{"id":1402,"date":"2006-03-21T00:00:00","date_gmt":"2006-03-21T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2006\/03\/21\/corpos-todos-feitos\/"},"modified":"2006-03-21T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-21T03:00:00","slug":"corpos-todos-feitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/corpos-todos-feitos\/1402\/","title":{"rendered":"Corpos todos feitos"},"content":{"rendered":"<p>Entre 1995 e 2000, o antrop\u00f3logo Marcos Benedetti, pesquisador do N\u00facleo de Antropologia do Corpo e da Sa\u00fade da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NUPACS\/UFRGS), pesquisou os principais processos criados e experimentados pelas travestis para viabilizar o projeto de ser mulher, abordando a fabrica\u00e7\u00e3o do feminino no corpo. &ldquo;O corpo das travestis \u00e9, sobretudo, uma linguagem. \u00c9 no corpo que elas se produzem enquanto sujeitos&rdquo;, observa ele.<BR>  <P>Benedetti acompanhou, em Porto Alegre, um grupo de 85 informantes em diferentes situa\u00e7\u00f5es cotidianas: no trabalho na prostitui\u00e7\u00e3o, em casa, com a fam\u00edlia ou com amigos. A aproxima\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o entre pesquisador e pesquisadas, lembra o antrop\u00f3logo, foi tranq\u00fcila, possivelmente por ser ele membro de uma ONG que realiza trabalhos de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 Aids. &ldquo;Quando decidi desdobrar minhas inquieta\u00e7\u00f5es em um projeto de investiga\u00e7\u00e3o, eu j\u00e1 tinha uma &lsquo;entrada&rsquo; no campo. J\u00e1 conhecia muitas pessoas, sabia seus nomes e algumas hist\u00f3rias pessoais, e compreendia algumas de suas l\u00f3gicas&rdquo;, relata.<BR>  <P>A pesquisa resultou no livro <B>Toda Feita<\/B>, lan\u00e7ado em dezembro de 2005 pelo CLAM e pela Editora Garamond. O t\u00edtulo da obra \u00e9 uma alus\u00e3o ao adjetivo que caracteriza uma travesti que se empenhou em toda sorte de processos de transforma\u00e7\u00e3o corporal na constru\u00e7\u00e3o de seu feminino. E chegou l\u00e1. &ldquo;<I>Toda feita<\/I> \u00e9 a express\u00e3o que indica o resultado eficiente de todo o processo de transforma\u00e7\u00e3o e fabrica\u00e7\u00e3o do corpo e, portanto, do pr\u00f3prio g\u00eanero das travestis&rdquo;, diz o autor.<BR>  <P>Ele lembra que algumas &ldquo;inquieta\u00e7\u00f5es&rdquo; o levaram a realizar o estudo. &ldquo;Inquietava-me o intenso preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o dirigidos a esta popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, tinha uma curiosidade imensa em rela\u00e7\u00e3o aos processos de modifica\u00e7\u00e3o corporal por elas levados a cabo. Queria saber como e por qu\u00ea elas realizavam todas aquelas interven\u00e7\u00f5es corporais, que \u00e0 primeira vista pareciam violentas, mas que depois descobri serem recheadas de significado, porque concretizam os dom\u00ednios do g\u00eanero em suas vidas&rdquo;, explica o pesquisador nesta entrevista.<BR>  <P><B>Historicamente, como diferentes disciplinas como a Antropologia, a Medicina e a Psicologia t\u00eam abordado e analisado o tema das transforma\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e do fen\u00f4meno <I>trans<\/I>? S\u00e3o vis\u00f5es diferentes, n\u00e3o?<\/B>  <P>A antropologia talvez seja o saber especializado que apenas mais recentemente se debru\u00e7ou sobre o fen\u00f4meno do travestismo ou das &ldquo;transforma\u00e7\u00f5es do g\u00eanero&rdquo;, como eu preferi chamar no livro. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas foram produzidos bons estudos a este respeito, que buscam ressaltar a natureza cultural dos fen\u00f4menos, demonstrando como os valores e l\u00f3gicas do g\u00eanero s\u00e3o fundamentais para a compreens\u00e3o de todo o processo e destacando o lugar central que o corpo precisa ocupar em nossas an\u00e1lises. Estas talvez sejam as modalidades atuais de se abordar o fen\u00f4meno das travestis.