{"id":1598,"date":"2009-09-01T00:00:00","date_gmt":"2009-09-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.fw2web.com.br\/es\/2009\/09\/01\/igualdad-y-diferencia\/"},"modified":"2009-09-01T00:00:00","modified_gmt":"2009-09-01T03:00:00","slug":"igualdad-y-diferencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/articulos-y-resenas\/diversidad-sexual\/igualdad-y-diferencia\/1598\/","title":{"rendered":"Igualdad y diferencia"},"content":{"rendered":"<p><P align=right><STRONG>* Regina Facchini<\/STRONG><\/P> <P>Ativistas e pesquisadores v\u00eam chamando aten\u00e7\u00e3o para as maneiras pelas quais a sexualidade de mulheres e, mais especialmente, os desejos e as condutas er\u00f3tico-afetivas que envolvem parceiras do mesmo sexo s\u00e3o pensados e vividos na nossa sociedade, bem como para a rela\u00e7\u00e3o que isso tem com o que \u00e9 chamado de <I>invisibilidade<\/I>. Um dia para a &ldquo;visibilidade l\u00e9sbica&rdquo; \u00e9 uma estrat\u00e9gia do movimento social, que faz sentido dentro de uma proposta pol\u00edtica de atuar pela via da afirma\u00e7\u00e3o de sujeitos pol\u00edticos e de suas necessidades na esfera p\u00fablica, e que mobiliza reflex\u00f5es e a\u00e7\u00f5es na dire\u00e7\u00e3o de intervir nessa situa\u00e7\u00e3o. Penso que este dia \u00e9 v\u00e1lido e importante, tomando em conta as estrat\u00e9gias adotadas historicamente pelo movimento LGBT no Brasil e o fato do que a afirma\u00e7\u00e3o de especificidades e de bandeiras de luta compartilhadas s\u00e3o dois lados de um mesmo processo pol\u00edtico de amplia\u00e7\u00e3o de direitos.<BR>  <P>As bandeiras de luta do movimento LGBT e do movimento de l\u00e9sbicas est\u00e3o bem estabelecidas desde a primeira d\u00e9cada de atua\u00e7\u00e3o desse movimento no Brasil. As demandas mais intensamente trabalhadas est\u00e3o relacionadas ao combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia e ao reconhecimento das rela\u00e7\u00f5es e direitos associados \u00e0 conjugalidade e \u00e0 parentalidade. A intersec\u00e7\u00e3o entre quest\u00f5es relacionadas a g\u00eanero e \u00e0 sexualidade, bem como \u00e0 classe, cor\/\u00bbra\u00e7a\u00bb e gera\u00e7\u00e3o, trazem matizes espec\u00edficos a essas demandas. H\u00e1 uma longa lista de demandas levantadas no processo de constru\u00e7\u00e3o da I Confer\u00eancia Nacional LGBT, tanto demandas gerais que incluem l\u00e9sbicas quanto aquelas especificamente pensadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s l\u00e9sbicas. Penso que as dificuldades n\u00e3o est\u00e3o tanto na explicita\u00e7\u00e3o de demandas, mas no processo de reconhecimento pol\u00edtico das mesmas. A maior visibilidade do movimento LGBT nos \u00faltimos 15 anos tem sido acompanhada recentemente de uma forte rea\u00e7\u00e3o conservadora, que intensifica a disputa social acerca do reconhecimento de pessoas LGBT como sujeitos de direitos. No entanto, se parece haver rela\u00e7\u00e3o entre visibilidade de sujeitos pol\u00edticos e rea\u00e7\u00e3o conservadora, a menor visibilidade do sujeito pol\u00edtico l\u00e9sbicas n\u00e3o o isenta dos efeitos do acirramento das tens\u00f5es sociais em torno do reconhecimento de direitos. Da\u00ed a \u00eanfase na visibilidade como bandeira.<BR>  <P>Nos \u00faltimos seis anos, tenho me dedicado a olhar mais diretamente para a diversidade dos sujeitos que poderiam ser inclu\u00eddos sob o L da sigla LGBT a partir de pesquisas, realizadas na cidade de S\u00e3o Paulo, com mulheres que t\u00eam rela\u00e7\u00f5es er\u00f3tico-afetivas com outras mulheres. Num primeiro momento, em parceria com Regina Maria Barbosa, me voltei para quest\u00f5es de sa\u00fade, e, posteriormente, na pesquisa de doutorado, para as rela\u00e7\u00f5es entre pr\u00e1ticas er\u00f3ticas, identidades, corporalidades e rela\u00e7\u00f5es sociais de poder. Essas experi\u00eancias de pesquisa indicam que talvez haja mais que um <I>L world<\/I>. Tenho me deparado com uma consider\u00e1vel multiplicidade de classifica\u00e7\u00f5es e com uma certa rejei\u00e7\u00e3o de boa parte dessas mulheres \u00e0 categoria <I>l\u00e9sbica<\/I>, o que j\u00e1 vem sendo relatado por v\u00e1rios outros pesquisadores. Nesse sentido, \u00e9 preciso demarcar a diferen\u00e7a entre identidades coletivas produzidas para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e as identidades individuais.