{"id":1467,"date":"2013-07-03T00:00:00","date_gmt":"2013-07-03T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2013\/07\/03\/el-infierno-no-son-los-otros\/"},"modified":"2013-07-03T00:00:00","modified_gmt":"2013-07-03T03:00:00","slug":"el-infierno-no-son-los-otros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/el-infierno-no-son-los-otros\/1467\/","title":{"rendered":"El infierno no son los otros"},"content":{"rendered":"<p>Em mat&eacute;ria de viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero, a It&aacute;lia dos jornais n&atilde;o &eacute; a mesma do cotidiano. Durante os &uacute;ltimos anos, os principais meios de comunica&ccedil;&atilde;o italianos mantiveram uma cobertura dos casos de viol&ecirc;ncia sexual acentuadamente enviesada, ao atribuir aos imigrantes a autoria deste tipo de crime. Dados do Minist&eacute;rio de Igualdade e Oportunidade do pa&iacute;s, por&eacute;m, apontam que a viol&ecirc;ncia sexual e dom&eacute;stica &eacute; cometida majoritariamente por italianos. S&atilde;o os companheiros e ex-companheiros que mais agridem f&iacute;sica e psicologicamente as mulheres. S&atilde;o eles os que tamb&eacute;m mais matam. Um problema localizado no &acirc;mbito das rela&ccedil;&otilde;es privadas. Para a m&iacute;dia italiana, no entanto, o vil&atilde;o &eacute; o estrangeiro, especialmente os romenos e os ciganos, que integram a maior parte do fluxo migrat&oacute;rio do territ&oacute;rio italiano. A amea&ccedil;a externa como elemento central no discurso midi&aacute;tico foi identificada pela antrop&oacute;loga Hilda Maria Gaspar Pereira (Universidade de Hokusei Gakuen\/Jap&atilde;o), em pesquisa realizada durante 2009\/2010, quando era pesquisadora associada do Instituto de Ci&ecirc;ncias Humanas de Floren&ccedil;a.<\/p>\n<p>A pesquisadora analisou os casos noticiados pela imprensa no per&iacute;odo entre 2007 e 2011. Entre os impressos, os jornais italianos La Repubblica, La Nazione, Il Giornale, L`Unita, La Stampa e Liberta; meios estrangeiros, o jornal Financial Times e a revista The Economist, ambos da Inglaterra, e a revista norte-americana Newsweek. Na internet, foi estudado o portal italiano Notizie Yahoo Italia. Entre os canais de televis&atilde;o, Canale 5, Rete 4 , Italia 1 (pertencentes ao conglomerado Mediaset, do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi) e os canais p&uacute;blicos RAI 1, RAI 2 e RAI 3.<\/p>\n<p>A m&iacute;dia italiana &eacute; monopolizada. Silvio Berlusconi, condenado recentemente pela Justi&ccedil;a do pa&iacute;s &agrave; pris&atilde;o por prostitui&ccedil;&atilde;o juvenil e abuso de poder, controla ainda a maior editora do pa&iacute;s (Mondadori), jornais e ag&ecirc;ncias de publicidade. O pol&iacute;tico, que ocupou o cargo por tr&ecirc;s ocasi&otilde;es (1994-1995; 2001-2006; 2002-2011), era o respons&aacute;vel pela indica&ccedil;&atilde;o dos diretores dos canais estatais. Durante o &uacute;ltimo mandato, o governo de centro-direita de Silvio Berlusconi intensificou a pol&iacute;tica de vigil&acirc;ncia e puni&ccedil;&atilde;o contra a imigra&ccedil;&atilde;o. A viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero integrou o repert&oacute;rio de justificativas para a instala&ccedil;&atilde;o de medidas consideradas xen&oacute;fobas, tendo em vista a difus&atilde;o midi&aacute;tica de p&acirc;nicos morais centrados na figura do estrangeiro como amea&ccedil;a. A Comiss&atilde;o Europ&eacute;ia contra o Racismo e Intoler&acirc;ncia condenou em relat&oacute;rio o teor das not&iacute;cias.