<BR>  <P>Os diferentes saberes especializados do campo cient\u00edfico constroem explica\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises sobre os fen\u00f4menos que est\u00e3o sempre de acordo com os contextos s\u00f3cio-hist\u00f3rico-culturais. Neste sentido, at\u00e9 recentemente, os campos m\u00e9dico e &ldquo;psi&rdquo; ocuparam um lugar central nas an\u00e1lises sobre os processos de transforma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, em geral buscando uma explica\u00e7\u00e3o causal, localizando em algum substrato org\u00e2nico ou ps\u00edquico o motivo que leva as pessoas a empreenderem os processos de transforma\u00e7\u00e3o do g\u00eanero. Estas modalidades de explica\u00e7\u00e3o ainda t\u00eam muita for\u00e7a na nossa sociedade e, de uma maneira geral, s\u00e3o os saberes e conceitos que dominam o campo da transexualidade no Brasil, seja no \u00e2mbito dos programas de cirurgia de transgenitaliza\u00e7\u00e3o, ou mesmo em termos de discuss\u00f5es no campo dos direitos, no judici\u00e1rio ou nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa.<BR>  <P>Tamb\u00e9m n\u00e3o devemos esquecer que ao lado destas explica\u00e7\u00f5es &ldquo;cient\u00edficas&rdquo;, sempre houve um sem fim de argumentos de ordem religiosa-moral (algumas vezes imiscu\u00eddas em teorias cient\u00edficas) que caracterizaram o fen\u00f4meno das transforma\u00e7\u00f5es do g\u00eanero como uma atitude puramente volunt\u00e1ria do sujeito, e por isso incorreta, pecaminosa e desviante. Ainda que cada vez mais este tipo de explica\u00e7\u00e3o esteja caindo em descr\u00e9dito, s\u00e3o repert\u00f3rios presentes na vida cotidiana e que servem para &ldquo;explicar&rdquo; a condi\u00e7\u00e3o das travestis, em especial no que se refere a sua associa\u00e7\u00e3o com a atividade da prostitui\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>Enfim, creio que a maior diferen\u00e7a entre estas v\u00e1rias possibilidades de abordagem do fen\u00f4meno representado pelas travestis \u00e9 que, enquanto a Antropologia prop\u00f5e uma an\u00e1lise construtivista do fen\u00f4meno, isto \u00e9, uma abordagem que ressalte os m\u00faltiplos condicionantes e significados hist\u00f3ricos e culturais que impulsionam indiv\u00edduos a se empenharem neste processo de transforma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero para satisfazerem suas necessidades subjetivas (que, por sua vez, tamb\u00e9m s\u00e3o produtos culturais); as ci\u00eancias m\u00e9dicas e &ldquo;psi&rdquo; buscam essencializar a quest\u00e3o, localizando em algum ponto espec\u00edfico o motivo que leva as travestis a modificarem seus corpos e se empenharem numa constru\u00e7\u00e3o feminina. No mais das vezes, desconsideram todos os constrangimentos sociais e culturais que est\u00e3o entranhados no fen\u00f4meno.<BR>  <P><B>O sr. revela que algumas inquieta\u00e7\u00f5es o motivaram a realizar a pesquisa sobre o universo trans, do qual o livro resulta. Quais foram as indaga\u00e7\u00f5es que o levaram a este trabalho? <\/B> <P>Quando eu decidi tomar como objeto de estudo os processos de constru\u00e7\u00e3o do corpo e do g\u00eanero das travestis eu j\u00e1 trabalhava h\u00e1 alguns anos em um projeto de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 Aids dirigido a esta popula\u00e7\u00e3o. Naquela altura, inquietava-me o intenso preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o dirigidos a esta popula\u00e7\u00e3o, especialmente por parte dos agentes do estado, que me parecia n\u00e3o acompanhar os avan\u00e7os alcan\u00e7ados pelas a\u00e7\u00f5es dos grupos de defesa dos direitos humanos de gays e l\u00e9sbicas. Al\u00e9m disso, na bibliografia especializada que conhecia, perturbava-me a pouca ou nenhuma import\u00e2ncia atribu\u00edda aos processos de constru\u00e7\u00e3o do corpo e do g\u00eanero entre as travestis, minimizando muitas vezes a import\u00e2ncia dos valores e significados do g\u00eanero neste processo