{"id":1215,"date":"2009-07-28T00:00:00","date_gmt":"2009-07-28T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2009\/07\/28\/bastidores-del-porno-brasileno\/"},"modified":"2009-07-28T00:00:00","modified_gmt":"2009-07-28T03:00:00","slug":"bastidores-del-porno-brasileno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/bastidores-del-porno-brasileno\/1215\/","title":{"rendered":"Bastidores del porno brasile\u00f1o"},"content":{"rendered":"<p>Eles est\u00e3o nas bancas de jornal, na Internet, nas prateleiras das locadoras de v\u00eddeo, na programa\u00e7\u00e3o da madrugada de canais de televis\u00e3o. \u00c9 assim, de maneira sutil, mas muito presente, que os filmes porn\u00f4s, ainda que fortemente estigmatizados, fazem parte do nosso cotidiano. Mas, afinal, quem s\u00e3o as pessoas que atuam nesses filmes? De onde v\u00eam? Por que os fazem? E, principalmente, como os fazem? Esses foram alguns questionamentos que levaram a antrop\u00f3loga colombiana Mar\u00eda Elvira D\u00edaz Ben\u00edtez a dar in\u00edcio \u00e0 pesquisa que resultou na tese de Doutorado &ldquo;Nas redes do sexo: bastidores e cen\u00e1rios do porn\u00f4 brasileiro&rdquo;, defendida em fevereiro no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social do Museu Nacional (PPGAS\/UFRJ).<BR>  <P>Sua tese recebeu indica\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o e o livro, desdobramento da pesquisa, ser\u00e1 lan\u00e7ado em 2010 pela Editora Zahar. A antrop\u00f3loga tamb\u00e9m \u00e9 a organizadora da colet\u00e2nea Prazeres Dissidentes, a ser lan\u00e7ada em setembro pelo CLAM e pela Editora Garamond. A colet\u00e2nea re\u00fane 20 artigos que tratam de temas como incesto consentido, pedofilia, prostitui\u00e7\u00e3o, crossdressing, entre outros.<BR>  <P>Para a pesquisa de sua tese &ndash; feita atrav\u00e9s do m\u00e9todo de observa\u00e7\u00e3o direta das filmagens &ndash; a antrop\u00f3loga passou um ano e meio entre idas e vindas a S\u00e3o Paulo, cidade que concentra o maior n\u00famero de produtoras porn\u00f4 do Brasil. Ao longo da investiga\u00e7\u00e3o, Mar\u00eda Elvira conta que buscou analisar os bastidores da produ\u00e7\u00e3o de filmes porn\u00f4s no pa\u00eds e, nesse processo, acabou deparando-se com uma extensa rede social. Esta inclu\u00eda n\u00e3o apenas pessoas que estavam diretamente envolvidas com a produ\u00e7\u00e3o &ndash; como atrizes, atores, diretores, cinegrafistas &ndash;, mas tamb\u00e9m donos de locadoras de v\u00eddeo e bancas de jornal. A ampla rede compreendia ainda lugares como: boates, priv\u00eas, saunas, casas noturnas, sites na Internet, determinadas ruas, sex shops etc. Assim, partiu do fato de que para entender as atividades envolvidas na produ\u00e7\u00e3o de porn\u00f4, \u00e9 preciso olhar para seu entrecruzamento com diferentes tent\u00e1culos do mercado do sexo, e para os modos como as pessoas transitam por diferentes contextos da rede.<BR>  <P>&ldquo;A produ\u00e7\u00e3o de filmes porn\u00f4 \u00e9 s\u00f3 mais um fio no mercado de sexo e estes se concatenam entre si. Por exemplo, para recrutar atores e atrizes, as pessoas encarregadas dentro da equipe para esta atividade &ndash; ou <I>recrutadores<\/I> como chamei em meu trabalho &ndash; v\u00e3o justamente a esses lugares. Eles funcionam como uma esp\u00e9cie de <I>olheiros<\/I>, t\u00eam uma esp\u00e9cie de &ldquo;dom&rdquo; especializado do olhar, pois conseguem enxergar nos recrutados as qualidades est\u00e9ticas e corporais que o mercado precisa, com seu olhar conseguem antecipar o gosto dos consumidores, imaginar os prazeres que garotos, garotas e travestis podem oferecer. Ent\u00e3o, voltando \u00e0 grande rede, existem liga\u00e7\u00f5es entre as pessoas que trabalham nesses locais, como <I>barman<\/I> e donos de boate, com os produtores de porn\u00f4 para o tr\u00e2nsito das pessoas que seriam o elenco dos filmes&rdquo;, explica.