{"id":1533,"date":"2015-07-17T00:00:00","date_gmt":"2015-07-17T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2015\/07\/17\/nuevas-guerras-sexuales\/"},"modified":"2015-07-17T00:00:00","modified_gmt":"2015-07-17T03:00:00","slug":"nuevas-guerras-sexuales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/entrevistas\/nuevas-guerras-sexuales\/1533\/","title":{"rendered":"Nuevas Guerras Sexuales"},"content":{"rendered":"<p>Em <i>&ldquo;Thinking sex: notes for a radical theory of the politics&nbsp;<\/i><i>of sexuality&rdquo;<\/i>,  de 1984, a antrop&oacute;loga norte-america Gayle Rubin apontou como os  conflitos envolvendo valores e condutas sexuais no final do s&eacute;culo XX  guardavam semelhan&ccedil;as com as guerras religiosas de s&eacute;culos anteriores.  No s&eacute;culo atual, o cen&aacute;rio n&atilde;o parece se distanciar daquele sugerido por  Rubin, especialmente quando o fortalecimento social e pol&iacute;tico de  setores crist&atilde;os dogm&aacute;ticos &eacute; cada vez mais not&aacute;vel no horizonte  brasileiro, atrav&eacute;s de uma oposi&ccedil;&atilde;o persistente contra iniciativas de  promo&ccedil;&atilde;o da diversidade sexual.<\/p>\n<p>No livro &ldquo;As novas guerras sexuais: diferen&ccedil;a, poder religiosos e  identidade LGBT no Brasil&rdquo; (Garamond, 2013), os antrop&oacute;logos Marcelo  Natividade (USP) e Leandro de Oliveira (URCA) descrevem os mecanismos,  interesses e discursos de que se valem setores conservadores religiosos  para dificultar o avan&ccedil;o de direitos liberdades no campo do g&ecirc;nero e da  sexualidade. Eles destacam como no&ccedil;&otilde;es de perigo e contamina&ccedil;&atilde;o  associadas a indiv&iacute;duos e pr&aacute;ticas que n&atilde;o se enquadram nas normas  hegem&ocirc;nicas s&atilde;o exploradas por autores conservadores de forma a  alimentar p&acirc;nicos morais. Assim, &eacute; comum ouvir ataques &agrave;s pessoas LGBT,  acusando-as de &ldquo;anormais&rdquo;, associando-as &agrave; pedofilia e ao abuso de  menores, &agrave; dissemina&ccedil;&atilde;o do HIV\/Aids e &agrave; desestrutura&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia&ndash;  resgatando fantasmas vitorianosantigos, do s&eacute;culo XIX,como a  &ldquo;imoralidade&rdquo; e a &ldquo;degeneresc&ecirc;ncia&rdquo;.<\/p>\n<p>Nesse cen&aacute;rio, tais setores t&ecirc;m crescentemente ocupado espa&ccedil;os de  poder, impedindo a viabiliza&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e legisla&ccedil;&otilde;es para  a garantia e promo&ccedil;&atilde;o de direitos da popula&ccedil;&atilde;o LGBT. Conforme destacam  Marcelo Natividade e Leandro de Oliveira, eles inclusive fazem uso de  linguagem cient&iacute;fica em uma esp&eacute;cie de &ldquo;sexologia religiosa&rdquo;,sendo as  iniciativas da chamada &ldquo;cura gay&rdquo;  exemplos desse entrela&ccedil;amento entre  religi&atilde;o, pol&iacute;tica e ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Segundo os autores do livro, tal ofensiva est&aacute; ligada a um processo  de &ldquo;crescente visibilidade LGBT e &agrave;s modestas conquistas pol&iacute;ticas  obtidas por esta popula&ccedil;&atilde;o junto ao Estado nos &uacute;ltimos anos, nas  inst&acirc;ncias do Executivo e, especialmente, do Judici&aacute;rio&rdquo;.<\/p>\n<p>O horizonte de guerras sexuais que intitula a obra, no entanto, &eacute; o  mesmo em que experi&ecirc;ncias acolhedoras se desenvolvem. Na entrevista a  seguir, os pesquisadores chamam tamb&eacute;m a aten&ccedil;&atilde;o para um interessante  fen&ocirc;meno de reinven&ccedil;&atilde;o das tradi&ccedil;&otilde;es religiosas que, se n&atilde;o apaga os  ataques e radicaliza&ccedil;&otilde;es, ao menos amplia as possibilidades de  acolhimento de indiv&iacute;duos LGBT em meio a homofobia predominante: as  igrejas inclusivas.<\/p>\n<p>&ldquo;Elas constituem reivindica&ccedil;&otilde;es por liberdade religiosa, de gays e  l&eacute;sbicas &ndash; pessoas que efetivamente ocupam os bancos das igrejas.  Durante muitos anos, esses fi&eacute;is ocultaram suas experi&ecirc;ncias e  identidades, temendo as san&ccedil;&otilde;es institucionais que incidem sobre quem  desafia as normas da congrega&ccedil;&atilde;o. Mas essas pessoas agora ganharam  visibilidade na esfera p&uacute;blica &ndash; elas reivindicam n&atilde;o apenas o direito  de serem gays, l&eacute;sbicas, travestis e transexuais, mas <i>tamb&eacute;m<\/i>de serem <i>crist&atilde;os<\/i>&rdquo;, afirma Marcelo Natividade.<\/p>\n<p><b><i>Novos conservadorismos<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>A ofensiva de setores religiosos contra a diversidade sexual n&atilde;o &eacute;  in&eacute;dita. Nos EUA, o movimento da Moral Majority nos anos 1970-1980 &eacute; um  exemplo de organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica crist&atilde; que se posicionava contra, entre  outras quest&otilde;es, o reconhecimento do desejo e das uni&otilde;es gays. No  Brasil, durante a Constituinte de 1988, setores conservadores  pressionaram para que a express&atilde;o &ldquo;orienta&ccedil;&atilde;o sexual&rdquo; n&atilde;o fosse inclu&iacute;da  no texto que tratava sobre discrimina&ccedil;&otilde;es. O que as novas guerras  sexuais t&ecirc;m de semelhan&ccedil;a e diferen&ccedil;a a movimentos similares do passado?