{"id":793,"date":"2006-08-30T00:00:00","date_gmt":"2006-08-30T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2006\/08\/30\/investigando-a-sexualidade\/"},"modified":"2006-08-30T00:00:00","modified_gmt":"2006-08-30T03:00:00","slug":"investigando-a-sexualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/investigando-a-sexualidade\/793\/","title":{"rendered":"Investigando a sexualidade"},"content":{"rendered":"<p>No dia 25 de agosto, os pesquisadores Juliet Richters (National Centre in HIV social research\/University of New South Wales, Austr\u00e1lia), Michel Bozon (INED\/Fran\u00e7a), Maria Luiza Heilborn (CLAM\/IMS\/UERJ)&nbsp;e Cristiane Cabral (CLAM\/UERJ) reuniram-se em torno do painel <I>Pesquisas Quantitativas em Sexualidade<\/I>. O painel foi coordenado por Regina Barbosa (Unicamp) e abordou resultados de pesquisas em sexualidade realizadas no Brasil, na Fran\u00e7a e na Austr\u00e1lia.<BR>  <P>Juliet Richters<BR>  <P>A pesquisadora australiana Juliet Richters apresentou dados da pesquisa <I>Sex in Australia<\/I>, iniciada em 2002, que enfocou a vida sexual dos australianos no s\u00e9culo 21. Atrav\u00e9s de entrevistas com 19.307 pessoas, o estudo levantou, entre outras quest\u00f5es, a idade que as pessoas iniciam sua vida sexual, suas concep\u00e7\u00f5es a respeito do tema, a freq\u00fc\u00eancia com que fazem sexo, (in)fidelidade, orienta\u00e7\u00e3o sexual, gravidez, e satisfa\u00e7\u00e3o sexual.<BR>  <P>&ldquo;Nos \u00faltimos 20 anos, houve uma diminui\u00e7\u00e3o no padr\u00e3o da moralidade sexual em nosso pa\u00eds. Observamos o crescimento de pr\u00e1ticas como o sexo oral nos relacionamentos. Mas a maior mudan\u00e7a na cultura sexual australiana, nos \u00faltimos anos, diz respeito ao fato de que as pessoas est\u00e3o casando mais tarde, embora tenham, atualmente, um n\u00famero maior de parceiros antes do casamento&rdquo;, iniciou.<BR>  <P>Segundo ela, embora a popula\u00e7\u00e3o australiana se mostre muito tolerante em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es como o aborto e a homossexualidade, s\u00e3o extremamente intolerantes com a infidelidade. &ldquo;Os resultados mostram que 78% dos entrevistados achavam errado uma rela\u00e7\u00e3o extra-conjugal. O que eu me perguntava era se essa s\u00e9rie de relacionamentos inst\u00e1veis n\u00e3o seria resultado da intoler\u00e2ncia com a infidelidade&rdquo;, observou Juliet.<BR>  <P>Ela ressaltou que a cultura sexual australiana \u00e9 bem diferente da americana, a qual \u00e9 normalmente sempre citada pela m\u00eddia mundial, e que o objetivo da pesquisa na Austr\u00e1lia era exatamente tratar&nbsp;o sexo como algo n\u00e3o excepcional.&nbsp;&ldquo;O estudo serviu para isso, na medida em que mostramos que este pode ser um assunto tratado numa pesquisa feita pelo telefone&rdquo;, disse ela.<BR>  <P>&ldquo;Nosso primeiro questionamento era se as pessoas dizem a verdade numa investiga\u00e7\u00e3o sobre sexo&rdquo;, lembrou. &ldquo;Eu diria que n\u00e3o, que eles n\u00e3o dizem a verdade o tempo todo&rdquo;.<BR>  <P>Segundo ela, as pesquisas feitas pelo telefone s\u00e3o mais f\u00e1ceis, porque as pessoas entrevistadas se sentem mais \u00e0 vontade para falar com algu\u00e9m que elas n\u00e3o est\u00e3o olhando face a face. Para ela, quanto mais longa a entrevista, menos as pessoas mentem. &ldquo;De maneira geral, as pessoas se recusam menos a falar de sexo do que de seus sal\u00e1rios&rdquo;, afirmou.<BR>  <P>O inqu\u00e9rito levantou ainda quest\u00f5es relativas \u00e0 Aids e \u00e0s doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis (DSTs).<BR>  <P>Os resultados do estudo podem ser acessados atrav\u00e9s do site <a href=\"http:\/\/www.latrobe.edu.au\/ashr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.latrobe.edu.au\/ashr<\/A><\/P> <P><BR> Michel Bozon<BR> <\/P> <P>O pesquisador franc\u00eas Michel Bozon fez uma revis\u00e3o cr\u00edtica das pesquisas quantitativas em sexualidade . &ldquo;N\u00e3o devemos esquecer que essas pesquisas n\u00e3o s\u00e3o ferramentas neutras e devem ser analisadas como um modo pelo qual se percebe que uma determinada popula\u00e7\u00e3o tem um problema e que precisa ser resolvido. Uma pesquisa contribui em construir e legitimar um sujeito social&rdquo;, disse ele.