{"id":1344,"date":"2012-01-25T00:00:00","date_gmt":"2012-01-25T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2012\/01\/25\/alcohol-y-genero\/"},"modified":"2012-01-25T00:00:00","modified_gmt":"2012-01-25T02:00:00","slug":"alcohol-y-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/alcohol-y-genero\/1344\/","title":{"rendered":"Alcohol y g\u00e9nero"},"content":{"rendered":"<p>Predominantemente associado aos homens, o consumo de \u00e1lcool tem sido cada vez mais associado \u00e0s mulheres. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a propor\u00e7\u00e3o de mulheres na popula\u00e7\u00e3o brasileira alco\u00f3latra triplicou, passando de 10% para 30%, conforme dados recentes da Secretaria Nacional de Antidrogas e da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo.<BR>  <P>A mudan\u00e7a no perfil do consumidor de \u00e1lcool \u00e9 notada tamb\u00e9m na popula\u00e7\u00e3o jovem. A dist\u00e2ncia entre os g\u00eaneros tem encolhido: entre a popula\u00e7\u00e3o menor de 18 anos, elas representam 31% dos que bebem com frequ\u00eancia (m\u00ednimo de cinco doses semanais) contra 34% dos homens. De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, entre 2006 e 2010, o consumo excessivo de \u00e1lcool entre mulheres passou de 8,2% para 10,6%.<BR>  <P>O panorama descrito pelas pesquisas envolve aspectos que escapam das quest\u00f5es eminentemente m\u00e9dicas. A rela\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool com a mulher deve ser entendida tamb\u00e9m como uma rela\u00e7\u00e3o generificada em que institui\u00e7\u00f5es de tratamento, la\u00e7os familiares, concep\u00e7\u00f5es morais, modelo de propaganda e marketing e classe social est\u00e3o articulados no cotidiano do alco\u00f3latra. &ldquo;H\u00e1 uma dimens\u00e3o moral que engloba e organiza a experi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a&rdquo;, observa a psic\u00f3loga e doutora em Sa\u00fade Coletiva Fernanda de CarvalhoVecchi Alzuguir, cuja trajet\u00f3ria acad\u00eamica e cient\u00edfica est\u00e1 ligada ao estudo das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e o alcoolismo.<BR>  <P>Em entrevista ao CLAM, Fernanda Vecchi Alzuguir opina sobre o dispositivo terap\u00eautico acionado para tratar o alcoolismo feminino e analisa de que forma expectativas de g\u00eanero surgem nos discursos das mulheres em tratamento.<BR>  <P><B>O que a motivou a estudar a tem\u00e1tica do alcoolismo articulada a quest\u00f5es de g\u00eanero?<\/B>  <P>O interesse pelo estudo do alcoolismo e g\u00eanero surgiu da minha atua\u00e7\u00e3o pregressa em um servi\u00e7o de sa\u00fade destinado ao atendimento de homens e mulheres &ldquo;<I>alco\u00f3latras<\/I>&rdquo;[1]. Participando de um grupo formado por mulheres em tratamento nesse servi\u00e7o, percebi que muitas delas tentavam relacionar maternidade e alcoolismo. A pergunta &ldquo;gravidez e alcoolismo combinam?&rdquo; era recorrente nos espa\u00e7os de atendimento. Verifiquei tamb\u00e9m um padr\u00e3o discursivo caracterizado por justificativas para a impossibilidade de atenderem expectativas sociais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade. Tais justificativas normalmente se apoiavam na id\u00e9ia de que o alcoolismo era uma doen\u00e7a que escapava ao controle pessoal, o que &ldquo;desculpava&rdquo; o n\u00e3o atendimento daquelas expectativas. Tais quest\u00f5es apontaram para a dimens\u00e3o de g\u00eanero como um importante ordenador da forma como as mulheres da pesquisa constru\u00edam sua rela\u00e7\u00e3o com a bebida e os discursos sobre o alcoolismo. Outro aspecto que me motivou foi a escassa produ\u00e7\u00e3o na \u00e1rea das ci\u00eancias sociais sobre alcoolismo e g\u00eanero.