<BR>  <P>No campo da pol\u00edtica tem havido um processo que chama aten\u00e7\u00e3o para as especificidades de sujeitos como <I>l\u00e9sbicas negras<\/I> ou as <I>l\u00e9sbicas de periferia<\/I>. No campo da vida cotidiana das pessoas que estariam representadas pelo movimento social, as coisas se d\u00e3o de uma outra maneira. Nos dois casos, h\u00e1 uma gama de rela\u00e7\u00f5es sociais de poder (associadas \u00e0 sexualidade, g\u00eanero, classe, cor\/\u00bbra\u00e7a\u00bb, gera\u00e7\u00e3o e regionalidade, entre outras) que se entrecruzam. No campo da pol\u00edtica, \u00e9 preciso lan\u00e7ar m\u00e3o de categorias mais cristalizadas para identificar determinado sujeito pol\u00edtico, e a incorpora\u00e7\u00e3o da diversidade tem se dado pela via de opera\u00e7\u00f5es de &ldquo;soma&rdquo; ou de &ldquo;justaposi\u00e7\u00e3o&rdquo; de sujeitos pol\u00edticos. No cotidiano, essas rela\u00e7\u00f5es de poder atravessam o modo como as pessoas se distribuem no espa\u00e7o f\u00edsico da cidade e produzem lugares; organizam suas redes de rela\u00e7\u00f5es sociais; administram suas rela\u00e7\u00f5es com familiares, amigos, vizinhos, colegas e superiores na escola e\/ou no trabalho, com religi\u00f5es e com parceiros\/as; como se percebem e classificam a si mesmas e a outras; e como se apresentam em termos de corporalidade, gestualidade e indument\u00e1ria.<BR>  <P>O modo como as classifica\u00e7\u00f5es se distribuem no conjunto de entrevistadas para minha pesquisa variou significativamente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe e \u00e0 gera\u00e7\u00e3o, marcadores que tamb\u00e9m se relacionam com a maneira como as entrevistadas percebem suas trajet\u00f3rias, pr\u00e1ticas e desejos sexuais com homens e\/ou com mulheres, como se distribuem pelo espa\u00e7o da cidade e como lidam com o estigma. Os maiores contrastes aparecem ao compararmos mulheres acima de 30 anos de estratos populares e mulheres com menos de 30 anos de estratos m\u00e9dios e m\u00e9dios altos.<BR>  <P>Entre as mais velhas de estratos populares, <I>entendida<\/I> \u00e9 a categoria mais usada e, diferentemente do que ocorre em outras faixas de idade ou estratos sociais, n\u00e3o se usa termos espec\u00edficos para designar mulheres que t\u00eam ou tiveram sexo com homens. Entre as mais jovens de estratos m\u00e9dios ou m\u00e9dios altos, ganham espa\u00e7o estrat\u00e9gias de valoriza\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 estigmatizado, como no caso do uso de termos como <I>dyke<\/I> ou <I>sapat\u00e3o<\/I> (entre as <I>minas do rock<\/I>), <I>sapa<\/I> (corrente entre jovens de estratos m\u00e9dios) e a autoclassifica\u00e7\u00e3o como bissexual, al\u00e9m da recusa de r\u00f3tulos (especialmente entre parte das <I>modernas<\/I>).<BR>  <P>A populariza\u00e7\u00e3o da categoria <I>entendida<\/I> coincide com o que parece ser seu quase banimento do estrato social que lhe deu origem, dando lugar a outras categorias que se multiplicam. Essa multiplica\u00e7\u00e3o parece tomar categorias de refer\u00eancia \u00e0 sexualidade como linguagem para a express\u00e3o de outras diferen\u00e7as. Assim, categorias como <I.>dyke<\/I>, <I>sapa<\/I>, <I>feminina<\/I>, <I>perua<\/I>, <I>caminhoneira<\/I>, <I>bofinho<\/I> e <I>ladynha<\/I> remetem a processos de diferencia\u00e7\u00e3o que mobilizam outros marcadores sociais de diferen\u00e7a, especialmente g\u00eanero, classe e idade, por vezes compondo determinados estilos. Imbricadas com diferencia\u00e7\u00f5es de classe, g\u00eanero e gera\u00e7\u00e3o, as diferen\u00e7as de cor\/&ldquo;ra\u00e7a&rdquo; seguem de modo silencioso, aparecendo menos no discurso do que na delimita\u00e7\u00e3o de lugares e estilos. No caso das jovens, entre as de estratos m\u00e9dios e m\u00e9dios altos em especial, as categorias parecem referir diferencia\u00e7\u00f5es de classe e gera\u00e7\u00e3o (como a que se d\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o a <I>sapatas old fashion<\/I>), e disputas intraclasse entre diferentes estilos (como as <I>modernas<\/I> e as <I>minas do rock<\/I>) e seu potencial de responder \u00e0s mais diferentes demandas em torno da quest\u00e3o sobre o tipo de mulher que gosta &ndash; ou que pode gostar &#8211; de outras mulheres e ainda assim ser uma mulher bem sucedida de sua cor e classe.