<BR>  <P>Bozon coordenou o <I>Estudo Cosecon: Comportamento Sexual no Cone Sul<\/I> &ndash; primeira pesquisa sobre sexualidade realizada no Chile depois do longo per\u00edodo sob o regime militar do ditador Augusto Pinochet &ndash; foi um dos organizadores da pesquisa <I>Gravidez na Adolesc\u00eancia: estudo multic\u00eantrico sobre jovens, sexualidade e reprodu\u00e7\u00e3o no Brasil<\/I> (Pesquisa GRAVAD) cujos resultados acabam de ser lan\u00e7ados no livro <I>O aprendizado da sexualidade<\/I> (CLAM\/Ed. Garamond\/Ed. Fiocruz), e coordenou a nova pesquisa francesa sobre sexualidade, realizada com 12 mil pessoas. &ldquo;O objeto sexualidade nunca \u00e9 o mesmo de uma \u00e9poca para outra, ou de um pa\u00eds para o outro. Por\u00e9m, h\u00e1 sempre um motivo que legitima a observa\u00e7\u00e3o&rdquo;, afirmou.<BR>  <P>O soci\u00f3logo franc\u00eas fez um relato hist\u00f3rico das pesquisas no campo. &ldquo;Embora n\u00e3o tenha sido o primeiro a realizar uma pesquisa quantitativa em sexualidade, Alfred Kinsey \u00e9 considerado como o pioneiro. Para ele, os estudos em sexualidade humana inscreviam-se no campo das ci\u00eancias naturais. O objetivo da investiga\u00e7\u00e3o <I>kinseyana<\/I> era dar uma descri\u00e7\u00e3o objetiva e exaustiva de toda a diversidade do comportamento sexual, sem restringir-se ao moralmente aceit\u00e1vel&rdquo;, observou Bozon.<BR>  <P>Bozon passou ent\u00e3o a uma segunda gera\u00e7\u00e3o de pesquisas quantitativas, realizadas no final da d\u00e9cada de 60 e in\u00edcio dos anos 70. &ldquo;A \u00e9poca era caracterizada pelas aspira\u00e7\u00f5es dos jovens adolescentes \u00e0 autonomia sexual. Essas pesquisas procuravam principalmente abordar a vida sexual habitual dos casamentos adultos, evidenciando uma diversifica\u00e7\u00e3o dos repert\u00f3rios sexuais, com perguntas sobre as pr\u00e1ticas e as posi\u00e7\u00f5es. Essas pesquisas tamb\u00e9m demonstravam um interesse nas pr\u00e1ticas homossexuais&rdquo;, lembrou.<BR>  <P>No final dos anos 80 e in\u00edcio dos 90, segundo ele, a emerg\u00eancia da Aids contribuiu para modificar a abordagem da sexualidade. &ldquo;Cabe destacar as pesquisas demogr\u00e1ficas em sa\u00fade, as da OMS sobre Aids e as pesquisas dos Estados Unidos, do Chile e do Brasil. Com uma nova vis\u00e3o e nova abordagem da sexualidade como um risco, nos afasta bastante da vis\u00e3o mais otimista da d\u00e9cada de 60. Neste per\u00edodo, n\u00e3o se observa mais o sexo como prazer ou como arte. A atividade sexual gera um risco. O objetivo, atrav\u00e9s dessas pesquisas, era avaliar se o sujeito se protegia. De um modo geral, essa pesquisas eram consideradas como um apoio a campanhas e a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica, para melhorar a preven\u00e7\u00e3o&rdquo;, disse.<BR>  <P>O pesquisador lembrou que, na virada do s\u00e9culo 20, surgiram as pesquisas quantitativas em sexualidade com uma caracter\u00edstica comum: tentar integrar o g\u00eanero \u00e0 sa\u00fade e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida para apresentar um mapa explicativo mais abrangente. Segundo ele, nessa nova gera\u00e7\u00e3o, a sexualidade \u00e9 definida de uma forma mais ampla e a no\u00e7\u00e3o de risco passa a ser utilizada de maneira mais pontual. &ldquo;O mais importante \u00e9 que se passou a contextualizar os comportamentos e a se entender sexualidade como uma produ\u00e7\u00e3o contextual. Por exemplo, os comportamentos sexuais n\u00e3o fazem sentido se n\u00e3o estiverem situados nas trajet\u00f3rias individuais. A investiga\u00e7\u00e3o em sexualidade tem que reconstruir o conjunto complexo dos elementos que se somam para constituir a experi\u00eancia sexual individual&rdquo;, relatou.