e sempre enfatizando as quest\u00f5es ligadas \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sexual. Em geral, boa parte dos estudos tratava as travestis como se fossem apenas &ldquo;homossexuais&rdquo;, fato que em meu ponto de vista n\u00e3o condizia com aquilo que eu observava entre as travestis. Ainda que elas possam situacionalmente identificar-se como homossexuais, elas tamb\u00e9m reivindicam elementos identit\u00e1rios espec\u00edficos, e freq\u00fcentemente buscam diferenciar-se desta categoria ampla, demonstrando que a sua diferen\u00e7a \u00e9 trilhada nos terrenos do g\u00eanero.<BR>  <P>Eu tamb\u00e9m tinha uma curiosidade imensa em rela\u00e7\u00e3o aos processos de modifica\u00e7\u00e3o corporal por elas levados a cabo. Eu desejava apreender estes processos de maneira mais profunda, pensando, inclusive, em como utilizar este conhecimento de maneira instrumental para os projetos de educa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade em que eu estava envolvido. Queria saber como e por qu\u00ea elas realizavam todas aquelas interven\u00e7\u00f5es corporais, que \u00e0 primeira vista pareciam violentas, mas que depois descobri serem recheadas de significado, porque concretizam os dom\u00ednios do g\u00eanero em suas vidas.<BR>  <P><B>Quais foram os resultados de seu conv\u00edvio e o que p\u00f4de apreender com o grupo de travestis pesquisado? <\/B> <P>Primeiramente, o conv\u00edvio com as travestis trouxe-me a mudan\u00e7a de foco de minha an\u00e1lise, reformulando as hip\u00f3teses e abordagens tra\u00e7adas originalmente no projeto de pesquisa De uma preocupa\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 quest\u00e3o da sa\u00fade, o meu olhar se converteu para a import\u00e2ncia do corpo nos processos de constru\u00e7\u00e3o do g\u00eanero neste grupo. Talvez o principal resultado da minha pesquisa seja o olhar que direciono \u00e0s travestis. Um olhar baseado em uma abordagem que resgata o papel do corpo e dos processos corporais na constitui\u00e7\u00e3o dos valores e significados do g\u00eanero para este grupo. De uma maneira geral, os resultados do meu conv\u00edvio com as travestis est\u00e3o expressos no meu livro e em todo o &ldquo;retrato&rdquo; que busquei tra\u00e7ar destas pessoas.<BR>  <P><B>Elas buscam caracter\u00edsticas e qualidades intrinsecamente ligadas \u00e0 l\u00f3gica do g\u00eanero, mas afinal, qual g\u00eanero? O que \u00e9 o feminino para elas e qual a sua import\u00e2ncia? <\/B> <P>As travestis n\u00e3o desejam ser como as mulheres. Seu objetivo, antes, \u00e9 <I>sentirem-se<\/I> como mulheres, <I>sentirem-se<\/I> femininas. Vivem a experi\u00eancia do g\u00eanero como um jogo artificial e pass\u00edvel de recria\u00e7\u00e3o. Por isso, criam um feminino particular, com valores amb\u00edguos. Um feminino que se constr\u00f3i e define em rela\u00e7\u00e3o ao masculino. Um feminino que \u00e9 por vezes masculino. Vivem, enfim, um g\u00eanero amb\u00edguo, borrado, sem limites e separa\u00e7\u00f5es r\u00edgidas. Um jogo bastante contextual e perform\u00e1tico, mas tamb\u00e9m r\u00edgido e determinado, onde os significados do feminino s\u00e3o sempre negociados em fun\u00e7\u00e3o do contexto e da situa\u00e7\u00e3o. Este feminino das travestis \u00e9 a express\u00e3o de sua pr\u00f3pria identidade, por isso o empenho e a dedica\u00e7\u00e3o em seus processos de constru\u00e7\u00e3o corporal e do g\u00eanero.