{"id":1341,"date":"2012-01-11T00:00:00","date_gmt":"2012-01-11T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2012\/01\/11\/el-sexo-y-el-color-de-la-desigualdad\/"},"modified":"2012-01-11T00:00:00","modified_gmt":"2012-01-11T02:00:00","slug":"el-sexo-y-el-color-de-la-desigualdad","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/el-sexo-y-el-color-de-la-desigualdad\/1341\/","title":{"rendered":"El sexo y el color de la desigualdad"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, ocorreram redu\u00e7\u00f5es nas desigualdades raciais em alguns indicadores do mercado de trabalho, como, por exemplo, o rendimento m\u00e9dio do trabalho. Por\u00e9m, apesar desta queda, os abismos nos indicadores das pessoas brancas e pretas\/pardas permanecem muito elevados. Este panorama \u00e9 atestado pelo boletim &ldquo;Tempo em Curso&rdquo;, elaborado pelo Laborat\u00f3rio de An\u00e1lises Econ\u00f4micas, Hist\u00f3ricas, Sociais e Estat\u00edsticas das Rela\u00e7\u00f5es Raciais (Laeser\/UFRJ).<BR>  <P>Os dados do boletim (<U><a href=\"http:\/\/www.laeser.ie.ufrj.br\/PT\/tempo%20em%20curso\/TEC%20-%202011%20-%2011.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clique aqui para acessar<\/A><\/U>) mostram o j\u00e1 conhecido abismo de rendimento que separa os homens brancos dos negros. E explicita que, al\u00e9m da cor da pele, a dist\u00e2ncia de rendimento expressa tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o de g\u00eanero: mulheres brancas e negras (pretas e pardas) est\u00e3o separadas por centenas de reais em termos de rendimento (R$1.638 para as primeiras; R$ 906 para as segundas &ndash; n\u00fameros registrados em setembro de 2011). A taxa de desemprego, avaliada em cima das seis maiores regi\u00f5es metropolitanas do pa\u00eds, tamb\u00e9m indica um cen\u00e1rio pior para as mulheres pretas e pardas, cujo desemprego foi de 9,3% em setembro de 2011, ante 6,2% para as brancas.<BR>  <P>O boletim compilou tamb\u00e9m dados entre 2009 e 2010 que falam sobre a viol\u00eancia contra as mulheres, incluindo sua desagrega\u00e7\u00e3o de cor ou ra\u00e7a. Esta an\u00e1lise comp\u00f5e a segunda parte do boletim. As notifica\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia contra mulheres foram feitas segundo os grupos de cor ou ra\u00e7a, a partir dos dados do Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o (SINAN\/Minist\u00e9rio da Sa\u00fade). Os n\u00fameros apontam 66.350 casos de viol\u00eancia contra mulheres entre 2009 e 2010: 27.676 tendo as brancas como v\u00edtimas e 23.698 tendo as negras como agredidas. Houve 14.176 den\u00fancias cuja declara\u00e7\u00e3o de cor n\u00e3o foi registrada.<BR>  <P>O economista, soci\u00f3logo e coordenador geral do Laeser, Marcelo Paix\u00e3o, afirma em entrevista ao CLAM como funciona a din\u00e2mica de g\u00eanero que marca as desigualdades salariais e reflete sobre os n\u00fameros de viol\u00eancia contra mulheres.<BR>  <P><B>Os dados mostram que as assimetrias de renda n\u00e3o se limitam \u00e0 divis\u00e3o homem e mulher. Dentro da popula\u00e7\u00e3o feminina, a diferen\u00e7a de renda entre trabalhadoras brancas e negras\/pardas \u00e9 de 80,7%. O que esses n\u00fameros dizem sobre a rela\u00e7\u00e3o entre aspectos raciais e de g\u00eanero no mercado de trabalho?<\/B>  <P>O rendimento m\u00e9dio do trabalho das pessoas pretas e pardas \u00e9 sempre inferior comparado ao dos grupos de pessoas de cor ou ra\u00e7a branca e amarela. O desemprego tamb\u00e9m \u00e9 uma vari\u00e1vel cronicamente desfavor\u00e1vel aos negros.