<BR>  <P><B>Seu estudo chama a aten\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia de uma &ldquo;carreira moral do alcoolismo&rdquo;. O que isto significa? <\/B> <P>A carreira moral \u00e9 um conceito elaborado pelo soci\u00f3logo Erving Goffman, segundo o qual pessoas com um estigma particular tendem a passar por experi\u00eancias semelhantes de aprendizagem e mudan\u00e7as na constru\u00e7\u00e3o da identidade. Ele chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a interna\u00e7\u00e3o em uma <I>institui\u00e7\u00e3o total<\/I> [2] \u00e9 um acontecimento significativo na vida de uma pessoa e que produz efeitos na constru\u00e7\u00e3o de esquemas de imagem para julgar a si mesmo e ao outro.<BR>  <P>Neste sentido, a carreira moral do alcoolismo foi empregada para designar o impacto do percurso do tratamento em servi\u00e7os que se destinam ao enfrentamento do alcoolismo no sentido da reformula\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria pessoal, da consolida\u00e7\u00e3o de uma identidade alco\u00f3latra e da no\u00e7\u00e3o de que o alcoolismo \u00e9 uma doen\u00e7a.<BR>  <P>\u00c0 \u00e9poca da pesquisa, as mulheres relatavam geralmente um contato anterior ou concomitante com outros servi\u00e7os que lidam com o alcoolismo, como \u00e9 o caso dos grupos de ajuda-m\u00fatua Alco\u00f3licos An\u00f4nimos (AA). \u00c9 neste percurso pelas institui\u00e7\u00f5es voltadas para o enfrentamento da quest\u00e3o que as mulheres constroem uma mem\u00f3ria condizente com uma nova imagem de si, descartando os eventos singulares e enaltecendo aqueles relacionados ao sistema cultural espec\u00edfico que se constitui em torno da identidade alco\u00f3latra e do alcoolismo. A influ\u00eancia do percurso institucional se evidenciou nas diferen\u00e7as marcantes das percep\u00e7\u00f5es sobre o alcoolismo entre entrevistadas rec\u00e9m-ingressas no servi\u00e7o de sa\u00fade onde realizei a pesquisa e aquelas com inser\u00e7\u00e3o de longa data. No primeiro caso, elas hesitavam em se definirem como alco\u00f3latras e falavam de &ldquo;estar se conscientizando&rdquo; de que o alcoolismo \u00e9 uma doen\u00e7a. J\u00e1 no caso das mulheres com inser\u00e7\u00e3o de longa data, a identidade alco\u00f3latra aparecia de forma mais sedimentada.<BR>  <P><B>Seu trabalho mostra que duas concep\u00e7\u00f5es sobre alcoolismo coexistem: uma biom\u00e9dica e outra moral. O que elas significam e como tais concep\u00e7\u00f5es se relacionam? <\/B> <P>A concep\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica do alcoolismo se refere \u00e0 compreens\u00e3o do alcoolismo como uma doen\u00e7a caracterizada pela perda do controle da vontade de beber. Sua constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 afetada pela racionalidade m\u00e9dica vigente nas institui\u00e7\u00f5es de enfrentamento do alcoolismo, embora n\u00e3o se resuma a ela. J\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o moral do alcoolismo designa a dimens\u00e3o s\u00f3cio-cultural, o sistema de valores e cren\u00e7as a partir do qual o alcoolismo se constitui. A enuncia\u00e7\u00e3o de uma moral da vergonha e da responsabilidade era recorrente nos discursos das mulheres. Elas eram vias privilegiadas de acesso \u00e0 dimens\u00e3o moral do alcoolismo.