<\/b><\/p>\n<p><b><img decoding=\"async\" width=\"200\" height=\"150\" align=\"right\" alt=\"\" src=\"\/uploads\/imagem\/marcelo_nativadade.jpg\" \/>Marcelo Natividade:&nbsp;<\/b>O  desejo de manuten&ccedil;&atilde;o de certos privil&eacute;gios sociais por alguns atores  nessa cena &eacute; uma das semelhan&ccedil;as. N&atilde;o &eacute; novidade que grupos religiosos  atuam no Brasil e em outros contextos de modo a obstruir a plena  cidadania de gays, l&eacute;sbicas, bissexuais, travestis e transexuais atrav&eacute;s  da rejei&ccedil;&atilde;o e milit&acirc;ncia contra o casamento igualit&aacute;rio, a ado&ccedil;&atilde;o de  crian&ccedil;as por casais homossexuais, a express&atilde;o p&uacute;blica do afeto. J&aacute; na  Constituinte de 1988, segmentos religiosos atuaram no sentido de  assegurar que o termo orienta&ccedil;&atilde;o sexual n&atilde;o fosse inclu&iacute;do no texto da  Constitui&ccedil;&atilde;o e assim a homofobia n&atilde;o fosse criminalizada como o racismo,  a xenofobia e o preconceito de g&ecirc;nero. Apesar da diversidade de  correntes no cristianismo, &eacute; digno de nota que &ndash; quando o assunto &eacute;  homossexualidade &ndash; sejam muito mais evidentes os posicionamentos de  rep&uacute;dio da diferen&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse contexto, os privil&eacute;gios que det&eacute;m as hegemonias sexuais s&atilde;o  justificados por meio do cultivo e difus&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es da  homossexualidade que real&ccedil;am estigmas e refor&ccedil;am percep&ccedil;&otilde;es negativas.  Os discursos de certas lideran&ccedil;as religiosas constroem homossexuais como  pessoas perigosas e &lsquo;em perigo&rsquo;, que demandam controle, corre&ccedil;&atilde;o e at&eacute;  mesmo &ldquo;cura&rdquo;. Mas me chama muita aten&ccedil;&atilde;o a por&ccedil;&atilde;o da n&atilde;o religi&atilde;o, nos  argumentos sustentados por religiosos. Dito de outro modo, as raz&otilde;es  para a n&atilde;o aprova&ccedil;&atilde;o de legisla&ccedil;&otilde;es que protejam pessoas LGBT nada t&ecirc;m  de religiosas, mas s&atilde;o express&otilde;es de p&acirc;nicos morais, de exageros, de  exalta&ccedil;&otilde;es da norma e de refor&ccedil;o de estere&oacute;tipos que pretendem refor&ccedil;ar  desigualdades sociais entre heterossexuais e homossexuais. Certas  lideran&ccedil;as religiosas proclamam que as sexualidades n&atilde;o heterossexuais  vivem a espalhar AIDS, a reproduzir abusos e viol&ecirc;ncia sexual.  Argumentam que avan&ccedil;os da cidadania LGBT insuflariam a viol&ecirc;ncia contra  heterossexuais, o que chamam de &ldquo;heterofobia&rdquo;. &Eacute; por meio de uma  virulenta milit&acirc;ncia para o refor&ccedil;o desses estere&oacute;tipos que grupos  conservadores justificam a recusa de direitos e impactam a constru&ccedil;&atilde;o da  igualdade e da democracia, no caso das pessoas LGBT.<\/p>\n<p>Gayle Rubin trata dessas desigualdades ao formular a no&ccedil;&atilde;o de  injusti&ccedil;a er&oacute;tica. Essas guerras t&ecirc;m como pano de fundo reflex&otilde;es  profundas sobre tais desigualdades e press&otilde;es pol&iacute;ticas para a amplia&ccedil;&atilde;o  de idiomas e instrumentos de justi&ccedil;a social. Elas dramatizam disputas  pela significa&ccedil;&atilde;o da homossexualidade e por questionamento de opress&otilde;es  que eram antes naturalizadas. Pr&aacute;ticas culturais at&eacute; ent&atilde;o aceitas,  come&ccedil;am a ser constru&iacute;das como inaceit&aacute;veis, problematizadas,  questionadas, denunciadas e tornadas mat&eacute;ria de ampla discuss&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>&Eacute; nesse cen&aacute;rio cultural de constru&ccedil;&atilde;o da homofobia como uma  categoria significativa, um problema social, que as desigualdades e  preconceito por orienta&ccedil;&atilde;o sexual recebem aten&ccedil;&atilde;o do Estado e ensejam o  engajamento de segmentos da sociedade civil em luta por formas de  regula&ccedil;&atilde;o e prote&ccedil;&atilde;o. Mas &eacute; interessante observar que novos fatos e  eventos, levam a redefini&ccedil;&otilde;es de posi&ccedil;&otilde;es e novos alinhamentos.  Evidentemente, os discursos do Papa Francisco t&ecirc;m reverberado de modo  relativamente positivo e t&ecirc;m sido tomado por alguns segmentos da  milit&acirc;ncia como poss&iacute;veis sinais de abertura para a diversidade, apesar  das estruturas de longa dura&ccedil;&atilde;o que sustentam a reprova&ccedil;&atilde;o da  homossexualidade. A Igreja Presbiteriana norte-americana aprovou o  casamento gay e h&aacute; outros movimentos em curso. H&aacute; d&eacute;cadas outras igrejas  de perfil hist&oacute;rico discutem a ordena&ccedil;&atilde;o de pastores homossexuais. Tudo  isso sinaliza como posi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o inst&aacute;veis e fruto de contextos e  situa&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas espec&iacute;ficas.<\/p>\n<p><b><img decoding=\"async\" width=\"200\" height=\"158\" align=\"right\" alt=\"\" src=\"\/uploads\/imagem\/leando_oliveira.JPG\" \/>Leandro de Olveira<\/b>:  Parece-me interessante lembrar que a no&ccedil;&atilde;o de &quot;Guerras Sexuais&quot; &eacute; uma  met&aacute;fora, que pegamos emprestada dofamoso artigo de Gayle Rubin,  &quot;Pensando o Sexo&quot;, que Marcelo citou. No mundo contempor&acirc;neo, as  identidades sexuais se pluralizam do mesmo modo que as identidades  &eacute;tnicas. Esta pluraliza&ccedil;&atilde;o, em si, n&atilde;o tem nada de ruim &ndash; supondo que  voc&ecirc; acredite que a pluralidade &eacute; algo bom, ou que voc&ecirc; seja insens&iacute;vel a  ela, ou pelo menos que o diferente aceite ocupar uma posi&ccedil;&atilde;o de  inferioridade e se mantenha &lsquo;no seu devido lugar&rsquo;. O conflito ocorre  quando porta-vozes de certos setores sociais se sentem amea&ccedil;ados pela  mera exist&ecirc;ncia do diferente, por sua proximidade e visibilidade. Esse  sentimento de alarme parece ser maior quando existe um temor de que o  outro possa seduzir, recrutar, converter, contagiar &ndash; leia-se,  transformar pelo contato as ditas &lsquo;pessoas normais&rsquo; em algo distinto  daquilo que elas supostamente deveriam ser.