{"id":552,"date":"2010-07-21T00:00:00","date_gmt":"2010-07-21T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2010\/07\/21\/historias-del-feminismo-en-brasil\/"},"modified":"2010-07-21T00:00:00","modified_gmt":"2010-07-21T03:00:00","slug":"historias-del-feminismo-en-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/historias-del-feminismo-en-brasil\/552\/","title":{"rendered":"Historias del feminismo en Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O ano era 1975 e um grupo de mulheres organizou na Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, a semana de debates intitulada \u00abO papel e o comportamento da mulher na realidade brasileira\u00bb, que reuniu uma plat\u00e9ia de mais de quatrocentos participantes e deu in\u00edcio ao Centro da Mulher Brasileira (CMB), primeira organiza\u00e7\u00e3o feminista no pa\u00eds. O encontro da ABI era conseq\u00fc\u00eancia organizada dos grupos de mulheres que, anos antes, come\u00e7aram a se reunir para conversar sobre o que ent\u00e3o se chamava &ldquo;condi\u00e7\u00e3o feminina&rdquo;, express\u00e3o comum \u00e0 \u00e9poca. A grande maioria dessas mulheres havia militado em partidos de esquerda, como o PCB &ndash; posto na clandestinidade pela ditadura em 1964 &ndash; ou em organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que naquele momento tentavam arregimentar a resist\u00eancia ao governo militar.<BR>  <P>Eram tempos dif\u00edceis, nos quais o direito de reuni\u00e3o estava suspenso e, para promover os debates, as mulheres circulavam com um salvo-conduto emitido pela ONU, que naquele 1975 promovia, no M\u00e9xico, a primeira Confer\u00eancia Internacional da Mulher, com a qual o encontro do Rio estava articulado. Com o documento internacional, as participantes tiveram garantia de imunidade. O mesmo 1975 foi tamb\u00e9m o ano da cria\u00e7\u00e3o do Movimento de Mulheres pela Anistia, cujo objetivo era denunciar as torturas do governo militar e pedir a volta dos exilados.<BR>  <P>Entre os in\u00fameros exilados estava a feminista Danda Prado, que trocou o Brasil pela Fran\u00e7a em 1971 depois de saber do seq\u00fcestro do deputado Rubens Paiva pelos policiais do DOI\/CODI\/RJ. Filha do intelectual <U><a href=\"http:\/\/www.al.sp.gov.br\/web\/acervo\/caio_prado\/Perfil_biografico\/perfil_biografico.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Caio Prado Jr.<\/A><\/U>, Danda sabia, desde a pris\u00e3o de seu pai, em 1964, que a repress\u00e3o estava chegando perto. Muito amiga do casal Paiva, considerou que o seq\u00fcestro de Rubem indicava que ela estava vulner\u00e1vel demais no Brasil.<BR>  <P>Foram 10 anos de ex\u00edlio na Fran\u00e7a, per\u00edodo no qual ela se aproximou de Simone de Beauvoir, cuja principal obra feminista, &ldquo;O Segundo Sexo&rdquo;, ela conhecia desde sua publica\u00e7\u00e3o, em 1949. As afinidades intelectuais e pol\u00edticas fizeram com que, em 1960, Danda tenha recebido o lend\u00e1rio casal Sartre-Simone em S\u00e3o Paulo para um jantar. Eles passaram dois meses no Brasil, visitaram Bras\u00edlia, Salvador, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, onde foram ciceroneados por Danda. A anfitri\u00e3 avisou aos dois filhos mais velhos, Claudia e Nelson: &ldquo;Voc\u00eas v\u00e3o conhecer hoje duas pessoas das quais voc\u00eas nunca se esquecer\u00e3o. Quando crescerem, v\u00e3o entender a import\u00e2ncia deles&rdquo;.<BR>  <P>Danda tamb\u00e9m nunca se esqueceu. Ao chegar em Paris, em 1971, voltou a se aproximar de Beauvoir, agora com o o objetivo de conseguir a publica\u00e7\u00e3o de um artigo de Caio Prado na revista &ldquo;La Nouvelle Question&rdquo;. Exilado depois de dois anos na pris\u00e3o por liderar a Alian\u00e7a Libertadora Nacional contra o Estado Novo de Get\u00falio Vargas, ele havia sido militante do Partido Comunista Franc\u00eas nos anos 1930, e Danda integrava, levada pela madrasta, Nena, a Federa\u00e7\u00e3o de Mulheres do Partido Comunista Brasileiro.