<BR>  <P>As duas concep\u00e7\u00f5es est\u00e3o interligadas, de maneira que sua separa\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas esquem\u00e1tica. Embora interligadas, aparecem com peso e organiza\u00e7\u00e3o diferenciados nos discursos. A dimens\u00e3o moral do alcoolismo \u00e9 o que de fato engloba e ordena as percep\u00e7\u00f5es das mulheres sobre sua experi\u00eancia alco\u00f3lica. No entanto, ela \u00e9 encoberta e aparentemente neutralizada devido ao processo de medicaliza\u00e7\u00e3o pelo qual as entrevistadas passam ao longo de sua carreira moral pelas institui\u00e7\u00f5es de enfrentamento do alcoolismo. A an\u00e1lise das narrativas das mulheres e dos homens (na pesquisa de doutorado inclu\u00ed na an\u00e1lise os homens em tratamento) elucidou que o alcoolismo se estrutura em um contexto cultural marcado por g\u00eanero, sexualidade, classe social e outros marcadores da diferen\u00e7a.<BR>  <P><B>Como avalia o papel desempenhado pelos m\u00e9dicos no acompanhamento dessas mulheres? <\/B> <P>Tanto a pesquisa com mulheres quanto, mais recentemente, o estudo com homens e mulheres em tratamento para o alcoolismo, atestam que o dispositivo terap\u00eautico se inscreve em um campo profundamente marcado por aspectos morais. Como disse anteriormente, essa dimens\u00e3o moral acaba sendo bastante encoberta em fun\u00e7\u00e3o do processo de medicaliza\u00e7\u00e3o. No entanto, a an\u00e1lise atenta das narrativas permite desvendar a moralidade que cerca a concep\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica do alcoolismo por eles incorporada em sua carreira de tratamento.<BR>  <P>Por um lado, as interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas &ldquo;desculpabilizam&rdquo; homens e mulheres pelo uso de bebida, o que contribui para o ingresso e a perman\u00eancia no tratamento. Pode-se dizer que tal &ldquo;desculpabiliza\u00e7\u00e3o&rdquo; \u00e9 um importante elemento para a aceita\u00e7\u00e3o do tratamento. Mas, ao mesmo tempo, embora de maneira mais impl\u00edcita, os momentos de reinterna\u00e7\u00e3o, s\u00edmbolo da chamada &ldquo;reca\u00edda&rdquo;, s\u00e3o percebidos pelos entrevistados como uma esp\u00e9cie de fracasso moral, ocasionando um sentimento de vergonha por n\u00e3o terem conseguido levar adiante as prescri\u00e7\u00f5es do tratamento. Assim, a culpabiliza\u00e7\u00e3o\/desculpabiliza\u00e7\u00e3o se relaciona intimamente com a avalia\u00e7\u00e3o das responsabilidades. No que se refere ao aspecto da determina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, o estatuto de doente alco\u00f3lico desresponsabiliza o\/a alco\u00f3latra por sua vontade de beber j\u00e1 que o alcoolismo \u00e9 concebido em termos de uma predisposi\u00e7\u00e3o natural que independe da vontade e controle pessoal. No entanto, a conscientiza\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o doente, adquirida ao longo do tratamento, tamb\u00e9m acirra o grau de responsabilidade no sentido de evitar o contato com a bebida. Esta responsabilidade \u00e9 sinalizada pelos m\u00e9dicos nos atendimentos e pelos pr\u00f3prios entrevistados quando eles deixam de cumprir as prescri\u00e7\u00f5es do tratamento, como comparecer \u00e0s consultas, usar as medica\u00e7\u00f5es e evitar o uso de bebida.<BR>  <P>Os discursos de homens e mulheres evidenciam como diferentes expectativas de g\u00eanero afetam os sentidos atribu\u00eddos \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia moral decorrente do uso de bebida. Enquanto para alguns homens entrevistados esse fracasso se vinculava na pesquisa ao n\u00e3o cumprimento do papel do pai e marido provedor, para as mulheres ele decorre do distanciamento das expectativas de cuidado em rela\u00e7\u00e3o aos filhos.