{"id":1592,"date":"2008-10-22T00:00:00","date_gmt":"2008-10-22T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2008\/10\/22\/eloa-a-morte-anunciada\/"},"modified":"2008-10-22T00:00:00","modified_gmt":"2008-10-22T02:00:00","slug":"eloa-a-morte-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/articulos-y-resenas\/genero\/eloa-a-morte-anunciada\/1592\/","title":{"rendered":"Elo\u00e1 \u2013 A Morte Anunciada"},"content":{"rendered":"<p><P align=right>*Analba Braz\u00e3o Teixeira <\/P> <P>Semana passada o Brasil acompanhou de perto o seq\u00fcestro que culminou com a morte de Elo\u00e1. Uma Adolescente de apenas 15 anos de idade, que morreu por que decidiu n\u00e3o reatar o namoro com Lindemberg. A trag\u00e9dia anunciada se transformou numa briga pela audi\u00eancia da imprensa televisiva e escrita, em que em nenhum momento, ao longo da sensacionalista cobertura do &ldquo;caso Elo\u00e1&rdquo; a imprensa classificou como mais um caso de Viol\u00eancia contra as Mulheres, que estava preste a entrar na contagem dos homic\u00eddios sofridos por mulheres que resolvem n\u00e3o reatar os namoros, casamentos. Ser\u00e1 que n\u00e3o se reconheceu como viol\u00eancia contra as mulheres, pelo fato dela s\u00f3 ter 15anos?<BR> <\/P> <P>Lindenberg passou a ser o centro de aten\u00e7\u00e3o de todos e de todas e mais uma vez uma atitude extrema de machismo \u00e9 levada para o plano da patologia. O ci\u00fame, a posse e a honra ganham o nome de &ldquo;amor&rdquo; de decep\u00e7\u00e3o amorosa, em que Elo\u00e1 de V\u00edtima passa a ser quase tratada como algoz, na boca de an\u00e1lises de psic\u00f3logas colocadas no ar &ldquo;Se ela tivesse aceitado dialogar, nada disso teria acontecido&rdquo;.<BR>  <P>Pelo contr\u00e1rio, o algoz de Elo\u00e1 e Naiara, a todo instante era enaltecido: Qual o perfil de Linderberg? Bom rapaz, trabalhador, amigo de todos, &ldquo;era apenas um pouco ciumento&rdquo;. E se chegou a este extremo \u00e9 porque possui alguma patologia, dizia outro psiquiatra. Como reconhecemos as caracter\u00edsticas desta patologia que uma pessoa carrega para cometer um crime como esse? Pergunta feita por apresentadores de programas televisivas.<BR>  <P>Patologia? Ou ele n\u00e3o ag\u00fcentou &ldquo;perder&rdquo; o controle que queria ter da vida de Elo\u00e1? Ou sentiu a sua &ldquo;honra maculada&rdquo; por que Elo\u00e1,n\u00e3o queria continuar o namoro que ele pr\u00f3prio terminara?<BR>  <P>O que acompanhamos foi estarrecedor e nos mostrou como ainda \u00e9 tratada no Brasil a viol\u00eancia contra as mulheres. O que n\u00f3s feministas chamamos de &ldquo;posse&rdquo; arraigada na cultura machista, a imprensa chama de decep\u00e7\u00e3o amorosa. O que se reconheceu foi &ldquo;a leg\u00edtima dor de amor dele por Elo\u00e1&rdquo;, numa tentativa for\u00e7ada de transformar um seq\u00fcestro em novela, de proteger um criminoso que atentava contra a vida de uma mulher indefesa, de romantizar um crime. Resguardado por sua dor, Lindembergue foi capaz de tortur\u00e1-la por horas a fio, de adiar um desfecho previsto e planejado para exaltar-se diante de seu sofrimento, cont\u00ednuo, prolongado e, gra\u00e7as \u00e0s tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o ,teve p\u00fablico. Sim, a agonia da menina de 15 anos foi transmitida ao vivo,entrecortada por flashes e entrevistas pungentes de programas de audit\u00f3rio sensacionalistas. Os mesmos que enaltecem a carreira ascendente de ex-participantes de reality shows e celebridades com alcunha de fruta ou legume. Linderberg era a estrela do momento, dono total da situa\u00e7\u00e3o em que duas vidas (Elo\u00e1 e Naiara) corriam um risco real. E Linderberg perguntava: Qual \u00e9 o canal de televis\u00e3o que est\u00e1 me entrevistando?<BR>  <P>Este \u00e9 realmente o papel da m\u00eddia, aconselhar o seq\u00fcestrador? Ser\u00e1 que se Elo\u00e1 fosse de uma fam\u00edlia de Posses, o tratamento sensacionalista em que a vida dela estava em risco teriasido o mesmo? Quest\u00f5es para refletirmos diariamente.A mesma m\u00eddia, agora, faz outro tipo de sensacionalismo com a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os, tentando transformar Elo\u00e1 em Santa. Assim, desconsideram mais uma vez o absurdo de sua morte. E desconsideram que n\u00f3s, mulheres, n\u00e3o queremos ser santas. N\u00f3s, mulheres, queremos viver. E viver com autonomia, com liberdade.