{"id":1405,"date":"2006-01-09T00:00:00","date_gmt":"2006-01-09T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2006\/01\/09\/outras-familias\/"},"modified":"2006-01-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-01-09T02:00:00","slug":"outras-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/outras-familias\/1405\/","title":{"rendered":"Outras fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<p>Para o soci\u00f3logo Luiz Mello, \u00e9 muito dif\u00edcil pensar na aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de lei como o da PCR, sem contar com o apoio expl\u00edcito do Poder Executivo. &ldquo;O que ocorre \u00e9 que este poder est\u00e1 ref\u00e9m das alian\u00e7as partid\u00e1rias que lhe assegura maioria no Congresso Nacional, o que inviabiliza que at\u00e9 mesmo um Presidente da Rep\u00fablica assuma posi\u00e7\u00e3o p\u00fablica e firme em defesa da liberdade de orienta\u00e7\u00e3o sexual no Pa\u00eds. Setores da base aliada vinculados a grupos religiosos fazem das demandas de gays, l\u00e9sbicas e transg\u00eaneros moeda de troca nas articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e os pol\u00edticos, por sua vez, ao temerem perder votos nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es caso ap\u00f3iem demandas como a da PCR, s\u00f3 fazem refor\u00e7ar uma homofobia de Estado&rdquo;, questiona o pesquisador. Mello acaba de lan\u00e7ar o livro <I.NOVAS i contempor\u00e2neo< Brasil no homossexual conjugalidade fam\u00edlias:>(CLAM \/ Editora Garamond), cuja resenha, assinada por Ana Paula Uziel, pode ser lida <A href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=930&amp;sid=11\">aqui<\/A>.<BR>  <P>O soci\u00f3logo lembra que, em 1993, fazer uma tese sobre conjugalidade homossexual parecia ainda pouco relevante no contexto dos grandes debates sobre fam\u00edlia no Brasil. Naquele ano, Mello concorria a uma das poucas vagas no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), onde, apesar da pouca visibilidade do tema, apresentou um anteprojeto de tese sobre rela\u00e7\u00f5es amorosas est\u00e1veis entre pessoas do mesmo sexo. Dois anos depois, a apresenta\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei que prop\u00f5e a regulamenta\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o civil entre pessoas do mesmo sexo colocaria a legitimidade das rela\u00e7\u00f5es amorosas homossexuais na ordem do dia. Enquanto o Projeto de Lei ainda espera aprova\u00e7\u00e3o no Congresso, a tese defendida pelo soci\u00f3logo foi adaptada e est\u00e1 sendo publicada no livro <I>Novas Fam\u00edlias<\/I>.<BR>  <P>Nascido no Recife e formado em sociologia pela Universidade de Bras\u00edlia, Mello \u00e9 professor adjunto do Departamento de Ci\u00eancias Sociais da Universidade federal de Goi\u00e1s desde 2002. Nesta entrevista, ele fala do livro e identifica os principais obst\u00e1culos na luta pelo reconhecimento social e jur\u00eddico da dimens\u00e3o familiar das uni\u00f5es homossexuais no Brasil.<BR>  <P><B>Em 1993, ano em que o sr. come\u00e7ou sua tese, o assunto conjugalidade homossexual era ainda pouco abordado nos centros acad\u00eamicos. Mesmo assim, o sr. resolveu desenvolver um trabalho sobre. O que o levou a essa escolha?<\/B>  <P>A principal motiva\u00e7\u00e3o foi a constata\u00e7\u00e3o de que, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos estudos pioneiros de Jurandir Freire Costa e de Maria Luiza Heilborn, praticamente inexistiam no Brasil trabalhos acad\u00eamicos sobre conjugalidade envolvendo pessoas do mesmo sexo. \u00c0quela \u00e9poca, a maioria das reflex\u00f5es sobre homossexualidade estava centrada na figura do indiv\u00edduo ou do grupo de milit\u00e2ncia, muitas vezes restrita ao \u00e2mbito das conseq\u00fc\u00eancias da epidemia de hiv\/aids. Ao mesmo tempo, em fins dos anos 80, pa\u00edses do norte da Europa come\u00e7aram a conferir reconhecimento legal a parcerias entre pessoas do mesmo sexo, o que desencadeou um debate em escala mundial sobre o tema. Foi apenas em 1995, com a apresenta\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei n\u00b0 1151\/95, que disciplina a uni\u00e3o civil entre pessoas do mesmo sexo, pela Deputada Marta Suplicy, que a sociedade brasileira passou a discutir, \u00e0s vezes de forma obsessiva e pouco racional, a possibilidade de reconhecimento legal e social dos casais formados por dois homens ou por duas mulheres. Desde ent\u00e3o muita coisa mudou no Brasil e no mundo e hoje os debates sobre conjugalidade e parentalidade de gays e l\u00e9sbicas ocupam lugar central nos estudos sobre parentesco e fam\u00edlia no \u00e2mbito das ci\u00eancias sociais.<BR>  <P><B>A que se referem as &ldquo;novas fam\u00edlias&rdquo; do t\u00edtulo de seu livro, adapta\u00e7\u00e3o da tese?