<BR>  <P>Segundo ele, as pesquisas da \u00faltima gera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m procuram alcan\u00e7ar uma abordagem mais ampla da rela\u00e7\u00e3o sa\u00fade\/sexualidade. &ldquo;Pode-se estabelecer v\u00ednculos nos dois sentidos. O estado de sa\u00fade influencia a atividade sexual, por exemplo o diabetes, e, reciprocamente, a atividade sexual pode influenciar a sa\u00fade e o bem estar&rdquo;, finalizou.<BR>  <P>Maria Luiza Heilborn e Cristiane Cabral<BR>  <P>Representando Maria&nbsp;Luiza Heilborn, a&nbsp;pesquisadora Cristiane Cabral, mestre em Sa\u00fade Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS\/UERJ), apresentou o paper&nbsp;<I>Sexualidade e reprodu\u00e7\u00e3o juvenis no Brasil: em que contribuem para a sa\u00fade os inqu\u00e9ritos sobre sexualidade?<\/I>, de autoria de Maria Luiza Heilborn (CLAM\/IMS\/UERJ), tendo como base a pesquisa <I>Gravidez na Adolesc\u00eancia: estudo multic\u00eantrico sobre jovens, sexualidade e reprodu\u00e7\u00e3o no Brasil<\/I> (Pesquisa GRAVAD), realizada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal da Bahia (UFBa) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). &ldquo;Ao falar em sexualidade dos jovens, o objetivo da equipe GRAVAD era substituir um debate apaixonado por uma abordagem que priorizasse a compreens\u00e3o do processo de aprendizado da sexualidade e das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero nesta etapa da vida&rdquo;, disse ela.<BR>  <P>Segundo ela, o mote da pesquisa era mostrar que a sexualidade n\u00e3o se resume a pr\u00e1ticas ou comportamentos, mas enseja a opera\u00e7\u00e3o de diferentes articula\u00e7\u00f5es com diferentes dom\u00ednios sociais, sendo certamente o mais forte modo como se estruturam as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero em um determinado contexto. &ldquo;A sexualidade como dom\u00ednio social dependente de socializa\u00e7\u00e3o jamais \u00e9 a mesma em tempos e lugares distintos. O argumento desenvolvido a partir da Pesquisa GRAVAD \u00e9 o do cen\u00e1rio social e interrelacional &ndash; estruturado por prescri\u00e7\u00f5es de g\u00eanero &ndash; e crucial para a compreens\u00e3o do processo de passagem ao exerc\u00edcio da sexualidade com parceiro na atualidade&rdquo;, afirmou.<BR>  <P>A pesquisa GRAVAD constatou que a inicia\u00e7\u00e3o sexual acontece numa idade mediana de 16,2 anos&nbsp;para os rapazes e 17,8 anos para as mo\u00e7as e que a passagem \u00e0 sexualidade se realiza na maioria das vezes com o parceiro sendo experiente, apresentando um uso elevado de preservativo. &ldquo;Contrariamente ao senso comum, a gravidez na adolesc\u00eancia no pa\u00eds n\u00e3o ocorre num cen\u00e1rio de permissividade sexual&rdquo;, salientou a pesquisadora.<BR>  <P>Os resultados do estudo mostram uma rela\u00e7\u00e3o bem mais complexa entre gravidez na adolesc\u00eancia e evas\u00e3o escolar. &ldquo;Encontramos uma realidade freq\u00fcentemente ignorada no debate p\u00fablico acerca da gravidez na adolesc\u00eancia: a de que 40,2% das mo\u00e7as que engravidaram e tiveram filho j\u00e1 se encontravam fora da escola. Isto quer dizer que para tal parcela n\u00e3o \u00e9 a gravidez que as impede de uma maior escolariza\u00e7\u00e3o. No caso das m\u00e3es adolescentes, 27,6% interromperam temporariamente e 18,4% definitivamente seus estudos, no primeiro ano ap\u00f3s o nascimento do filho&rdquo;, citou ela.<BR>  <P>Cristiane terminou a exposi\u00e7\u00e3o ressaltando a import\u00e2ncia de uma investiga\u00e7\u00e3o como a GRAVAD dentro do contexto cultural brasileiro. &ldquo;Nosso intuito, ao complexificar o quadro da sexualidade e reprodu\u00e7\u00e3o juvenis, foi o de salientar que as desigualdades sociais se exprimem de maneira acentuada em espa\u00e7os que potencialmente seriam definidos como de escolha exclusivamente individual&rdquo;, finalizou.<\/P><\/I><\/I><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 25 de agosto, os pesquisadores Juliet Richters (National Centre in HIV social research\/University of New South Wales, Austr\u00e1lia), Michel Bozon (INED\/Fran\u00e7a), Maria Luiza Heilborn (CLAM\/IMS\/UERJ) e Cristiane Cabral (CLAM\/UERJ) reuniram-se em torno do painel <I>Pesquisas Quantitativas em Sexualidade<\/I>. 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