<\/p>\n<p>Nas guerras sexuais do s&eacute;culo XIX, os fantasmas eram a &ldquo;imoralidade&rdquo; e  a &ldquo;degeneresc&ecirc;ncia&rdquo;, que amea&ccedil;avam contaminar f&iacute;sica e moralmente a  burguesia e a popula&ccedil;&atilde;o em geral. Entre os anos 1970-1980, assistimos a  um recrudescimento de conservadorismos que respondiam &agrave; pluraliza&ccedil;&atilde;o de  estilos de vida representadas pela contracultura e os movimentos  feminista e homossexual. Hoje (no Brasil, em todo caso), &eacute; prov&aacute;vel que  estejamos ainda lidando com rea&ccedil;&otilde;es &agrave; crescente visibilidade LGBT e &agrave;s  modestas conquistas pol&iacute;ticas obtidas por esta popula&ccedil;&atilde;o junto ao Estado  nos &uacute;ltimos anos, nas inst&acirc;ncias do Executivo e, especialmente, do  Judici&aacute;rio.<\/p>\n<p><b>Tornou-se rotina assistir a a&ccedil;&otilde;es de parlamentares da bancada  religiosa atuando para impedir a promo&ccedil;&atilde;o de direitos da popula&ccedil;&atilde;o LGBT  no Brasil. Por que a predile&ccedil;&atilde;o por essa popula&ccedil;&atilde;o? Por que, no final  das contas, desejos e condutas sexuais, bem como o marcador social de  g&ecirc;nero, s&atilde;o mobilizados com tamanha intensidade?<\/b><\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira: <\/b>Essa &eacute; uma pergunta bem interessante. Em  parte, alguns acidentes hist&oacute;ricos podem ter ajudado a configurar essa  predile&ccedil;&atilde;o. Retomando um pouco o tema da pergunta anterior, conv&eacute;m  sublinhar que a Assembleia Nacional Constituinte ocorreu em um per&iacute;odo  no qual os discursos sobre a epidemia de HIV ainda associavam  homossexualidade e AIDS (representando os homossexuais como &quot;culpados&quot;  pela difus&atilde;o de uma doen&ccedil;a tida como letal e incur&aacute;vel, capazes  inclusive de transmiti-la por via n&atilde;o-sexual para &quot;v&iacute;timas inocentes&quot;,  como as crian&ccedil;as hemof&iacute;licas). N&atilde;o me parece que essa conjuntura, por si  s&oacute;, tenha sido um fator que explica porque, a despeito das press&otilde;es  exercidas pelo movimento homossexual na &eacute;poca, a prote&ccedil;&atilde;o &agrave;  discrimina&ccedil;&atilde;o por orienta&ccedil;&atilde;o sexual deixou de ser inclu&iacute;da no texto  constitucional. Mas n&atilde;o deixa de ser curioso que o mesmo texto tenha  contemplado formas de reconhecimento a mulheres, popula&ccedil;&otilde;es negras e  ind&iacute;genas (extremamente significativas, enquanto conquistas simb&oacute;licas e  pol&iacute;ticas, para os respectivos movimentos sociais). Em um cen&aacute;rio em  que medos coletivos eram insuflados e manipulados por setores  conservadores para tentar obstruir processos de mudan&ccedil;a, &eacute; poss&iacute;vel que  os homossexuais tenham servido como um bode expiat&oacute;rio dispon&iacute;vel e  particularmente conveniente, um s&iacute;mbolo para diferen&ccedil;as &quot;indesej&aacute;veis&quot;  em nossa nova ordem pol&iacute;tica democr&aacute;tica e pluralista.<\/p>\n<p>Dez anos depois, com as paradas do orgulho, temos uma intensifica&ccedil;&atilde;o  da visibilidade daquelas pessoas hoje referidas pela sigla &ldquo;LGBT&rdquo;.  Pessoas que desafiam as conven&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero &ndash; travestis, transexuais e  que transitem entre masculino e feminino &ndash; podem ser particularmente  perturbadoras, sob perspectivas que se v&ecirc;em como &lsquo;conservadoras&rsquo;, devido  &agrave; visibilidade da diferen&ccedil;a que est&aacute; inscrita em seus corpos, roupas e  gestos. Claro, conv&eacute;m lembrar que este dito conservadorismo, pra n&oacute;s,  n&atilde;o implica preserva&ccedil;&atilde;o ou resgate do passado, mas uma resist&ecirc;ncia ativa  a mudan&ccedil;as, que recorre com frequ&ecirc;ncia a imagens de um passado  imagin&aacute;rio (por exemplo, ideais sobre a &lsquo;fam&iacute;lia tradicional&rsquo;). A  diversidade (nas formas de express&atilde;o de g&ecirc;nero e nos gostos sexuais,  assim como nas identidades constitu&iacute;das a partir destes jeitos e gostos)  acaba sendo retratada como a grande amea&ccedil;a a esse passado id&iacute;lico.  Penso que, em parte, o inc&ocirc;modo com as pessoas LGBT tenha rela&ccedil;&atilde;o com  uma representa&ccedil;&atilde;o sobre sua proximidade e relativa &lsquo;onipresen&ccedil;a&rsquo; no  mundo contempor&acirc;neo, que a visibilidade massiva das &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas  teve o poder de real&ccedil;ar.<\/p>\n<p>Quem imagina as pessoas LGBT como seres &lsquo;distantes&rsquo; de modo geral n&atilde;o  se preocupa muito com eles &ndash; a n&atilde;o ser, talvez, que se descubra  subitamente vinculado a algum. Est&aacute; se falando, evidentemente, de certas  fantasias culturais (formas de construir e imaginar o outro, que  confirmam a imagem que tenho de mim mesmo). N&atilde;o se trata aqui de um  &lsquo;outro&rsquo; considerado distante ou isolado em territ&oacute;rios espaciais  espec&iacute;ficos. Ele aparece em telenovelas e notici&aacute;rios, pode ser meu  vizinho, pode ser o filho de um vizinho, o colega de escola ou professor  ou amigo de um de meus filhos, etc. Ele n&atilde;o est&aacute; apenas nas ruas e na  m&iacute;dia &ndash; est&aacute; nas igrejas, nos estabelecimentos de ensino, nos  estabelecimentos comerciais. Talvez, mesmo, esteja infiltrado no Estado  (este outro representante do Mal no mundo) e nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de  massa, conspirando para minar e destruir a moral e os bons costumes.  Este sentido de onipresen&ccedil;a, se combinado com a cren&ccedil;a cultural de que  estes gostos sexuais podem ser particularmente sedutores e infectantes  (qui&ccedil;&aacute; capazes de contagiar minha casa, meus filhos ou minha  congrega&ccedil;&atilde;o), fornece ingredientes particularmente explosivos para o  embate.