{"id":1408,"date":"2005-12-07T00:00:00","date_gmt":"2005-12-07T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2005\/12\/07\/senhoras-de-si\/"},"modified":"2005-12-07T00:00:00","modified_gmt":"2005-12-07T02:00:00","slug":"senhoras-de-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/senhoras-de-si\/1408\/","title":{"rendered":"Senhoras de si"},"content":{"rendered":"<p>O debate sobre o tr\u00e1fico de mulheres brasileiras para o exterior \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o para ativistas nacionais e internacionais e agentes governamentais. O tema ganhou destaque e o Governo brasileiro lan\u00e7ou uma campanha divulgada atrav\u00e9s do <I>slogan<\/I> &ldquo;Se algu\u00e9m oferecer comida, casa e roupa lavada no exterior, desconfie&rdquo;. O assunto est\u00e1 sendo abordado na novela Bel\u00edssima, de grande audi\u00eancia no pa\u00eds. A entrevista com a antrop\u00f3loga Adriana Piscitelli (PAGU\/Unicamp), conclui uma s\u00e9rie de quatro textos sobre prostitui\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o sexual realizados pelo CLAM: <A href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=833&amp;sid=7\">Cidadania amea\u00e7ada<\/A>, <A href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=834&amp;sid=43\">Interven\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria<\/A> e <A href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=867&amp;sid=43\">Nem t\u00e3o ex\u00f3tico assim<\/A>.<BR>  <P>Para Piscitelli, embora o debate p\u00fablico muitas vezes confunda turismo sexual e migra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de mulheres com o tr\u00e1fico, \u00e9 preciso lembrar que se trata de problem\u00e1ticas diferentes. &ldquo;O turismo sexual passou a ser quase automaticamente ligado ao tr\u00e1fico internacional de mulheres e adolescentes. Como resultado dessa conjun\u00e7\u00e3o, a lente da vitimiza\u00e7\u00e3o que permeia o debate sobre o tr\u00e1fico passou a tingir n\u00e3o apenas as a\u00e7\u00f5es das adolescentes, mas tamb\u00e9m as das mulheres envolvidas no turismo sexual&rdquo;, observa ela.<BR>  <P>A antrop\u00f3loga realizou a pesquisa &ldquo;Entre a Praia de Iracema e a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia: turismo sexual internacional e migra\u00e7\u00e3o feminina&rdquo;, na qual aborda a migra\u00e7\u00e3o de mulheres do Nordeste do Brasil para alguns pa\u00edses europeus para se dedicar ao trabalho sexual. &ldquo;Utilizo deliberadamente o termo migra\u00e7\u00e3o para sublinhar minha percep\u00e7\u00e3o dessas mulheres como pessoas \u00e0 procura de oportunidades econ\u00f4micas e sociais&rdquo;, diz ela em artigo do livro <I>Sexualidade e Saberes: conven\u00e7\u00f5es e fronteiras<\/I> (CLAM \/ Editora Garamond).<BR>  <P>Para a pesquisadora, o fato de o turismo sexual facilitar o tr\u00e1fico n\u00e3o significa que as mulheres que migram em contextos de turismo sexual possam ser consideradas v\u00edtimas de maneira indiscriminada. &ldquo;A migra\u00e7\u00e3o, inclusive a ilegal, n\u00e3o pode ser confundida com tr\u00e1fico&rdquo;, afirma.<BR>  <P>Na pesquisa, Adriana situa as constru\u00e7\u00f5es sociais sobre o Nordeste e o Brasil em uma perspectiva comparativa com outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e de outras partes do mundo. &ldquo;Uma vez imersa nesse universo de pesquisa, diversos aspectos me fizeram ver a import\u00e2ncia de compreender a inser\u00e7\u00e3o do Brasil na transnacionaliza\u00e7\u00e3o do mercado sexual. Isso me levou a realizar outros estudos acompanhando as trajet\u00f3rias das minhas entrevistadas na It\u00e1lia e explorando a inser\u00e7\u00e3o de brasileiras no mercado do sexo espanhol&rdquo;, lembra ela. Nesta entrevista, ela fala dos resultados de seu estudo e das diferen\u00e7as entre turismo sexual e tr\u00e1fico bem como entre prostitui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e volunt\u00e1ria.