<\/p>\n<p>&ldquo;A viol&ecirc;ncia sexual, nos casos onde os estrangeiros eram os supostos culpados, era noticiada em locais de destaque e em notici&aacute;rios de hor&aacute;rio nobre. A exposi&ccedil;&atilde;o dos culpados atrav&eacute;s de fotos, identifica&ccedil;&atilde;o e origem &eacute;tnica era super exposta. Os crimes eram descritos como atos de extrema barb&aacute;rie. O discurso adotado caracterizava uma situa&ccedil;&atilde;o de&rdquo;animaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; do criminoso, que deveria ser ca&ccedil;ado a todo custo em prol da seguran&ccedil;a publica&rdquo;, afirma em entrevista ao CLAM Hilda Maria Gaspar Pereira, que destaca a ocorr&ecirc;ncia de atos xen&oacute;fobos no decorrer da divulga&ccedil;&atilde;o de crimes na m&iacute;dia italiana.<\/p>\n<p>Para a autora, no entanto, a produ&ccedil;&atilde;o de dados tem mostrado que a realidade difere daquela apresentada na m&iacute;dia, o que tem gerado press&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es e movimentos sociais para que o Estado italiano combata com mais propriedade a quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero.<\/p>\n<p><b>Como caracteriza a cobertura da imprensa italiana em rela&ccedil;&atilde;o aos crimes de viol&ecirc;ncia sexual?<\/b><\/p>\n<p>Recentemente, crimes de viol&ecirc;ncia sexual na It&aacute;lia s&atilde;o caracterizados por uma cobertura sensacionalista, enfatizando os agressores estrangeiros. A super exposi&ccedil;&atilde;o desses casos vem promovendo o aparecimento peri&oacute;dico dos chamados p&acirc;nicos morais na sociedade italiana, onde os estrangeiros, principalmente os romenos e ciganos, s&atilde;o considerados os principais perpetradores da viol&ecirc;ncia sexual. Na realidade, eles s&atilde;o usados como bodes expiat&oacute;rios, pois as pesquisas referentes &agrave; viol&ecirc;ncia contra a mulher mostram que a maioria dos agressores &eacute; italiana e conhecida das vitimas: seus parceiros ou ex-parceiros.<\/p>\n<p>Infelizmente, a viol&ecirc;ncia sexual est&aacute; sendo utilizada como instrumento pol&iacute;tico, inflacionando a viol&ecirc;ncia &eacute;tnica e em muitos casos fomentando rea&ccedil;&otilde;es xen&oacute;fobas. Enquanto os estrangeiros s&atilde;o &ldquo;ca&ccedil;ados&rdquo; do lado de fora, a maioria dos agressores est&aacute; livre dentro do muro familiar, perpetuando a viol&ecirc;ncia contra a mulher. Esses casos espor&aacute;dicos v&ecirc;m encobrindo o real problema na It&aacute;lia, que &eacute; a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, com um aumento a cada ano de mulheres assassinadas principalmente por seus parceiros ou ex-parceiros.<\/p>\n<p><b>De que maneira tal padr&atilde;o de cobertura midi&aacute;tica se insere no contexto pol&iacute;tico italiano?<\/b><\/p>\n<p>O ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi det&eacute;m o poder do monop&oacute;lio midi&aacute;tico no pa&iacute;s h&aacute; mais de duas d&eacute;cadas. Desde a Segunda Guerra Mundial, Berlusconi foi o primeiro-ministro que durante mais tempo ocupou o cargo. Seu primeiro governo ocorreu durante o per&iacute;odo de 1994 a 1995, o segundo governo de 2001 a 2006 e o terceiro de 2008 a 2011, quando foi levado a renunciar ao cargo por causa de processos judiciais.<\/p>\n<p>Seu imp&eacute;rio midi&aacute;tico &eacute; vasto. De acordo com Emma Bonino, vice-presidente do Senado italiano, Berlusconi controla 90% da audi&ecirc;ncia atrav&eacute;s de seus canais e da televis&atilde;o estatal. Quem aponta os diretores dos tr&ecirc;s canais estatais &eacute; o primeiro-ministro. Alem disso, na It&aacute;lia, 80% da popula&ccedil;&atilde;o forma a opini&atilde;o baseada na televis&atilde;o.<\/p>\n<p>Com um governo de Centro-Direita e alian&ccedil;as pol&iacute;ticas favor&aacute;veis a pol&iacute;ticas imigrat&oacute;rias r&iacute;gidas, a manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o com rela&ccedil;&atilde;o a recentes casos de estupro contra as mulheres na It&aacute;lia tem sido visivelmente influenciada pelo detentor do poder midi&aacute;tico. Existe, assim, uma estreita simbiose entre o poder pol&iacute;tico e o poder da informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Um outro aspecto problem&aacute;tico no discurso midi&aacute;tico &eacute; a