{"id":1409,"date":"2005-11-29T00:00:00","date_gmt":"2005-11-29T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2005\/11\/29\/nem-tao-exotico-assim\/"},"modified":"2005-11-29T00:00:00","modified_gmt":"2005-11-29T02:00:00","slug":"nem-tao-exotico-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/nem-tao-exotico-assim\/1409\/","title":{"rendered":"Nem t\u00e3o ex\u00f3tico assim"},"content":{"rendered":"<p>Para a antrop\u00f3loga Cl\u00e1udia Fonseca, professora no programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em antropologia social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS\/UFRGS), escandalizar-se com a prostitui\u00e7\u00e3o, colocando-a num campo absolutamente a parte, n\u00e3o ajuda a aprofundar a reflex\u00e3o sobre o assunto.<BR>  <P>&ldquo;A uma certa dist\u00e2ncia, via romances e jornais, o assunto \u00e9 sem d\u00favida, al\u00e9m de fascinante, de digest\u00e3o relativamente f\u00e1cil, com imagens previs\u00edveis de erotismo e transgress\u00e3o&rdquo;, diz ela no in\u00edcio do artigo &ldquo;A morte de um gigol\u00f4: fronteiras da transgress\u00e3o e sexualidade nos dias atuais&rdquo;, um dos textos da colet\u00e2nea <B>Sexualidade e Saberes: conven\u00e7\u00f5es e fronteiras<\/B> <I>(CLAM \/ Editora Garamond)<\/I>, fruto do semin\u00e1rio realizado em 2003 em Campinas, organizado em parceria com o N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero PAGU (Universidade Estadual de Campinas).<BR>  <P>Em meados da d\u00e9cada de 1990, Cl\u00e1udia realizou uma pesquisa etnogr\u00e1fica com algumas prostitutas na cidade de Porto Alegre, no sul do Brasil. Dez anos depois, a antrop\u00f3loga voltou a campo e reencontrou &ldquo;antigos conhecidos&rdquo;. Seu olhar de &ldquo;dez anos depois&rdquo; n\u00e3o \u00e9 dirigido propriamente para as mudan\u00e7as no campo da prostitui\u00e7\u00e3o &ndash; &ldquo;que s\u00e3o poucas&rdquo;, frisa a pesquisadora &ndash; mas para o ocorrido na vida das mulheres entrevistadas em seu primeiro trabalho. O retorno valeu para confirmar a id\u00e9ia que a acompanhava desde os primeiros meses da pesquisa de campo: &ldquo;Essas mulheres t\u00eam vidas, em muitos aspectos (experi\u00eancias familiares e dilemas pessoais) n\u00e3o muito diferentes das de suas contempor\u00e2neas mais convencionais&rdquo;, narra ela.<BR>  <P>Nesta entrevista, a antrop\u00f3loga fala sobre a normalidade dessa atividade profissional e sua rela\u00e7\u00e3o com a pobreza, e tamb\u00e9m da perspectiva do olhar do pesquisador diante do assunto. &ldquo;Ao se aproximar da vida das &ldquo;profissionais do sexo&rdquo;, em carne e osso, o pesquisador complica o quadro, ao descobrir que o ex\u00f3tico n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ex\u00f3tico assim&rdquo;.<BR>  <P><B>A prostitui\u00e7\u00e3o, alvo de intensa rejei\u00e7\u00e3o no passado, ainda pode ser considerada atualmente uma express\u00e3o transgressiva? <\/B> <P>Evidente. Quando uma pot\u00eancia mundial, como os Estados Unidos, passa a negar financiamento para o combate de AIDS a qualquer organiza\u00e7\u00e3o que trabalha com profissionais do sexo, \u00e9 uma prova cabal do extremo estigma que pesa sobre essa atividade entre personagens muito influentes do mundo contempor\u00e2neo.