<BR>  <P><B>A cada ano, um n\u00famero grande de mulheres migra de pa\u00edses pobres ou em desenvolvimento para ganhar dinheiro como prostitutas em pa\u00edses desenvolvidos, especialmente os europeus, na expectativa de ascens\u00e3o econ\u00f4mica. Esta migra\u00e7\u00e3o pode ser considerada tr\u00e1fico? <\/B> <P>Para pensar tratar-se ou n\u00e3o de tr\u00e1fico de pessoas, temos que considerar as conceitualiza\u00e7\u00f5es sobre tr\u00e1fico. E elas apresentam v\u00e1rios problemas. De acordo com o Protocolo de Palermo, ratificado pelo Brasil em mar\u00e7o de 2004, o tr\u00e1fico de seres humanos envolve engano ou coa\u00e7\u00e3o da pessoa (no recrutamento, transporte, transfer\u00eancia, abrigo ou recebimento de pessoas), convertendo-a em v\u00edtima. O tr\u00e1fico apropria-se da sua liberdade por d\u00edvida ou outro meio, sempre com prop\u00f3sito de explora\u00e7\u00e3o (incluindo a explora\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o ou outras formas de explora\u00e7\u00e3o sexual). Embora no Protocolo se deixe claro que o consentimento da pessoa traficada \u00e9 irrelevante, h\u00e1 uma forte \u00eanfase na id\u00e9ia de engano e coa\u00e7\u00e3o. No debate internacional se discutem v\u00e1rios aspectos pouco precisos desta defini\u00e7\u00e3o, por exemplo, o alcance da no\u00e7\u00e3o de coa\u00e7\u00e3o. Algumas leituras estendem o conceito de coa\u00e7\u00e3o para qualquer situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Por exemplo, uma pessoa pobre de um pa\u00eds pobre \u00e9 muitas vezes considerada coagida apenas pela situa\u00e7\u00e3o de pobreza e n\u00e3o por viol\u00eancia ou amea\u00e7as. Se discute tamb\u00e9m exatamente o alcance da express\u00e3o &ldquo;explorar a prostitui\u00e7\u00e3o&rdquo; e &ldquo;outras formas de explora\u00e7\u00e3o sexual&rdquo;. Paralelamente, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira apresenta uma conceitualiza\u00e7\u00e3o mais restritiva do tr\u00e1fico.<BR>  <P>No C\u00f3digo Penal Brasileiro (Cap V, Art. 231, incisos 1, 2 e 3) \u00e9 considerado tr\u00e1fico (de mulheres) promover ou facilitar a entrada, no territ\u00f3rio nacional, de mulher que nele venha exercer a prostitui\u00e7\u00e3o ou a sa\u00edda de mulher que v\u00e1 exerc\u00ea-la no estrangeiro, prevendo multas e penas adicionais nos casos nos quais h\u00e1 emprego de viol\u00eancia, grave amea\u00e7a ou fraude e fins de lucro. A leiI n\u00ba 11.106, de 28 de mar\u00e7o de 2005 modificou o Cap V do C\u00f3digo Penal, tratando de tr\u00e1fico internacional de pessoas (e n\u00e3o mulheres) e adicionando disposi\u00e7\u00f5es relativas ao tr\u00e1fico interno (isto \u00e9, no \u00e2mbito do territ\u00f3rio nacional) de pessoas. De acordo com o C\u00f3digo Penal, portanto, qualquer facilita\u00e7\u00e3o para que algu\u00e9m viaje ao exterior para trabalhar na prostitui\u00e7\u00e3o pode ser vinculada a um quadro de tr\u00e1fico, mesmo que n\u00e3o se trate de organiza\u00e7\u00f5es criminosas organizadas, mas, como \u00e9 freq\u00fcente no Brasil, da ajuda de parentes, amigas, vizinhas.<BR>  <P>Esta explica\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para compreender que do ponto de vista t\u00e9cnico\/legal, no Brasil, uma s\u00e9rie de viagens ao exterior para trabalhar na ind\u00fastria do sexo nas quais n\u00e3o h\u00e1 coa\u00e7\u00e3o, engano, amea\u00e7as ou viol\u00eancia, s\u00e3o consideradas tr\u00e1fico internacional de pessoas.<BR>  <P><B>A sra. acredita que o tr\u00e1fico de mulheres realmente exista, ou trata-se na verdade de turismo sexual, uma migra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de mulheres com diversos fins? <\/B> <P>Turismo sexual e tr\u00e1fico s\u00e3o duas problem\u00e1ticas diferentes, embora o debate p\u00fablico muitas vezes as confunda ou estabele\u00e7a rela\u00e7\u00f5es causais entre uma e outra, afirmando, por exemplo, que o turismo sexual \u00e9 um ou o caminho para o tr\u00e1fico de mulheres. O turismo sexual envolve viagens basicamente centradas na procura de consumo de sexo, geralmente protagonizadas por pessoas dos pa\u00edses ricos viajando em dire\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses do Sul. Tende a ser pensado como protagonizado por homens heterossexuais mais velhos, viajando em pacotes organizados. Mas, uma s\u00e9rie de estudos realizados nas mais diversas partes do mundo, sobretudo a partir da d\u00e9cada de 1990, desmontaram diversos supostos generalizantes sobre o tema, mostrando como em certas partes do mundo h\u00e1 sobretudo mulheres e n\u00e3o homens viajando \u00e0 procura do consumo de sexo com nativos.