imagem vulgar das mulheres. A maioria dos programas populares exibe apenas mulheres jovens, bonitas, minimamente vestidas, tratando-as como meros objetos. Existe uma distor&ccedil;&atilde;o do mundo real feminino, onde mulheres mais velhas e trabalhadoras s&atilde;o invis&iacute;veis, n&atilde;o possuem defici&ecirc;ncias e pertencem apenas as classes econ&ocirc;micas m&eacute;dia e alta. O estere&oacute;tipo extremamente sexualizado da mulher italiana as coloca em situa&ccedil;&atilde;o vulner&aacute;vel a viol&ecirc;ncia. As mulheres aparecem basicamente na m&iacute;dia em situa&ccedil;&otilde;es de entretenimento ou nos casos de viol&ecirc;ncia em que s&atilde;o vitimizadas.<\/p>\n<p><b>De que maneira as rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero, na sua dimens&atilde;o hist&oacute;rica, contribuem para a percep&ccedil;&atilde;o da mulher na sociedade italiana (e a sua conseq&uuml;ente vulnerabilidade)?<\/b><\/p>\n<p>A dimens&atilde;o hist&oacute;rica nas rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero est&aacute; intrinsecamente relacionada n&atilde;o s&oacute; &agrave; viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, mas a viol&ecirc;ncia em geral contra a mulher na It&aacute;lia. A combina&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios cat&oacute;licos extremamente enraizados na cultura italiana e um sistema de leis seculares mant&ecirc;m a situa&ccedil;&atilde;o feminina desprivilegiada uma sociedade patriarcal. Segundo o Cristianismo, a Virgem Maria e os santos femininos tinham poder devido &agrave; paix&atilde;o e &agrave; mod&eacute;stia. Algumas santas chegaram a morrer para manter a tradi&ccedil;&atilde;o da pureza e castidade da mulher, que nunca alcan&ccedil;aram uma situa&ccedil;&atilde;o real de poder na sociedade.<\/p>\n<p>Segundo Marco Ravina, historiador italiano, a inferioridade da mulher perante o homem era aceit&aacute;vel. Ela precisava ser educada, mesmo com o uso da for&ccedil;a quando fosse necess&aacute;rio. Por outro lado, o significado da viol&ecirc;ncia sexual desde o s&eacute;culo 14 era considerado um problema de ordem moral e n&atilde;o uma viol&ecirc;ncia contra o individuo. Existia ainda a discrimina&ccedil;&atilde;o entre a mulher de virtude e as libertinas &#8211; vistas como provocadoras dos casos de estupro quando eram vitimadas. Uma l&oacute;gica que continua no inconsciente italiano punindo a v&iacute;tima pela viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A primeira lei do estupro foi criada pelo ditador Mussolini em 1936, seguindo os princ&iacute;pios religiosos crist&atilde;os. Assim, a viol&ecirc;ncia sexual era considerada um crime contra a moral e a dec&ecirc;ncia. Desse modo, o Catolicismo e o Fascismo contribu&iacute;ram fortemente para manter a situa&ccedil;&atilde;o inferior da mulher, estabelecendo a maternidade como seu principal papel na sociedade italiana.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante do ponto de vista hist&oacute;rico &eacute; a riqueza de obras de arte do per&iacute;odo renascentista italiano. Obras que em sua maioria reproduzem situa&ccedil;&otilde;es dos mitos gregos, onde era frequente o estupro, o rapto e a subjuga&ccedil;&atilde;o da mulher por deuses e her&oacute;is. Dessa forma, a viol&ecirc;ncia atrav&eacute;s da beleza assume um car&aacute;ter romantizado, pertencente ao cotidiano da sociedade. Seria importante consider&aacute;-lo em futuras investiga&ccedil;&otilde;es para saber como afeta a percep&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia pelas mulheres, visto que existe um grande n&uacute;mero de v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia sexual que, em suas rela&ccedil;&otilde;es com parceiros, n&atilde;o a reconhece como um crime.<\/p>\n<p><b>Voc&ecirc; destaca a manipula&ccedil;&atilde;o do fen&ocirc;meno da imigra&ccedil;&atilde;o pela m&iacute;dia. De que forma a configura&ccedil;&atilde;o dos fluxos imigrat&oacute;rios nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas alimenta o discurso dos jornais pesquisados?