{"id":508,"date":"2010-01-27T00:00:00","date_gmt":"2010-01-27T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2010\/01\/27\/deslizamientos-de-genero\/"},"modified":"2010-01-27T00:00:00","modified_gmt":"2010-01-27T02:00:00","slug":"deslizamientos-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/deslizamientos-de-genero\/508\/","title":{"rendered":"Deslizamientos de g\u00e9nero"},"content":{"rendered":"<p>Se h\u00e1 um consenso atualmente sobre quest\u00f5es relacionadas a g\u00eanero, \u00e9 justamente a impossibilidade de se chegar a um consenso sobre o que \u00e9 &ldquo;ser mulher ou homem&rdquo;. O sexo n\u00e3o est\u00e1 inscrito na biologia, n\u00e3o se define pela presen\u00e7a de cromossomos, horm\u00f4nios ou \u00f3rg\u00e3os genitais; antes, encontra-se na subjetividade de cada um, na vis\u00e3o refletida no espelho, na infinidade de pequenos gostos e gestos que atravessam o cotidiano &ndash; o batom retocado nos l\u00e1bios, o cabelo afagado com as unhas. Por outro lado, hoje sabemos que erotismo e orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o s\u00e3o apenas dados subjetivos, qualidades intr\u00ednsecas do sujeito, mas tamb\u00e9m e sobretudo fatos sociais: pois h\u00e1 uma s\u00e9rie de dispositivos, constrangimentos e expectativas sociais que levam os indiv\u00edduos a elaborarem sua sexualidade de determinadas maneiras. Em suma, g\u00eanero e sexualidade s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sempre em andamento, deslizantes; constru\u00e7\u00f5es a um s\u00f3 tempo individuais e sociais.<BR>  <P>Como toda constru\u00e7\u00e3o, sexualidade e g\u00eanero aparentam mais solidez do que na verdade possuem. O questionamento de sua fixidez e seus essencialismos \u00e9 uma tarefa que, apesar de avan\u00e7ada em muitos aspectos, permanece uma necessidade constante, sempre a demandar novos esfor\u00e7os. Nesse sentido, Leandro de Oliveira, doutorando do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em antropologia social do Museu Nacional (PPGAS\/MN\/UFRJ), chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a perspectiva dos estudos <I>queer<\/I> contribuiu para mostrar que &ldquo;a distin\u00e7\u00e3o existente entre masculino e feminino n\u00e3o \u00e9 um fato da natureza, ou um &lsquo;princ\u00edpio&rsquo; l\u00f3gico ou metaf\u00edsico, mas um efeito de certas pr\u00e1ticas. Quando uma pessoa que se identifica como &lsquo;gay&rsquo;, e que n\u00e3o deixa de se perceber como homem, afirma que tem um lado &lsquo;feminino&rsquo; ou possui uma &lsquo;mulher&rsquo; dentro de si, ele opera um deslocamento nessas categorias. Homem, mulher, masculino, feminino s\u00e3o no\u00e7\u00f5es interligadas entre si por pr\u00e1ticas sociais e expectativas culturais &ndash; quando uma dessas categorias aparece &lsquo;fora de lugar&rsquo;, estabelece uma conex\u00e3o inesperada, coloca em evid\u00eancia a arbitrariedade do conjunto como um todo&rdquo;, avalia.<BR>  <P>Oliveira estudou de perto o assunto. Sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, defendida no Instituto de Medicina Social (IMS\/UERJ), apresenta uma pesquisa etnogr\u00e1fica de uma boate no sub\u00farbio do Rio de Janeiro destinada ao p\u00fablico &ldquo;GLS&rdquo;. Seria uma boate como tantas outras n\u00e3o fosse por um detalhe: &ldquo;homens&rdquo; n\u00e3o pagam entrada. Ou seja, naquela boate, jovens que ostentam modos e atitudes masculinas t\u00eam acesso gratuito. A maioria dos clientes pagantes &ndash; travestis e gays praticantes do <I>crossdressing<\/I> &ndash; procura o lugar na esperan\u00e7a de encontrar um &ldquo;homem de verdade&rdquo;. Oliveira, que a princ\u00edpio estava interessado em entender os padr\u00f5es de sociabilidade e as din\u00e2micas de intera\u00e7\u00e3o er\u00f3tica naquele espa\u00e7o, durante o processo de feitura da pesquisa acabou por extrair reflex\u00f5es mais amplas sobre diversidade sexual.