<BR>  <P><B>Como se d\u00e1 a fabrica\u00e7\u00e3o do feminino no corpo das travestis? <\/B> <P>As travestis fazem uso de uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas, produtos e investimentos para a produ\u00e7\u00e3o de seu corpo e de sua condi\u00e7\u00e3o feminina. Normalmente iniciam com modelagens na sobrancelha e com os cuidados, as formas e os esmaltes coloridos nas unhas. Tamb\u00e9m utilizam toda a t\u00e9cnica, produtos e truques da maquiagem para o dia e para a noite, al\u00e9m dos tratos di\u00e1rios com o cabelo e as v\u00e1rias t\u00e9cnicas de elimina\u00e7\u00e3o dos p\u00ealos do rosto e do corpo. Outro processo que constr\u00f3i o corpo travesti \u00e9 a escolha e produ\u00e7\u00e3o das vestimentas e sapatos, que elas chamam de <I>montagem<\/I>. Precisam, contudo, aprender toda uma s\u00e9rie de investimentos que v\u00e3o al\u00e9m do guarda-roupa: um <I>estilo<\/I> (em linguagem \u00eamica) vai tamb\u00e9m conformar os gestos, a emposta\u00e7\u00e3o da voz, a forma do cabelo, a maquiagem, o balan\u00e7o no andar e at\u00e9 mesmo os modos como esta travesti vai se relacionar com as outras e com a sociedade abrangente.<BR> A estes investimentos iniciais somam-se o uso dos tratamentos hormonais e as inje\u00e7\u00f5es de silicone para a modelagem de corpos femininos. Estes dois \u00faltimos recursos mostram-se mais internos e permanentes e s\u00e3o percebidos, entre as informantes, como os elementos que por excel\u00eancia caracterizam uma travesti.<BR>  <P><B>H\u00e1 um modelo de corpo valorizado no meio? <\/B> <P>Este &ldquo;modelo&rdquo; de corpo a ser atingido n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico e tampouco \u00fanico: varia entre as travestis, especialmente em fun\u00e7\u00e3o de suas diferen\u00e7as de classe e de gera\u00e7\u00e3o. Na minha pesquisa, as travestis mais jovens, por exemplo, podem ter preocupa\u00e7\u00f5es diferentes daquelas apresentadas pelas mais velhas na fabrica\u00e7\u00e3o de sua apar\u00eancia feminina: enquanto que para estas \u00faltimas a apar\u00eancia e o formato do nariz nunca foram um problema em sua afirma\u00e7\u00e3o, para as mais jovens um nariz afinado \u00e9 um excelente s\u00edmbolo de feminilidade, portanto as cirurgias pl\u00e1sticas para modelar o nariz s\u00e3o valorizadas entre elas e podem ser usadas at\u00e9 como um sinal de <I>status<\/I> no grupo, uma vez que pelo seu alto custo, sinaliza tamb\u00e9m uma diferencia\u00e7\u00e3o na estratifica\u00e7\u00e3o social. No <I>universo trans<\/I> o corpo todo \u00e9 lido, simbolizado e valorizado numa &ldquo;luta por classifica\u00e7\u00e3o&rdquo; social e simb\u00f3lica. As travestis, ao fabricarem formas e contornos femininos nos seus corpos est\u00e3o construindo seu pr\u00f3prio g\u00eanero, seus pr\u00f3prios valores relacionados ao feminino e ao masculino, que constituem, em suma, os processos sociais de fabrica\u00e7\u00e3o dos sujeitos.<BR>  <P><B>O t\u00edtulo do livro refere-se ao grau satisfat\u00f3rio (ou m\u00e1ximo) de transforma\u00e7\u00f5es do corpo alcan\u00e7ado pelas travestis, n\u00e3o \u00e9? Ao alcan\u00e7arem o status de &ldquo;toda feita&rdquo;, como ficam as din\u00e2micas de suas rela\u00e7\u00f5es afetivas? <\/B> <P>O adjetivo <I>toda feita<\/I>, muito comum entre as informantes (e que n\u00e3o por acaso constitui o t\u00edtulo de meu livro), \u00e9 um elogio de alto grau. <I>Toda feita<\/I>, mais do que um elogio, \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de designar as pessoas que se empenharam nos caminhos da transforma\u00e7\u00e3o corporal e de g\u00eanero e n\u00e3o pouparam esfor\u00e7os para tanto. Designa e caracteriza uma travesti que se empenhou em toda sorte de processos de transforma\u00e7\u00e3o corporal na constru\u00e7\u00e3o de seu feminino. <I>Toda feita<\/I> \u00e9 a express\u00e3o que indica o resultado eficiente de todo o processo de transforma\u00e7\u00e3o e fabrica\u00e7\u00e3o do corpo e, portanto, do pr\u00f3prio g\u00eanero das travestis.<BR>  <P>Neste sentido, as travestis <I>todas feitas<\/I> gozam de elevado status no universo trans, detendo muito prest\u00edgio entre as travestis e outras personagens que constituem o universo trans. Tamb\u00e9m desfrutam de uma maior oferta de parceiros sexuais tanto no mercado da prostitui\u00e7\u00e3o, quanto no mercado afetivo-matrimonial. Cabe, entretanto, afirmar que esta n\u00e3o \u00e9 uma caracteriza\u00e7\u00e3o est\u00e1tica, mas antes negociada e recheada de sentido. Uma travesti \u00e9 toda feita aos olhos de algumas pessoas e em determinados contextos, podendo n\u00e3o s\u00ea-lo sob outros pontos de vista. Enfim, mais uma ambig\u00fcidade no jogo de significados que constitui o g\u00eanero das travestis.