<BR>  <P>\u00c9 importante dizer que, ao olharmos para mulheres de diferentes gera\u00e7\u00f5es, nota-se o impacto da mudan\u00e7a da homossexualidade como lugar social e isso se deve n\u00e3o apenas, mas especialmente, \u00e0 a\u00e7\u00e3o do movimento social organizado e \u00e0 resposta de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es sociais. Entre as mais jovens, sem d\u00favidas, h\u00e1 ind\u00edcios de um campo maior de possibilidades de manejo das conven\u00e7\u00f5es sociais e come\u00e7am a emergir iniciativas que remetem \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre movimento e movimenta\u00e7\u00e3o social. Trata-se da presen\u00e7a vis\u00edvel na universidade, na literatura, na m\u00fasica, em blogs ou sites da internet ou em estilos juvenis. Tais presen\u00e7as e iniciativas t\u00eam diferentes graus de proximidade com o movimento social organizado, mas acabam por diversificar as vozes e imagens levadas ao espa\u00e7o p\u00fablico. Tanto no campo do ativismo, por meio da luta pelo reconhecimento como sujeitos de direitos, quanto no cotidiano, manejando conven\u00e7\u00f5es por meio de categorias de classifica\u00e7\u00e3o e estilos, essas mulheres t\u00eam, pelos diversos meios que est\u00e3o ao seu alcance, procurado fazer algo daquilo que lhes parece ter sido feito delas.<BR>  <P>N\u00e3o gosto muito de pensar a rela\u00e7\u00e3o entre igualdade e diferen\u00e7a a partir da no\u00e7\u00e3o de especificidades, especialmente porque tende a cristalizar essas rela\u00e7\u00f5es, mais complexas e din\u00e2micas, entre v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es sociais de poder. No interior do L da sigla LGBT h\u00e1 diversidade, igualdade e diferen\u00e7a conjugadas, assim como em qualquer outro sujeito pol\u00edtico ou recorte populacional que possamos tomar da realidade. Nos \u00faltimos anos, temos convivido com no\u00e7\u00f5es como segmentos populacionais e especificidades, mas talvez precisemos pensar que nenhum sujeito pol\u00edtico descreve uma realidade homog\u00eanea e que a tend\u00eancia a delimitar especificidades pode fazer com que caiamos numa fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica excessiva, incapaz de nos dar aquilo que promete. Isso n\u00e3o significa abrir m\u00e3o do L da sigla. Ao contr\u00e1rio, trata-se de tom\u00e1-lo de modo a compreender que \u00e9 apenas uma ferramenta para expressar as demandas por direitos de pessoas que guardam similaridades, mas tamb\u00e9m diferen\u00e7as entre si, e que essas diferen\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o dadas de antem\u00e3o, podendo ganhar diferentes contornos em contextos variados. <\/P><EM>* Regina Facchini possui gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia e Pol\u00edtica pela Funda\u00e7\u00e3o Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo (1995), mestrado em Antropologia Social (2002) e doutorado em Ci\u00eancias Sociais (2008) pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente \u00e9 pesquisadora colaboradora do Pagu &#8211; N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero da UNICAMP.<\/EM><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para la antrop\u00f3loga Regina Facchini, el D\u00eda Nacional de Visibilidad L\u00e9sbica es importante pol\u00edticamente, pero es preciso demarcar la diferencia entre estrategias e identidades colectivas producidas para la acci\u00f3n pol\u00edtica y las vividas por las mujeres cotidianamente.<EM> (Texto completo)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-1598","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-diversidad-sexual"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Igualdad y diferencia - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/articulos-y-resenas\/diversidad-sexual\/igualdad-y-diferencia\/1598\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Igualdad y diferencia - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Para la antrop\u00f3loga Regina Facchini, el D\u00eda Nacional de Visibilidad L\u00e9sbica es importante pol\u00edticamente, pero es preciso demarcar la diferencia entre estrategias e identidades colectivas producidas para la acci\u00f3n pol\u00edtica y las vividas por las mujeres cotidianamente. 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