<\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b> Penso que o inc&ocirc;modo &eacute; com todas as  express&otilde;es das identidades e sexualidades que se encontram &agrave;s margens da  fam&iacute;lia reprodutora e dos modelos de g&ecirc;nero hegem&ocirc;nicos. As putas e os  homossexuais s&atilde;o os principais alvos de uma campanha moralista que tem  sido reinventada e alimentada por tais segmentos, que se percebem  amea&ccedil;ados nas suas fantasias de identidade de que seus valores e vis&otilde;es  de mundo s&atilde;o universais. Contudo, no rol dos pecados sexuais, &eacute; evidente  que as pessoas LGBT s&atilde;o preferencialmente objeto de discursos e formas  de controle, afinal, n&atilde;o se criam grupos de ex-masturbadores nem  programas governamentais dedicados a resgatar pessoas do v&iacute;cio da  masturba&ccedil;&atilde;o ou das experi&ecirc;ncias extraconjugais, embora essas condutas  tamb&eacute;m sejam objeto das pastorais sexuais. Tamb&eacute;m n&atilde;o se conjectura que  prostitutas ou &ldquo;viciados sexuais&rdquo; tenham um plano maligno de  contamina&ccedil;&atilde;o da humanidade. Mas isso acontece com os homossexuais, a  partir da percep&ccedil;&atilde;o de que eles pretendem homossexualizar a sociedade e  obrigar pessoas heterossexuais a serem homossexuais. Esse &eacute; um excelente  exemplo do p&acirc;nico moral que j&aacute; mencionamos, que opera pelo exagero e  deturpa&ccedil;&atilde;o das leg&iacute;timas reivindica&ccedil;&otilde;es por direitos civis.<\/p>\n<p>Talvez essas virulentas rea&ccedil;&otilde;es morais de desqualifica&ccedil;&atilde;o configurem  um certo tipo negativo de resposta das igrejas &agrave; epidemia de HIV\/ AIDS,  uma vez que elas reciclam todo o imagin&aacute;rio da epidemia dos anos 1980,  especialmente, insuflando discursos de medo que ensejam a prote&ccedil;&atilde;o das  fam&iacute;lias, das crian&ccedil;as e das ditas pessoas comuns, como observou  Leandro. Elas refor&ccedil;am as divis&otilde;es entre <i>n&oacute;s e eles<\/i>, e alimentam  posturas de hostilidade que podem amparar certas formas de viol&ecirc;ncia  mais expl&iacute;citas, incluindo a viol&ecirc;ncia f&iacute;sica. A homossexualidade &eacute;  constru&iacute;da como a alteridade, por excel&ecirc;ncia, contaminadora e que exige  retra&ccedil;&atilde;o da esfera p&uacute;blica. &Eacute; curioso que a agenda da milit&acirc;ncia  conservadora contra o casamento igualit&aacute;rio acabe por se encontrar com a  milit&acirc;ncia contra as novas fam&iacute;lias e contra a doa&ccedil;&atilde;o de sangue pelos  homossexuais, todas amparadas na percep&ccedil;&atilde;o de LGBTs como sexualidades  amea&ccedil;adoras, que n&atilde;o devem ter respaldo e prote&ccedil;&atilde;o do Estado e, em  &uacute;ltima inst&acirc;ncia, n&atilde;o devem nem mesmo existir. A recusa dos direitos  civis dos homossexuais &eacute; uma recusa, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, de sua  exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Acho que esses argumentos t&ecirc;m impactado at&eacute; mesmo as pol&iacute;ticas  p&uacute;blicas, em epis&oacute;dios &ndash; como j&aacute; foi dito &ndash; da proibi&ccedil;&atilde;o do  kit-anti-homofobia pelo Governo ou do veto das campanhas do Minist&eacute;rio  da Sa&uacute;de de preven&ccedil;&atilde;o ao HIV\/AIDS que apresentavam casais homoafetivos,  no Carnaval de 2012. O medo da contamina&ccedil;&atilde;o pela homossexualidade &eacute; a  for&ccedil;a motora do temor de &ldquo;fazer propaganda da diversidade sexual&rdquo;,  sustentada por agentes da Governan&ccedil;a P&uacute;blica, em raz&atilde;o das press&otilde;es de  segmentos religiosos. O grande desafio &eacute; que tudo o que discutimos  impacta o modo como pessoas LGBT t&ecirc;m acesso a servi&ccedil;os e benef&iacute;cios dos  sistemas de sa&uacute;de, de seguran&ccedil;a, de educa&ccedil;&atilde;o e outros. Tenho observado  de perto como o campo da pol&iacute;tica p&uacute;blica &eacute; impactado por ades&otilde;es e  perten&ccedil;as religiosas de t&eacute;cnicos, gestores e outros agentes, que acabam  por intervir ou mesmo extinguir a&ccedil;&otilde;es que beneficiam popula&ccedil;&otilde;es n&atilde;o  heterossexuais.<\/p>\n<p><b>Voc&ecirc;s analisam no livro o que chamam de novos conservadorismos e  discursos fundamentalistas. Um aspecto que tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; o uso  da ci&ecirc;ncia por grupos religiosos para legitimar suas vis&otilde;es de mundo,  do que &eacute; exemplo o projeto de lei da &ldquo;cura gay&rdquo;, que propunha terapia  para converter homossexuais em heterossexuais baseada nos saberes psi.  Como voc&ecirc;s avaliam tal interface entre campos de saber distintos, que  tem como palco privilegiado espa&ccedil;os pol&iacute;ticos institucionais como o  Congresso? Estamos diante de mais de um fundamentalismo, isto &eacute;, n&atilde;o  apenas de natureza religiosa, mas tamb&eacute;m de teor cient&iacute;fico e pol&iacute;tico?<\/b><\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b>Acho importante deixar claro que entendemos  tanto a religi&atilde;o como a laicidade como constru&ccedil;&otilde;es sociais. Desse modo,  as l&iacute;quidas e m&oacute;veis fronteiras entre o que &eacute; laico e religioso em  nossa sociedade indicam apenas a fic&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica de que tais esferas  sociais s&atilde;o apartadas. Nesse sentido, o surgimento de uma sexologia  religiosa, como discutimos no livro, exemplifica como tais fronteiras  s&atilde;o atualizadas e as ambi&ccedil;&otilde;es civilizat&oacute;rias de tais grupos religiosos,  empenhados em colocar em pr&aacute;tica pastorais sexuais e certas formas de  gest&atilde;o da vida &iacute;ntima. Semelhante aos sex&oacute;logos do in&iacute;cio do s&eacute;culo  passado, eles instituem mecanismos de corre&ccedil;&atilde;o que exaltam a  heterossexualidade como a &uacute;nica sexualidade leg&iacute;tima e saud&aacute;vel e  constroem a homossexualidade como patologia. Esses novos militantes da  pureza sexual se apropriam de certas teorias do campo <i>psi<\/i>em  relativo desuso, ultrapassadas, que operam por uma l&oacute;gica patologizante,  procurando definir o bom e o mau sexo. Suas representa&ccedil;&otilde;es entram em  choque com o conhecimento cient&iacute;fico contempor&acirc;neo que n&atilde;o compreende a  homossexualidade como doen&ccedil;a, mas assinala que condutas e identidades  sexuais s&atilde;o complexas e fruto de experi&ecirc;ncias e intera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Com efeito, tanto a homossexualidade, como a bissexualidade e a  heterossexualidade s&atilde;o constru&ccedil;&otilde;es sociais, em um leque de identidades  sexuais poss&iacute;veis que tem se pluralizado, a partir do surgimento de  novos sujeitos de direitos.  