<BR>  <P><B>Acredita que a crescente aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica sobre o alcoolismo nas mulheres reflete uma no\u00e7\u00e3o de feminilidade associada a uma suposta fragilidade do corpo da mulher (similar \u00e0s concep\u00e7\u00f5es de g\u00eanero da medicina no s\u00e9culo XIX)?<\/B>  <P>Sim. No discurso m\u00e9dico, os corpos das mulheres alco\u00f3latras s\u00e3o descritos como naturalmente distintos e mais vulner\u00e1veis aos efeitos delet\u00e9rios do \u00e1lcool, os quais s\u00e3o caracterizados como mais devastadores nas mulheres do que nos homens. O alcoolismo feminino adquire, assim, contornos espec\u00edficos que o diferencia do alcoolismo masculino. Esse discurso reatualiza concep\u00e7\u00f5es de g\u00eanero da medicina do s\u00e9culo XIX que consolidavam a imagem de um corpo feminino inst\u00e1vel e vulner\u00e1vel, o que demandava um monitoramento cont\u00ednuo e a constru\u00e7\u00e3o de um saber espec\u00edfico sobre este corpo. O problema desse tipo de narrativa que tem se intensificado na m\u00eddia nos \u00faltimos anos \u00e9 que a maioria parte de um determinismo biol\u00f3gico que reduz e simplifica o alcoolismo, feminino ou masculino, como uma quest\u00e3o estritamente biol\u00f3gica, ignorando o papel de marcadores sociais, como o g\u00eanero, na sua constitui\u00e7\u00e3o. Assim, por exemplo, o impacto do g\u00eanero na produ\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as na rela\u00e7\u00e3o que homens e mulheres estabelecem com a bebida, nos estilos de consumo e circula\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os p\u00fablicos e privados, \u00e9 explicado como uma diferen\u00e7a de natureza biol\u00f3gica.<BR>  <P>A naturaliza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a de g\u00eanero pode acarretar a estigmatiza\u00e7\u00e3o de mulheres cujo modo de beber n\u00e3o se adequa \u00e0s constru\u00e7\u00f5es em torno de um beber dito &ldquo;feminino&rdquo;. Mulheres que bebem nos espa\u00e7os p\u00fablicos e de maneira solit\u00e1ria, por exemplo. As marca\u00e7\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o t\u00e3o presentes e determinantes que mesmo as entrevistadas que transgrediam em v\u00e1rios n\u00edveis a equa\u00e7\u00e3o feminino = privado, que bebiam intensamente na rua, inscreviam este consumo como um &ldquo;beber masculino&rdquo;.<BR>  <P><B>Nas rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, \u00e9 not\u00f3ria a exist\u00eancia de uma divis\u00e3o do trabalho: as mulheres s\u00e3o, culturalmente, vistas como as respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o e limpeza da casa, bem como pelo cuidado com os filhos. No seu trabalho, quais implica\u00e7\u00f5es o alcoolismo tem domesticamente?<\/B>  <P>Um aspecto bem marcante nos depoimentos das mulheres da pesquisa foi a tentativa de conciliarem o consumo de bebida com o cuidado dos filhos. Uma tens\u00e3o entre o projeto de maternidade e o consumo de bebida ficou bem evidente em alguns depoimentos. H\u00e1 uma exacerba\u00e7\u00e3o nos relatos de uma \u00e9tica da responsabilidade quanto ao cuidado dos filhos. Neste sentido, as mulheres, sendo m\u00e3es ou n\u00e3o, salientaram que a responsabilidade pela maternidade se mantinha a despeito do uso de bebida. A necessidade de assinalar esta manuten\u00e7\u00e3o elucida a