<BR>  <P>O fator educacional pode ser mobilizado para explicar estas diferen\u00e7as, tendo em vista a menor escolaridade m\u00e9dia dos negros em rela\u00e7\u00e3o aos brancos. Mas n\u00e3o podemos explicar isso apenas pela educa\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio mercado de trabalho apresenta uma din\u00e2mica que al\u00e9m de remunerar desigualmente pessoas negras e brancas que ocupam postos parecidos, discrimina as pessoas de pele escura quando da oferta de oportunidades ocupacionais melhor recompensadas financeiramente e de maior prest\u00edgio social. Tal realidade por sua vez gera um efeito de muito dif\u00edcil mensura\u00e7\u00e3o, mas que se coloca evidente, qual seja: o fato de existirem poucas pessoas negras nos postos de trabalho de melhor posi\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a baixa escolaridade deste grupo pela via do rebaixamento da auto-estima. Isso forma um c\u00edrculo vicioso que alimenta a perpetua\u00e7\u00e3o das assimetrias sociais e raciais no pa\u00eds.<BR>  <P>Quando associamos o debate acima com a da quest\u00e3o de g\u00eanero, o que ocorre \u00e9 o que chamamos de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o agravados, que une sexo e cor de pele. Os n\u00fameros oficiais que falam do modo pelo qual o mercado de trabalho brasileiro trata as mulheres negras mostram que as rela\u00e7\u00f5es raciais e de g\u00eanero permeiam nosso mercado de trabalho, penalizando aqueles indiv\u00edduos que carregam caracter\u00edsticas desvalorizadas socialmente. Seus patamares de remunera\u00e7\u00e3o s\u00e3o invariavelmente inferiores aos dos demais grupos, incluindo as mulheres brancas e os homens negros &ndash; grupo ao qual em compara\u00e7\u00e3o tem at\u00e9 maior escolaridade. Sua taxa de desemprego e informalidade \u00e9 tamb\u00e9m invariavelmente maior que a dos demais grupos. Ou seja, a discrimina\u00e7\u00e3o por cor e g\u00eanero torna mais vulner\u00e1vel a popula\u00e7\u00e3o feminina e negra.<BR>  <P>A sociedade brasileira \u00e9 atravessada por quest\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe social, entre tantas outras vari\u00e1veis. E o mercado de trabalho espelha essa din\u00e2mica de desigualdade.<BR>  <P><B>O rendimento m\u00e9dio das mulheres pretas e pardas subiu de R$889,83, em setembro de 2010, para R$ 906,69, em setembro deste ano. O rendimento das mulheres brancas ficou praticamente est\u00e1vel (de R$1.640 a R$ 1.638). Podemos falar em um processo cont\u00ednuo de redu\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia entre essas mulheres? Ou \u00e9 um dado pontual?<\/B>  <P>Ao longo dos \u00faltimos anos o mercado de trabalho brasileiro caminhou no sentido da redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e raciais. De um lado o controle da infla\u00e7\u00e3o permitiu a preserva\u00e7\u00e3o do poder de compra dos sal\u00e1rios e remunera\u00e7\u00e3o do trabalho dos trabalhadores mais pobres. Por outro lado, ocorreu uma pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, ap\u00f3s aumentos reais sucessivos estipulados pelo governo federal. Atualmente sal\u00e1rio m\u00ednimo brasileiro superou os U$ 200, algo inconceb\u00edvel h\u00e1 dez anos atr\u00e1s. Isso repercute no setor formal e no informal, que se referencia no piso salarial. No mesmo rumo, tal movimento contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o das assimetrias.<BR>  <P>Por\u00e9m, \u00e9 preciso perceber que tal movimento tamb\u00e9m espelha fen\u00f4menos n\u00e3o necessariamente positivos ocorridos nos \u00faltimos anos. Desde 1995, com a institui\u00e7\u00e3o do plano real, nossa economia ficou mais exposta \u00e0 competi\u00e7\u00e3o estrangeira, problema que se agravou n\u00e3o somente pela abertura comercial, mas tamb\u00e9m pela pol\u00edtica de juros elevados e a valoriza\u00e7\u00e3o cambial. Com isso os escal\u00f5es superiores das ocupa\u00e7\u00f5es profissionais perceberam ou uma estagna\u00e7\u00e3o ou mesmo queda nos seus rendimentos. Este grupo \u00e9 usualmente formado por pessoas brancas, especialmente do g\u00eanero masculino. Por um lado, n\u00e3o haveria motivos para se lamentar este movimento. Mas, por outro, talvez o ideal fosse que as desigualdades sociais e raciais se encurtassem num contexto de aumento geral dos patamares de remunera\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora, inclusive de seus escal\u00f5es melhor remunerados.