<BR>  <P><B>No que se refere \u00e0s pr\u00e1ticas sexuais, sabe-se que as travestis, diferentemente dos transexuais, transitam tanto no p\u00f3lo feminino quanto no masculino, dependendo das circunst\u00e2ncias. Quais as diferen\u00e7as entre os clientes e maridos e quais suas imbrica\u00e7\u00f5es com a equa\u00e7\u00e3o ativo\/passivo e masculino\/feminino nessas rela\u00e7\u00f5es, seja no mercado matrimonial ou no mercado sexual? <\/B> <P>As travestis buscam rela\u00e7\u00f5es de complementariedade e diferen\u00e7a no \u00e2mbito de suas rela\u00e7\u00f5es afetivas com os maridos, enquanto que com os clientes este crit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 observado com tanta rigidez. O que quero afirmar aqui \u00e9 que, de uma maneira geral, as travestis estabelecem rela\u00e7\u00f5es afetivo-sexuais (um casamento, por exemplo) preferencialmente com homens que desempenhem exclusivamente o papel ativo nas rela\u00e7\u00f5es sexuais. A id\u00e9ia de que os pap\u00e9is de g\u00eanero s\u00e3o r\u00edgidos e complementares estrutura as din\u00e2micas matrimoniais das travestis. Seus maridos, portanto, devem incorporar todos os atributos da masculinidade, sendo o mais importante deles o papel ativo nas rela\u00e7\u00f5es sexuais. Um parceiro que queira tamb\u00e9m ele ser receptivo no sexo, n\u00e3o est\u00e1 qualificado para fazer parte do mercado matrimonial das travestis, muito embora possa ser um parceiro sexual ocasional.<BR> J\u00e1 com os clientes do mercado de prostitui\u00e7\u00e3o, esta regra da complementariedade n\u00e3o \u00e9 observada t\u00e3o estritamente. As travestis, segundo seus depoimentos, saem com quem lhes pagar melhor. O mais comum \u00e9 ouvirmos relatos de que a grand\u00edssima maioria dos clientes as contrata para que elas exer\u00e7am o papel ativo nas rela\u00e7\u00f5es sexuais, penetrando-os. Tamb\u00e9m \u00e9 evidente que as travestis que t\u00eam p\u00eanis mais avantajados gozem de muita popularidade no mercado de prostitui\u00e7\u00e3o, sempre com farta clientela. Contudo, n\u00e3o se pode afirmar que todos os clientes das travestis desejam desempenhar o papel receptivo no ato sexual, nem que estes constituam a maioria. A desqualifica\u00e7\u00e3o moral dos clientes, ao caracteriz\u00e1-los como penetrados no ato sexual, talvez deva ser compreendida em um quadro maior onde est\u00e3o imbricadas rela\u00e7\u00f5es de poder, de classe e de idade.<BR>  <P><B>O que gera, da parte do senso comum, o mist\u00e9rio e o preconceito conferidos \u00e0s travestis? <\/B> <P>Acredito que sejam, principalmente, as ambig\u00fcidades de sua condi\u00e7\u00e3o corporal e de g\u00eanero. Por\u00e9m, o preconceito contra as travestis tamb\u00e9m tem ra\u00edzes em sua associa\u00e7\u00e3o com a prostitui\u00e7\u00e3o e com a homossexualidade; com sua origem e socializa\u00e7\u00e3o em ambientes das classes populares; com preceitos e regras morais e religiosas vigentes em nossa sociedade; com valores considerados &ldquo;cient\u00edficos&rdquo; a respeito do corpo e do g\u00eanero; enfim, com din\u00e2micas e processos de biopoder. Estas s\u00e3o, contudo, apenas algumas pistas para uma nova investiga\u00e7\u00e3o. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O&nbsp;livro <STRONG>Toda Feita<\/STRONG> (CLAM\/Editora Garamond), que&nbsp;trata&nbsp;dos processos de transforma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e analisa a import\u00e2ncia da modela\u00e7\u00e3o e os usos do corpo entre travestis, \u00e9 resultado de&nbsp;cinco anos de pesquisa do antrop\u00f3logo Marcos Benedetti em Porto Alegre.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - 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