<BR>  <P>As mulheres e os homens de filmes gays s\u00e3o, segundo a pesquisadora, os principais alvos de recrutamento, e s\u00e3o mais frequentemente renovados neste mercado, enquanto os homens (dos filmes hetero) permanecem por mais tempo. &ldquo;As mulheres, no mercado heterossexual, assim como as travestis, em seu nicho de mercado, s\u00e3o as protagonistas das capas, s\u00e3o o destaque, tanto do material publicit\u00e1rio como do pr\u00f3prio filme. \u00c9 nelas que se concentra o olhar da c\u00e2mera. Ali\u00e1s, no come\u00e7o de suas trajet\u00f3rias, elas s\u00e3o chamadas por diferentes produtoras para trabalhar em diversos filmes. Tudo isso gera um desgaste da imagem e sua renova\u00e7\u00e3o \u00e9 o que mant\u00e9m &ldquo;aquecido&rdquo; o mercado. J\u00e1 os corpos inteiros dos homens de filmes hetero praticamente n\u00e3o aparecem nas imagens nem nas capas. Nos filmes, muitas vezes s\u00f3 o que se v\u00ea s\u00e3o seus p\u00eanis, pois o resto de seu corpo n\u00e3o tem tanta relev\u00e2ncia nestas est\u00e9ticas. Mas o p\u00eanis, ele s\u00f3, possui uma enorme carga simb\u00f3lica, \u00e9, de fato, o fio condutor da narrativa&rdquo;, afirma a antrop\u00f3loga.<BR>  <P>Segundo Maria Elvira, nos filmes gays, a l\u00f3gica \u00e9 outra em se tratando da exposi\u00e7\u00e3o dos corpos &ldquo;Os homens, tanto aqueles que fazem o papel de passivos quanto os que assumem o de ativos sexuais, t\u00eam o corpo inteiro exibidos: rosto, costas, n\u00e1degas, bra\u00e7o, perna etc. Os operadores de c\u00e2mera usam outras t\u00e9cnicas de capta\u00e7\u00e3o da imagem, fazem quest\u00e3o de mostrar detalhes que t\u00eam potencial er\u00f3tico como a dilata\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos ou at\u00e9 as gotas de suor descendo pelo abd\u00f4men. Eles acreditam que \u00e9 isso que esperam os consumidores de filmes gay, porque possuem outro olhar. Da\u00ed tamb\u00e9m decorre a grande exposi\u00e7\u00e3o destes rapazes e a necessidade de renova\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por conta disso&rdquo;.<BR>  <P>Para a pesquisadora, no caso das mulheres, entrar nesse mercado implica, para muitas delas, transgredir normas e expectativas familiares e se tornar alvo de estigmas. \u00c9 por este motivo que, apesar da maior necessidade de renova\u00e7\u00e3o e dos cach\u00eas mais altos, recrut\u00e1-las \u00e9 tarefa bem mais dif\u00edcil. Para os homens, a experi\u00eancia \u00e9 bastante diversa: &ldquo;Encontrei, por exemplo, alguns garotos que faziam filmes hetero que eram parabenizados por seus pais e pelos irm\u00e3os homens pelo fato de serem os &lsquo;garanh\u00f5es&rsquo; que faziam porn\u00f4. Muitos pensam o porn\u00f4 como uma maneira de reafirma\u00e7\u00e3o p\u00fablica de masculinidade. Por outro lado, n\u00e3o encontrei esse tipo de experi\u00eancia com nenhuma mulher&rdquo;, diz ela.