articula\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica e socialmente conden\u00e1vel entre beber e maternar. As mulheres sem filhos relataram que a maternidade demandaria uma responsabilidade que elas n\u00e3o poderiam cumprir. Para estas mulheres, a decis\u00e3o de n\u00e3o ter filhos era avaliada como um ato de responsabilidade. J\u00e1 as entrevistadas que eram m\u00e3es consideravam um ato de responsabilidade a transfer\u00eancia do cuidado dos filhos a uma pessoa pr\u00f3xima, normalmente parentes, antes de irem beber. Apesar da tentativa de sustentarem uma \u00e9tica da responsabilidade, algumas mulheres informaram, com certa dificuldade, que mesmo este cuidado j\u00e1 foi em algum momento abalado com o uso da bebida.<BR>  <P>A distin\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e privado \u00e9 um forte marcador que impacta a experi\u00eancia das mulheres com a bebida. A maioria das entrevistadas relatou que o consumo alco\u00f3lico ocorria mais freq\u00fcentemente fora de casa, especialmente nos bares. No entanto, o beber nos bares n\u00e3o implicava necessariamente na transgress\u00e3o ou inobserv\u00e2ncia das regras de g\u00eanero, j\u00e1 que as mulheres que bebiam nestes locais se preocupavam em sinalizar que este consumo ocorria quando estavam acompanhadas ou ent\u00e3o que sempre levavam dinheiro para pagar. As narrativas de que o consumo ocorria sob determinadas condi\u00e7\u00f5es apontaram para a sustenta\u00e7\u00e3o de uma moral sexual feminina no contexto dos bares. De um modo geral, as informantes aludiam a um tratamento diferencial pelos homens que costumam pagar bebida por interesse sexual. Alguns relatos mostram o estigma em torno das mulheres que bebem desacompanhadas e sem dinheiro para pagar, a partir de uma avalia\u00e7\u00e3o moral que vincula tais condi\u00e7\u00f5es \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o feminina.<BR>  <P>Outro aspecto importante que remete \u00e0 dimens\u00e3o privada da experi\u00eancia com a bebida, e que est\u00e1 relacionada ao aspecto da socializa\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica feminina, \u00e9 o relato de que o contato inicial com a bebida ocorreu por interm\u00e9dio de familiares, especialmente do pai, que costumava apresentar a bebida em eventos festivos no \u00e2mbito familiar. Uma das entrevistadas, inclusive, relatou que a m\u00e3e desaprovava seu consumo alco\u00f3lico somente quando este ocorria fora de casa. Este exemplo \u00e9 ilustrativo de que a condena\u00e7\u00e3o do uso de \u00e1lcool se constr\u00f3i em um campo moral marcado por expectativas sociais de g\u00eanero.<BR>  <P><B>Que influ\u00eancia a classe social exerce sobre os discursos das mulheres pesquisadas em seu trabalho?<\/B>  <P>Na pesquisa, tanto com as mulheres quanto com os homens em tratamento, a classe social \u00e9 uma categoria que estabelece diferen\u00e7as nas narrativas dos entrevistados. No entanto, essas diferen\u00e7as s\u00e3o atenuadas por conta do percurso de tratamento e da conseq\u00fcente produ\u00e7\u00e3o de um novo pertencimento social que se consolida em torno da condi\u00e7\u00e3o de doente-alco\u00f3latra. Essa carreira moral favorece uma aparente homogeneiza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as entre os entrevistados. Digo aparente, j\u00e1 que essas diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o apagadas mas sim encobertas pelo processo de medicaliza\u00e7\u00e3o pois \u00e9 a dimens\u00e3o moral que engloba e organiza a experi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a.