{"id":1395,"date":"2006-08-30T00:00:00","date_gmt":"2006-08-30T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2006\/08\/30\/analisis-cultural-de-la-reproduccion\/"},"modified":"2006-08-30T00:00:00","modified_gmt":"2006-08-30T03:00:00","slug":"analisis-cultural-de-la-reproduccion","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/analisis-cultural-de-la-reproduccion\/1395\/","title":{"rendered":"An\u00e1lisis cultural de la reproducci\u00f3n"},"content":{"rendered":"<p>Publicado em 1987 nos EUA, <I>A mulher no corpo<\/I> \u00e9 tido como um marco pioneiro nos estudos de g\u00eanero e na antropologia. Construindo uma cr\u00edtica social, a pesquisadora norte-americana Emily Martin (Universidade de Nova York) examina como os processos culturais afetam as concep\u00e7\u00f5es das mulheres sobre seus pr\u00f3prios corpos. Agora, quase vinte anos desde sua primeira edi\u00e7\u00e3o, o CLAM e a editora Garamond lan\u00e7aram, no dia 24 de agosto, durante o Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva (ABRASCO), a primeira tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas da importante obra de Martin. Na primeira metade dos anos 80, rec\u00e9m-chegada de um trabalho de campo em aldeias chinesas de Taiwan, Martin come\u00e7ou a empreender a grande pesquisa que culminaria no livro. Ao longo de tr\u00eas anos, ela entrevistou 165 mulheres de diferentes etnias, idades e classes sociais de Baltimore. Segundo a pesquisadora, uma das motiva\u00e7\u00f5es que a levou a escrever o livro foi a perspectiva de sensibilizar n\u00e3o s\u00f3 a comunidade cient\u00edfica, mas tamb\u00e9m o p\u00fablico em geral, a respeito do que seja uma an\u00e1lise feminista da ci\u00eancia. &ldquo;Esperava influenciar a auto-percep\u00e7\u00e3o das mulheres a respeito de menstrua\u00e7\u00e3o, menopausa, gravidez e parto. Quando chegou a hora de come\u00e7ar esse estudo nos Estados Unidos, pouca coisa do que aprendi em Taiwan ajudou. As culturas e percep\u00e7\u00f5es femininas s\u00e3o muito diferentes&rdquo;, diz ela.<BR>  <P>Ao contrastar as vis\u00f5es da ci\u00eancia m\u00e9dica com as da mulher americana comum, Emily Martin explora as diferentes formas pelas quais os processos reprodutivos das mulheres s\u00e3o vistos na cultura americana. Nesta entrevista, ela fala dos objetivos que a nortearam a escrever o livro, os estere\u00f3tipos da medicina em rela\u00e7\u00e3o ao corpo da mulher e as conseq\u00fc\u00eancias pr\u00e1ticas da obra na vida das mulheres ao longo dessas duas d\u00e9cadas.<BR>  <P><B>Que motiva\u00e7\u00f5es a levaram a escrever <I>A mulher no corpo<\/I>?<\/B>  <P>Primeiramente, eu tinha um contrato de trabalho, o que significava que eu estava livre para trabalhar nos EUA, algo que os antrop\u00f3logos n\u00e3o faziam muito freq\u00fcentemente naquela \u00e9poca. O prest\u00edgio era conseguir uma bolsa e ir trabalhar o mais longe poss\u00edvel do pa\u00eds, como eu tinha feito na minha pesquisa anterior nas aldeias chinesas de Taiwan. Por outro lado, meu primeiro filho tinha acabado de nascer e essa experi\u00eancia me estimulou. Eu estava chocada ao perceber at\u00e9 onde o parto tinha se tornado algo controlado pelos r\u00edgidos padr\u00f5es hospitalares de produ\u00e7\u00e3o e pela complac\u00eancia dos m\u00e9dicos em rela\u00e7\u00e3o a esses padr\u00f5es. Comecei ent\u00e3o a usar o meu treinamento antropol\u00f3gico para examinar a conjuntura cultural de ent\u00e3o e ver que mudan\u00e7as hist\u00f3ricas tinham ocorrido.<BR>  <P><B>A sra. define seu estudo como uma an\u00e1lise feminista da ci\u00eancia. A quem esperava atingir, nos anos 80, com a publica\u00e7\u00e3o do livro?