{"id":1396,"date":"2006-08-30T00:00:00","date_gmt":"2006-08-30T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2006\/08\/30\/dispositivo-de-la-transexualidad\/"},"modified":"2006-08-30T00:00:00","modified_gmt":"2006-08-30T03:00:00","slug":"dispositivo-de-la-transexualidad","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/dispositivo-de-la-transexualidad\/1396\/","title":{"rendered":"Dispositivo de la transexualidad"},"content":{"rendered":"<p>Patologizada pelas ci\u00eancias biom\u00e9dicas e pela Psiquiatria, a transexualidade at\u00e9 hoje figura como transtorno mental na classifica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (CID-10) e na Psiquiatria (DSM). Em seu livro <I>A reinven\u00e7\u00e3o do corpo: sexualidade e g\u00eanero na experi\u00eancia transexual<\/I> (CLAM\/Editora Garamond),&nbsp;lan\u00e7ado no dia 24 de agosto, durante o Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva (ABRASCO), a soci\u00f3loga Berenice Bento (UnB) busca desconstruir o conceito de transexualidade como doen\u00e7a, apresentando-a como um conflito identit\u00e1rio que contraria as normas de g\u00eanero. &ldquo;Penso que a transexualidade \u00e9 um desdobramento inevit\u00e1vel de uma ordem de g\u00eanero que estabelece que a inteligibilidade dos g\u00eaneros est\u00e1 no corpo&rdquo;, afirma ela nesta entrevista.<BR>  <P>No livro, vers\u00e3o de sua tese de doutorado defendida no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de Sociologia da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) em 2003, a soci\u00f3loga analisa a experi\u00eancia transexual a partir de uma perspectiva te\u00f3rica divergente das abordagens patologizantes tradicionais. A obra nos informa como os sujeitos sofrem quando tentam construir suas identidades mediante deslocamentos. Para a autora, a patologiza\u00e7\u00e3o da transexualidade est\u00e1 inserida em um campo mais amplo &ndash; a medicaliza\u00e7\u00e3o das condutas sexuais. &ldquo;Sabemos que n\u00e3o existe nenhum exame cl\u00ednico &lsquo;objetivo&rsquo; para definir quem \u00e9 o\/a &lsquo;transexual de verdade&rsquo;. Ent\u00e3o, como se produz um diagn\u00f3stico?&rdquo;, questiona.<BR>  <P>Durante tr\u00eas anos, Berenice entrevistou transexuais no Brasil e na Espanha (em Madri, Val\u00eancia e Barcelona). Ela lembra que o depoimento de uma de suas entrevistadas resume com maestria o que buscou discutir ao longo do livro: &ldquo;Ela disse: <I>&lsquo;Imagine que voc\u00ea est\u00e1 em um quarto. Chega algu\u00e9m fecha a porta e te diz que voc\u00ea vai ter que escolher alguma coisa que est\u00e1 dentro de uma gaveta. Tem a &lsquo;gaveta homem&rsquo; e &lsquo;gaveta mulher&rsquo;, mas tamb\u00e9m tem a &lsquo;gaveta gay&rsquo; e a &lsquo;gaveta l\u00e9sbica&rsquo;. E voc\u00ea n\u00e3o encontra nenhuma gaveta para meter-se. Mas eu tenho que me definir. Ent\u00e3o me defino uma mulher transexual l\u00e9sbica. Mas n\u00e3o me sinto totalmente mulher, n\u00e3o sei bem o que significa ser transexual e agora estou l\u00e9sbica. Onde est\u00e1 o problema? Durante muito tempo eu pensei que eu era o problema. Hoje eu sei, e isto pelo menos me d\u00e1 um pouco mais de paz, que o problema est\u00e1 l\u00e1 fora&rsquo;<\/I>.