<BR>  <P>Acompanhamos,ao longo de toda a trama televisionada a uma sutil (e branda) retomada do velho e gasto argumento da &#8216;violenta emo\u00e7\u00e3o&#8217;. T\u00e3o em voga nos anos 70. O mesmo que levou Doca Street a atirar no rosto de Angela Diniz. Sim, as dores de&ldquo;amor&rdquo; matam, ou melhor dizendo, a dor da rejei\u00e7\u00e3o da perda da posse, mata. E j\u00e1 o fizeram, por muito tempo, impunemente. N\u00e3o foi \u00e0 toa que o slogan&#8217;Quem ama n\u00e3o mata&#8217; ganhou cartazes e ruas h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas e continua t\u00e3o presente nos nossos dias.<BR>  <P>Tiro no rosto, tiro na virilha, que isso significa? Por que quase sempre essas s\u00e3o as partes do corpo escolhidos nos casos de homic\u00eddios nas rela\u00e7\u00f5es afetivo-conjugal? Podemos pensar que no caso da rejei\u00e7\u00e3o e da perda do ser amado&rdquo;, os homens impulsionados pelas marcas de uma cultura sexista e patriarcal, tem que aniquilar as possibilidades de realizar o prazer e o desejo do outro.<BR>  <P>N\u00e3o podemos deixar de assinalar tamb\u00e9m o papel desastroso da pol\u00edcia, que teve um empenho total na garantia da vida do assassinato. A pol\u00edcia se condescendeu com o algoz e entregou \u00e0 ele a vida das duas meninas. A todo tempo, o comandante da opera\u00e7\u00e3o manifestava preocupa\u00e7\u00e3o em que Linderbegue n\u00e3o estragasse sua vida, em detrimento das duas vidas das mulheres. Afinal de contas o bom mo\u00e7o n\u00e3o tinha antecedentes, era uma \u00f3tima pessoa e estava apenas sofrendo de uma decep\u00e7\u00e3o amorosa. Qual era a negocia\u00e7\u00e3o de Linderbergue? A vida de Elo\u00e1.<BR>  <P>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o Brasil possui uma Lei que pune crimes de viol\u00eancia dom\u00e9stica, que, ali\u00e1s, traz o nome de uma mulher v\u00edtima desta mesma sorte de &#8216;amor&#8217;, sendo alvo de duas tentativas de assassinato cometidas pelo ent\u00e3o marido. Uma hist\u00f3ria tristemente comum, que, talvez, se distinga apenas porque Maria da Penha, sim, conseguiu sobreviver.<BR>  <P>Mas, muitas n\u00e3o tiveram e n\u00e3o tem a mesma sorte. Elo\u00e1s, Vandas, Angelas, Ros\u00e2ngelas, Mirians, Reginas, Robertas, Marias.Morreram e morrem indefesas, dentro de suas pr\u00f3prias casas, agredidas, surradas e humilhadas por aqueles que, sob o pretexto do amor, disciplinam aqueles corpos sobre os quais acreditam ter direitos. Isto acontece porque vivemos numa sociedade que ainda concebe que, se um homem alega amar uma mulher, ou se tiveram ou tem algum acerto de conjugalidade, isto lhe d\u00e1 direitos sobre a vida dela.<BR>  <P>Em nome de uma suposta &#8216;honra&#8217; masculina, que, quando amea\u00e7ada, insurge ensandecida, a ponto de humilhar, ferir e matar aquela que decidiu romper e n\u00e3o reatar a rela\u00e7\u00e3o.<BR>  <P>Quem torceu pelo amor de Lindembergue, quem acreditou que ele pudesse sair daquele pr\u00e9dio de m\u00e3os dadas com a ex-namorada esqueceu ou refor\u00e7ou o tipo de cultura em que vivemos.<BR>  <P>Quem tratou aquele drama passional como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos, neste pa\u00eds, de forma gritante, e em todo planeta, uma numerosa estat\u00edstica de crimes de honra ajudou a puxar o gatilho. Que conclus\u00e3o podemos chegar? O Machismo Mata.<BR>  <P>*Secret\u00e1ria Executiva da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras (AMB)&nbsp;<\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trag\u00e9dia anunciada se transformou numa briga pela audi\u00eancia da imprensa televisiva e escrita, em que em nenhum momento, ao longo da sensacionalista cobertura do &ldquo;caso Elo\u00e1&rdquo; a imprensa classificou como mais um caso de Viol\u00eancia contra as Mulheres.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-1592","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-genero"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Elo\u00e1 \u2013 A Morte Anunciada - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/articulos-y-resenas\/genero\/eloa-a-morte-anunciada\/1592\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Elo\u00e1 \u2013 A Morte Anunciada - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A trag\u00e9dia anunciada se transformou numa briga pela audi\u00eancia da imprensa televisiva e escrita, em que em nenhum momento, ao longo da sensacionalista cobertura do &ldquo;caso Elo\u00e1&rdquo; 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