<BR>  <P>De qualquer maneira, com a reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica recente, o leque salarial encolheu, favorecendo a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades raciais, inclusive quando se analisa especificamente a popula\u00e7\u00e3o do sexo feminino desagregada pelos grupos de cor ou ra\u00e7a.<BR>  <P>Finalmente, cabe mencionar que se o rendimento dos postos mais altos encolheu e o dos escal\u00f5es mais humildes subiu, a forma de acesso ao mercado de trabalho por parte dos diferentes grupos de cor ou ra\u00e7a fundamentalmente n\u00e3o mudou. A popula\u00e7\u00e3o branca era 80% dos empregadores nos anos 1990, percentual que se mant\u00e9m atualmente. Os homens negros e as mulheres negras, respectivamente, costumam responder por cerca de 65% &#8211; 70% dos empregos na constru\u00e7\u00e3o civil e dom\u00e9stica, isso tanto antes como depois das transforma\u00e7\u00f5es ocorridas em nosso mercado de trabalho.<BR>  <P>Sinteticamente, portanto, pode-se dizer que houve uma mudan\u00e7a nos patamares de rendimento dos grupos de cor ou ra\u00e7a, mas sem mudar essencialmente o modo pelo qual os distintos contingentes chegam ao mercado de trabalho. Assim, segue existindo maior probabilidade de uma pessoa de pele clara ter acesso aos postos mais prestigiados, o contr\u00e1rio ocorrendo com as pessoas de pele escura.<BR>  <P><B>Entre 2009 e 2010, foram registradas 66.350 den\u00fancias de viol\u00eancia contra mulheres, das quais 27.676 contra brancas e 23.698 contra pretas e pardas. A que podemos atribuir essa diferen\u00e7a de den\u00fancias?<\/B>  <P>Em primeiro lugar, acho importante destacar que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tenha passado a coletar estes dados. Incorporar os dados da viol\u00eancia contra a mulher dentro do SINAN, pois al\u00e9m de dar visibilidade ao tema, \u00e9, igualmente, um reconhecimento de que o problema n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o meramente policial, \u00e9 tamb\u00e9m um problema social grav\u00edssimo, uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica.<BR>  <P>A superioridade das den\u00fancias de mulheres brancas deve abrigar duas observa\u00e7\u00f5es preliminares. A primeira \u00e9 que, pelos dados do SINAN, h\u00e1 14.176 casos de viol\u00eancia contra a mulher sem o registro da cor da pele da v\u00edtima, o que diante do estudo dos impactos deste fen\u00f4meno sobre os grupos de cor ou ra\u00e7a corresponde a uma significativa subnotifica\u00e7\u00e3o. Ou seja, esta lacuna prejudica uma an\u00e1lise mais profunda do fen\u00f4meno da viol\u00eancia de g\u00eanero sobre os grupos de cor ou ra\u00e7a.<BR>  <P>Apesar de os n\u00fameros n\u00e3o serem auto-evidentes, uma segunda hip\u00f3tese que podemos inferir \u00e9 que as mulheres brancas, pelo maior n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o, melhores condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas e maior auto-estima, se sentiriam mais seguras de seus direitos e denunciariam com mais facilidade as viol\u00eancias sofridas \u00e0s autoridades da \u00e1rea da sa\u00fade. As negras, diante da desvaloriza\u00e7\u00e3o social cr\u00f4nica a que s\u00e3o submetidas, poderiam ter hipoteticamente maiores dificuldade na hora de reclamar e defender seus direitos por n\u00e3o se sentirem seguras para tanto. Os dados n\u00e3o dizem isso, mas dialogam com nossa realidade social tornando a hip\u00f3tese plaus\u00edvel. Assim, os dados da viol\u00eancia que incidem contra as mulheres negras poderiam estar ainda mais subestimados.