{"id":1247,"date":"2010-04-13T00:00:00","date_gmt":"2010-04-13T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2010\/04\/13\/la-optica-de-los-clientes\/"},"modified":"2010-04-13T00:00:00","modified_gmt":"2010-04-13T03:00:00","slug":"la-optica-de-los-clientes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/la-optica-de-los-clientes\/1247\/","title":{"rendered":"La \u00f3ptica de los clientes"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo de sua carreira acad\u00eamica, a antrop\u00f3loga Elisiane Pasini realizou pesquisas etnogr\u00e1ficas em tr\u00eas universos de prostitui\u00e7\u00e3o: as ruas centrais da cidade de Porto Alegre (1997\/98), a Rua Augusta, em S\u00e3o Paulo (1999) e na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro (2004). Neste \u00faltimo, durante o trabalho de campo para sua tese de doutorado na Unicamp, ela caminhou pelos galp\u00f5es, pelos bares, viveu o cotidiano das pessoas, ouviu hist\u00f3rias de paqueras, de sexo, de viol\u00eancias, dos clientes preferenciais, das negocia\u00e7\u00f5es. Viu o caminho habitual dos freq\u00fcentadores, o que comiam, o que bebiam, as m\u00fasicas que ouviam. Conviveu com os homens e as mulheres que fazem da Vila Mimosa um dos pontos de prostitui\u00e7\u00e3o mais famosos n\u00e3o s\u00f3 no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. Seu intuito era olhar para os homens que freq\u00fcentavam o local e compreender o lugar do masculino naquele contexto.<BR>  <P>&ldquo;Sempre tive curiosidade etnogr\u00e1fica em olhar para o agente n\u00e3o marcado dessa transa\u00e7\u00e3o &ndash; o cliente. At\u00e9 porque a bibliografia espec\u00edfica incide sempre sobre o agente marcado &ndash; a prostituta. A bibliografia sobre os clientes, principalmente a brasileira, trata como se eles fossem invis\u00edveis &ndash; o cliente \u00e9 menos visto, menos falado, menos questionado, em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 prostituta&rdquo;, pontua Elisiane no artigo &ldquo;Sexo com prostitutas: uma discuss\u00e3o sobre modelos de masculinos&rdquo;, que faz parte da colet\u00e2nea <U><a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?UserActiveTemplate=_BR&amp;infoid=5972&amp;sid=53\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Prazeres Dissidentes<\/A><\/U>, publicada pelo CLAM e pela Editora Garamond em 2009. Na entrevista a seguir, a pesquisadora fala como se constroem os modelos de masculino e as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero no contexto estudado e sobre os modelos de masculinidades que encontrou em seu trabalho de campo.<BR>  <P><B>Por que a escolha do \u00abcliente\u00bb como foco de sua pesquisa? <\/B> <P>Apesar da grande import\u00e2ncia e constante presen\u00e7a dos clientes como parte constitutiva do universo prostitucional heterossexual, esses homens s\u00e3o pouco conhecidos. Por isso, quis investigar os sujeitos consumidores de sexo, o outro da rela\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o. Nisso tamb\u00e9m havia uma demarca\u00e7\u00e3o a respeito do lugar da mulher na sociedade. Estava cansada de observar que a atividade da prostitui\u00e7\u00e3o era vista como se apenas a mulher fosse a respons\u00e1vel, quando na verdade, por se tratar de uma rela\u00e7\u00e3o, homens e mulheres s\u00e3o. Assim, meu trabalho de campo na Vila Mimosa buscou conhecer os clientes da prostitui\u00e7\u00e3o daquele contexto. Ora, se tanto se falava nesses homens, era preciso saber quem eles eram.<BR>  <P><B>Em sua pesquisa \u00e9 utilizada a categoria \u00abhomem frequentador\u00bb e n\u00e3o \u00abcliente\u00bb. Existe alguma diferen\u00e7a entre os termos?<\/B>  <P>J\u00e1 em minhas primeiras incurs\u00f5es uma quest\u00e3o se imp\u00f4s: circunscrever o universo de pesquisa na categoria &ldquo;clientes&rdquo; era demasiado limitado para dar conta da riqueza e da complexidade que envolvia os homens naquele contexto de prostitui\u00e7\u00e3o. A procura por rela\u00e7\u00f5es sexuais \u00e9 uma, mas nem de longe a principal, dentre in\u00fameras raz\u00f5es que levavam aqueles homens \u00e0 Vila Mimosa. Como, ent\u00e3o, eu poderia me referir a esta especificidade? Para dar conta desta complexidade, utilizei a categoria &ldquo;homens freq\u00fcentadores&rdquo;, a qual englobaria a multiplicidade dos la\u00e7os destes diferentes homens com a Vila Mimosa: sociabilidade, trabalho, rela\u00e7\u00f5es sexuais.