<BR>  <P>No caso de algumas mulheres provenientes de camadas m\u00e9dias urbanas, o tipo de bebida se apresentava como um signo de distin\u00e7\u00e3o social no contexto onde bebiam. Assim, o uso de bebidas como whisky e vinho era narrado como s\u00edmbolo de distin\u00e7\u00e3o social em rela\u00e7\u00e3o a bebidas mais populares e de custo mais baixo como a cerveja e a cacha\u00e7a.<BR>  <P>Outro aspecto importante observado foi o peso diferenciado de enuncia\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o moral do alcoolismo de acordo com a classe social. Homens e mulheres provenientes das camadas populares tendiam a enfatizar aspectos morais como o sentimento de vergonha em rela\u00e7\u00e3o ao passado de uso de bebida. J\u00e1 os membros das camadas m\u00e9dias salientavam a dimens\u00e3o m\u00e9dico-psicol\u00f3gica do alcoolismo e do tratamento, as dificuldades emocionais e o recurso da terapia ou da reflex\u00e3o pessoal como estrat\u00e9gias de enfrentamento daquelas dificuldades. A explica\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento pessoal nesses casos se sobrepunha \u00e0 explica\u00e7\u00e3o moral a respeito do alcoolismo. Ela evidencia a influ\u00eancia do plano psicol\u00f3gico na pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da Pessoa, influ\u00eancia que se mostra mais marcante para os membros das camadas m\u00e9dias.<BR>  <P>De um modo geral, bastante presente nos discursos s\u00e3o as estrat\u00e9gias de distanciamento de situa\u00e7\u00f5es que aludem \u00e0 decad\u00eancia moral e social associadas \u00e0 experi\u00eancia com a bebida, como \u00e9 o caso da representa\u00e7\u00e3o em torno do &ldquo;cair no ch\u00e3o&rdquo; devido ao consumo intenso de bebida. A pr\u00f3pria express\u00e3o &ldquo;reca\u00edda&rdquo;, comumente empregada para designar aqueles que voltaram a beber, remete \u00e0 imagem de descenso social e moral. Assim, o beber &ldquo;sem cair&rdquo;, a manuten\u00e7\u00e3o de certa postura corporal em momentos de embriaguez \u00e9 tamb\u00e9m uma no\u00e7\u00e3o valorizada entre os entrevistados.<BR>  <P><B>Pesquisa recente do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostrou que, entre 2006 e 2010, o n\u00famero de mulheres que consomem bebidas alco\u00f3licas em excesso aumentou de 8,2% para 10,6%. A que podemos atribuir esse aumento? <\/B> <P>Podemos levantar v\u00e1rios aspectos e questionar se este aumento reflete simplesmente um aumento do consumo por parte de mulheres. Considero que a quest\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de uma maior visibilidade social em rela\u00e7\u00e3o a este consumo deve ser contemplada nas an\u00e1lises sobre este fen\u00f4meno. Pois \u00e9 plaus\u00edvel considerar que por conta do pr\u00f3prio estigma que envolve as mulheres que bebem, muitas acabam bebendo mais dentro de casa, de forma mais velada, e acessam menos os servi\u00e7os de sa\u00fade. E mesmo quando chegam aos servi\u00e7os ainda \u00e9 poss\u00edvel supor maior dificuldade de as queixas resultarem em um diagn\u00f3stico de alcoolismo para as mulheres por parte dos pr\u00f3prios profissionais, j\u00e1 que a literatura m\u00e9dica sobre o assunto e os servi\u00e7os ainda est\u00e3o muito voltados para a representa\u00e7\u00e3o do alcoolismo como uma quest\u00e3o masculina. S\u00f3 mais recentemente tem sido poss\u00edvel observar uma transforma\u00e7\u00e3o nos discursos midi\u00e1ticos e cient\u00edficos no sentido de reconhecer e dar visibilidade \u00e0 rela\u00e7\u00e3o mulheres e alcoolismo, o que podemos relacionar, entre outros fatores, \u00e0s mudan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao papel das mulheres na sociedade e da crescente inser\u00e7\u00e3o das mulheres nos espa\u00e7os p\u00fablicos.