<BR>  <P>A realidade \u00e9 que, em diversos contextos de turismo sexual, nativos\/as desejam migrar e tentam materializar seus sonhos de migra\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos recursos oferecidos pelos\/as turistas \u00e0 procura de sexo. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que nos contextos de turismo sexual operam agenciadores nacionais ou internacionais estimulando jovens envolvidos\/as no trabalho sexual para migrarem. Levando em conta minhas experi\u00eancias de pesquisa no Brasil e com brasileiras trabalhando na ind\u00fastria do sexo no exterior, diria que os dois tipos de situa\u00e7\u00f5es existem. Entrevistei brasileiras trabalhando como prostitutas na Espanha que tinham sido contatadas por agenciadores em boates voltadas para a prostitui\u00e7\u00e3o com estrangeiros no Rio e em Natal. Mas, tamb\u00e9m, entrevistei uma diversidade de garotas residindo na Europa que tinham migrado atrav\u00e9s de namorados estrangeiros encontrados em contextos de turismo sexual em Fortaleza, considerando que eles ofereciam in\u00fameras vantagens em rela\u00e7\u00e3o aos &ldquo;agenciadores&rdquo;, sobretudo por oferecerem os recursos para viajar (passaporte, passagem, dinheiro para o ingresso, recep\u00e7\u00e3o e hospedagem) sem contrair d\u00edvidas. E, mais ainda, v\u00e1rias dessas entrevistadas, que tinham feito &ldquo;programas&rdquo; no Brasil, deixaram de faz\u00ea-los no exterior. Assim, a conclus\u00e3o \u00e9 que, embora em certos contextos, turismo sexual e migra\u00e7\u00e3o para se inserir na ind\u00fastria do sexo possam estar relacionados, n\u00e3o h\u00e1 uma vincula\u00e7\u00e3o linear.<BR>  <P>Isto n\u00e3o significa que o tr\u00e1fico internacional de pessoas, no sentido de coa\u00e7\u00e3o, trabalho for\u00e7ado, viol\u00eancia, n\u00e3o exista. Encontrei casos extremamente delicados, tratados por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais na Europa, de adolescentes e adultas das mais diversas nacionalidades. A dificuldade, em termos da problem\u00e1tica do tr\u00e1fico, \u00e9 estabelecer os limites entre situa\u00e7\u00f5es que, embora consideradas ilegais em diferentes pa\u00edses, envolvem a vontade e a op\u00e7\u00e3o dos agentes envolvidos e outras que n\u00e3o. Podemos pensar em diferentes exemplos. Uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o ilegal (porque excedeu o tempo de perman\u00eancia legal) que deseja trabalhar na prostitui\u00e7\u00e3o, sabe que dever\u00e1 pagar uma d\u00edvida pela passagem obtida que duplica ou triplica seu valor. Ela sabe que, somente depois de pag\u00e1-la, o que far\u00e1 em um par de meses, come\u00e7ar\u00e1 a juntar dinheiro para si. Existem pessoas que viajam voluntariamente, mas ao chegarem, descobrem que a d\u00edvida era maior do que haviam sido informadas, que teriam que pagar um pre\u00e7o abusivo pela hospedagem e\/ou, ainda, teriam que &ldquo;comprar um ponto&rdquo;. E falo em pessoas, n\u00e3o em mulheres, considerando a import\u00e2ncia do trabalho de &ldquo;transg\u00eaneros&rdquo; brasileiras no mercado sexual europeu, e o fato de elas estarem muitas vezes em situa\u00e7\u00e3o extrema de vulnerabilidade.