A milit&acirc;ncia religiosa, contudo, insiste em  que a heterossexualidade &eacute; natural, enquanto a diversidade sexual &eacute;  fruto de traumas, abusos, portanto, patol&oacute;gica. Observamos uma  verdadeira explos&atilde;o discursiva que cultiva uma obsess&atilde;o com a suposta  g&ecirc;nese da homossexualidade. Mas se trata de uma &ldquo;psicologia&rdquo; a servi&ccedil;o  da religi&atilde;o, como discutiu o antrop&oacute;logo Luiz Fernando Dias Duarte,  instituindo did&aacute;ticas para uma &ldquo;vida crist&atilde;&rdquo;. Com efeito, essa did&aacute;tica  defende que se a homossexualidade &eacute; um comportamento apreendido, pode  ser pass&iacute;vel de <i>cura<\/i> e transforma&ccedil;&atilde;o. A cura apregoada nada mais  faz do que instituir pedagogias do g&ecirc;nero, alguns modos de tornar certos  homens mais masculinos e certas mulheres mais femininas.<\/p>\n<p>Certamente, um dos alvos desse discurso &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o de  travestis e transexuais em &ldquo;ex-travestis&rdquo; e &ldquo;ex-transexuais&rdquo;. Existem  hoje no Brasil pequenos minist&eacute;rios empenhados em converter essa  popula&ccedil;&atilde;o e refor&ccedil;ar todo tipo de preconceito contra pessoas  transg&ecirc;neros. Eles recomendam e instituem mecanismos de controle que  passam pela retirada de pr&oacute;teses e silicones e alimentam as fantasias de  identidade de que todas as pessoas devem ser heterossexuais e  adequar-se aos modelos de g&ecirc;nero dominantes. Contudo, n&atilde;o devemos achar  que esses discursos est&atilde;o restritos a ambientes religiosos, mas entender  que ele possui um alcance capilar. Basta lembrar o modo como &eacute;  recorrente a apresenta&ccedil;&atilde;o de projetos de lei, tanto em n&iacute;vel federal  como nos estados e munic&iacute;pios, que pretendem criar programas  governamentais de <i>cura gay<\/i>.<\/p>\n<p>A outra face dessa milit&acirc;ncia religiosa &eacute; o esfor&ccedil;o para obstruir  a&ccedil;&otilde;es governamentais que procuram desestabilizar certas formas de  opress&atilde;o nos sistemas de educa&ccedil;&atilde;o, de seguran&ccedil;a p&uacute;blica, de sa&uacute;de e  outros servi&ccedil;os sociais. Nesse momento, essa discuss&atilde;o &eacute; muito oportuna,  pois setores religiosos v&ecirc;m atuando de modo a obstruir pol&iacute;ticas  p&uacute;blicas no campo da educa&ccedil;&atilde;o empenhadas em discutir g&ecirc;nero e orienta&ccedil;&atilde;o  sexual nas escolas como uma forma de combate &agrave; viol&ecirc;ncia contra a  mulher e a homofobia. Esse ativismo religioso e conservador, amparado na  palavra de ordem &ldquo;g&ecirc;nero n&atilde;o&rdquo;, como foi noticiado na m&iacute;dia nos &uacute;ltimos  dias, tem como pressuposto que as discuss&otilde;es sobre igualdade, liberdade e  equidade n&atilde;o devem ser feitas na escola e muito menos na sociedade  brasileira. Esse &eacute; um exemplo vivo sobre como as guerras que descrevemos  se atualizam o tempo todo na esfera p&uacute;blica e indicam os enlaces entre  ci&ecirc;ncia, religi&atilde;o e pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira:<\/b> Bem, a separa&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia, pol&iacute;tica e  religi&atilde;o n&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno universal, mas uma constru&ccedil;&atilde;o artificial do  pensamento moderno. Uma distin&ccedil;&atilde;o artificial que, como diz Bruno Latour  (em &ldquo;Jamais Fomos Modernos&rdquo;), faz coisas h&iacute;bridas proliferarem por toda a  parte. Ent&atilde;o, eu n&atilde;o acho nada especialmente espantoso no fato que se  produzam discursos h&iacute;bridos que misturem ci&ecirc;ncia, pol&iacute;tica e religi&atilde;o.  As pr&oacute;prias igrejas inclusivas produzem certas misturas entre religi&atilde;o e  pol&iacute;tica, talvez mesmo entre religi&atilde;o e ci&ecirc;ncia (estou pensando no fato  de existirem lideran&ccedil;as inclusivas com forma&ccedil;&atilde;o em &aacute;reas como  psicologia e que consomem literatura acad&ecirc;mica sobre temas ligados a  sexualidade). Um aspecto que chama nossa aten&ccedil;&atilde;o, nas controv&eacute;rsias  p&uacute;blicas sobre a <i>cura gay<\/i>, &eacute; o fato de que a &ldquo;ci&ecirc;ncia&rdquo; que  comparece nessa encruzilhada &eacute; desprovida de qualquer respaldo nos  consensos correntes da comunidade cient&iacute;fica &ndash; creio que Marcelo j&aacute;  sinalizou para este ponto.<\/p>\n<p>Mas h&aacute; outra coisa: no caso do projeto de lei da <i>cura gay<\/i>  havia uma tentativa expl&iacute;cita de controle do campo  cient&iacute;fico-terap&ecirc;utico a partir de uma a&ccedil;&atilde;o situada no campo  jur&iacute;dico-pol&iacute;tico (a qual pode, por sua vez, ter resson&acirc;ncias com  valores religiosos). O caso, no fundo, &eacute; bem simples: m&eacute;dicos e  psic&oacute;logos s&oacute; podem &lsquo;tratar&rsquo; algo que seja definido como &ldquo;doen&ccedil;a&rdquo;; quem  hoje det&eacute;m autoridade pra discutir e definir o que &eacute; ou n&atilde;o uma &ldquo;doen&ccedil;a&rdquo;  &eacute; a comunidade cient&iacute;fica; um projeto de lei que vise implementar a  &ldquo;cura&rdquo; gay tenta usurpar esta autoridade. Aqui, n&atilde;o se trata  simplesmente de hibridiza&ccedil;&atilde;o, mas de uma tentativa de encompassar um  campo por outro, de subordinar um destes campos a outros.