<BR>  <P>Apesar das mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero no contexto contempor\u00e2neo, o g\u00eanero ainda \u00e9 fortemente marcado por uma separa\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria que estabelece e naturaliza diferen\u00e7as entre homens e mulheres alco\u00f3latras. Por exemplo, algumas entrevistadas atribu\u00edram um car\u00e1ter de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de g\u00eanero na rela\u00e7\u00e3o &ldquo;menos privada&rdquo; que estabeleciam com a bebida, caso de algumas mulheres que bebiam intensamente nos bares. Entretanto, os sentidos fornecidos para este consumo se ancoram a um referencial &ldquo;masculino&rdquo;, quando dizem, por exemplo, que bebem de uma maneira &ldquo;masculina&rdquo;, atestando a aus\u00eancia de um espa\u00e7o de significa\u00e7\u00e3o para o beber feminino no contexto p\u00fablico.<BR>  <P><B>O consumo de \u00e1lcool parece ser um indicador de status e de socializa\u00e7\u00e3o. No entanto, apesar de aceita e muitas vezes celebrada culturalmente, a bebida tamb\u00e9m implica em estigmas sociais. Como interpretar essa contradi\u00e7\u00e3o entre incita\u00e7\u00e3o e penaliza\u00e7\u00e3o?<\/B>  <P>Este cen\u00e1rio aparentemente contradit\u00f3rio de incita\u00e7\u00e3o e penaliza\u00e7\u00e3o do consumo de bebida remete \u00e0s proscri\u00e7\u00f5es e prescri\u00e7\u00f5es sociais constru\u00eddas em torno daquele consumo. A an\u00e1lise dos contextos de aprova\u00e7\u00e3o e desaprova\u00e7\u00e3o do consumo de bebida para homens e mulheres elucida as regras que definem a normalidade e o desvio em uma sociedade ou grupo espec\u00edfico.<BR>  <P>Nesta an\u00e1lise, n\u00e3o podemos desconsiderar tamb\u00e9m que o consumo de bebida exerce um impacto nada desprez\u00edvel sob a economia mundial em raz\u00e3o dos lucros da ind\u00fastria de bebida.<BR>  <P>Os padr\u00f5es de excesso e normalidade quanto ao uso de bebida est\u00e3o orientados por alguns eixos morais que foram constru\u00eddos no contexto do individualismo moderno, dos quais destaco a \u00eanfase no autocontrole que se traduz na responsabiliza\u00e7\u00e3o individual pelo controle do consumo. N\u00e3o \u00e9 a toa que a doen\u00e7a do alcoolismo se constituiu neste mesmo cen\u00e1rio como uma perturba\u00e7\u00e3o marcada pela falta de controle em rela\u00e7\u00e3o ao beber. Tal \u00eanfase no indiv\u00edduo acaba por minimizar ou mesmo encobrir o papel do contexto s\u00f3cio-cultural mais amplo na incita\u00e7\u00e3o e penaliza\u00e7\u00e3o do consumo alco\u00f3lico.<BR>  <P>Alguns trabalhos do campo das ci\u00eancias sociais mostram que o consumo recreativo de bebida tamb\u00e9m n\u00e3o escapa \u00e0s regras sociais. Por exemplo, a antrop\u00f3loga Delma Pessanha Neves, uma das estudiosas do campo, chama a aten\u00e7\u00e3o para os c\u00f3digos sociais no contexto dos bares, que s\u00e3o espa\u00e7os de consagra\u00e7\u00e3o do &ldquo;bom bebedor&rdquo; em detrimento do &ldquo;b\u00eabado&rdquo;. O &ldquo;bom bebedor&rdquo; seria aquele que n\u00e3o coloca em xeque as reciprocidades sociais enquanto que o &ldquo;b\u00eabado&rdquo; solit\u00e1rio costuma ser recha\u00e7ado e visto com suspei\u00e7\u00e3o pelos freq\u00fcentadores e pelo pr\u00f3prio dono do bar.