<BR>  <P>Nas primeiras incurs\u00f5es ao campo de estudo percebi que o fato de estar em um local no qual a prostitui\u00e7\u00e3o acontecia, n\u00e3o significava que todos os homens que o freq\u00fcentavam fossem, de fato, clientes. Nas conversas e nas observa\u00e7\u00f5es ficou n\u00edtido que, nesse contexto de prostitui\u00e7\u00e3o, havia outras motiva\u00e7\u00f5es para os homens estarem ali al\u00e9m da mera busca por sexo. Alguns desses homens estavam naquele local para conversar, beber, olhar as mulheres, enquanto outros mantinham algum tipo de trabalho: donos ou gerentes de estabelecimentos, taxistas, vendedores, entre outros. Toda esta diversidade de homens foi tratada como freq\u00fcentadores. A categoria &ldquo;freq\u00fcentador&rdquo; \u00e9 uma categoria emp\u00edrica, que ilumina uma regularidade que est\u00e1 presente em outros locais de prostitui\u00e7\u00e3o feminina: um masculino que \u00e9 &ldquo;entre&rdquo;, isto \u00e9, que est\u00e1 entre uma posi\u00e7\u00e3o e outra, entre ser e manter um tipo de pr\u00e1tica ao inv\u00e9s de outra. Os freq\u00fcentadores s\u00e3o aqueles que podem vir a ocupar outro lugar na rela\u00e7\u00e3o: um cliente, um marido, um protetor, um privilegiado. Trata-se daquele que tem a possibilidade do movimento, da transitoriedade. Todos os homens s\u00e3o freq\u00fcentadores e apenas uma pequena parcela destes s\u00e3o clientes.<BR>  <P><B>A principal discuss\u00e3o da tese foi como se constituem masculinidades e feminilidades no universo da Vila Mimosa. De que maneira se constroem os modelos de masculinidades e as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero no contexto estudado?<\/B>  <P>\u00c9 no agenciamento de diferentes elementos (de uns ou de outros) que se formam os diversos modelos de masculinidades. Como foi poss\u00edvel constatar, trata-se de modelos de masculinidades embasados em uma sexualidade essencializada, naturalizada, heteronormativa, e de pr\u00e1ticas desiguais de g\u00eanero. A zona de prostitui\u00e7\u00e3o estudada \u00e9 um espa\u00e7o com padr\u00f5es heterossexuais e de g\u00eanero que normatizam os comportamentos dos homens e das mulheres, do masculino e do feminino.<BR>  <P>Nesse espa\u00e7o do exerc\u00edcio da prostitui\u00e7\u00e3o muitos homens se sentem como desprovidos da necessidade de provarem sua virilidade, poder de sedu\u00e7\u00e3o, desempenho, dentre outras caracter\u00edsticas, em fun\u00e7\u00e3o de uma dita democracia no acesso \u00e0s mulheres (que no artigo tamb\u00e9m questiono). Reitero a import\u00e2ncia de uma divis\u00e3o entre as performances das mulheres, entre prostituta e n\u00e3o prostituta.<BR>  <P>Tamb\u00e9m refleti sobre alguns elementos que compunham agenciamentos de diferentes modelos de masculinidades: n\u00e3o pagar para se relacionar sexualmente com uma prostituta; permanecer mais tempo no quarto de programa; receber e demonstrar publicamente os <I>privil\u00e9gios<\/I> de uma prostituta; diferenciar-se da figura do cliente; prover mulheres; obrigar a prostituta que se tornou sua <I>esposa<\/I> a n\u00e3o se prostituir; n\u00e3o sentir ci\u00fame; defender sua honra; relacionar-se com mulheres, e gastar dinheiro com as prostitutas. Ao refletir sobre as raz\u00f5es que levam os homens a procurar prostitutas, penso que os motivos mais importantes seriam a sociabilidade entre homens e a possibilidade de realizar diferentes pr\u00e1ticas sexuais com prostitutas.<BR>  <P><B>Tem-se debatido a no\u00e7\u00e3o de que toda prostitui\u00e7\u00e3o constitui uma forma de explora\u00e7\u00e3o sexual. Entretanto, seus trabalhos favorecem a compreens\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o como escolha individual aut\u00f4noma&#8230;<\/B>  <P>Sempre tive como desafio nos meus estudos referentes ao tema do exerc\u00edcio de prostitui\u00e7\u00e3o desconstruir o preconceito que a sociedade como um todo tem a esse respeito. Busquei observ\u00e1-la a partir de outros olhares, para al\u00e9m da compreens\u00e3o de que \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o isolada, ex\u00f3tica, perigosa, o mal necess\u00e1rio. E, da mesma forma, demonstrar que as prostitutas n\u00e3o s\u00e3o apenas v\u00edtimas da l\u00f3gica capitalista. Com isso quero demarcar o lugar que me posiciono e compreendo a atividade da prostitui\u00e7\u00e3o. Entendo a prostitui\u00e7\u00e3o como um trabalho em que se trocam servi\u00e7os sexuais por um bem e, assim, se estabelece uma rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. E, al\u00e9m disso, h\u00e1 caracter\u00edsticas de organiza\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio da prostitui\u00e7\u00e3o &ndash; regras, hor\u00e1rios, regularidades, rotinas, pre\u00e7os, contatos &ndash; que a estruturam como um trabalho. Entretanto, assim como alerta Cl\u00e1udia Fonseca em um texto de 1996, <EM>&ldquo;\u00e9 evidente que a prostitui\u00e7\u00e3o, com seu <\/EM>status<EM> estigmatizado, alvo de repress\u00e3o policial e censura pelo senso comum, n\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o como qualquer outra&rdquo;<\/EM>.