<BR>  <P>Entre os crit\u00e9rios envolvidos no recrutamento do elenco um dos mais importantes \u00e9 a beleza, palavra que, como observa a pesquisadora, est\u00e1 atravessada por muitos outros fatores, como idade, estilo, carisma, sensualidade, cor etc. Com efeito, este \u00faltimo quesito \u00e9 freq\u00fcentemente associado \u00e0 virilidade, isto \u00e9, ao &ldquo;imagin\u00e1rio da lasc\u00edvia bestial do homem negro&rdquo;, o que o torna um ponto positivo em todos os mercados, relacionando-os frequentemente com a atividade sexual, n\u00e3o somente em filmes gay e travesti, mas tamb\u00e9m em filmes hetero. Nestes \u00faltimos, a id\u00e9ia da lasc\u00edvia \u00e9 exacerbada, por exemplo, em <I>gang bangs<\/I>, filmes em que v\u00e1rios homens fazem sexo com uma \u00fanica mulher, sendo que, no porn\u00f4 nacional, muitas vezes estes homens s\u00e3o negros e a mulher, loura.<BR>  <P>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, Mar\u00eda Elvira chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que h\u00e1 uma grande variedade de corpos &ldquo;racializados&rdquo; aceitos na pornografia: as louras, por vezes simplesmente apelidadas de &ldquo;ga\u00fachas&rdquo;, s\u00e3o muito procuradas, o mesmo ocorre com o tipo que o mercado costuma definir como &ldquo;latinas&rdquo;, isto \u00e9, mulheres de peles claras e cabelos pretos e longos &ndash; na pr\u00e1tica, os cabelos longos (artificiais ou n\u00e3o) s\u00e3o quase que uma regra neste mercado, na medida em que \u00e9 percebido como um importante signo de beleza. As asi\u00e1ticas comp\u00f5em outro tipo bastante cobi\u00e7ado nos filmes porn\u00f4s realizados no Brasil, sendo que muitas vezes estas s\u00e3o associadas \u00e0 est\u00e9ticas &ldquo;ninfetas&rdquo; ou representa\u00e7\u00f5es de &ldquo;lolitas&rdquo;, isto \u00e9, mulheres com apar\u00eancia adolescente, &ldquo;colegial&rdquo;. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s &ldquo;mulatas&rdquo;, a pesquisadora faz quest\u00e3o de destacar que o termo se refere \u00e0 &ldquo;mulheres de pele marrom, mas com cabelos alisados e tra\u00e7os faciais mais pr\u00f3ximos dos brancos do que dos negros&rdquo;. As mulheres de tra\u00e7os faciais fenot\u00edpicos tipicamente negros, no entanto, s\u00e3o recrutadas apenas em poucas ocasi\u00f5es. A antrop\u00f3loga diz conhecer no Brasil apenas uma \u00fanica produtora, no Rio de Janeiro, que trabalha frequentemente com mulheres negras. A aus\u00eancia, explica Maria Elvira, se deve ao fato de que elas n\u00e3o s\u00e3o consideradas bonitas dentro dos valores est\u00e9ticos que manejam o mercado porn\u00f4, o que se demonstra no fato de muitos realizadores dispens\u00e1-las no recrutamento, aludindo a que os consumidores pouco consomem os filmes por elas protagonizados.<BR>  <P>&ldquo;At\u00e9 nas produ\u00e7\u00f5es de sexo inter-racial sua participa\u00e7\u00e3o \u00e9 relativa, porque estas geralmente priorizam as duplas de homem negro com mulher loura ou homem negro com mulher asi\u00e1tica. Ou ent\u00e3o mulata com homem branco&rdquo;, acrescenta.<BR>  <P>Sexualidades consideradas &ldquo;esp\u00farias&rdquo;, assim como corpos vistos como &ldquo;anormais&rdquo;, s\u00e3o tamb\u00e9m trazidas \u00e0 baila por produ\u00e7\u00f5es diferentes das convencionais. Neste rol, do qual fazem parte os chamados &ldquo;filmes bizarros&rdquo;, incluem-se diferentes corpos e pr\u00e1ticas sexuais: aqueles que exibem pr\u00e1ticas consideradas &ldquo;extremas&rdquo; (zoofilia, escatologia, ou sexo com v\u00e1rios tipos de excrementos humanos), ou porn\u00f4 com corpos considerados &ldquo;an\u00f4malos&rdquo; (pessoas an\u00e3s e pessoas