<\/b><\/p>\n<p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a It&aacute;lia deixou de ser um pa&iacute;s de emigrantes e tornou-se alvo de um grande influxo migrat&oacute;rio. Nos anos 70 e 80, os imigrantes eram basicamente de pa&iacute;ses africanos, do sul da &Aacute;sia e da Am&eacute;rica Latina. No in&iacute;cio dos anos 90, a popula&ccedil;&atilde;o albanesa tornou-se a maioria dos imigrantes. E ao longo dos anos 90, os romenos tornaram-se mais numerosos. A popula&ccedil;&atilde;o de ciganos, conhecida como ROMA, tamb&eacute;m aumentou ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, n&atilde;o s&oacute; os de origem italiana,mas tamb&eacute;m provenientes de pa&iacute;ses do Leste Europeu, principalmente da Rom&ecirc;nia. Como s&atilde;o maioria, tanto os romenos como os ciganos, no momento &eacute; o grupo mais visado e sofre frequentes discrimina&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>A popula&ccedil;&atilde;o cigana vive em acampamentos ao redor das grandes cidades em situa&ccedil;&atilde;o extrema de pobreza. O &uacute;ltimo relat&oacute;rio da Comiss&atilde;o Europ&eacute;ia contra o racismo e intoler&acirc;ncia denuncia as not&iacute;cias sensacionalistas tanto na m&iacute;dia impressa como na televisiva, onde essa popula&ccedil;&atilde;o &eacute; constantemente associada a atividades criminosas amea&ccedil;ando a seguran&ccedil;a p&uacute;blica. O relat&oacute;rio enfatiza a rela&ccedil;&atilde;o dessas not&iacute;cias e ataques xen&oacute;fobos. Al&eacute;m da m&iacute;dia manipuladora, o relat&oacute;rio condena o discurso racista n&atilde;o s&oacute; de pol&iacute;ticos locais, mas tamb&eacute;m do alto escal&atilde;o do governo.<\/p>\n<p><b>Dados mostram que a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica apresenta elevados &iacute;ndices, sendo os italianos os principais agressores. As agress&otilde;es privadas s&atilde;o um tabu para os italianos? &Eacute; poss&iacute;vel falar em uma tentativa de desnacionaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero?<\/b><\/p>\n<p>Em 2006, o Minist&eacute;rio de Igualdade e Oportunidade em conv&ecirc;nio com o Instituto Italiano de Pesquisa realizou a primeira pesquisa de viol&ecirc;ncia f&iacute;sica, psicol&oacute;gica e sexual contra a mulher na It&aacute;lia. A amostra continha 25.000 mulheres, idade entre 16 e 70 anos, entrevistadas de janeiro a outubro de 2006. Os resultados evidenciaram v&aacute;rios pontos problem&aacute;ticos da situa&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica no pa&iacute;s, dando subs&iacute;dios para posteriores pol&iacute;ticas sociais na &aacute;rea.<\/p>\n<p>Como aspectos relevantes, a pesquisa provou que, na maioria dos casos de estupro, os agressores (69%) s&atilde;o conhecidos das v&iacute;timas (parceiros, maridos, noivos e ex-parceiros). Apenas em 6% dos casos s&atilde;o desconhecidos das v&iacute;timas. A investiga&ccedil;&atilde;o mostrou que as not&iacute;cias e repercuss&otilde;es na m&iacute;dia, centradas no &ldquo;monstro estrangeiro&rdquo;, fazem parte de uma interpreta&ccedil;&atilde;o enviesada da viol&ecirc;ncia sexual no pa&iacute;s. A viol&ecirc;ncia f&iacute;sica &eacute; a mais frequente, seguida de abusos psicol&oacute;gicos e persegui&ccedil;&otilde;es (stalking), principalmente apos as separa&ccedil;&otilde;es, com grande incid&ecirc;ncia de casos fatais.