<BR>  <P><B>Um dado que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a maior incid\u00eancia de viol\u00eancias sexuais contra as mulheres negras (45% contra 40%). O estupro, por exemplo, registrou o \u00edndice de 48,6% para negras contra 38,8 para brancas. A que fatores podemos atribuir essa realidade?<\/B>  <P>\u00c9 dif\u00edcil responder precisamente a esta pergunta na falta de dados complementares, muito embora n\u00e3o seja nada implaus\u00edvel associar tais diferen\u00e7as ao padr\u00e3o brasileiro de rela\u00e7\u00f5es raciais e&nbsp;\u00e0 forma pela qual as mulheres negras s\u00e3o usualmente tratadas em nossa sociedade. O fato das mulheres viverem em ambientes socioeconomicamente mais prec\u00e1rios e pobres deve influenciar esses n\u00fameros. Mas a cor da pele \u00e9 em si um fator que aumenta a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, especialmente a sexual, situa\u00e7\u00e3o na qual se soma o desrespeito com a falta de considera\u00e7\u00e3o para com a dignidade humana. O que os n\u00fameros do SINAN sugerem \u00e9 que o racismo atua como um mecanismo que potencializa a vulnerabilidade das mulheres negras para este tipo de situa\u00e7\u00e3o.<BR>  <P><B>Que tipos de a\u00e7\u00f5es, leis e pol\u00edticas p\u00fablicas podem ser criadas ou melhoradas para combater essas desigualdades no \u00e2mbito trabalhista e da viol\u00eancia?<\/B>  <P>O enfrentamento das desigualdades no mercado de trabalho envolve desde o investimento na educa\u00e7\u00e3o, para proporcionar uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissional, at\u00e9 pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa no setor p\u00fablico e privado. A redu\u00e7\u00e3o das desigualdades raciais precisa ser vista como um objeto a ser perseguido pelo Estado e por toda sociedade. Infelizmente, isso n\u00e3o acontece no mercado de trabalho e demais espa\u00e7os da vida social, contribuindo para que as posi\u00e7\u00f5es desvantajosas das pessoas negras na sociedade brasileira se prorroguem indefinidamente.<BR>  <P>A quest\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 mais complexa. N\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o econ\u00f4mica ou de prest\u00edgio social. O agente violador dos direitos da mulher pode ser encontrado em todas as classes sociais e grupos de cor ou ra\u00e7a. O racismo \u00e0 brasileira impulsiona este tipo de pr\u00e1tica, tornando as mulheres negras especialmente vulner\u00e1veis, especialmente no plano da viol\u00eancia sexual.<BR>  <P>Precisamos, primeiramente, melhorar a produ\u00e7\u00e3o de dados nas \u00e1reas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a e analis\u00e1-los conjuntamente. Assim, vamos conseguir pensar melhor o fen\u00f4meno da viol\u00eancia contra mulher sob a \u00f3tica da sa\u00fade p\u00fablica. E isso vai se refletir nas respostas que o poder p\u00fablico ir\u00e1 elaborar. Mas estas respostas ter\u00e3o de englobar diversos n\u00edveis, incluindo o plano educacional, da \u00e1rea da sa\u00fade e da seguran\u00e7a p\u00fablica. E tamb\u00e9m das pol\u00edticas da igualdade racial, que igualmente deveriam permear este conjunto de \u00e1reas desde uma perspectiva transversal.<\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Datos del Laboratorio de An\u00e1lisis Econ\u00f3micos Hist\u00f3ricos y Estad\u00edsticos de las Relaciones Raciales (Laeser\/UFRJ) muestran c\u00f3mo la desigualdad de ingresos separa a mujeres blancas de negras y c\u00f3mo la violencia de g\u00e9nero no est\u00e1 disociada de aspectos raciales. 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