mutiladas, por exemplo), ou com indiv\u00edduos que mesmo n\u00e3o possuindo corpos &ldquo;anormais&rdquo;, divergem dos padr\u00f5es hegem\u00f4nicos de beleza (pessoas idosas ou obesas, extremadamente tatuadas ou perfuradas com piercings, extremadamente peludas na regi\u00e3o pubiana, e at\u00e9 mulheres gr\u00e1vidas, entre outras). Muitas vezes a categoria <I>bizarro<\/I> confunde-se com a classifica\u00e7\u00e3o de <I>fetiche<\/I>, embora entre estas existam diferen\u00e7as, como explica a antrop\u00f3loga em sua tese.<BR>  <P>&ldquo;Com o r\u00f3tulo bizarro, o porn\u00f4 cria uma linha divis\u00f3ria entre o que \u00e9 normal, bonito, agrad\u00e1vel e aquilo que \u00e9 anormal, feio. Muitos desses filmes s\u00e3o feitos com uma grande carga de humor desde os t\u00edtulos at\u00e9 as fotografias escolhidas para as capas e a divulga\u00e7\u00e3o. Alguns corpos fazem alus\u00e3o socialmente ao riso. As pessoas an\u00e3s, por exemplo, participam de programas de humor e de circos. Jorge Leite, um antrop\u00f3logo brasileiro, pioneiro neste pa\u00eds nos estudos sobre pornografia bizarra, associa essas representa\u00e7\u00f5es aos antigos <I>freak shows<\/I>. Na pr\u00e1tica, eles tornam mais percept\u00edveis os estere\u00f3tipos que j\u00e1 existem. Outros corpos e especialmente algumas pr\u00e1ticas, como por exemplo o sexo com animais ou com fezes, aproximam-se mais das est\u00e9ticas do grotesco&rdquo;, destaca.<BR>  <P>E se pessoas idosas integram o chamado g\u00eanero bizarro, \u00e9 porque a juventude \u00e9 parte fundamental do que seria o porn\u00f4 <I>mainstream<\/I>. Com efeito, ressalta a pesquisadora, um dos estilos de filmes mais vendidos no Brasil tem no elenco atores de &ldquo;visual adolescente&rdquo;.<BR>  <P><I><B>Sexo coreogr\u00e1fico e disposi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero<\/I><\/B> Com efeito, destaca a pesquisadora, a pornografia atinge justamente as fantasias das pessoas e, por isso, os corpos recrutados para os filmes <I>mainstream<\/I> precisam ser notadamente malhados e exuberantes, como indo al\u00e9m dos corpos cotidianos. As pr\u00e1ticas sexuais tamb\u00e9m precisam ser espetaculares, dessa forma, algumas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o pouco utilizadas, como por exemplo, a tradicional &ldquo;papai e mam\u00e3e&rdquo;.<BR>  <P>Segundo a pesquisadora, o sexo anal pode ser visto como a pr\u00e1tica n\u00e3o convencional mais realizada no porn\u00f4. O que era antes considerado, de certa maneira, uma pr\u00e1tica dissidente, converteu-se no dia-a-dia da pornografia. &ldquo;Tratando-se de porn\u00f4 brasileiro, a exibi\u00e7\u00e3o da &rsquo;bunda&rsquo; torna-se fundamental em fun\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio de na\u00e7\u00e3o constru\u00eddo em torno desta parte do corpo, que \u00e9 mostrada como aquilo que singulariza o povo brasileiro, evidenciando discursos de brasilidade. Isto \u00e9 enfatizado nos filmes porn\u00f4s de Carnaval&rdquo;, analisa.