<\/p>\n<p><b>S&atilde;o not&oacute;rias as articula&ccedil;&otilde;es entre setores evang&eacute;licos e setores  cat&oacute;licos e esp&iacute;ritas contr&aacute;rios aos direitos sexuais. Como voc&ecirc;s  avaliam esse &ldquo;ecumenismo&rdquo; no contexto dos novos conservadorismos e  discursos fundamentalistas apontados no livro?<\/b><\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira:<\/b>Creio que daria pra resumir minha vis&atilde;o  sobre este tema em uma frase: em situa&ccedil;&otilde;es de confronto pol&iacute;tico, &lsquo;o  inimigo de meu inimigo &eacute; meu amigo&rsquo;. Enfrentamentos deste tipo podem  gerar alian&ccedil;as que a princ&iacute;pio pareceriam improv&aacute;veis. Ent&atilde;o, a alian&ccedil;a  em si faz parte dos jogos da pol&iacute;tica, e n&atilde;o tem nada de surpreendente. O  que &eacute;, talvez, um pouco surpreendente &eacute; o idioma mais ou menos  consensual por meio do qual essas articula&ccedil;&otilde;es s&atilde;o formuladas. Com  freq&uuml;&ecirc;ncia, elas s&atilde;o justificadas como em defesa da &lsquo;fam&iacute;lia&rsquo; ou de  tradi&ccedil;&otilde;es e valores que seriam &lsquo;comuns&rsquo; a todos. As teorias sobre os  p&acirc;nicos morais, mencionadas por Marcelo h&aacute; pouco, oferecem algumas  pistas pra gente refletir sobre este tipo de consenso. Tudo se passa  como se a varia&ccedil;&atilde;o sexual servisse enquanto um s&iacute;mbolo que focaliza  m&uacute;ltiplas ansiedades coletivas diante de mudan&ccedil;as culturais; um alvo  pol&iacute;tico que suscita coaliz&otilde;es e propicia a supera&ccedil;&atilde;o de dissensos entre  fac&ccedil;&otilde;es na esfera p&uacute;blica.<\/p>\n<p>N&oacute;s refletimos um pouco sobre este tipo de processo no livro. Os  homossexuais n&atilde;o s&atilde;o meramente vistos como indiv&iacute;duos com gostos  pessoais moralmente controversos. Eles s&atilde;o pessoas supostamente geradas  em fam&iacute;lias desestruturadas e investidas do poder de desestruturar as  fam&iacute;lias alheias; responsabilizados pela difus&atilde;o da AIDS e da pedofilia;  acusados de tentar &lsquo;converter&rsquo; as gera&ccedil;&otilde;es mais jovens em homossexuais  (basta lembrar as controv&eacute;rsias em torno do kit anti-homofobia), etc. A  constru&ccedil;&atilde;o de um inimigo comum acaba sendo uma estrat&eacute;gia poderosa e  eficiente neste processo de forma&ccedil;&atilde;o de coaliz&otilde;es pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p><b>Que tipo de impacto tais discursos podem exercer na vida pessoal e  familiar de indiv&iacute;duos ligados a grupos religiosos fundamentalistas?  Qual o papel de pastores na media&ccedil;&atilde;o de tais discursos e como isso afeta  as rela&ccedil;&otilde;es pessoais no &acirc;mbito privado?<\/b><\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b>A experi&ecirc;ncia religiosa de pessoas LGBT &eacute;  marcada por estigmas e m&uacute;ltiplas perspectivas de exclus&atilde;o nas  congrega&ccedil;&otilde;es crist&atilde;s em que boa parte delas foi socializada, mas tamb&eacute;m  existem possibilidades de negocia&ccedil;&atilde;o, &eacute; claro. Chamou-nos aten&ccedil;&atilde;o o modo  como o desejo de autoexterm&iacute;nio diante da percep&ccedil;&atilde;o de si como objeto  do <i>&oacute;dio de Deus<\/i> pode ser uma recorr&ecirc;ncia sociol&oacute;gica. Nos bancos  das igrejas, as amea&ccedil;as de dana&ccedil;&atilde;o eterna parecem exercer forte impacto  sobre a subjetividade, instaurando conflitos dilacerantes para os quais a  morte parece, em um dado momento das biografias, a solu&ccedil;&atilde;o. Nunca  perguntamos especificamente sobre essa tem&aacute;tica, mas ela aparecia  espontaneamente, em alguns relatos, materializadas em declara&ccedil;&otilde;es de  inten&ccedil;&otilde;es suicidas ou de pr&aacute;ticas nesse sentido. Por outro lado,  discrimina&ccedil;&atilde;o na fam&iacute;lia e discrimina&ccedil;&atilde;o no ambiente religioso se  interseccionam em algumas narrativas, pois as redes religiosas e  familiares se sobrep&otilde;em no cultivo de certas formas de hostilidade da  diversidade sexual. Nesse sentido, a socializa&ccedil;&atilde;o em contextos  pentecostais se revelou o mais dram&aacute;tico, do ponto de vista das tens&otilde;es  vivenciadas.<\/p>\n<p>Mas existem formas de puni&ccedil;&atilde;o plurais, quando a homossexualidade do  fiel &eacute; revelada. Quando esse fiel encontra uma igreja inclusiva, um  ambiente social que prescreve a concilia&ccedil;&atilde;o entre cristianismo e  homossexualidade, a experi&ecirc;ncia &eacute; de ressignifica&ccedil;&atilde;o dos dogmas da  igreja de origem.  As lideran&ccedil;as inclusivas desempenham um importante  papel na oferta de relatos compartilhados do <i>amor de Deus<\/i> pelos homossexuais, sem exig&ecirc;ncia de mudan&ccedil;a ou abstin&ecirc;ncia sexual. Em outras palavras, esses l&iacute;deres exercem uma <i>pedagogia da aceita&ccedil;&atilde;o<\/i>,  que leva a constru&ccedil;&atilde;o de imagens positivas de si e a remo&ccedil;&atilde;o de  estigmas, uma verdadeira descoberta de aprendizado de ser evang&eacute;lico e  ser homossexual, algo anteriormente inimagin&aacute;vel. &Eacute; claro que essa &eacute; uma  experi&ecirc;ncia que envolve conflitos, ambival&ecirc;ncias e media&ccedil;&otilde;es entre as  igrejas de origem e a nova religi&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; muito interessante, por exemplo, como categorias como <i>cura<\/i>, <i>pecado<\/i>ou <i>dem&ocirc;nio<\/i>  s&atilde;o apropriadas, em