<BR>  <P><B>Sua abordagem apresenta a transexualidade como um conflito identit\u00e1rio que contraria as normas de g\u00eanero, e n\u00e3o como uma patologia, como ela \u00e9 tradicionalmente tratada pelas ci\u00eancias biom\u00e9dicas e pela psiquiatria. Como a sra. problematiza a legitimidade do saber\/poder biom\u00e9dico na patologiza\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia? <\/B> <P>A patologiza\u00e7\u00e3o da transexualidade est\u00e1 inserida em um campo mais amplo: a medicaliza\u00e7\u00e3o das condutas. Sabemos que n\u00e3o existe nenhum exame cl\u00ednico &ldquo;objetivo&rdquo; para definir quem \u00e9 o\/a &ldquo;transexual de verdade&rdquo;. Ent\u00e3o, como se produz um diagn\u00f3stico? Quem poder\u00e1 fazer a cirurgia de transgenitaliza\u00e7\u00e3o? E a pergunta que est\u00e1 por tr\u00e1s de cada olhar dos profissionais de sa\u00fade encarregados de produzir um diagn\u00f3stico: Ser\u00e1 que ele\/a \u00e9 um\/a transexual de &ldquo;verdade&rdquo;? A quest\u00e3o que enfrentei na minha pesquisa foi precisar o que as equipes m\u00e9dicas entendem por &ldquo;transexual verdadeiro&rdquo;. A cada defini\u00e7\u00e3o, via diante de mim as normas de g\u00eanero operando os discursos e fornecendo as bases para a produ\u00e7\u00e3o dos relat\u00f3rios com o parecer final com o diagn\u00f3stico. Se uma &ldquo;mulher de verdade&rdquo; \u00e9 passiva, emotiva, dependente, heterossexual, logo uma mulher transexual dever\u00e1 atualizar esses atributos. A solidez da suposta singularidade da transexualidade desfazia-se no ar. O que opera o olhar da equipe m\u00e9dica sobre o corpo e as performances das pessoas que demandam cirurgias de transgenitaliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o mesmas que definir\u00e3o as verdades para as mulheres XX e para os homens XY.<BR>  <P>A partir do estudo da experi\u00eancia transexual pude compreender a for\u00e7a regulat\u00f3ria das normas de g\u00eanero. Quando digo &ldquo;norma&rdquo; refiro-me \u00e0 capacidade de produ\u00e7\u00e3o de coer\u00e7\u00e3o, puni\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, a legitimidade e consenso que estas normas conseguem, tem como fundamento a cren\u00e7a de que h\u00e1 uma natureza que produz os desejos em corpos dim\u00f3rficos. Os guardi\u00f5es dos segredos dos desejos desses corpos s\u00e3o os m\u00e9dicos e os profissionais da sa\u00fade mental. No entanto, com a transexualidade esse discurso se esfarinha. \u00c9 o g\u00eanero que conduzir\u00e1 as mudan\u00e7as corporais e \u00e9 com os mapas produzidos socialmente para definir o que \u00e9 ser homem e mulher, que a equipe m\u00e9dica dever\u00e1 se orientar. O problema \u00e9 que estas normas definem binariamente, dicotomicamente a identidade de g\u00eanero e, embora as pessoas transexuais estejam abrindo fissuras nestas normas, a equipe m\u00e9dica tentar\u00e1, ao longo do tempo em que a pessoa transexual deve obrigatoriamente freq\u00fcentar o hospital, p\u00f4r ordem, cortar as ambig\u00fcidades, fazer a assepsia de g\u00eaneros.<BR>  <P>Ent\u00e3o, ao problematizar a vis\u00e3o patologizante das equipes m\u00e9dicas, acabo encontrando as normas de g\u00eanero. Penso que a transexualidade \u00e9 um desdobramento inevit\u00e1vel de uma ordem de g\u00eanero que estabelece que a inteligibilidade dos g\u00eaneros est\u00e1 no corpo. Dois corpos, dois g\u00eaneros, uma sexualidade. Assim, o masculino e feminino seriam a express\u00e3o ou formula\u00e7\u00e3o cultural da diferen\u00e7a natural dos sexos. \u00c9 claro que a diversidade e a multiplicidade de articula\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias extrapolam e minam essa concep\u00e7\u00e3o limitada dos g\u00eaneros.