<BR>  <P>O sexo porn\u00f4, segundo Mar\u00eda Elvira, responde a uma l\u00f3gica seq\u00fcencial de posi\u00e7\u00f5es estrategicamente pensadas como em uma esp\u00e9cie de &ldquo;coreografia&rdquo;. Esta, em geral, come\u00e7a com beijos na boca r\u00e1pidos e curtos &ndash; justamente porque os longos s\u00e3o associados a casais que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o afetiva. Deve-se destacar que os seios n\u00e3o costumam tomar muito tempo da coreografia, mas s\u00e3o importantes para exibir a beleza do corpo feminino, seja mulher ou travesti. O sexo oral seria, portanto, a terceira parte do <I>script<\/I>, seguido das penetra\u00e7\u00f5es que bem podem come\u00e7ar com dedos e, geralmente, terminar com penetra\u00e7\u00f5es anais e a ampla exposi\u00e7\u00e3o do p\u00eanis. Estas coreografias variam dependendo do segmento do mercado, transparecendo assim alguns marcadores sociais da diferen\u00e7a e alguns discursos sobre normatividades e transgress\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade. Por exemplo, a pesquisadora observa que nos filmes direcionados ao p\u00fablico hetero, o sexo oral \u00e9 praticado por homens e mulheres, por\u00e9m, em grande parte das produ\u00e7\u00f5es feitas com travestis, o homem \u00e9 o \u00fanico a receb\u00ea-lo.<BR>  <P>&ldquo;Os filmes porn\u00f4s com travestis geralmente fazem o que classifiquei como &lsquo;sexo heterossexual com travesti&rsquo;, isto \u00e9, usam o corpo da travesti como se fosse um corpo de mulher, recorrendo \u00e0s mesmas disposi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Isso significa que a travesti faz o papel de mulher, e seu p\u00eanis n\u00e3o possui a relev\u00e2ncia que este \u00f3rg\u00e3o costuma ter nas est\u00e9ticas hetero e gay, \u00e0s vezes, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio nem que esteja ereto. Isto n\u00e3o quer dizer que o p\u00eanis da travesti n\u00e3o seja importante. Mesmo quando n\u00e3o \u00e9 penetrador, este \u00e9 importante para a cena, porque ele simboliza a diferen\u00e7a desse corpo feminino, p\u00f5e em cena um outro feminino poss\u00edvel. Paradoxalmente, os filmes brasileiros que mais t\u00eam sido premiados internacionalmente s\u00e3o aqueles que rompem com essa disposi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e a travesti tamb\u00e9m \u00e9 penetradora&rdquo;, comenta.<BR>  <P>E se no caso das travestis a ere\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 requisitada, para os homens que assumem um papel sexual ativo ela \u00e9 obrigat\u00f3ria. Assim, antes da grava\u00e7\u00e3o, os homens se preparam para ter uma prolongada ere\u00e7\u00e3o, porque dela depender\u00e1 sua performance. Enquanto alguns fazem uso de medicamentos, como p\u00edlulas ou inje\u00e7\u00f5es, outros a atingem atrav\u00e9s da concentra\u00e7\u00e3o e a masturba\u00e7\u00e3o, que deve ser lenta e controlada, para evitar que a ejacula\u00e7\u00e3o ocorra antes do momento desejado. Com efeito, a masturba\u00e7\u00e3o \u00e9 um recurso freq\u00fcente, j\u00e1 que praticada a cada vez que a grava\u00e7\u00e3o \u00e9 interrompida &ndash; para retocar a maquiagem, corrigir a luz, secar o suor etc. &ndash;, de modo que o ator n\u00e3o perca a ere\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>O orgasmo &ndash; &ldquo;o ponto final da obra, o auge da performance&rdquo;, na an\u00e1lise da pesquisadora &ndash; \u00e9 vivenciado de maneiras diferentes entre homens e mulheres. No caso masculino, a ejacula\u00e7\u00e3o tem que ser vis\u00edvel para a capta\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera, ou seja, n\u00e3o pode ocorrer dentro do corpo do(a) parceiro(a). Posicionado de modo a favorecer a aproxima\u00e7\u00e3o do cinegrafista, o homem geralmente ejacula sobre o corpo do passivo: no rosto, nas n\u00e1degas, nos seios etc. As mulheres, como todos os colocados no papel do feminino, por sua vez, demonstram o orgasmo atrav\u00e9s de um registro mais auditivo: gemidos, gritos, palavras. De fato, o recurso \u00e0 fala na pornografia \u00e9, principalmente para os femininos ou para aqueles que n\u00e3o ejaculam em cena, bastante relevante. Estes aprendem a fazer o que seria um &ldquo;gemido pornogr\u00e1fico&rdquo; e a transa deve vir acompanhada de um picante di\u00e1logo. Nesse sentido, observa a antrop\u00f3loga, o orgasmo feminino tem efeito sonoro dram\u00e1tico, enquanto o masculino \u00e9 visual.