<BR>  <P><B>A sra. refuta argumentos reducionistas (como os psicol\u00f3gicos) geralmente usados para &ldquo;explicar&rdquo; a entrada na prostitui\u00e7\u00e3o &ndash; abuso sexual na inf\u00e2ncia etc. &ndash; que acabam por reduzir a prostitui\u00e7\u00e3o a uma patologia familiar. Por outro lado, as mulheres retratadas n\u00e3o se apresentam como v\u00edtimas e esfor\u00e7am-se para se mostrar como pessoas &ldquo;normais&rdquo;. Esses relatos n\u00e3o ajudam a banalizar a profiss\u00e3o? <\/B> <P>\u00c9 minha firme convic\u00e7\u00e3o que a grande maioria de prostitutas s\u00e3o pessoas &ldquo;normais&rdquo;. Provavelmente, vai se encontrar entre um determinado grupo de prostitutas a mesma propor\u00e7\u00e3o de neur\u00f3ticas, de expansivas e de t\u00edmidas, de chatas e de simp\u00e1ticas (e de abusadas sexualmente) que se encontraria em qualquer outro grupo de mulheres de idade e classe semelhante.<BR>  <P>\u00c9 verdade que a maioria provavelmente n\u00e3o &ldquo;escolheu&rdquo; ser prostituta &ndash; da mesma forma que mulheres n\u00e3o &ldquo;escolhem&rdquo; ser faxineira, catadora de papel, ou mesmo balconista ou gar\u00e7onete etc. N\u00e3o s\u00e3o empregos &ldquo;glamourosos&rdquo;, que inspiram grande admira\u00e7\u00e3o. A prostitui\u00e7\u00e3o inspira, pelo contr\u00e1rio, preconceitos constantes e, nesse sentido, as mulheres t\u00eam que se esfor\u00e7ar mais do que outras para mostrar que s\u00e3o normais.<BR>  <P><B>Outro discurso corrente por parte de muitas prostitutas atribui a falta de alternativas como motivo para o exerc\u00edcio da prostitui\u00e7\u00e3o. Como classificar essa narrativa? Seria este um argumento v\u00e1lido para &ldquo;explicar&rdquo; a entrada na atividade? <\/B> <P>Considero o desemprego o maior problema da atualidade. Recentemente em Porto Alegre, tivemos um concurso p\u00fablico para servente de escola, exigindo apenas o primeiro grau completo. Apareceram 24 mil candidatos para quatro vagas. Cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o urbana est\u00e1 trabalhando na economia informal. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para qualquer pessoa, nesse contexto, viver e manter uma fam\u00edlia. Tem que ter iniciativa, superar preconceitos contra, por exemplo, trabalho manuais pouco prestigiosos.<BR>  <P>Creio que poucos pesquisadores discordariam quando relaciono a pobreza ao volume de prostitutas. Antes de medidas de prote\u00e7\u00e3o social na Inglaterra, por exemplo, a prostitui\u00e7\u00e3o era end\u00eamica. Historiadores falam de 5 a 10% da popula\u00e7\u00e3o de mulheres adultas em Nova Iorque no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e at\u00e9 30% das mulheres adultas no M\u00e9xico pr\u00e9-revolucion\u00e1rio. Claro que \u00e9 uma estimativa alta, mas digamos que as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas de pobreza aliada a uma moralidade sexual conservadora para as mulheres &ldquo;honestas&rdquo; eram muito &ldquo;favor\u00e1veis&rdquo; \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o dessa atividade laboral. Vale lembrar que relaciono pobreza a prostitui\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o trabalhei com garotas de programa de alta classe. Existem pesquisadores que podem falar dessas profissionais, talvez com avalia\u00e7\u00f5es diferentes das minhas.<BR>  <P><B>Hoje em dia, h\u00e1 um esfor\u00e7o, presente nos discursos de ativistas e ONGs que trabalham com profissionais do sexo, no sentido de mostrar a normalidade das prostitutas. Seria esta uma imagem &ldquo;maquiada&rdquo;, estrategicamente usada para minimizar a discrimina\u00e7\u00e3o e ainda alcan\u00e7ar direitos e respeitabilidade, ou seria a imagem pela qual a atividade deveria ser realmente encarada? <\/B> <P>Sempre existe uma &ldquo;maquiagem&rdquo; da parte de qualquer grupo de ativistas querendo diminuir a discrimina\u00e7\u00e3o e promover os direitos da categoria com a qual trabalham. Tendem a apresentar os membros de sua categoria como