<BR>  <P>De in\u00edcio, vale esclarecer que <I>crossdressing<\/I> \u00e9 a pr\u00e1tica de vestir roupas do sexo oposto. E, ao mesmo tempo, \u00e9 muito mais do que isso: o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas o ato de &ldquo;se montar&rdquo; (g\u00edria utilizada para designar o uso de roupas e acess\u00f3rios tidos como femininos), mas tamb\u00e9m a express\u00e3o de uma identidade de g\u00eanero que resiste a generaliza\u00e7\u00f5es e estere\u00f3tipos. Como afirma a antrop\u00f3loga Anna Paula Vencatto, &ldquo;nem toda pr\u00e1tica de <I>crossdressing<\/I> aponta para a exist\u00eancia de um sujeito transg\u00eanero, e nem mesmo se poderia dizer que \u00e9 o passeio entre o masculino e o feminino que os define&rdquo;. As pessoas pesquisadas por Anna em seu doutorado (defendido no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia e Antropologia do IFCS\/UFRJ) n\u00e3o se entendem como transg\u00eaneros no sentido de serem transexuais, de quererem se tornar mulher de forma definitiva, inclusive porque em sua maioria se identificam como homens heterossexuais, apresentando uma performance feminina apenas quando est\u00e3o vestidos de mulher. Seus principais informantes eram integrantes do Brazilian Crossdresser Club. Diferentemente de Leandro de Oliveira, cuja pesquisa foi feita em um contexto de <I>crossdressers<\/I> homossexuais.<BR>  <P>&ldquo;As <I>crossdressers<\/I> que pesquisei n\u00e3o se v\u00eaem como mulheres e n\u00e3o reivindicam a identidade de mulher para si&rdquo;, explica Vencato. &ldquo;A montagem delas \u00e9 contingencial, tempor\u00e1ria e, preferencialmente, secreta. Assim, diferentes de outros grupos, como as mulheres transexuais, elas n\u00e3o buscam reconhecimento social como mulheres. A maior parte das <I>crossdressers<\/I>, inclusive, n\u00e3o quer que este lado de sua vida seja publicizado. Assim, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o n\u00e3o-reconhecimento p\u00fablico do fato de que &lsquo;se montam&rsquo; \u00e9 at\u00e9 desej\u00e1vel para a maior parte das pessoas que praticam <I>crossdressing<\/I> com que conversei. H\u00e1 de se considerar, contudo, que as interlocutoras de minha pesquisa apreciam quando conseguem &lsquo;passar por mulher&rsquo;. De qualquer modo, a &lsquo;passabilidade&rsquo; tem mais rela\u00e7\u00e3o com o sucesso da &lsquo;montagem&rsquo; realizada do que propriamente com o fato de se identificarem como mulheres&rdquo;, diz a pesquisadora.<BR>  <P>Trata-se, como se v\u00ea, de uma pr\u00e1tica em si mesma contingente, transit\u00f3ria &ndash; e que, no cotidiano, pode traduzir-se de formas diferentes, plurais. Em sua pesquisa, Leandro de Oliveira conversou com pessoas de camadas populares que, apesar de praticantes do <I>crossdressing<\/I>, n\u00e3o se classificavam como <I>crossdressers<\/I>, e sim como gays ou &ldquo;bichas-boys&rdquo;. &ldquo;Atrair um parceiro considerado &lsquo;masculino&rsquo;, um &lsquo;homem de verdade&rsquo;, pode ser uma forma pela qual um jovem gay (ou &lsquo;bicha-boy&rsquo;) que usa roupas femininas na boate confirma e reitera sua auto-imagem &lsquo;feminina&rsquo;&rdquo;, assinala Oliveira. &ldquo;Algumas &lsquo;bichas-boy&rsquo; que se &lsquo;montam&rsquo; podem se encontrar no momento inicial de uma trajet\u00f3ria de constru\u00e7\u00e3o da travestilidade, recorrendo posteriormente a transforma\u00e7\u00f5es corporais perdur\u00e1veis e intencionais e passando a se identificar como travestis&rdquo;, diz ele.<BR>  <P>De acordo com o pesquisador, uma &lsquo;bicha-boy&rsquo; que se envolve eroticamente com homens interessados somente por pessoas &lsquo;femininas&rsquo; desestabiliza a &ldquo;norma que vincula &lsquo;sexo&rsquo; biol\u00f3gico e g\u00eanero&rdquo;. Segundo Oliveira, &ldquo;essa demonstra\u00e7\u00e3o de &lsquo;masculinidade&rsquo; ou &lsquo;feminilidade&rsquo; que varia conforme a situa\u00e7\u00e3o evidencia que o &lsquo;g\u00eanero&rsquo; n\u00e3o \u00e9 um atributo dos indiv\u00edduos, mas um efeito produzido dentro de certas cenas sociais e de certas rela\u00e7\u00f5es.&rdquo; Oliveira conta que algumas travestis, antes de utilizarem horm\u00f4nios e aplica\u00e7\u00f5es de silicone para transformarem seus corpos, viam a si pr\u00f3prias como &lsquo;bichas-boy&rsquo; que &lsquo;se montavam&rsquo;, o que sugere que, caso elas parassem de recorrer a tais recursos (horm\u00f4nios, depila\u00e7\u00e3o etc.), poderiam acabar perdendo parte de sua apar\u00eancia feminina, levando-as novamente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de &ldquo;bicha-boy&rdquo;. Isto tudo, diz ele, torna evidente que &ldquo;a fronteira que distingue travestis e &lsquo;bichas-boy&rsquo; \u00e9 na verdade uma linha t\u00eanue que necessita de constante manuten\u00e7\u00e3o. Esta pluralidade de constru\u00e7\u00f5es evidencia que as fronteiras entre categorias precisam ser ativamente reiteradas, e que \u00e9 necess\u00e1rio um intenso trabalho para impedir que estes limites se borrem completamente&rdquo;.