<BR>  <P><B>Alguns setores sociais, a fim de sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica para o problema do tr\u00e1fico, misturam prostitui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, turismo sexual e prostitui\u00e7\u00e3o infantil, assuntos que causam uma certa rejei\u00e7\u00e3o da sociedade. Esses discursos nacionais e internacionais sobre o tr\u00e1fico n\u00e3o viriam a contribuir, na verdade, para o controle da mobilidade, dos corpos e da sexualidade das mulheres? <\/B> <P>Esses discursos e as campanhas anti-tr\u00e1fico por eles informadas tendem a ser bem intencionados, no sentido de pretender proteger as pessoas, sobretudo as mulheres, de situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. Mas, de fato, eles contribuem para o controle da mobilidade. Al\u00e9m disso, cabe tamb\u00e9m perguntar o quanto eles, de fato, protegem as pessoas. Estou pensando basicamente nos casos de grave coa\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a e viol\u00eancia e o tratamento dispensado a eles em certos pa\u00edses. Espanha \u00e9 um pa\u00eds sugestivo para pensar no efeito desses discursos por uma s\u00e9rie de motivos. \u00c9 um pa\u00eds alvo da migra\u00e7\u00e3o de brasileiras para trabalhar na ind\u00fastria do sexo; tem se articulado com o Brasil em uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es internacionais para combater o tr\u00e1fico de pessoas e conta com ativas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais que ap\u00f3iam trabalhadores\/as do sexo, para citar algumas, em Madrid e Barcelona. As opera\u00e7\u00f5es para &ldquo;resgatar v\u00edtimas do tr\u00e1fico&rdquo; por parte da pol\u00edcia, inclusive brasileiras, conduziram muitas mulheres trabalhando na ind\u00fastria do sexo \u00e0 pris\u00e3o (e posterior deporta\u00e7\u00e3o) por estarem em situa\u00e7\u00e3o ilegal. Ao mesmo tempo, as ONGs afirmam que as graves situa\u00e7\u00f5es de escraviza\u00e7\u00e3o e risco de vida por elas denunciadas s\u00e3o negligenciadas sob a alega\u00e7\u00e3o de n\u00e3o contarem com espa\u00e7os\/abrigos e programas para auxiliar as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de tr\u00e1fico e em risco de vida.<BR>  <P><B>Alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina s\u00e3o tidos mundialmente como para\u00edsos sexuais, lugares procurados pelos turistas do primeiro mundo para o sexo . Que fatores definem esses destinos &ndash; somente a possibilidade de sexo barato? <\/B> <P>Na constru\u00e7\u00e3o desses para\u00edsos sexuais se combinam diversos fatores. Um deles \u00e9 o aspecto econ\u00f4mico, a pobreza, que incide na possibilidade de obten\u00e7\u00e3o de sexo barato. Mas, a pobreza, nem sequer quando \u00e9 extrema, garante o &ldquo;sucesso&rdquo; de um local nos circuitos mundiais de turismo sexual. Os fatores culturais, vinculados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de estilos de sexualidade, marcados por aspectos raciais e \u00e9tnicos, s\u00e3o fundamentais. Assim, por exemplo, Paraguai, considerado por turistas sexuais como &ldquo;verdadeiro Terceiro Mundo&rdquo;, no qual todo tipo de pr\u00e1tica sexual \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o se &ldquo;firma&rdquo; nesses circuitos, nem tampouco Bol\u00edvia, no qual as mulheres dispon\u00edveis para o sexo s\u00e3o consideradas excessivamente &ldquo;ind\u00edgenas&rdquo; e &ldquo;pouco quentes&rdquo;.<BR>  <P><B>Por outro lado, o que motiva as mulheres que fazem o percurso contr\u00e1rio: saem de seus pa\u00edses de origem, onde n\u00e3o s\u00e3o prostitutas, para vender sexo no exterior? <\/B> <P>Levando em conta a inser\u00e7\u00e3o das brasileiras no mercado do sexo, de fato, algumas das que viajam para trabalhar na ind\u00fastria do sexo no exterior j\u00e1 foram prostitutas no Brasil e outras n\u00e3o. A quest\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 um dos principais aspectos que as motivam a viajar. N\u00e3o se trata de extrema pobreza, as pesquisas realizadas at\u00e9 o momento mostram que parte substantiva dessa popula\u00e7\u00e3o pertence a estratos baixos e m\u00e9dios baixos, mas n\u00e3o miser\u00e1veis e que conta com mais anos de estudo que a m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o brasileira. As motiva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas est\u00e3o associadas a sonhos comuns da classe m\u00e9dia brasileira: a compra da casa pr\u00f3pria, do carro, instalar o pr\u00f3prio neg\u00f3cio, um sal\u00e3o de beleza, um supermercado, cuidar da educa\u00e7\u00e3o dos filhos. \u00c0s vezes, essas migra\u00e7\u00f5es fazem parte de estrat\u00e9gias