<BR>  <P><B>E como se produz a id\u00e9ia de doen\u00e7a, de identidades transtornadas? <\/B> <P>Quando se localiza exclusivamente no indiv\u00edduo a fonte explicativa para a emerg\u00eancia do conflito identit\u00e1rio. Portanto, o passo seguinte a esse \u00e9 pensar que se pode &ldquo;cur\u00e1-lo&rdquo;, que, mediante as interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas a pessoa transexual estar\u00e1 mais pr\u00f3xima de um\/a homem\/mulher normal. Lembro de uma passagem do livro de Ramsey, um dos muitos operadores do dispositivo da transexualidade, onde afirma que mesmo depois de passar pelo processo transexualizador a pessoa transexual jamais ser\u00e1 normal. Muito triste. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a nenhuma para as pessoas transexuais nesse sistema de g\u00eanero. O que temos que fazer? Qual o caminho? Denunciar, explicitar, discutir os limites de uma ordem de g\u00eanero que exclui qualquer possibilidade de tr\u00e2nsito, de deslocamento. Retirar o indiv\u00edduo do foco e apontar nossas energias para compreender genealogicamente como se organizam os discursos que limitam a categoria humanidade a duas possibilidades excludentes: ou voc\u00ea tem p\u00eanis ou vagina. Ou voc\u00ea \u00e9 mulher ou \u00e9 homem. Ou voc\u00ea \u00e9 masculino ou feminino, mas sejamos todos heterossexuais. Nada de ambig\u00fcidade. Qual o problema de uma pessoa XX negar o g\u00eanero atribu\u00eddo e reivindicar o pertencimento a outro g\u00eanero? Qual o problema de mulheres terem p\u00eanis? Homens terem \u00fateros? Esta plasticidade dos corpos, as identidades retorcidas, fragmentadas, \u00e9 inconceb\u00edvel para o poder m\u00e9dico. Nada se pode fazer contra o imp\u00e9rio dos horm\u00f4nios, a n\u00e3o ser, aceitar seus des\u00edgnios.<BR>  <P>Despatologizar as identidades significa desnaturaliz\u00e1-las, apontar o conte\u00fado ideol\u00f3gico dos discursos m\u00e9dicos e dizer claramente que, em nome da ci\u00eancia, se est\u00e1 garantindo as normas de g\u00eanero a partir de uma brutal viol\u00eancia contra aqueles que s\u00e3o definidos, catalogados, classificados, como transtornados, disf\u00f3ricos, pervertidos, psicopatas, enfim, sujeitos que s\u00f3 merecem existir nos comp\u00eandios do saber m\u00e9dico.<BR>  <P><B>Ao pretender desconstruir a transexualidade como categoria de doen\u00e7a, a sra. se contrap\u00f5e aos modelos tradicionais que compartilham a id\u00e9ia da transexualidade como enfermidade. As explica\u00e7\u00f5es patologizantes sup\u00f5em que o conflito do(a) transexual est\u00e1 nele(a) mesmo. Como a sra. se coloca diante deste argumento? <\/B> <P>Se voc\u00ea pensa que a fonte explicativa do conflito est\u00e1 exclusivamente no sujeito, produz-se uma opera\u00e7\u00e3o perversa \u00e0 medida em que as normas de g\u00eanero s\u00e3o preservadas e se tenta ajustar o sujeito \u00e0s mesmas. Todo o meu esfor\u00e7o argumentativo foi inverter essa l\u00f3gica. Afirmo que h\u00e1 um profundo processo de despolitiza\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que o sujeito que vive o conflito entre corpo e g\u00eanero n\u00e3o consegue sair da armadilha da medicaliza\u00e7\u00e3o das condutas. Da\u00ed a necessidade que tive de dedicar parte de minhas reflex\u00f5es ao processo hist\u00f3rico de constru\u00e7\u00e3o dos corpos pensados como naturalmente dim\u00f3rficos e heterossexuais.