<\/p>\n<p>A investiga&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m demonstrou a invisibilidade da viol&ecirc;ncia domestica. Em 93% dos abusos, ela n&atilde;o &eacute; denunciada. Em muitos casos, as v&iacute;timas n&atilde;o est&atilde;o satisfeitas com a atitude da policia, n&atilde;o se sentem protegidas, pois apenas em 8% dos casos os agressores s&atilde;o punidos. O mais s&eacute;rio problema evidenciado pela pesquisa &eacute; a falta de reconhecimento da viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica como crime. A maioria das v&iacute;timas a considera como algo errado, mas n&atilde;o um crime. Para mais de 25%, &eacute; algo que aconteceu por acaso. Apenas em 18.2% dos casos s&eacute;rios de viol&ecirc;ncia f&iacute;sica e sexual as vitimas reconhecem o abuso como crime. O estupro dentro do casamento, apesar de ter sido introduzido pela Suprema Corte em 1974, explica que o objeto do crime n&atilde;o &eacute; de ordem sexual, mas a viol&ecirc;ncia empregada para for&ccedil;ar o sexo consensual. Infelizmente, para muitos italianos, a lei est&aacute; apenas no papel, o casamento ainda &eacute; considerado por muitos um contrato onde o marido fornece o dinheiro e a mulher, os trabalhos dom&eacute;sticos e o sexo.<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o dos dados da pesquisa, a partir de 2007, a It&aacute;lia come&ccedil;ou a receber maiores press&otilde;es de institui&ccedil;&otilde;es internacionais como a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia (UE), o Conselho Europeu e recomenda&ccedil;&otilde;es da CEDAW com rela&ccedil;&atilde;o ao problema da viol&ecirc;ncia contra a mulher e principalmente a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica. Portanto, os p&acirc;nicos morais sensacionalizados pela m&iacute;dia contra os estrangeiros criam discursos e atos xen&oacute;fobos, mas come&ccedil;am a ser descaracterizados atrav&eacute;s de estat&iacute;sticas reais do problema. Ao mesmo tempo, os grupos feministas italianos come&ccedil;am a atacar as estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas utilizadas pela m&iacute;dia contra os imigrantes. Dessa forma, a desnacionaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero n&atilde;o ocorre de fato.<\/p>\n<p><b>Que marcas textuais caracterizam a cobertura midi&aacute;tica?<\/b><\/p>\n<p>A viol&ecirc;ncia sexual, nos casos onde os estrangeiros eram os supostos culpados, era noticiada em locais de destaque e em notici&aacute;rios de hor&aacute;rio nobre. A exposi&ccedil;&atilde;o dos culpados atrav&eacute;s de fotos, identifica&ccedil;&atilde;o, origem &eacute;tnica era super exposta. Os crimes eram descritos como atos de extrema barb&aacute;rie. O discurso adotado caracterizava uma situa&ccedil;&atilde;o de &ldquo;animaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; do criminoso, que deveria ser ca&ccedil;ado a todo custo em prol da seguran&ccedil;a publica. V&aacute;rios atos xen&oacute;fobos ocorreram logo apos a divulga&ccedil;&atilde;o desses crimes pela m&iacute;dia. Inc&ecirc;ndios em acampamentos de ciganos e v&aacute;rios atentados a locais comerciais das comunidades romenas. O Partido de extrema direita, Forca Nova, realizou v&aacute;rias manifesta&ccedil;&otilde;es insuflando a popula&ccedil;&atilde;o a ca&ccedil;ar os estupradores, com slogans como&rdquo; sem pena dos monstros&rdquo;. Exigiam uma lei que expulsasse os imigrantes da It&aacute;lia. Os pol&iacute;ticos de direita chegaram a propor uma lei de castra&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica ou cir&uacute;rgica contra os imigrantes ilegais acusados de m&uacute;ltiplos estupros, mas foi rejeitada pela oposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nos casos onde os poss&iacute;veis culpados eram italianos, a m&iacute;dia utilizou um discurso totalmente diferenciado. As fotos dos acusados eram sombreadas ou apareciam de costas para manter a identidade preservada. O nome n&atilde;o era divulgado, apenas as iniciais, e eram tratados com o devido sigilo at&eacute; o esclarecimento do caso. Na m&iacute;dia televisiva, quando apareciam no horario nobre, quase sempre eram noticiados no final da cobertura jornal&iacute;stica. Em geral, esses abusos eram divulgados no notici&aacute;rio do final da noite. Em alguns desses casos, a popula&ccedil;&atilde;o se revoltou contra os agressores, mas ficou longe das tentativas de linchamento quase sofridas por romenos acusados pelos mesmos crimes sexuais.