<\/B>  <P>Eu me esfor\u00e7ava por obter algum tipo de vis\u00e3o cr\u00edtica que pudesse usar para descrever as pr\u00e1ticas normais de obstetr\u00edcia e a linguagem diferente que eu pensava que as mulheres j\u00e1 estivessem usando para descrever suas experi\u00eancias. Imaginava que o livro deixaria a comunidade m\u00e9dica muito zangada, e foi o que aconteceu. Por outro lado, com a publica\u00e7\u00e3o do livro, esperava tamb\u00e9m que as mulheres pudessem ficar de olhos abertos a partir de ent\u00e3o. A obra acabou tendo mais sucesso entre os alunos de gradua\u00e7\u00e3o da \u00e1rea m\u00e9dica. Muitos me contaram que haviam enviado uma c\u00f3pia do livro para suas m\u00e3es.<BR>  <P><B>Que resultados a publica\u00e7\u00e3o trouxe para a auto-percep\u00e7\u00e3o das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos temas enfocados, como menstrua\u00e7\u00e3o, menopausa, gravidez e parto?<\/B>  <P>Sabia apenas o que as mulheres escreviam sobre o livro e me contavam &ndash; como ele tinha influenciado a maneira de ver e pensar seus pr\u00f3prios corpos, na medida em que passaram a perceber o qu\u00e3o negativa era a imagem que tinham de si mesmas. Muitas mulheres disseram que o planejamento de seu parto tinha sofrido influ\u00eancia do livro: elas j\u00e1 sabiam que teriam obst\u00e1culos caso desejassem determinar o tipo de parto. \u00c9 claro que essas dicas de parto j\u00e1 estavam dispon\u00edveis nos livros feministas de sa\u00fade sexual. O que verdadeiramente <I>A mulher no corpo<\/I> forneceu foi uma an\u00e1lise cultural que afetou as mulheres ao longo de suas vidas, fazendo com que desconstru\u00edssem as vis\u00f5es negativas da menstrua\u00e7\u00e3o como um &ldquo;desperd\u00edcio&rdquo; ou uma &ldquo;falha na produ\u00e7\u00e3o&rdquo;; do parto como um evento perigoso que tinha que ser estritamente controlado; ou da menopausa, a qual significava, para muitas, o fim da capacidade feminina de reprodu\u00e7\u00e3o. A extens\u00e3o desse processo de denegrir os corpos femininos perturbava muitas pessoas. Os editores da b\u00edblia feminista de cuidados \u00e0 sa\u00fade, <I>Our Bodies Our Selves<\/I>, revisaram as se\u00e7\u00f5es que tratavam de menstrua\u00e7\u00e3o e menopausa ap\u00f3s o lan\u00e7amento do livro.<BR>  <P><B>Em 1987, ano em que o livro foi lan\u00e7ado, a sra. chamava a aten\u00e7\u00e3o para o fato que os conceitos da biologia estavam repletos de estere\u00f3tipos culturais. Que estere\u00f3tipos a sra. identificou na \u00e9poca?<\/B>  <P>Muitos deles diziam respeito \u00e0 imagem do corpo da mulher como uma m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o, uma m\u00e1quina que apenas trabalhava bem quando era a hora de parir, tendo em vista os padr\u00f5es m\u00e9dicos. Menstruar significava uma falha nessa produ\u00e7\u00e3o; ap\u00f3s a menopausa, a m\u00e1quina n\u00e3o teria mais fun\u00e7\u00e3o.<BR>  <P><B>E como a sra. v\u00ea a quest\u00e3o hoje em dia? Estes estere\u00f3tipos ainda existem ou a situa\u00e7\u00e3o mudou?<\/B>  <P>De algum modo, a situa\u00e7\u00e3o parece ter mudado para melhor. Eu tenho a impress\u00e3o que as mulheres esperam ter mais escolhas na hora do parto, por exemplo. Sabemos h\u00e1 muito tempo, desde os trabalhos antropol\u00f3gicos de Robbie Davis-Floyd, que especialmente a mulher de classe m\u00e9dia valoriza tipos de partos que envolvam alta tecnologia, devido \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de controle e de seguran\u00e7a que isto lhes d\u00e1. Em geral, a paciente se tornou a consumidora, tanto nos partos quanto em outros campos m\u00e9dicos, e aos consumidores geralmente \u00e9 oferecida uma gama de escolhas. Entretanto, \u00e0s vezes, as escolhas s\u00e3o mais imagin\u00e1rias do que reais. O problema \u00e9 que s\u00e3o as mulheres brancas de classe media que ocupam os primeiros lugares como consumidoras das novas tecnologias do parto, e freq\u00fcentemente as outras mulheres ficam de fora desta equa\u00e7\u00e3o.<BR>  <P><B>Que an\u00e1lise a sra. faz dos atuais estudos antropol\u00f3gicos relacionados a tem\u00e1tica de g\u00eanero e ao corpo da mulher? Que mudan\u00e7as e contribui\u00e7\u00f5es ocorreram desde a publica\u00e7\u00e3o de seu livro, na d\u00e9cada de 1980?