alguns contextos, e investidas de novos  significados e sentidos. Por exemplo, quando lideran&ccedil;as ou fi&eacute;is, gays e  l&eacute;sbicas, inclusivos, compreendem a discrimina&ccedil;&atilde;o por orienta&ccedil;&atilde;o sexual  sofrida na fam&iacute;lia como fruto da interfer&ecirc;ncia do dem&ocirc;nio, sendo o  diabo o autor de gestos e atitudes homof&oacute;bicas. Ou quando se emprega a  categoria cura, n&atilde;o <i>da homossexualidade<\/i>, mas das feridas  emocionais deixadas pelo preconceito e rejei&ccedil;&atilde;o familiar. Ou quando se  busca deslocar o pecado da homossexualidade para experi&ecirc;ncias sexuais  que prescindem do consentimento (a viol&ecirc;ncia sexual seria pecado) ou  para todas as formas de relacionamento afetivo-sexuais que contrariam o  modelo do amor monog&acirc;mico crist&atilde;o. Em todo caso, estamos diante de  inven&ccedil;&otilde;es de novos v&iacute;nculos entre religi&atilde;o e sexualidade que certamente o  livro coloca em discuss&atilde;o.   <\/p>\n<p><b><i>Igrejas inclusivas<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>O que o surgimento de igrejas crist&atilde;s inclusivas, que adotam uma  linguagem mais acolhedora em rela&ccedil;&atilde;o aos homossexuais, representa neste  cen&aacute;rio &ldquo;b&eacute;lico&rdquo; que o t&iacute;tulo do livro sugere?<\/b><\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b>Eu penso que elas representam brechas,  fissuras, tentativas de tomada do poder, protagonizadas por pessoas  LGBT, a exemplo do que ocorreu com as mulheres e a emerg&ecirc;ncia das  teologias feministas. Elas constituem reivindica&ccedil;&otilde;es por liberdade  religiosa, de gays e l&eacute;sbicas &ndash; pessoas que efetivamente ocupam os  bancos das igrejas. Durante muitos anos, esses fi&eacute;is ocultaram suas  experi&ecirc;ncias e identidades, temendo as san&ccedil;&otilde;es institucionais que  incidem sobre quem desafia as normas da congrega&ccedil;&atilde;o. Mas, essas pessoas  agora ganharam visibilidade na esfera p&uacute;blica &ndash; elas reivindicam n&atilde;o  apenas o direito de serem gays, l&eacute;sbicas, travestis e transexuais, mas <i>tamb&eacute;m<\/i>de serem <i>crist&atilde;os<\/i>.  &Eacute; claro que este &eacute; um movimento pol&iacute;tico minorit&aacute;rio, em meio a um  cen&aacute;rio religioso em que a homofobia predomina. Apesar disso, a atua&ccedil;&atilde;o  destas pessoas pode ser vista como ag&ecirc;ncia e protagonismo daqueles que  se encontram &agrave; margem da religi&atilde;o, em luta por reconhecimento.<\/p>\n<p>A emerg&ecirc;ncia das igrejas inclusivas evidencia como tradi&ccedil;&otilde;es  religiosas podem ser reinventadas. Nesse sentido, &eacute; importante  compreender igrejas n&atilde;o como institui&ccedil;&otilde;es est&aacute;ticas, sem movimento: elas  s&atilde;o redes e articula&ccedil;&otilde;es nas quais existem disson&acirc;ncias, polissemias,  disputas. Ent&atilde;o, igrejas inclusivas s&atilde;o iniciativas dissidentes em  rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s hegemonias doutrin&aacute;rias, cultivadas pelas religi&otilde;es crist&atilde;s,  especialmente, &agrave;quelas articuladas ao interdito da homossexualidade e &agrave;  rejei&ccedil;&atilde;o das identidades LGBT. Elas encenam certos modos contempor&acirc;neos  de constru&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o em que se concilia cristianismo e diversidade  sexual. Representam tamb&eacute;m inova&ccedil;&otilde;es t&iacute;picas das din&acirc;micas de cria&ccedil;&atilde;o e  diversifica&ccedil;&atilde;o do protestantismo, que se amparam na livre interpreta&ccedil;&atilde;o  do texto b&iacute;blico, por exemplo, proclamando que a homossexualidade &eacute; <i>b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o divina<\/i> e promovendo leituras e interpreta&ccedil;&otilde;es gays e l&eacute;sbicas <i>da Palavra<\/i>.  Ao inv&eacute;s de sustentar e propagar discursos de rep&uacute;dio, como fazem  algumas correntes religiosas cat&oacute;licas ou evang&eacute;licas, nas igrejas  inclusivas n&atilde;o &eacute; preciso deixar de ser homossexual. Uma pessoa gay,  l&eacute;sbica, travesti ou transexual pode se tornar pastor ou pastora,  presb&iacute;tero ou presb&iacute;tera, di&aacute;cono ou diaconisa, enfim, exercer uma vida  eclesial.<\/p>\n<p>As experi&ecirc;ncias de rejei&ccedil;&atilde;o nas religi&otilde;es levam a rupturas e &agrave; busca  por solu&ccedil;&otilde;es n&atilde;o apenas individuais, mas coletivas, institucionais,  motivando a cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os espec&iacute;ficos. Nos Estados Unidos, existem  igrejas gays desde 1968, mas no Brasil, o movimento tem pouco mais de  uma d&eacute;cada de exist&ecirc;ncia, apesar das anteriores iniciativas isoladas.  Esses grupos t&ecirc;m se dedicado a produzir falas positivas sobre a  diversidade sexual, legitimando a experi&ecirc;ncia religiosa dessas pessoas,  amparando-se nos ideias de igualdade, autonomia e liberdade &#8211; que  constituem valores laicos de nossa sociedade contempor&acirc;nea. Certamente,  seus discursos produzem deslocamentos importantes no cen&aacute;rio religioso,  especialmente, ao reposicionar a homossexualidade no campo das  sexualidades leg&iacute;timas, recorrendo a representa&ccedil;&otilde;es naturalizantes sobre  a orienta&ccedil;&atilde;o sexual. As igrejas inclusivas nos ajudam a descongelar  imagens do religioso como essencialmente homof&oacute;bico (ou conservador) e  perceber os muitos v&iacute;nculos entre ativismo, pol&iacute;tica e religi&atilde;o.  Ilustram a pluralidade das trajet&oacute;rias, movimentos e sentidos da  religi&atilde;o no mundo contempor&acirc;neo. Tamb&eacute;m alargam nossa vis&atilde;o,  demonstrando que n&atilde;o s&atilde;o apenas as religi&otilde;es de matriz africana que  acolhem a diversidade sexual no Brasil, ao conceber certos lugares  sociais para gays e l&eacute;sbicas no culto.