<\/p>\n<p><b>Voc&ecirc; fala que o Estado italiano tem sido demandado por movimentos e organiza&ccedil;&otilde;es a encarar o problema da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero. A perspectiva do g&ecirc;nero est&aacute; incorporada na legisla&ccedil;&atilde;o e na estrutura jur&iacute;dica do Estado italiano?<\/b><\/p>\n<p>Apesar de press&otilde;es, a It&aacute;lia ainda apresenta uma pol&iacute;tica inadequada de atacar a quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia contra a mulher.<\/p>\n<p>As mudan&ccedil;as continuam lentas tanto na legisla&ccedil;&atilde;o contra a viol&ecirc;ncia sexual como na viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica. Uma avalia&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rico-contempor&acirc;nea relativa &agrave; lei do estupro evidencia que, ap&oacute;s a sua cria&ccedil;&atilde;o em 1936, durante o governo fascista de Mussolini, dentro dos modelos tradicionais crist&atilde;os da fam&iacute;lia, o estupro era considerado um crime contra a moral e a dec&ecirc;ncia. Somente 60 anos depois, atrav&eacute;s da mobiliza&ccedil;&atilde;o do movimento feminista, tal lei passou a considerar o estupro como um crime contra o indiv&iacute;duo. Desse modo, em 1996, a lei do estupro sofre sua primeira e principal reforma, ainda que no papel, pois em grande n&uacute;mero dos casos a mulher ainda &eacute; punida pela viol&ecirc;ncia sofrida por seu comportamento independente e sedutor.<\/p>\n<p>Um not&oacute;rio caso de estupro, que provocou a rea&ccedil;&atilde;o das feministas e de grupos pol&iacute;ticos, foi a considera&ccedil;&atilde;o da impossibilidade do ato devido ao fato de a v&iacute;tima estar vestindo &ldquo;jeans&rdquo;. Infelizmente, o judici&aacute;rio em muitos casos ainda possui uma vis&atilde;o patriarcal da sociedade, culpando a mulher pela viol&ecirc;ncia sexual sofrida, devido ao seu comportamento.<\/p>\n<p>As mudan&ccedil;as na lei do estupro foram posteriormente associadas &agrave; problem&aacute;tica dos supostos aumentos de crimes sexuais, cujos principais agressores seriam os estrangeiros. A cria&ccedil;&atilde;o de p&acirc;nicos morais pela m&iacute;dia levou o governo de centro-esquerda do ent&atilde;o primeiro-ministro Romano Prodi a aprovar um decreto de emerg&ecirc;ncia em 2007. O decreto penalizava os agressores imigrantes a serem expulsos do pa&iacute;s, mesmo que fossem oriundos de pa&iacute;ses membros da UE. O que colocou a It&aacute;lia e a Rom&ecirc;nia numa situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica tensa. Uma an&aacute;lise mais detalhada feita pelo soci&oacute;logo Marzio Barbagli, um estudioso na &aacute;rea da criminalidade e imigra&ccedil;&atilde;o, evidenciou que o p&acirc;nico social criado n&atilde;o foi devido ao aumento do influxo da popula&ccedil;&atilde;o romena na It&aacute;lia. Na realidade, o aumento dos romenos j&aacute; acontecia desde 2002, antes mesmo da Rom&ecirc;nia se tornar um membro da UE, pois nesse ano a UE criou uma recomenda&ccedil;&atilde;o onde os cidad&atilde;os dos futuros pa&iacute;ses membros poderiam circular facilmente entre os membros da Uni&atilde;o. Os romenos j&aacute; eram numerosos no pa&iacute;s muito antes de 2007, quando os casos de estupro come&ccedil;aram a ganhar destaque na m&iacute;dia italiana e a Rom&ecirc;nia se tornou membro da UE.<\/p>\n<p>Em 2009, com o ressurgimento de novos p&acirc;nicos contra os estrangeiros, o governo de centro-direita de Silvio Berlusconi, mesmo com dados relativos &agrave; diminui&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia sexual no pa&iacute;s, aprova um novo &ldquo;pacote de seguran&ccedil;a&rdquo; . Um dia anterior &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o do pacote, o Minist&eacute;rio de Igualdade e Oportunidade forneceu ao governo resultados de pesquisas sobre a viol&ecirc;ncia sexual na It&aacute;lia. Os dados apontavam que a viol&ecirc;ncia sexual havia diminu&iacute;do em 8.4% durante 2008, onde 60.9% dos autores eram italianos, 7.8%, romenos e 6.3%, marroquinos.