<BR>  <P>H\u00e1 disposi\u00e7\u00f5es em que este esquema \u00e9 transgredido: &ldquo;Alguns diretores fazem quest\u00e3o de que, por exemplo, em filmes gays, onde somente um dos atores \u00e9 o penetrador, o passivo tamb\u00e9m ejacule mediante a masturba\u00e7\u00e3o. Ali, esse s\u00eamen recobra for\u00e7a visual. Mas \u00e9 not\u00f3rio como geralmente o s\u00eamen destes passivos n\u00e3o recai nem toca o corpo do ativo. Assim, por meio do s\u00eamen, o porn\u00f4 elabora claros enunciados de g\u00eanero e, nestes arranjos, somente os colocados simbolicamente no papel do feminino podem receber ou ter contato corporal com ele&rdquo;. acrescenta.<BR>  <P>Perguntada se o porn\u00f4 \u00e9 transgressor, a pesquisadora afirma que &ldquo;o porn\u00f4 transita entre as fronteiras da transgress\u00e3o e o conservadorismo. \u00c9 transgressor porque desafia ju\u00edzos morais que t\u00eam colocado a pornografia como o lado &lsquo;sujo&rsquo; do erotismo, criando essa diferencia\u00e7\u00e3o entre o vulgar e o erudito, distin\u00e7\u00e3o esta que n\u00e3o faz sentido estabelecer. \u00c9 transgressor tamb\u00e9m porque coloca em cena um sexo &lsquo;carente de afetos&rsquo;, desafiando o ideal do amor rom\u00e2ntico, e pela maneira como exp\u00f5e as pr\u00e1ticas: de uma maneira crua, milim\u00e9trica, &lsquo;despudorada&rsquo;. Tamb\u00e9m \u00e9 transgressor porque coloca em cena pr\u00e1ticas sexuais dissidentes e as chamadas &lsquo;pervers\u00f5es sexuais&rsquo;. Mas \u00e9 not\u00f3rio como o porn\u00f4 pode ser transgressor quanto \u00e0s pr\u00e1ticas e, ao mesmo tempo, completamente conservador quanto \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Em minha pesquisa eu percebi o quanto a heteronormatividade \u00e9 crucial nessas redes, o quanto a masculinidade \u00e9 valorizada. Por outro lado, o porn\u00f4 \u00e9 conservador pela forma como reitera estere\u00f3tipos dos mais variados&rdquo;, finaliza. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Elvira D\u00edaz Ben\u00edtez, autora de la tesis &ldquo;Nas redes do sexo: bastidores e cen\u00e1rios do porn\u00f4 brasileiro y compiladora de <EM>Prazeres Dissidentes,<\/EM> nuevo libro del CLAM,&nbsp;habla sobre la organizac\u00ed\u00f3n social de la producci\u00f3n de filmes para adultos en Brasil. <EM>(Texto en portugu\u00e9s)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Bastidores del porno brasile\u00f1o - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/bastidores-del-porno-brasileno\/1215\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Bastidores del porno brasile\u00f1o - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Maria Elvira D\u00edaz Ben\u00edtez, autora de la tesis &ldquo;Nas redes do sexo: bastidores e cen\u00e1rios do porn\u00f4 brasileiro y compiladora de Prazeres Dissidentes, nuevo libro del CLAM,&nbsp;habla sobre la organizac\u00ed\u00f3n social de la producci\u00f3n de filmes para adultos en Brasil. 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