{"id":551,"date":"2010-07-21T00:00:00","date_gmt":"2010-07-21T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2010\/07\/21\/que-hacer\/"},"modified":"2010-07-21T00:00:00","modified_gmt":"2010-07-21T03:00:00","slug":"que-hacer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/que-hacer\/551\/","title":{"rendered":"\u00abQu\u00e9 hacer?\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Em palestra no CLAM, em outubro de 2008, o psic\u00f3logo norte-americano James T. Sears, professor do programa <I>on line <\/I>de mestrado e doutorado em Educa\u00e7\u00e3o da Penn State University (EUA), examinou pesquisas sobre o tema da viol\u00eancia psicol\u00f3gica e f\u00edsica exercida sistematicamente por alunos sobre outros alunos nas escolas, quando esta \u00e9 relacionada \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o por orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero. &ldquo;Se casos de <I>bullying <\/I>acontecem nas escolas muito mais frequentemente do que imaginamos, uma parte significativa desses casos \u00e9 de <I>bullying <\/I>homof\u00f3bico&rdquo;, sustentou o pesquisador.<BR>  <P>Jefferson Lessa mora em um bairro da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Identifica-se como um gay de meia-idade. Em texto-desabafo publicado na edi\u00e7\u00e3o de domingo do jornal O GLOBO (Ed. 18\/07\/2010), afirma estar sendo v\u00edtima dessa mesma viol\u00eancia psicol\u00f3gica de forma sistem\u00e1tica, mas n\u00e3o na escola, e sim em sua vizinhan\u00e7a. Abaixo selecionamos alguns trechos do texto publicado pelo jornal:<BR>  <P><I>&ldquo;Na semana em que a Argentina aprova o casamento gay, pe\u00e7o licen\u00e7a para relatar uma historinha banal. Moro num bairro apraz\u00edvel e &lsquo;tranquilo&rsquo;, sonho de consumo de dez entre dez cariocas. (&#8230;) De um tempo para c\u00e1, por motivos que me s\u00e3o alheios, alguns playboys deram de gritar &lsquo;veaaaaaado!!!&rsquo; quando me veem na rua. Outro dia, derrubaram minha pasta no ch\u00e3o. Numa noite anterior, rolou um inesperado banho de u\u00edsque com Redbull no casaco novo&#8230; Depois disso, a cal\u00e7ada ficou mais longa que uma maratona. Chegar \u00e0 varanda torna-se uma decis\u00e3o pesada, dif\u00edcil de tomar. A pasta, o cheiro do u\u00edsque com Redbull&#8230; Dif\u00edcil. Como voc\u00eas podem ver, trata-se de uma hist\u00f3ria de bullying, a palavra do momento. Seria s\u00f3 mais uma, n\u00e3o fosse o caso de atingir um certo cara no auge da meia-idade. Eu. Nunca havia passado por isso antes. E n\u00e3o pretendia experimentar agora. Mas aconteceu &mdash; fazer o qu\u00ea? Penso em v\u00e1rias &lsquo;solu\u00e7\u00f5es&rsquo;. A mais radical \u00e9 mudar de bairro. Deixar para tr\u00e1s uma casa que adoro e que montei aos poucos, no ritmo que o sal\u00e1rio aguado permitiu. Deixar para tr\u00e1s, tamb\u00e9m, um pr\u00e9dio no qual fiz amigos. \u00c9 uma &lsquo;solu\u00e7\u00e3o&rsquo; penosa e triste, creio. Faz com que eu me sinta covarde, pequeno, sujo, miser\u00e1vel. A outra &lsquo;solu\u00e7\u00e3o&rsquo; \u00e9 sugerida por amigos, que perguntam: &lsquo;Por que voc\u00ea n\u00e3o denuncia? Por que n\u00e3o procura a pol\u00edcia?&rsquo; Simplesmente porque n\u00e3o vivo dentro de um epis\u00f3dio de &lsquo;Law &amp; order: Special Victims Unit&rsquo;, a genial s\u00e9rie americana que ficcionaliza o cotidiano da unidade de elite da pol\u00edcia novaiorquina especializada na investiga\u00e7\u00e3o de crimes de natureza sexual. Se eu tivesse a certeza de que meu &lsquo;caso&rsquo; seria tratado pelos detetives Stabler e Benson, correria para a delegacia mais pr\u00f3xima. Na maior confian\u00e7a. Como todos sabemos, n\u00e3o \u00e9 bem o caso por aqui&rdquo;.