<\/p>\n<p>O decreto introduziu medidas e penalidades severas nos casos de estupro, abolindo a pris&atilde;o domiciliar. Aumentou o tempo de deten&ccedil;&atilde;o para imigrantes ilegais. Criou a chamada &ldquo;Ronda Popular&rdquo;, que seriam patrulhas de civis para auxiliar a pol&iacute;cia contra a crescente viol&ecirc;ncia sexual no pa&iacute;s. As rondas foram criticadas pela oposi&ccedil;&atilde;o, porque poderiam gerar o aumento de rea&ccedil;&otilde;es xen&oacute;fobas. A medida foi posteriormente retirada do pacote . O pacote tamb&eacute;m incluiu um artigo com puni&ccedil;&otilde;es relativas ao crime de persegui&ccedil;&atilde;o (Stalking). &Eacute; importante ressalvar que a maioria dos criminosos nessa categoria eram italianos e basicamente ex-parceiros das v&iacute;timas. Em geral, n&atilde;o aceitavam o final do relacionamento. Infelizmente, a maioria dos casos de assassinatos de mulheres est&aacute; associada inicialmente ao Stalking.<\/p>\n<p>Com referencia &agrave; viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, a It&aacute;lia ainda n&atilde;o possui uma lei nacional. A estrutura legal &eacute; fragmentada, apresenta um inadequado sistema de penas e em muitos casos por entraves judici&aacute;rios colocam a v&iacute;tima em situa&ccedil;&otilde;es de perigo em rela&ccedil;&atilde;o ao agressor.<\/p>\n<p>O movimento feminista e os Centros da Mulher t&ecirc;m, ao longo da &uacute;ltima d&eacute;cada, constantemente denunciado o aumento do feminic&iacute;dio no pa&iacute;s. O assassinato de mulheres ocorre principalmente como conseq&uuml;&ecirc;ncia da viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica. Dados fornecidos pelos Centro da Mulher revelam que a cada ano o n&uacute;mero de casos aumenta, sendo ironicamente maior do que os crimes onde a m&aacute;fia est&aacute; envolvida. Em 2011, 128 mulheres foram assassinadas por parceiros, maridos e ex-parceiros. O n&uacute;mero parece representar apenas a ponta do iceberg, pois n&atilde;o existem estat&iacute;sticas oficiais de tais crimes.<\/p>\n<p>Novamente, uma pequena parte da m&iacute;dia tem informado o fen&ocirc;meno de forma coerente. Infelizmente, o discurso predominantemente adotado acoberta a verdadeira situa&ccedil;&atilde;o e em muitos casos absolve ou justifica o assassino. Em geral, as not&iacute;cias de casos fatais n&atilde;o utilizam um discurso hist&oacute;rico em rela&ccedil;&atilde;o ao crime. Revelam-se a morte, o assassino e a situa&ccedil;&atilde;o da vitima, mas n&atilde;o se caracteriza a situa&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica que existia entre o casal anteriormente. Apenas os casos s&eacute;rios e fatais s&atilde;o reportados. Dessa forma , a viol&ecirc;ncia continua a n&atilde;o ser reconhecida pela maioria das mulheres que se encontram numa situa&ccedil;&atilde;o de abuso. Alem disso, a m&iacute;dia apresenta o assassino como se tivesse cometido um crime passional, devido a um ato de loucura, de priva&ccedil;&atilde;o dos sentidos, de ci&uacute;me, e em muitos casos com a justificativa de &ldquo;matar por amar demais&rdquo;. Esse tipo de discurso utilizado ao longo dos anos tem contribu&iacute;do para a banaliza&ccedil;&atilde;o do feminic&iacute;dio no pa&iacute;s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Investigaci\u00f3n de la antrop\u00f3loga Hilda Maria Gaspar Pereira se\u00f1ala que la articulaci\u00f3n entre medios y pol\u00edticas migratorias en Italia ha manipulado el panorama de la violencia de g\u00e9nero como pretexto para medidas xen\u00f3fobas. 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