<BR> <BR> <B>As a\u00e7\u00f5es de publicidade de cervejas, no Brasil, s\u00e3o marcadas pelo uso estereotipado&nbsp; do corpo feminino: valoriza-se o corpo da mulher em um cen\u00e1rio que elas assumem um papel de objeto dos homens. Qual a sua opini\u00e3o sobre esse modelo de propaganda?<\/B>  <P>Este modelo de propaganda n\u00e3o s\u00f3 reflete como refor\u00e7a estere\u00f3tipos de g\u00eanero presentes na nossa sociedade. A associa\u00e7\u00e3o da bebida ao feminino \u00e9 bem explicitada na linguagem cotidiana, a come\u00e7ar pelos nomes das bebidas: &ldquo;branquinha&rdquo;, &ldquo;loira&rdquo;, &ldquo;gelada&rdquo;, &ldquo;boa&rdquo;, entre outras denomina\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias. A bebida encarna uma imagem do feminino marcada pela sensualidade e um forte apelo ao aspecto da sedu\u00e7\u00e3o. Os homens entrevistados em uma pesquisa mais recente, tamb\u00e9m em contexto de tratamento para o alcoolismo, evidenciaram esta aproxima\u00e7\u00e3o. A bebida aparecia em seus relatos de maneira personificada e narrada no feminino como se fosse uma parceira amorosa. As propagandas parecem captar muito bem e fortalecer essas representa\u00e7\u00f5es masculinas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 bebida e sua associa\u00e7\u00e3o com o feminino.<BR>  <P><B>De acordo com o modelo de tratamento do alcoolismo estudado por voc\u00ea, em que aspectos ele pode ser melhorado?<\/B>  <P>Os modelos de tratamento para o alcoolismo se amparam na racionalidade m\u00e9dica que restringe o alcoolismo a um problema m\u00e9dico. Essa leitura reduz o fen\u00f4meno a uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito baseada em um corpo biol\u00f3gico e se traduz em estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o ainda altamente medicalizadas. Toda a dimens\u00e3o s\u00f3cio-cultural mais ampla de constitui\u00e7\u00e3o dos processos de sa\u00fade e doen\u00e7a e seu papel na constru\u00e7\u00e3o do alcoolismo, a influ\u00eancia, por exemplo, de marcadores como g\u00eanero e classe social, da cultura de tratamento \u00e0 pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do alcoolismo, n\u00e3o s\u00e3o contemplados pelo modelo biom\u00e9dico. Por essa raz\u00e3o considero de extrema import\u00e2ncia sensibilizar os profissionais para o contexto s\u00f3cio-cultural em que o alcoolismo se produz e o papel de categorias como g\u00eanero, sexualidade, classe social, tempo de interna\u00e7\u00e3o, por exemplo, na organiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da pessoa com o \u00e1lcool e que deveriam ser contempladas na organiza\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias de cuidado.<BR>  <P><EM>[1] Com o termo &ldquo;alco\u00f3latras&rdquo; chamo a aten\u00e7\u00e3o para a influ\u00eancia do percurso de tratamento pelas institui\u00e7\u00f5es que visam o enfrentamento do alcoolismo no sentido da constru\u00e7\u00e3o da identidade &ldquo;alco\u00f3latra&rdquo; e da no\u00e7\u00e3o de alcoolismo como uma doen\u00e7a.<\/EM>  <P><EM>[1] Para Goffman, o aspecto central da institui\u00e7\u00e3o total \u00e9 a ruptura de barreiras que separam o dormir, o brincar e o trabalhar, de modo que todos os aspectos da vida s\u00e3o realizados sob um plano racional \u00fanico. <\/EM><\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>En entrevista con el CLAM, la psic\u00f3loga y doctora en Salud Colectiva Fernanda de Carvalho Vecchi Alzuguir analiza los impactos del alcoholismo en mujeres. 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