<\/p>\n<p>Apesar da diversidade interna e das nuances discursivas, grupos  inclusivos tomam como parte de sua miss&atilde;o religiosa desenvolver projetos  e atividades de apoio emocional e assistencial &agrave;s pessoas soropositivas  e de preven&ccedil;&atilde;o da AIDS, al&eacute;m de atuar em defesa do casamento  igualit&aacute;rio e do direito &agrave; homoparentalidade. Tamb&eacute;m &eacute; comum o incentivo  e amparo para que fi&eacute;is atravessem o processo transexualizador. Em  suma, a agenda religiosa e a agenda da amplia&ccedil;&atilde;o dos direitos civis das  popula&ccedil;&otilde;es homossexuais s&atilde;o entrela&ccedil;adas.<\/p>\n<p><b>No livro, voc&ecirc;s observam que alguns grupos inclusivos empreendem  esfor&ccedil;os no sentido de definir uma homossexualidade santificada (crist&atilde;, monog&acirc;mica e discreta).  Outros grupos est&atilde;o comprometidos com um discurso mais afastado das  normas hegem&ocirc;nicas de regula&ccedil;&atilde;o da sexualidade. At&eacute; que ponto a inclus&atilde;o  &eacute; referendada no paradigma dos direitos humanos?<\/b><\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira: <\/b>Bem, primeiramente, acho que a gente  precisa ter em mente que os &ldquo;direitos humanos&rdquo; n&atilde;o s&atilde;o um todo  homog&ecirc;neo, mas um campo de disputas. Por exemplo, pode haver certa  tens&atilde;o entre, de um lado, o projeto universalizante intr&iacute;nseco aos  discursos sobre direitos humanos e, de outro lado, a incorpora&ccedil;&atilde;o dos  direitos culturais, o direito &agrave; diferen&ccedil;a, como parte deste mesmo  projeto. Do mesmo modo, pode haver diverg&ecirc;ncias na defini&ccedil;&atilde;o do que deve  ou n&atilde;o ser compreendido como inerente ao &ldquo;humano&rdquo; e pass&iacute;vel de  prote&ccedil;&atilde;o. As igrejas inclusivas possuem vertentes distintas &ndash; algumas  com um estilo de culto mais pr&oacute;ximo do protestantismo hist&oacute;rico, outras  que incorporam elementos da f&eacute; e do ritual pentecostais. No campo que  realizamos, a gente observou inicialmente, nessas igrejas de estilo  protestante hist&oacute;rico, uma maior afinidade com um discurso mais  universalista sobre os direitos sexuais na esfera p&uacute;blica. Este &eacute;, sem  d&uacute;vida, o caso da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM).<\/p>\n<p>As igrejas inclusivas mais pentecostalizadas pareciam estar  preocupadas com outro tipo de coisa, tocantes mais estritamente ao bem  estar espiritual dos fieis, &agrave; restaura&ccedil;&atilde;o de um sentimento de santidade  entre seus integrantes, &agrave; cura do sofrimento e das feridas espirituais, a  projetos de felicidade envolvendo a parceria conjugal monog&acirc;mica e a  reestrutura&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os com a fam&iacute;lia de origem. E menos preocupadas  com a milit&acirc;ncia pelos direitos sexuais na esfera p&uacute;blica. Ent&atilde;o,  olhando de relance, poderia parecer que as primeiras estariam em  sintonia com a defesa um projeto de direitos humanos universais,  enquanto as &uacute;ltimas estariam simplesmente exercendo o direito cultural  de existir na sua diferen&ccedil;a. Contudo, &agrave; medida que ganhamos mais  intimidade com esses mundos sociais, percebemos que havia processos mais  complexos em jogo.<\/p>\n<p>Os membros de uma igreja inclusiva carregam, com frequ&ecirc;ncia, uma  trajet&oacute;ria de passagem por diversos outros grupos religiosos, podendo  inclusive migrar de uma igreja inclusiva para outra igreja inclusiva, ou  frequentar concomitantemente uma igreja inclusiva e igrejas mais  convencionais. Esta circula&ccedil;&atilde;o de fi&eacute;is, por si s&oacute;, torna cada grupo um  espa&ccedil;o de negocia&ccedil;&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o de media&ccedil;&otilde;es entre perspectivas e vis&otilde;es  de mundo bastante plurais. Al&eacute;m disto, constatamos, especialmente em  comunidades que expressam um ethos marcadamente pentecostal entre  lideran&ccedil;as e membros (como a Igreja Crist&atilde; Contempor&acirc;nea e a Comunidade  Crist&atilde; Nova Esperan&ccedil;a, que exercem um particular apelo sobre pessoas  oriundas de setores economicamente desprivilegiados), a exist&ecirc;ncia de  formas capilares de atua&ccedil;&atilde;o religioso-pol&iacute;tica, com extensa penetra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Os integrantes destes grupos se apropriam criativamente de categorias  dos discursos de defesa dos direitos humanos. Isto se d&aacute;, por exemplo,  atrav&eacute;s de discursos que identificam o &ldquo;preconceito&rdquo; como a causa das  feridas espirituais e que promovem a &ldquo;cura da homofobia&rdquo;. Por meio da  linguagem religiosa e de rituais religiosos, estes grupos fazem circular  um discurso sobre direitos sexuais com um sotaque local particular, mas  bastante afinado com a agenda global de defesa das minorias sexuais.  Justamente por ser vertido nesse idioma religioso, esse discurso  inclusivo pode ter uma efic&aacute;cia e alcance bastante amplo, penetrando em  espa&ccedil;os que talvez fossem menos perme&aacute;veis &agrave;s estrat&eacute;gias discursivas  mais convencionais do movimento LGBT.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Las tradiciones religiosas pueden ser reinventadas, destacan en esta entrevista los antrop\u00f3logos Marcelo Natividade y Leandro Oliveira, autores de libro que analiza el fen\u00f3meno de los nuevos conservadurismos de grupos cristianos que se oponen a la promoci\u00f3n de los derechos sexuales.<i>(Texto en portugu\u00e9s)<\/i><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1533","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - 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