<BR>  <P>Beauvoir, que em 1974 fundaria a Liga dos Direitos das Mulheres, apresentou Danda a sua assistente, Anne Zelensky, a quem a brasileira acompanharia nas reuni\u00f5es sobre legaliza\u00e7\u00e3o do aborto e viol\u00eancia contra mulheres. Danda integrou o grupo das mulheres casadas, embora j\u00e1 estivesse separada desde o final dos anos 1960. O tema do casamento foi parar na sua tese de doutorado e no seu livro &ldquo;Ser Esposa &ndash; A Mais Antiga Profiss\u00e3o&rdquo; (Brasiliense, 1979), em que discute quest\u00f5es da subordina\u00e7\u00e3o da mulher. Em 1972, Danda formou o Grupo Latino-Americano das Mulheres em Paris e passou a reunir brasileiras e latino-americanas que moravam na cidade. O grupo cresceu a partir de encontros para discuss\u00e3o de temas como sexualidade, aborto, emancipa\u00e7\u00e3o, e para troca de experi\u00eancias entre as suas integrantes.<BR>  <P>Foi com uma troca de experi\u00eancias, mem\u00f3rias e hist\u00f3rias do passado que um grupo de mulheres se reuniu no \u00faltimo s\u00e1bado, 10, em torno de Danda Prado. A inten\u00e7\u00e3o era comemorar e lembrar os 35 anos do marco inaugural da segunda onda do feminismo no pa\u00eds, o encontro na ABI. Organizado pelas feministas Madalena Guilhon, Maria Jos\u00e9 de Lima, Rita de C\u00e1ssia Lima Andr\u00e9a e Rosane Reis Lavigne, esta \u00faltima tamb\u00e9m a anfitri\u00e3, a noite foi de reencontros.<BR>  <P>Acompanhada das duas filhas, Claudia e Carla, e das netas Juliana e Nat\u00e1lia, Danda esteve no centro das aten\u00e7\u00f5es como uma das figuras aglutinadoras do movimento feminista dos anos 1970\/1980, quando ela voltou ao Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro. A grande maioria das cerca de 50 convidadas deu depoimentos que relatavam o engajamento no movimento feminista como um marco divis\u00f3rio nas suas vidas. Para muitas, o encontro com Danda, que s\u00f3 voltou de Paris no in\u00edcio dos anos 1980, vem depois. A advogada Comba Marques, por exemplo, j\u00e1 era militante pol\u00edtica desde os anos 1960, quando se filiou ao PCB. Foi a partir do encontro da ABI, em 1975, que ela se identificou com a causa da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, que passou a defender.<BR>  <P>Comba \u00e9 uma das muitas militantes que foi levada para o movimento feminista a partir da percep\u00e7\u00e3o de que os debates pol\u00edticos no partido eram insuficientes para discutir a &ldquo;condi\u00e7\u00e3o da mulher&rdquo;. &ldquo;As quest\u00f5es das mulheres s\u00f3 seriam resolvidas depois da revolu\u00e7\u00e3o&rdquo;, lembra Danda, que dividiu as homenagens da noite com a enfermeira Maria Jos\u00e9 Lima. As duas se conheceram em Paris nos anos 1970 e foram, durante pelo menos duas d\u00e9cadas, impulsionadoras da segunda onda do feminismo no Brasil. &ldquo;A minha vida se divide entre antes e depois da Danda&rdquo;, reconheceu Zez\u00e9, uma feminista hist\u00f3rica cuja milit\u00e2ncia na \u00e1rea da sa\u00fade da mulher tem sido de grande import\u00e2ncia. Autora de &ldquo;<U><a href=\"http:\/\/ojs.c3sl.ufpr.br\/ojs2\/index.php\/cogitare\/article\/view\/4678\/3627\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O que \u00e9 a enfermagem<\/A><\/U>&rdquo;, ela conta que o livro foi escrito por decis\u00e3o de Danda, que o editou na Brasiliense. &ldquo;A id\u00e9ia foi dela, eu nunca teria pensado nisso sozinha&rdquo;, admite.<BR>  <P>Juntas, as duas mobilizaram as mulheres ao longo da d\u00e9cada de 1980 em torno dos temas mais candentes de ent\u00e3o: a viol\u00eancia contra as mulheres e o direito ao aborto. No primeiro caso, foi o assassinato de \u00c2ngela Diniz por Doca Street que levou as mulheres para as ruas. No primeiro julgamento, o advogado de defesa, Evandro Lins e Silva, alegou &ldquo;<U><a href=\"http:\/\/www.portaljuridicoempresarial.com.br\/granjung\/grancau27.