o oposto total dos estere\u00f3tipos negativos: s\u00e3o lindos, limpos, honestos e cidad\u00e3os exemplares. Falamos em &ldquo;identity politics&rdquo; em ingl\u00eas e \u00e9 uma t\u00e1tica pol\u00edtica absolutamente v\u00e1lida &ndash; para negros, homossexuais, prostitutas etc. O problema \u00e9 quando se vende uma imagem t\u00e3o idealizada que nenhum ser humano consegue estar \u00e0 altura. A\u00ed, a idealiza\u00e7\u00e3o pode ser como um tiro que sai pela culatra: &ldquo;Essa n\u00e3o \u00e9 santa, ent\u00e3o \u00e9 (embora exce\u00e7\u00e3o) dem\u00f4nio&rdquo;. De fato, as pessoas s\u00e3o complexas, com trajet\u00f3rias diferentes. T\u00eam altos e baixos, momentos da vida&#8230; Creio que o grande desafio \u00e9 n\u00e3o ceder a nenhum estere\u00f3tipo &ndash; nem negativo, nem idealizado.<BR>  <P><B>Qual deve ser a perspectiva do olhar do pesquisador diante disso? Deve-se relativizar essa normalidade? De que forma? <\/B> <P>O cientista social considera as pessoas em fun\u00e7\u00e3o do lugar e da \u00e9poca em que vivem. De onde vieram? Para onde pretendem ir? Qual a conjuntura econ\u00f4mica e pol\u00edtica que dita os limites de suas possibilidades? Quais as formas de estigma e de repress\u00e3o (policial e outra) que pesam sobre a atividade em quest\u00e3o? Como esse estigma acaba criando os males que pretende sanar?<BR>  <P>Mas tamb\u00e9m o cientista social procura entender, atrav\u00e9s da conviv\u00eancia e da escuta, quais as diferentes concep\u00e7\u00f5es de normalidade. Creio que todo grupo tem crit\u00e9rios de &ldquo;normalidade&rdquo;, isso \u00e9 um fen\u00f4meno social. Cabe ao pesquisador entender como se formula essa moralidade do grupo. Por extens\u00e3o, o pesquisador deve tamb\u00e9m exercer o &ldquo;olhar reflexivo&rdquo; para pensar sua pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de normalidade. As defini\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias &ndash; o que um grupo aceita como banal, outro entende como chocante. Reconhecer isso \u00e9 &ldquo;relativizar&rdquo;? Ent\u00e3o, sim, o pesquisador deve relativizar. Na minha opini\u00e3o, o pesquisador que n\u00e3o coloca em d\u00favida suas pr\u00f3prias pr\u00e9-no\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e1 procedendo conforme os princ\u00edpios da ci\u00eancia contempor\u00e2nea. A partir da\u00ed, deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o a extrema desigualdade dessa sociedade que decreta a normalidade, tal como definida por determinada classe, como a &ldquo;verdadeira&rdquo; normalidade. Enfim, n\u00e3o se trata jamais de uma relativiza\u00e7\u00e3o &ldquo;vale tudo&rdquo;. Trata-se de um questionamento dos contextos e dos jogos de poder que circundam as diferentes defini\u00e7\u00f5es do normal.<BR>  <P><B>Os discursos das mulheres entrevistadas em seu trabalho mostram tra\u00e7os de uma moralidade conservadora. Quando a sra. retornou ao campo, quase dez anos depois de sua primeira pesquisa, sabe-se que algumas tinham casado e diziam-se felizes &ndash; e &ldquo;felicidade&rdquo; para elas, segundo seus relatos, equivalia a casar e ter filhos. Este \u00e9 apenas um discurso politicamente correto ou elas t\u00eam mesmo um crit\u00e9rio convencional de felicidade, parecido com o de milh\u00f5es de outras mulheres? Seria mera ilus\u00e3o a imagem transgressora, m\u00edtica e atraente das prostitutas? <\/B> <P>Existe todo tipo de prostituta: algumas mais, outras menos conservadoras. Ent\u00e3o, por que sua defini\u00e7\u00e3o de felicidade seria diferente? Muitas prostitutas s\u00e3o extremamente fi\u00e9is a seus namorados e maridos. Elisiane