<\/I>  <P>Segundo James Sears, al\u00e9m da psicologia do agressor, o <I>bullying <\/I>n\u00e3o \u00e9 apenas uma conduta individual anti-social, mas \u00e9 sustentado em opini\u00f5es amplamente difundidas e se trata de um mecanismo chave na reprodu\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias preconceituosas sobre o g\u00eanero e a sexualidade. &ldquo;Quem mais sofre <I>bullying <\/I>s\u00e3o as pessoas que se apresentam como desviantes em termos de sexualidade&rdquo;, afirmou o pesquisador. Sears destacou que pesquisas feitas em diferentes pa\u00edses mostram padr\u00f5es similares ao de um estudo realizado no Brasil no qual um em cada sete alunos afirmou preferir n\u00e3o ter um colega de classe homossexual.<BR>  <P>Para o pesquisador norte-americano, &ldquo;o <I>bullying <\/I>n\u00e3o deve ser entendido como algo necessariamente f\u00edsico&rdquo;. De modo an\u00e1logo aos xingamentos do qual o colunista do Globo foi v\u00edtima, &ldquo;a picha\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a ideia de que o lugar p\u00fablico \u00e9 um espa\u00e7o heterossexual e que ningu\u00e9m deve se comportar de maneira diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade. Ao deixar que a picha\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica permane\u00e7a em suas instala\u00e7\u00f5es, como nos banheiros masculino e feminino, a escola acaba por ensinar a heterossexualidade e por refor\u00e7ar a heterodoxia sexual e de g\u00eanero. O recado serve para demarcar um territ\u00f3rio de toler\u00e2ncia para a homofobia&rdquo;, ressaltou Sears.<BR>  <P><I>&ldquo;Fazer o que?&rdquo;<\/I>, questiona-se em certa altura Jefferson Lessa. O problema enfrentado por Lessa &ndash; e por muitos &ndash; chega ao conhecimento p\u00fablico uma semana depois de o governo do Rio de Janeiro ter inaugurado o mais importante produto do festejado programa Rio sem Homofobia: o Centro de Refer\u00eancia e Promo\u00e7\u00e3o da Cidadania LGBT, local onde a popula\u00e7\u00e3o de gays, l\u00e9sbicas, bissexuais e pessoas trans poder\u00e3o encontrar atendimento legal e psico-social (o Centro conta com advogados, psic\u00f3logos e assistentes sociais) quando v\u00edtimas de discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia (seja ela verbal ou f\u00edsica). Projeto talvez at\u00e9 superior a um <I>&lsquo;Law &amp; order: Special Victims Unit&rsquo;<\/I>. Al\u00e9m disso, a popula\u00e7\u00e3o LGBT do Rio de Janeiro tamb\u00e9m conta atualmente com mecanismos de den\u00fancia inexistentes em um passado recente: a categoria &ldquo;homofobia&rdquo; pode tamb\u00e9m aparecer nos boletins de ocorr\u00eancia (B.O.) da pol\u00edcia civil como motiva\u00e7\u00e3o para qualquer crime. A medida tamb\u00e9m faz parte do pacote de iniciativas inaugurado pelo programa Rio sem Homofobia.<BR>  <P>O comportamento dos &ldquo;playboys&rdquo; citados no texto de Lessa n\u00e3o chega a surpreender pois, sabe-se, se a cidade do Rio de Janeiro &ndash; embora conhecida mundialmente como <EM>gay friendly<\/EM> &ndash; precisa de um programa chamado &ldquo;Rio sem Homofobia&rdquo; \u00e9 por que a discrimina\u00e7\u00e3o e o preconceito por orienta\u00e7\u00e3o sexual persistem. Mas como interpretar a pr\u00e1tica do <EM>bullying <\/EM>quando esta n\u00e3o acontece exatamente no ambiente escolar, para onde aponta a grande maioria das aten\u00e7\u00f5es e estudos concernentes ao problema?<BR>  <P>H\u00e1 cinco anos, os resultados da <U><a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=3582&amp;sid=58\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pesquisa Pol\u00edtica, Direitos, Viol\u00eancia e Homossexualidade <\/A><\/U>(CLAM\/CESeC), realizada durante a 9\u00aa Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, trouxeram \u00e0 tona dados impressionantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia sofridas por gays, l\u00e9sbicas, bissexuais e transg\u00eaneros no ambiente familiar, na escola, no trabalho e em locais p\u00fablicos, como a experimentada por Lessa. Um dado: 22% dos respondentes tinham entre 30 e 39 anos, enquanto 19,4% revelaram idade superior a 40, possivelmente a faixa et\u00e1ria em que Lessa se enquadra.