<\/B>  <P>Tenho observado o desenvolvimento da teoria queer e um r\u00e1pido florescimento dos estudos sociais, tanto na frente te\u00f3rica como na etnogr\u00e1fica. A teoria queer e a chamada teoria p\u00f3s-estruturalista geralmente t\u00eam colocado em quest\u00e3o temas que pareciam ser bastante est\u00e1veis no tempo em que escrevi <I>A mulher no corpo<\/I>: ra\u00e7a, g\u00eanero e classe, por exemplo.<BR>  <P>Tem havido in\u00fameros estudos antropol\u00f3gicos bastante criteriosos sobre as novas tecnologias, por exemplo a ultra-sonografia, a qual tem sido muito mais usada e que influencia em muito o processo da concep\u00e7\u00e3o e do parto. Outra importante \u00e1rea que tem florescido \u00e9 o modo como a sele\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica durante a gesta\u00e7\u00e3o pode afetar nossas concep\u00e7\u00f5es sobre o tipo de feto aceit\u00e1vel ou n\u00e3o.<BR>  <P><B>Que estudos tem desenvolvido nos \u00faltimos tempos?<\/B>  <P>Depois de <I>A mulher no corpo<\/I>, escrevi <I>Flexible Bodies: Tracking Immunity in American Culture from the Days of Polio to the Age of AIDS<\/I>. Este livro foi baseado numa pesquisa feita em colabora\u00e7\u00e3o com um pequeno grupo de estudantes de gradua\u00e7\u00e3o. Pesquisamos organiza\u00e7\u00f5es ativistas de luta contra a Aids, grupos de suporte a pessoas que vivem com o HIV\/Aids, aulas de imunologia em faculdades, uma cl\u00ednica para pacientes com HIV e um laborat\u00f3rio de imunologia. O livro explora os ideais emergentes de flexibilidade e risco em in\u00fameros dom\u00ednios da cultura popular americana, locais de trabalho e na ci\u00eancia. Assim como em A mulher no corpo, estava interessada em ver como estes ideais funcionam diferentemente de pessoa para pessoa, de acordo com suas diferentes identidades, em virtude da sexualidade, g\u00eanero, ra\u00e7a ou classe.<BR>  <P>Minha pesquisa atual enfoca as mentes, ao inv\u00e9s dos corpos. O livro, ainda no prelo na Princeton University Press, chama-se Bipolar Expeditions: Mania and Depression in American Culture. Trata-se de uma pesquisa etnogr\u00e1fica voltada \u00e0 mania e depress\u00e3o na cultura americana e nos seus contextos hist\u00f3ricos. Argumentando que a mania e a depress\u00e3o t\u00eam uma &ldquo;vida&rdquo; cultural fora do confinamento de um diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico, o livro desafia a integridade da linha algumas vezes arbitr\u00e1ria entre raz\u00e3o e loucura, e oferece um caminho para que possamos compreender como pessoas diagnosticadas como man\u00edaco-depressivas (que sofrem de dist\u00farbio bipolar) pertencem inteiramente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana.<\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Influenciar la auto-percepci\u00f3n de las mujeres con respecto a la menstruaci\u00f3n, menopausia, concepci\u00f3n y parto, fue el principal motivo que llev\u00f3 a la antrop\u00f3loga estadounidense Emily Martin a escribir <EM>A mulher no corpo<\/EM>, traducido al portugu\u00e9s despu\u00e9s de dos d\u00e9cadas. <EM>(texto en portugu\u00e9s)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1395","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>An\u00e1lisis cultural de la reproducci\u00f3n - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/analisis-cultural-de-la-reproduccion\/1395\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"An\u00e1lisis cultural de la reproducci\u00f3n - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Influenciar la auto-percepci\u00f3n de las mujeres con respecto a la menstruaci\u00f3n, menopausia, concepci\u00f3n y parto, fue el principal motivo que llev\u00f3 a la antrop\u00f3loga estadounidense Emily Martin a escribir A mulher no corpo, traducido al portugu\u00e9s despu\u00e9s de dos d\u00e9cadas. 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