Pasini, antrop\u00f3loga especializada nesse tema, aponta para a maneira em que prostitutas deixam de usar a camisinha quando t\u00eam rela\u00e7\u00f5es com seus maridos. Essa &ldquo;intimidade&rdquo; \u00e9 s\u00edmbolo de privil\u00e9gio, e &ldquo;infidelidade&rdquo; ocorre quando se transgride essa regra da camisinha. Temos aqui mulheres com no\u00e7\u00f5es bastante convencionais de fidelidade, mulheres que podem ser muito ciumentas etc. Agora, entre as pessoas com quem trabalhei n\u00e3o se tem no\u00e7\u00e3o de &ldquo;carreira&rdquo; feminina. A n\u00e3o ser que entrem numa carreira de m\u00e9dica, juiz, professora universit\u00e1ria (o que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel para a maioria das mulheres das camadas trabalhadoras da popula\u00e7\u00e3o).<BR>  <P>Em geral, as mulheres n\u00e3o aspiram trabalhar fora toda vida. A grande esperan\u00e7a delas \u00e9 realizar aquele modelo &ndash; homem provedor, mulher do lar. O problema ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necessariamente ser prostituta, mas, sim, trabalhar fora, querendo ou n\u00e3o querendo. Quando dizem &ldquo;Quero casa, marido, filhos&rdquo;, est\u00e3o pensando nesse modelo. Claro, conhe\u00e7o mulheres que, depois de realizarem o ideal, come\u00e7am a ficar entediadas em casa e querem voltar a trabalhar. Mas a\u00ed se torna uma op\u00e7\u00e3o a ser ponderada, n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o. Acho que as mulheres querem ter op\u00e7\u00f5es e, no Brasil contempor\u00e2neo, \u00e9 o que mais faz falta.<BR>  <P><B>Qual sua opini\u00e3o sobre projetos pol\u00edticos que prop\u00f5em a regulamenta\u00e7\u00e3o da atividade de prostituta como profiss\u00e3o? <\/B> <P>Existem diversas ONGs dirigidas por profissionais do sexo que trabalham com esse assunto, fazendo um excelente trabalho. Pelo que entendi, prop\u00f5em uma descriminaliza\u00e7\u00e3o de qualquer atividade ligada \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. Por enquanto, o C\u00f3digo Penal ainda criminaliza os terceiros que lucram com o trabalho da mulher &ndash; os hot\u00e9is, boates e, dever\u00edamos incluir, os jornais, sites na internet e donos de propriedade nas galerias do centro da cidade que alugam pe\u00e7as para as prostitutas. De fato, parece irrealista uma lei que diz que mulher pode se prostituir, mas ningu\u00e9m pode dar cobertura. Descriminaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa regulamenta\u00e7\u00e3o. A maioria das ONGs com as quais tive contato s\u00e3o absolutamente contra a regulamenta\u00e7\u00e3o &ndash; ficha para prostituta, como existe no Uruguai, por exemplo &ndash; que restringe as atividades delas a certas zonas e faz exig\u00eancias m\u00e9dico-militaristas.<BR>  <P>Agora, n\u00e3o elimino a possibilidade de m\u00e1fias criminosas que devem ser combatidas. Mas esses grupos lidam com &ldquo;transgress\u00f5es&rdquo; muito al\u00e9m da prostitui\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que a pol\u00edcia em geral n\u00e3o vai atr\u00e1s dessas m\u00e1fias, mas sim das pessoas mais fracas, menos organizadas. O estigma \u00e9 usado n\u00e3o para controlar focos s\u00e9rios de aliciamento e viol\u00eancia, mas para reprimir pessoas que est\u00e3o &ldquo;batalhando&rdquo; por conta pr\u00f3pria, tentando com isso levar vidas dignas.<\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a antrop\u00f3loga Cl\u00e1udia Fonseca, escandalizar-se com a prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o ajuda a aprofundar a reflex\u00e3o sobre o assunto. 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