<BR>  <P>Muitos argumentam que a transexualidade sempre existiu. Acho que fazem confus\u00e3o. De fato, h\u00e1 in\u00fameros relatos de tr\u00e2nsitos entre os g\u00eaneros, de mulheres que se passavam por homem, mulheres que se tornavam homens. O lugar que outras sociedades reservam para estes tr\u00e2nsitos nada tem a ver com o espa\u00e7o hospitalar ou com a discuss\u00e3o de identidade disf\u00f3rica, tampouco existia um cat\u00e1logo m\u00e1gico, o C\u00f3digo Internacional de Doen\u00e7as, que tem explica\u00e7\u00e3o para tudo e n\u00e3o deixa escapar nada que esteja fora da ordem. Se retiro o conte\u00fado hist\u00f3rico, n\u00e3o consigo perceber as disputas de poder para se definir o normal e o patol\u00f3gico. \u00c9 nesse sentido que afirmei ser necess\u00e1rio politizar a reflex\u00e3o sobre a transexualidade, o que significa mudar o foco de an\u00e1lise dos espa\u00e7os confessionais e clandestinos das cl\u00ednicas para a explicita\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o do sistema de g\u00eanero. Cada vez acredito mais que \u00e9 no espa\u00e7o do ativismo pol\u00edtico que as pessoas transexuais v\u00e3o conseguir encontrar for\u00e7as para se contrapor ao peso esmagador da lei de g\u00eanero.<BR>  <P>\u00c9 por isso que analiso a experi\u00eancia transexual a partir de uma perspectiva te\u00f3rica divergente da de Stoller e da de Benjamin. Tento encontrar nas rela\u00e7\u00f5es sociais os mecanismos mediante os quais a sociedade constr\u00f3i os corpos-homem e os corpos-mulher. A produ\u00e7\u00e3o dos g\u00eaneros e da heterossexualidade \u00e9 marcada por um terrorismo cont\u00ednuo. H\u00e1 um heteroterrorismo a cada enunciado que incentiva ou inibe comportamentos. Se um menino gosta de brincar de boneca, l\u00e1 estar\u00e3o os heteroterroristas: &ldquo;Pare com isso. Isso n\u00e3o \u00e9 coisa de menino&rdquo; O g\u00eanero serve para demonstrar, visibilizar que o corpo \u00e9 heterossexual. Qualquer confus\u00e3o nesse mundo dicotomizado poder\u00e1 indicar um futuro homossexual. Ora, se somos o que nossos corpos definem, se nosso futuro j\u00e1 est\u00e1 inscrito, porque tanta obsess\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es sociais em reiterar de m\u00faltiplas formas que somos o que a natureza determina, que s\u00e3o os horm\u00f4nios os respons\u00e1veis por nossos desejos? Vamos deixar a natureza fora disso. O que h\u00e1 claramente \u00e9 uma disputa acirrada entre discursos. Acontece que o discurso m\u00e9dico encontra a legitimidade por ser o portador da verdade, neutro, o que descreve a natureza, quando, de fato, produz a natureza em sua imagem e semelhan\u00e7a. Podemos ver a efic\u00e1cia desse discurso quando produz nos sujeitos a inc\u00f4moda e terr\u00edvel certeza de que n\u00e3o se \u00e9 normal.<BR>  <P>N\u00e3o existe corpo in natura, livre de investimentos e expectativas sociais. J\u00e1 nascemos cirurgiados e quando uma pessoa afirma: &ldquo;quero reconstruir meu corpo, quero uma cirurgia de transgenitaliza\u00e7\u00e3o&rdquo;, est\u00e1 afirmando implicitamente que a primeira &ldquo;cirurgia&rdquo; (a que definiu o g\u00eanero a partir da genit\u00e1lia), n\u00e3o obteve sucesso. Dessa forma, quando localizo nas institui\u00e7\u00f5es sociais e nas rela\u00e7\u00f5es sociais delas decorrentes a explica\u00e7\u00e3o para a g\u00eanese da experi\u00eancia transexual, inverto a l\u00f3gica: s\u00e3o as normas de g\u00eanero que possibilitam a emerg\u00eancia de conflitos identit\u00e1rios com essas mesmas normas.