado de pervers\u00e3o?<BR>  <P>MACJ &#8211; H\u00e1 diferentes vers\u00f5es sobre a homossexualidade e sobre a pervers\u00e3o na psican\u00e1lise. Nesse sentido, nosso col\u00f3quio poderia ter se intitulado igualmente \u00abAs homossexualidades e as psican\u00e1lises\u00bb: Pode-se dizer que existem tantas vers\u00f5es sobre a homossexualidade e a pervers\u00e3o quanto psican\u00e1lises. Mas de uma forma geral, acredito que h\u00e1 um ponto de resist\u00eancia crucial dentro da pr\u00f3pria psican\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 despatologizar de fato a homossexualidade. Trata-se de um ponto opaco, resistencial, que concerne a meu ver a uma resist\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica da sexualidade como um todo e n\u00e3o apenas \u00e0 homossexualidade. H\u00e1 uma resist\u00eancia fundamental em aceitar a concep\u00e7\u00e3o freudiana da sexualidade, francamente desvinculada dos ideais da ci\u00eancia e da religi\u00e3o. \u00c9 atrav\u00e9s destas que a maior resist\u00eancia se produz dentro da psican\u00e1lise. H\u00e1 um fundo de religiosidade que faz com que os psicanalistas possam \u00e0s vezes, infelizmente, se unir ao senso comum, para o qual \u00e9 preciso dar um sentido un\u00edvoco \u00e0 vida e logo \u00e0 sexualidade.<BR>  <P>Quanto \u00e0 religi\u00e3o, a minha hip\u00f3tese \u00e9 a seguinte: a Igreja cat\u00f3lica produziu um golpe de mestre ao condenar a homossexualidade por um lado e produzir, por outro, a segrega\u00e7\u00e3o dos sexos no conv\u00edvio entre seus religiosos. O resultado foi uma \u00fanica e atraente mensagem: quem quiser vivenciar a sua homossexualidade, vinde at\u00e9 n\u00f3s! A for\u00e7a da Igreja cat\u00f3lica certamente dependeu da for\u00e7a de sua convocat\u00f3ria dirigida aos homossexuais e, se ela hoje est\u00e1 decadente, acredito que isso se deu em concomit\u00e2ncia \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da homossexualidade pela cultura ocidental. N\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio ser padre ou freira para viver a sua homossexualidade. O in\u00edcio da decad\u00eancia da Igreja se deu muito pr\u00f3ximo a revolta de Stonewall.<\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Un coloquio en la Universidad Veiga de Almeida discuti\u00f3 el significado que el legado de Stonewall tiene para el psicoan\u00e1lisis. 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