<BR>  <P>No entanto, a pr\u00f3pria pr\u00e1tica do <I>crossdressing<\/I> j\u00e1 constitui em si mesma um fator que em alguma medida ajudaria a borrar tais limites. A quest\u00e3o que se poderia colocar a partir desta constata\u00e7\u00e3o seria, ent\u00e3o, a de se o crossdressing conseguiria, no longo prazo, contribuir para redefinir alguns dos dispositivos e expectativas sociais que balizam as atuais concep\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Para Anna Paula Vencato, as <I>crossdressers<\/I> n\u00e3o estariam buscando &ldquo;questionar as categorias homem e mulher. De certo modo, o deslizamento entre uma coisa e outra implica em produ\u00e7\u00f5es de dois mundos bem delimitados. A mulher que produzem geralmente reifica certas id\u00e9ias sobre o que \u00e9 ser feminina em nossa sociedade. Assim, esta mulher &lsquo;de verdade&rsquo; que produzem implica em um cruzamento entre juventude, frivolidade e glamour. Embora para algumas <I>crossdressers<\/I> estar vestida de mulher baste por si s\u00f3, para outras \u00e9 preciso tornar-se uma mulher bela e, nesse caso, o padr\u00e3o de beleza acionado \u00e9 muito pr\u00f3ximo daquele dos editoriais de revistas femininas. O mesmo se d\u00e1 com os comportamentos e atitudes, em que a mulher interpretada \u00e9 delicada, fr\u00e1gil, sens\u00edvel, etc. ou, por outro lado, reproduzem os estere\u00f3tipos da mulher faceira. Nesse contexto, as <I>crossdressers<\/I> n\u00e3o exatamente questionam os padr\u00f5es de g\u00eanero, mas tentem a incorpor\u00e1-los e reproduzi-los em sua constru\u00e7\u00e3o de si&rdquo;, afirma Vencato.<BR>  <P>&ldquo;\u00c9 dif\u00edcil tra\u00e7ar progn\u00f3sticos&rdquo;, diz Leandro de Oliveira, &ldquo;mas creio que a visibilidade das pr\u00e1ticas de <I>crossdressing<\/I> tem sim um potencial bastante subversivo. A princ\u00edpio, eu diria que estas sinalizam, na verdade, para outros conjuntos de expectativas sociais &ndash; expectativas que representam, efetivamente, uma dissid\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 norma da heterossexualidade compuls\u00f3ria. A pr\u00e1tica de &lsquo;se montar&rsquo; com roupas do sexo oposto, na medida em que \u00e9 uma atividade coletiva, envolve a produ\u00e7\u00e3o de outras classifica\u00e7\u00f5es que fornecem par\u00e2metros alternativos para julgar a conduta sexual das pessoas. Neste sentido, o <I>crossdressing<\/I> pode representar ainda uma cr\u00edtica ao estere\u00f3tipo socialmente valorizado de uma homossexualidade masculina viril e discreta, e pode contribuir para uma pluraliza\u00e7\u00e3o das normas que regulam o g\u00eanero e a sexualidade, possibilitando \u00e0s pessoas um leque mais amplo e flex\u00edvel de alternativas na constru\u00e7\u00e3o de suas identidades&rdquo;, conclui.<BR>  <P>Leandro de Oliveira e Anna Paula Vencatto s\u00e3o autores dos artigos &ldquo;Diversidade sexual e trocas no mercado er\u00f3tico: g\u00eanero, intera\u00e7\u00e3o e subjetividade em uma boate na periferia do Rio de Janeiro&rdquo; e &ldquo;Negociando desejos e fantasias: corpo, g\u00eanero sexualidade e subjetividade em homens que praticam crossdressing&rdquo;, respectivamente, publicados no livro Prazeres Dissidentes (CLAM\/Editora Garamond), organizado por Maria Elvira D\u00edaz-Benitez e Carlos Eduardo F\u00edgari. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Los antrop\u00f3logos Anna Paula Vencato y Leandro de Oliveira analizan las particularidades que definen um g\u00e9nero y reflexionan sobre la pr\u00e1ctica del crossdressing, una expresi\u00f3n de la identidad de g\u00e9nero que resiste estereotipos. <I>(Texto en portugu\u00e9s)<\/I><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-508","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-clam"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Deslizamientos de g\u00e9nero - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/deslizamientos-de-genero\/508\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Deslizamientos de g\u00e9nero - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Los antrop\u00f3logos Anna Paula Vencato y Leandro de Oliveira analizan las particularidades que definen um g\u00e9nero y reflexionan sobre la pr\u00e1ctica del crossdressing, una expresi\u00f3n de la identidad de g\u00e9nero que resiste estereotipos. 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