<BR>  <P><B>De que forma a sra. lida, em sua obra, com o que chama de &ldquo;dispositivo da transexualidade&rdquo;, que normatiza e coloca a heterossexualidade como matriz de inteligibilidade dos g\u00eaneros? <\/B> <P>Aproprio-me do conceito de dispositivo da sexualidade de Foucault para tentar explicar a estrutura do discurso m\u00e9dico para a transexualidade. H\u00e1 dois momentos distintos no meu trabalho. No primeiro, vi como este dispositivo se estrutura teoricamente. H\u00e1 v\u00e1rias pesquisas que tentam encontrar uma explica\u00e7\u00e3o para a origem da transexualidade. Cheguei a dois n\u00facleos explicativos: um de car\u00e1ter biologizante e outro mais vinculado aos discursos psicanal\u00edticos. Estes n\u00facleos s\u00e3o exemplarmente representados pelo endocrinologista Harry Benjamin e pelo psicanalista freudiano Stoller Talvez voc\u00ea pense: como \u00e9 poss\u00edvel afirmar que perspectivas t\u00e3o distintas possam constituir um dispositivo? Quais os pontos de unidade entre os dois n\u00facleos? De fato, me parecia muito estranho, inicialmente, ver endocrinologistas e psic\u00f3logos trabalhando juntos em equipes m\u00e9dicas, nos programas de transgenitaliza\u00e7\u00e3o, pois h\u00e1 ancoragens te\u00f3ricas distintas entre esses n\u00facleos. Os encodrinologistas acreditam que h\u00e1 uma causa hormonal que explica a transexualidade. Fazem pesquisas e mais pesquisas com restos cerebrais de pessoas transexuais, principalmente no hipot\u00e1lamo. Esperam com ansiedade a hora em que a ci\u00eancia revelar\u00e1 para o mundo a origem da transexualidade. Os psic\u00f3logos, por sua vez, acreditam que mediante a escuta terap\u00eautica poder\u00e3o demover a id\u00e9ia da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica em partes do corpo consideradas por eles como fundamentais na constru\u00e7\u00e3o do sujeito.<BR>  <P>No entanto, h\u00e1 um fio condutor que amarra estas duas abordagens: as mudan\u00e7as corporais seriam para assegurar a pr\u00e1tica da heterossexualidade. Por mais que se tente afirmar que o conflito identit\u00e1rio da transexualidade reside no g\u00eanero e n\u00e3o fundamentalmente na sexualidade, o dispositivo ler\u00e1 esta queixa da seguinte forma: se ele\/a mudou de g\u00eanero \u00e9 necess\u00e1rio reconstruir as genit\u00e1lias para que recupere a unidade entre corpo\/g\u00eanero\/sexualidade. Lembro-me que um dia comentei para uma psic\u00f3loga que h\u00e1 pessoas transexuais que se definem como gays e l\u00e9sbicas. Ela parou e me olhou com olhos descrentes: &ldquo;Isso \u00e9 imposs\u00edvel! Que aberra\u00e7\u00e3o!&rdquo;<BR>  <P>Para que seja um membro aceito no novo g\u00eanero \u00e9 necess\u00e1rio que a sexualidade seja heterossexual. Por essa abordagem, g\u00eanero e sexualidade est\u00e3o colados. O g\u00eanero explicita a sexualidade. Ent\u00e3o, quando uma mulher transexual chega em um programa de transgenitaliza\u00e7\u00e3o e diz: &ldquo;quero me operar&rdquo;, a equipe m\u00e9dica entender\u00e1 da seguinte forma: &ldquo;Vamos devolver a unidade, a coer\u00eancia a este corpo, pois, se ela \u00e9 mulher precisa de uma vagina para ser penetrada por um p\u00eanis.&ldquo;<BR>  <P>No segundo momento, analiso o dispositivo da transexualidade operando no espa\u00e7o hospitalar. Pin\u00e7o fragmentos do cotidiano das pessoas transexuais no hospital, vejo como as provas e o longo processo que devem se submeter servem para produzir a certeza na equipe m\u00e9dica de que aquele corpo n\u00e3o carrega nenhum sinal de homossexualidade.