<BR>  <P>Muitas pessoas, ainda hoje, concebem o trabalho das prostitutas como se elas fossem escravas ou mulheres dominadas pelos homens. Defendo que as prostitutas t\u00eam autonomia no seu trabalho, no qual elas imp\u00f5em os limites e os termos da intera\u00e7\u00e3o com seus clientes. Este olhar coloca a mulher em um lugar de possibilidade de escolha em rela\u00e7\u00e3o aos seus atos e ao seu corpo. Com isso n\u00e3o afirmo que o poder esteja apenas nas m\u00e3os das prostitutas, apesar desse ser o discurso das prostitutas que convivi. Tanto a mulher como o homem tem suas pr\u00e1ticas sociais e sexuais dotadas de regras, as quais, s\u00e3o constru\u00eddas a partir de suas escolhas e comprometimento, em que ambos buscam o agenciamento do seu sujeito social. Portanto, continuar olhando para a prostituta enquanto um sujeito vitimizado desta rela\u00e7\u00e3o parece coloc\u00e1-la em um lugar de desprivil\u00e9gio social. Inclusive, acredito que muitas vezes a prostituta \u00e9 vista, principalmente pelo senso comum, com tanto preconceito justamente em raz\u00e3o da dificuldade de compreender que a mulher &ndash; enquanto sujeito social &ndash; tem autonomia do seu corpo: ela pode us\u00e1-lo como melhor achar a partir de suas escolhas, o que significa, inclusive, fazer parte do com\u00e9rcio sexual, o que n\u00e3o significa de forma alguma explora\u00e7\u00e3o.<BR>  <P><B>O que h\u00e1 de transgressor em ir a uma zona de prostitui\u00e7\u00e3o?<\/B>  <P>O fato de se estar em um contexto de prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa estar desconstruindo normas sociais, n\u00e3o significa estar ressignificando o conservadorismo sexual e, muito menos, a liberta\u00e7\u00e3o sexual. O fato de se estar em um contexto de prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica, fundamentalmente, estar &ldquo;fora&rdquo; dos padr\u00f5es heterossexuais e de g\u00eanero que normatizam os comportamentos na nossa sociedade. Importa mais separar o que acontece com as esposas e com as prostitutas. Afinal, aqui s\u00e3o regras sociais que gerenciam a sociedade. Para que o universo da prostitui\u00e7\u00e3o permane\u00e7a no imagin\u00e1rio do mal necess\u00e1rio, dever\u00e1 constar que l\u00e1 se realiza o diferente. Parece mesmo que no contexto da Vila Mimosa \u00e9 poss\u00edvel observar a normatiza\u00e7\u00e3o de comportamentos, em que os homens buscam prazeres diferenciados dependendo do contexto onde encontram as mulheres e elas parecem corroborar essa concep\u00e7\u00e3o.<\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>La antrop\u00f3loga Elisiane Pasini habla sobre un personaje a\u00fan poco estudiado en los trabajos sobre prostituci\u00f3n: el cliente. &ldquo;Estaba cansada de observar que la actividad de la prostituci\u00f3n era vista como si solamente la mujer fuera la responsable, cuando en realidad, por tratarse de una relaci\u00f3n, hombres y mujeres lo son&rdquo; comenta en esta entrevista. <I>(Texto en portugu\u00e9s)<\/I><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1247","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>La \u00f3ptica de los clientes - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/la-optica-de-los-clientes\/1247\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"La \u00f3ptica de los clientes - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"La antrop\u00f3loga Elisiane Pasini habla sobre un personaje a\u00fan poco estudiado en los trabajos sobre prostituci\u00f3n: el cliente. &ldquo;Estaba cansada de observar que la actividad de la prostituci\u00f3n era vista como si solamente la mujer fuera la responsable, cuando en realidad, por tratarse de una relaci\u00f3n, hombres y mujeres lo son&rdquo; comenta en esta entrevista. 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