<\/B>  <P>Exatamente aos casais que desafiam a norma heteroc\u00eantrica e n\u00e3o fazem da diferen\u00e7a sexual um pr\u00e9-requisito para a constitui\u00e7\u00e3o de la\u00e7os conjugais. Ao mesmo tempo, a express\u00e3o s\u00f3 faz sentido se pensarmos que &ldquo;novas&rdquo; reporta-se \u00e0 visibilidade social crescente da conjugalidade homossexual a partir da \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX. N\u00e3o restam d\u00favidas de que pr\u00e1ticas afetivo-sexuais entre pessoas do mesmo sexo sempre existiram em todos os tempos e em todas as sociedades humanas, mas foi apenas neste momento hist\u00f3rico que estamos vivendo no mundo ocidental que gays e l\u00e9sbicas ingressam na arena pol\u00edtica reivindicando o reconhecimento legal de suas parcerias amorosas. Isso \u00e9 um fen\u00f4meno social absolutamente novo, sem precedentes na hist\u00f3ria da humanidade, que coloca em xeque valores profundamente arraigados como definidores da id\u00e9ia de fam\u00edlia, a qual durante tanto tempo esteve fortemente associada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito interessante observar que isso ocorre num cen\u00e1rio em que, mesmo entre heterossexuais, a conjugalidade se encontra desvinculada da sexualidade e tamb\u00e9m da reprodu\u00e7\u00e3o. Ou seja, para ter filhos, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de casamento, nem mesmo de rela\u00e7\u00f5es sexuais, e para viver a sexualidade n\u00e3o mais se est\u00e1 aprisionado a uma estrutura familiar que pressup\u00f5e casamento e filhos.<BR>  <P><B>Quais os principais obst\u00e1culos na luta pelo reconhecimento social e jur\u00eddico da dimens\u00e3o familiar das uni\u00f5es homossexuais no Brasil? No que se alicer\u00e7a a interdi\u00e7\u00e3o aos casais homossexuais ao direito \u00e0 parentalidade?<\/B>  <P>Os principais obst\u00e1culos est\u00e3o relacionados \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa, ao machismo e \u00e0 especificidade do regime pol\u00edtico brasileiro. A meu ver, n\u00e3o restam d\u00favidas de que as religi\u00f5es, no caso do Brasil especialmente a cat\u00f3lica e a protestante, representam o que h\u00e1 de mais conservador nos debates sobre a constru\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica sexual fundada na liberdade individual e no respeito \u00e0 diversidade. Por outro lado, as principais institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por legitimar e legalizar transforma\u00e7\u00f5es no campo da moral e da fam\u00edlia &ndash; leia-se igrejas, governo e meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa &ndash; s\u00e3o totalmente dominadas por homens (menos de 10% das parlamentares brasileiras s\u00e3o mulheres, para s\u00f3 citar um exemplo), que tendem a ser muito mais homof\u00f3bicos do que as mulheres, considerando-se que a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de masculinidade \u00e9 constru\u00edda a partir da nega\u00e7\u00e3o de qualquer possibilidade de desejo homossexual. Por fim, \u00e9 muito dif\u00edcil pensar na aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de lei como o da PCR (ou qualquer outro an\u00e1logo), sem contar com o apoio expl\u00edcito do Poder Executivo. O que ocorre \u00e9 que este poder est\u00e1 ref\u00e9m das alian\u00e7as partid\u00e1rias que lhe assegura maioria no Congresso Nacional, o que inviabiliza que at\u00e9 mesmo um Presidente da Rep\u00fablica vinculado ao Partido dos Trabalhadores assuma posi\u00e7\u00e3o p\u00fablica e firme em defesa da liberdade de orienta\u00e7\u00e3o sexual no Pa\u00eds. Quando se aponta nesta dire\u00e7\u00e3o, setores da base aliada vinculados a grupos religiosos fazem das demandas de gays, l\u00e9sbicas e transg\u00eaneros moeda de troca nas articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o que impede sistematicamente que o governo assuma para si a responsabilidade pela negocia\u00e7\u00e3o da aprova\u00e7\u00e3o dos projetos de lei em tr\u00e2mite.<BR>  <P><B>O sr. dedica alguns cap\u00edtulos \u00e0 an\u00e1lise do Projeto de Lei 115\/95, que prop\u00f5e a regulamenta\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o civil entre pessoas do mesmo sexo. Em sua opini\u00e3o, no tocante \u00e0 sociedade, o que falta para o Brasil reconhecer e legitimar as rela\u00e7\u00f5es amorosas est\u00e1veis entre pessoas do mesmo sexo no pa\u00eds? Qual o maior entrave no que diz respeito \u00e0 C\u00e2mara?<\/B>  <P>A sociedade brasileira me parece muito mais aberta \u00e0 diversidade do que nossos representantes eclesi\u00e1sticos e pol\u00edticos, bastando ver o estrondoso sucesso das paradas GLBT que ocorrem em todo Pa\u00eds. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que muito das resist\u00eancias sociais ainda enfrentadas por homossexuais \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia da intoler\u00e2ncia religiosa que persegue gays e l\u00e9sbicas de forma obsessiva, como se o reconhecimento da legitimidade do amor entre pessoas do mesmo sexo pudesse destruir a pr\u00f3pria humanidade ou levar todos a se transformarem automaticamente em homossexuais. Os pol\u00edticos, por sua vez, ao temerem perder votos nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es caso ap\u00f3iem demandas como a da PCR s\u00f3 fazem refor\u00e7ar uma homofobia de Estado, a qual legitima que o cidad\u00e3o autodeclarado heterossexual sinta-se no direito de conceber-se como mais humanos que os n\u00e3o heterossexuais. Em todos os pa\u00edses que aprovaram leis de uni\u00e3o civil ou de casamento nos \u00faltimos 15 anos, o que se observa \u00e9 que a sociedade mudou muito pouco em conseq\u00fc\u00eancia disso, e tais mudan\u00e7as sempre foram na dire\u00e7\u00e3o de contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo, solid\u00e1rio e democr\u00e1tico, onde um beijo, por exemplo, come\u00e7a a ser visto como apenas um beijo, n\u00e3o interessando se \u00e9 dado por dois homens, duas mulheres ou um homem e uma mulher.<BR>  <P><B.O b an\u00e1lise?< dessa partir a constatado \u00e9 que O civil. sociedade da na quanto Estado do esfera tanto homossexuais, amorosas rela\u00e7\u00f5es das social (i)legitimidade e sexualidade fam\u00edlia, torno em ideol\u00f3gicos embates nos envolvidos sociais atores de Projeto, o contra pr\u00f3s discursos apresenta sr.> <P>Que na C\u00e2mara dos Deputados e na sociedade brasileira se falam duas l\u00ednguas: uma da intoler\u00e2ncia e da exclus\u00e3o, associada aos defensores da n\u00e3o aprova\u00e7\u00e3o da PCR, e outra da liberdade e da amplia\u00e7\u00e3o dos direitos de cidadania, expressa por aqueles que defendem a legitimidade da conjugalidade homossexual. \u00c9 desolador constatar que, em geral, o trabalho de convencimento racional acerca da necessidade de reconhecimento social dos v\u00ednculos entre pessoas do mesmo sexo esbarra em preconceitos arraigados no machismo, no medo da diferen\u00e7a e numa concep\u00e7\u00e3o de humanidade que exclui aqueles que n\u00e3o se enquadram nos par\u00e2metros de &ldquo;normalidade&rdquo;. A posi\u00e7\u00e3o dos representantes de grupos religiosos \u00e9 de uma beliger\u00e2ncia que se disfar\u00e7a em defesa de valores sagrados, negando ao direito \u00e0 liberdade de orienta\u00e7\u00e3o sexual o estatuto de um direito humano. Fora da heterossexualidade n\u00e3o haveria salva\u00e7\u00e3o, cidadania ou humanidade.<BR>  <P><B>O sr. pesquisou como conjugalidade e parentalidade s\u00e3o compreendidas tanto pelos homossexuais quanto pela Igreja Cat\u00f3lica. H\u00e1 uma total disson\u00e2ncia, n\u00e3o?<\/B>  <P>Acho que h\u00e1 mais que uma disson\u00e2ncia, uma verdadeira incompatibilidade. Mas vivemos numa sociedade laica e os valores de um grupo religioso n\u00e3o podem ser impostos ao conjunto dos cidad\u00e3os. Ser livre para eleger os parceiros afetivo-sexuais \u00e9 um pr\u00e9-requisito b\u00e1sico da vida em uma sociedade democr\u00e1tica, e \u00e9 isso que temos visto nos \u00faltimos anos, especialmente quando pa\u00edses como Holanda, B\u00e9lgica, Espanha e Canad\u00e1 reconhecem a igualdade plena entre rela\u00e7\u00f5es homo e heterossexuais na esfera p\u00fablica, por meio de uma legisla\u00e7\u00e3o de casamento n\u00e3o mais centrada na diferen\u00e7a sexual. No caso dos tr\u00eas primeiros pa\u00edses, inclusive, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ao casal de pessoas do mesmo sexo a ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as conjuntamente ou o reconhecimento da parentalidade de ambos, nos casos de reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Seguramente, o Brasil ser\u00e1 um pa\u00eds bem mais interessante quando compreendermos que a heterossexualidade n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica inerente a todos os seres humanos e que o reconhecimento social e legal dos v\u00ednculos entre pessoas do mesmo sexo em nada amea\u00e7a a vida em sociedade. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o soci\u00f3logo Luiz Mello, \u00e9 dif\u00edcil pensar na aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de lei como o da parceria civil de pessoas do mesmo sexo sem contar com o apoio expl\u00edcito do Poder Executivo. &ldquo;O problema \u00e9 que este poder est\u00e1 ref\u00e9m das alian\u00e7as partid\u00e1rias que lhe asseguram maioria no Congresso&rdquo;, afirma.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - 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