<BR>  <P>De acordo com a pesquisa, o c\u00edrculo de amigos e vizinhos era citado como o campe\u00e3o em discrimina\u00e7\u00e3o &ndash; 33,5% dos gays, l\u00e9sbicas, pessoas trans e bissexuais entrevistados disseram ter sido discriminados neste ambiente, enquanto 27% apontaram o ambiente familiar. A discrimina\u00e7\u00e3o nas escolas e universidades, por parte de professores e colegas vinha logo em seguida, com uma incid\u00eancia de 26,8%. Os ambientes religiosos (20,6%) e de lazer (18%) vinham num segundo bloco, seguidos pelas discrimina\u00e7\u00f5es no ambiente de trabalho (11,7%) e no atendimento na \u00e1rea de sa\u00fade (11,1%).<BR>  <P>Entretanto, foram as agress\u00f5es verbais citadas como as que mais atingem a comunidade de l\u00e9sbicas, gays, bissexuais e trans &ndash; o estudo indicou uma incid\u00eancia de 55,4%, o que significa que mais da metade dos entrevistados j\u00e1 tinham sido v\u00edtimas de xingamentos, humilha\u00e7\u00f5es verbais ou amea\u00e7as. Para os autores da pesquisa, as agress\u00f5es verbais s\u00e3o expressivas da &ldquo;dissemina\u00e7\u00e3o cultural da homofobia&rdquo;. &ldquo;Aparentemente, as san\u00e7\u00f5es sociais e legais para ofensas de natureza sexual n\u00e3o t\u00eam sido suficientemente fortes para impedirem a homofobia que se generaliza atrav\u00e9s da palavra&rdquo;, ressaltam em um trecho do relat\u00f3rio.<BR>  <P>Curiosamente, o n\u00edvel alarmante de ofensas verbais convive com um ambiente de toler\u00e2ncia e valoriza\u00e7\u00e3o da homossexualidade, no momento em que a cidade acolhe e ap\u00f3ia paradas que re\u00fanem milhares de gays, l\u00e9sbicas e travestis, e inaugura aparelhos do Estado protetivos dos direitos dessa popula\u00e7\u00e3o. O maior problema, no entanto, tamb\u00e9m apontado pelo estudo do CLAM\/CESeC, era o desconhecimento do pr\u00f3prio segmento em rela\u00e7\u00e3o aos seus direitos. Ao serem perguntados sobre leis que beneficiam os (as) homossexuais, entre os participantes, 50.1% disseram conhecer a exist\u00eancia de lei, aprovada ou em discuss\u00e3o, no Rio ou no Brasil, que proteja os homossexuais. No entanto, uma propor\u00e7\u00e3o quase id\u00eantica (49.9%) disse n\u00e3o conhecer qualquer legisla\u00e7\u00e3o. A legisla\u00e7\u00e3o sobre parceria ou uni\u00e3o civil foi a mais lembrada (27.7%) entre as 206 men\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, embora esta nunca tenha sequer sido votada no pa\u00eds.<BR>  <P>Essa falta de informa\u00e7\u00e3o sobre servi\u00e7os a que procurar parece ser um dos maiores desafios do movimento LGBT: alcan\u00e7ar o segmento de forma eq\u00fcitativa e fazer chegar suas informa\u00e7\u00f5es a esta parcela da popula\u00e7\u00e3o, para que esta tome conhecimento dos servi\u00e7os existentes que t\u00eam \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. A visibilidade de conquistas locais, como a inaugura\u00e7\u00e3o do Centro de Refer\u00eancia de Promo\u00e7\u00e3o da Cidadania LGBT, tem de ser equivalente \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es como a da aprova\u00e7\u00e3o do matrim\u00f4nio gay pelo Senado argentino. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Columnista del peri\u00f3dico O GLOBO relata una experiencia de \u00abbullying\u00bb homof\u00f3bico sufrida en su vecindario, ubicado en un barrio de la zona sur de R\u00edo de Janeiro. El caso revela, por un lado, que la homofobia y los prejuicios persisten incluso en las clases sociales m\u00e1s altas y, por otro, que falta informaci\u00f3n dirigida al sector LGBT acerca de los servicios legales a los que tiene derecho. <EM>(Texto en portugu\u00e9s)<\/EM><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-clam"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>&quot;Qu\u00e9 hacer?&quot; - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/que-hacer\/551\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"&quot;Qu\u00e9 hacer?&quot; - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Columnista del peri\u00f3dico O GLOBO relata una experiencia de &quot;bullying&quot; homof\u00f3bico sufrida en su vecindario, ubicado en un barrio de la zona sur de R\u00edo de Janeiro. 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