familiares, outras vezes se trata de projetos individuais. H\u00e1 outros fatores, como o desejo de conhecer lugares novos, um certo glamour e, tanto no caso de mulheres como de &ldquo;transg\u00eaneros&rsquo;, a id\u00e9ia de fugir de padr\u00f5es de g\u00eanero percebidos como mais r\u00edgidos e discriminat\u00f3rios no Brasil. E tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio levar em conta uma certa &ldquo;normaliza\u00e7\u00e3o&rdquo; da prostitui\u00e7\u00e3o, tomando emprestado um termo de Luiz Fernando Dias Duarte. Analisando os deslocamentos recentes das fronteiras em torno \u00e0 sexualidade, ele chama a aten\u00e7\u00e3o para as intensas negocia\u00e7\u00f5es em curso a respeito da &ldquo;normaliza\u00e7\u00e3o&rdquo; de pr\u00e1ticas sexuais que foram objeto de intensa rejei\u00e7\u00e3o no passado, como o adult\u00e9rio, a masturba\u00e7\u00e3o, a pornografia, a sodomia, o homoerotismo e a prostitui\u00e7\u00e3o, que se articulam \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o de outras pr\u00e1ticas, como a viol\u00eancia sexual ou a pedofilia. A id\u00e9ia de uma certa &ldquo;normaliza\u00e7\u00e3o&rdquo; \u00e9 recorrente nos relatos de mulheres inseridas na ind\u00fastria do sexo na Europa, que n\u00e3o exerciam a prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil, de n\u00e3o ver a prostitui\u00e7\u00e3o como &ldquo;um bicho de sete cabe\u00e7as&rdquo;. E isto vale para pessoas que desempenham diferentes atividades dentro dessa ind\u00fastria, seja stripers ou prostitutas.<BR>  <P><B>Em seu artigo, a sra. trata de g\u00eanero e ra\u00e7a como agentes metaf\u00f3ricos. Qual a import\u00e2ncia dessas duas categorias no universo do turismo sexual? <\/B> <P>No universo do turismo sexual que estudei, em Fortaleza, me centrei em uma modalidade de turismo heterossexual \u00e0 procura de sexo. Os atributos em jogo eram produzidos na imbrica\u00e7\u00e3o de no\u00e7\u00f5es de feminilidade e masculinidade vinculadas \u00e0 origem nacional, ra\u00e7a, classe e idade, em processos nos quais as mulheres nativas, tornadas ex\u00f3ticas, eram intensamente sexualizadas, enquanto os estrangeiros eram considerados a corporifica\u00e7\u00e3o dos estilos mais valorizados de masculinidade. Nesse marco, as desigualdades estruturais permeando os relacionamentos se expressavam, alternativamente, atrav\u00e9s de no\u00e7\u00f5es de g\u00eanero (os estilos de feminilidade tidos como alegres, submissos e quentes atribu\u00eddos \u00e0s nativas e as maneiras de ser homem vinculadas aos estrangeiros) ou atrav\u00e9s de id\u00e9ias de &ldquo;cor&rdquo; (a cor morena, associada a uma sexualidade exacerbada atribu\u00edda \u00e0s mulheres nativas e a cor branca, vinculada aos estrangeiros dos pa\u00edses do Norte).<BR>  <P><B>O Governo Federal iniciou uma campanha contra o tr\u00e1fico de mulheres. Como avalia tal iniciativa? A sra. considera que esse seja um dos pap\u00e9is do Estado? <\/B> <P>\u00c9 dever do Estado garantir a seguran\u00e7a e a prote\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s. Nesse sentido, sem d\u00favida \u00e9 um dos seus pap\u00e9is. As campanhas contra o tr\u00e1fico podem ser instrumentos dessa prote\u00e7\u00e3o. No entanto, as discuss\u00f5es internacionais mostram os problemas envolvidos nas defini\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico, no conte\u00fado desta express\u00e3o. Seria importante avan\u00e7ar nelas, no plano nacional e internacional, para poder implementar campanhas que de fato protejam as pessoas envolvidas. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora o debate p\u00fablico muitas vezes confunda turismo sexual e migra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de mulheres para o exterior com tr\u00e1fico de pessoas, para a pesquisadora Adriana Piscitelli, as mulheres que migram voluntariamente para se dedicar ao trabalho sexual n\u00e3o podem ser consideradas v\u00edtimas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1408","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - 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