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">leg\u00edtima defesa da honra<\/A><\/U>&rdquo; e conseguiu que Doca fosse condenado a apenas dois anos de pris\u00e3o, com direito a sursis. O julgamento foi anulado alguns anos depois e, no segundo j\u00fari, Doca foi condenado por homic\u00eddio.<BR>  <P>Tamb\u00e9m estavam presentes ao encontro de s\u00e1bado C\u00edcera Fernandes de Oliveira e sua filha, Jacilene, por quem Danda, Maria Jos\u00e9 e o movimento de mulheres se mobilizaram nos anos 1980. Gr\u00e1vida por conta de um estupro sofrido aos 14 anos, Jacilene pediu ajuda para realizar um aborto legal, mas a autoriza\u00e7\u00e3o s\u00f3 saiu quando ela j\u00e1 estava no sexto m\u00eas de gesta\u00e7\u00e3o. &ldquo;Era muito tarde para um aborto&rdquo;, lembrou Jacilene. A vida de C\u00edcera, imigrante nordestina e oper\u00e1ria, foi contada em livro a quatro m\u00e3os com Danda, e publicado pela Brasiliense, a editora fundada por seu pai e ainda hoje administrada por ela.<BR>  <P>Anos depois de assinar essa biografia, cujo objetivo era mostrar as dificuldades da vida de uma mulher pobre, \u00e9 a vez de Danda expor sua biografia. Sob orienta\u00e7\u00e3o da historiadora Margareth Rago (Unicamp), a pesquisadora de p\u00f3s-doutorado Susel Oliveira est\u00e1 partindo da biografia de Danda Prado para escrever a hist\u00f3ria da segunda onda do feminismo no Brasil (leia <U><a href=\"http:\/\/www.unicamp.br\/~aulas\/Revista_Aulas_Dossie_06_Foucault_e_as_esteticas_da_existencia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/A><\/U> o artigo &ldquo;Danda Prado: por uma est\u00e9tica feminista&rdquo; ).<BR>  <P>Todos os depoimentos foram gravados em v\u00eddeo pela cineasta Eunice Gutman, que pretende usar o material como ponto de partida para a produ\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio sobre o feminismo no Brasil. Nas cerca de cinco horas de fita gravadas h\u00e1 depoimentos como os da historiadora Rachel Soihet (UFF), ela tamb\u00e9m pesquisadora da hist\u00f3ria do feminismo no Brasil e da sua consolida\u00e7\u00e3o, como movimento pol\u00edtico, ao longo da d\u00e9cada de 1980, e da advogada Romy Medeiros, pioneira da causa das mulheres e autora do Estatuto da Mulher Casada. O texto \u00e9 um importante cap\u00edtulo na reforma jur\u00eddica pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres: promulgado em 1962, o estatuto revogou uma s\u00e9rie de dispositivos que tratavam a mulher como incapaz, dependendo da autoriza\u00e7\u00e3o do marido para exercer sua vida civil. &ldquo;N\u00f3s n\u00e3o pod\u00edamos viajar ou trabalhar sem a concord\u00e2ncia do marido&rdquo;, lembrou Romy.<BR>  <P>Situa\u00e7\u00e3o impens\u00e1vel para a jovem feminista Ana Paula Costa e Silva, ela tamb\u00e9m advogada, atuante na Defensoria P\u00fablica ao lado de Rosane Reis Lavigne. Em seu depoimento, ela se declarou como &ldquo;neta&rdquo; das feministas hist\u00f3ricas que, em muitos casos, ela s\u00f3 tinha tido oportunidade de conhecer em livros. Da fam\u00edlia de Danda, coube \u00e0 neta ca\u00e7ula, Nat\u00e1lia, dar o tom dos desafios do feminismo hoje: &ldquo;Na empresa em que eu trabalho, 90% dos diretores s\u00e3o homens. Isso a minha gera\u00e7\u00e3o vai ter que mudar&rdquo;.<BR>  <P>Ainda que a conversa com Danda tenha sido o mote para a promo\u00e7\u00e3o do primeiro encontro, as organizadoras pensam em repetir a experi\u00eancia e promover novas reuni\u00f5es que cumpram o papel de resgatar a import\u00e2ncia hist\u00f3rica do movimento feminista nas transforma\u00e7\u00f5es da sociedade brasileira. <\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encuentro en Rio de Janeiro celebra los 35 a\u00f1os de la semana de debates en la Asociaci\u00f3n Brasile\u00f1a de Prensa, marco de la segunda ola del feminismo en Brasil. 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