<BR>  <P><B>Muitos argumentam que, ao reivindicar a transgenitaliza\u00e7\u00e3o, a pessoa acaba por refor\u00e7ar o dimorfismo homem-mulher. Ou seja, segundo eles, a transexualidade n\u00e3o estaria na verdade reafirmando o \u00eaxito das normas de g\u00eanero? <\/B> <P>Discordo. Em primeiro lugar vejo que a experi\u00eancia transexual potencialmente provoca fissuras nas normas de g\u00eanero. Conforme disse anteriormente, quando uma pessoa transexual afirma: &ldquo;Sou um\/a homem\/mulher em um corpo equivocado&rdquo;, est\u00e1 revelando todo o car\u00e1ter ficcional das normas de g\u00eanero. Ou seja, o corpo que deveria conferir sentidos identit\u00e1rios para o g\u00eanero, simplesmente n\u00e3o funciona. Em segundo lugar, nem todas as pessoas transexuais t\u00eam os mesmos desejos de reconstru\u00e7\u00e3o dos seus corpos. Ap\u00f3s muita luta do ativismo transexual, o Reino Unido reconheceu o direito das pessoas transexuais mudarem os documentos sem terem que se submeter \u00e0 cirurgia. A Espanha tamb\u00e9m aprovou a Lei de Identidade de G\u00eanero que desvincula os dois momentos do processo transexualizador. De fato, h\u00e1 muitas pessoas que n\u00e3o querem fazer a cirurgia de transgenitaliza\u00e7\u00e3o e isso n\u00e3o o\/a desqualifica como mais ou menos mulheres ou homens.<BR>  <P>Acho que esta representa\u00e7\u00e3o da pessoa transexual como reprodutora dos modelos hegem\u00f4nicos para os g\u00eaneros deve-se, em boa medida, \u00e0 literatura m\u00e9dica, que considera exclusivamente o que foi dito na consulta e a partir da\u00ed fixou e cristalizou a identidade transexual. O que os operadores da sa\u00fade esqueceram \u00e9 da negocia\u00e7\u00e3o que est\u00e1 posta no momento da consulta. A pessoa transexual precisa de um laudo e, com toda raz\u00e3o, ir\u00e1 negociar com a defini\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica para os g\u00eaneros. N\u00e3o significa que eles\/as mentem, mas v\u00e3o buscar nas verdades disponibilizadas socialmente os roteiros que ir\u00e3o atualizar quando est\u00e3o diante do poder m\u00e9dico. Collet Chiland, uma psicanalista francesa, afirmou que os\/as transexuais estereotipam as mulheres. Quando ela afirma isso acaba produzindo uma vis\u00e3o &ldquo;estereotipada&rdquo; das pessoas transexuais. \u00c9 como se as\/os mulheres XX\/homens XY tivessem a verdade original para os g\u00eaneros e que as experi\u00eancias trans n\u00e3o passassem de pastiche.<BR>  <P><B>O livro se prop\u00f5e a levantar quest\u00f5es relativas ao direito &ndash; direito \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia fora do dispositivo da transexualidade e direito \u00e0 identidade de g\u00eanero. No \u00e2mbito dos direitos humanos, que reivindica\u00e7\u00f5es, por parte dos transexuais, a sra. identificou em seu trabalho de campo? <\/B> <P>Quando afirmo que \u00e9 necess\u00e1rio tirar o poder do dispositivo e dos seus operadores em decidirem se uma pessoa \u00e9 transexual, em produzirem um veredicto final: &ldquo;voc\u00ea \u00e9 transexual, pode operar&rdquo;, n\u00e3o estou negando a import\u00e2ncia da cirurgia. Convivo diariamente com amigas transexuais que lutam h\u00e1 anos para fazer a cirurgia. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o menor. Muitas\/os j\u00e1 se mutilaram, outros se mataram por terem uma rela\u00e7\u00e3o de profunda abje\u00e7\u00e3o com os genitais. Acredito que os gestores p\u00fablicos da \u00e1rea de sa\u00fade precisam ampliar e problematizar o significado de uma sa\u00fade p\u00fablica humanizada, pois n\u00e3o demorar\u00e3o muito a perceber que as cirurgias de transgenitaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais.<BR>  <P>O que defendo no \u00e2mbito dos Direitos Humanos \u00e9 a necess\u00e1ria participa\u00e7\u00e3o das pessoas transexuais tanto na formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas quanto nas equipes e programas de transgenitaliza\u00e7\u00e3o. Acho que caminhamos para isso. Vejo com grande entusiasmo a crescente organiza\u00e7\u00e3o de coletivos transexuais, de militantes valorosas\/os que t\u00eam provocado uma profunda reflex\u00e3o entre feministas, l\u00e9sbicas, gays, travestis sobre quest\u00f5es referentes \u00e0s pol\u00edticas identit\u00e1rias. A recente organiza\u00e7\u00e3o do Coletivo Nacional de Transexual foi um passo fundamental. Acompanho algumas listas de discuss\u00e3o na Internet e \u00e9 incr\u00edvel o conhecimento do corpo que \u00e9 compartilhado nesses espa\u00e7os virtuais. Muitos coletivos de transexuais t\u00eam um profundo conhecimento e podem dialogar em p\u00e9 de igualdade com os profissionais da sa\u00fade. A discuss\u00e3o sobre os protocolos deve contar com a presen\u00e7a de pessoas transexuais. Esse \u00e9 um caminho para se p\u00f4r um fim ao processo de infantiliza\u00e7\u00e3o que os\/as transexuais s\u00e3o submetidos nos Programas de Transgenitaliza\u00e7\u00e3o. A infantiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 irm\u00e3 g\u00eamea da patologiza\u00e7\u00e3o. &ldquo;\u00c9 para seu bem&rdquo;, &ldquo;voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 preparado\/a&rdquo;, &ldquo;vamos fazer mais terapia&rdquo;, &ldquo;vamos repetir os testes&rdquo;, &ldquo;voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 transexual&rdquo;. Me parece um absurdo, um abuso de poder deslegitimar permanentemente as falas das pessoas transexuais, que devem a todo tempo provar que s\u00e3o o que afirmam ser para conseguirem realizar as cirurgias e a mudan\u00e7a do prenome e sexo nos documentos.<BR>  <P>Discutir a transexualidade na perspectiva dos Direitos Humanos n\u00e3o se resume a defender as cirurgias, ao processo transexualizador, \u00e0 lei de identidade de g\u00eanero que desvincule as mudan\u00e7as nos documentos da realiza\u00e7\u00e3o das cirurgias, \u00e0 pol\u00edticas de inclus\u00e3o social ampla (emprego, escola, lazer, casamento, fam\u00edlia&#8230;), o combate \u00e0 transfobia. Discutir a transexualidade na perspectiva dos Direitos Humanos \u00e9 reconhecer de forma intransigente a capacidade dos sujeitos que vivem a experi\u00eancia em terem voz, de serem sujeitos que formulam e significam suas vidas. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>En el libro <EM>A reinven\u00e7\u00e3o do corpo<\/EM>, presentado el 24 de agosto durante el Congreso de la Asociaci\u00f3n Brasilera de Post-graduaci\u00f3n en Salud Colectiva &ndash;ABRASCO- la soci\u00f3loga Berenice Bento (UnB) busca deconstruir el concepto de transexualidad como enfermedad. <EM>(texto en portugu\u00e9s)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1396","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Dispositivo de la transexualidad - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/dispositivo-de-la-transexualidad\/1396\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Dispositivo de la transexualidad - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"En el libro A reinven\u00e7\u00e3o do corpo, presentado el 24 de agosto durante el Congreso de la Asociaci\u00f3n Brasilera de Post-graduaci\u00f3n en Salud Colectiva &ndash;ABRASCO- la soci\u00f3loga Berenice Bento (UnB) busca deconstruir el concepto de transexualidad como enfermedad. 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