{"id":832,"date":"2012-08-15T00:00:00","date_gmt":"2012-08-15T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2012\/08\/15\/desafio-permanente\/"},"modified":"2012-08-15T00:00:00","modified_gmt":"2012-08-15T03:00:00","slug":"desafio-permanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/desafio-permanente\/832\/","title":{"rendered":"Desaf\u00edo permanente"},"content":{"rendered":"<p>Um momento de crise. Esta foi a avalia&ccedil;&atilde;o geral sobre o panorama atual da mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil que atua no campo da Aids e dos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil, durante a comemora&ccedil;&atilde;o pelos 25 anos da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), nos dias 8 e 9 de agosto. Problemas financeiros e de participa&ccedil;&atilde;o foram os principais diagn&oacute;sticos para o momento, em que se comemoram os 30 anos de confirma&ccedil;&atilde;o dos primeiros casos da infec&ccedil;&atilde;o pelo HIV.<\/p>\n<p>M&aacute;rio Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP, criticou a posi&ccedil;&atilde;o paradoxal do Brasil no campo da Aids. De acordo com ele, o cen&aacute;rio mundial tem apontado, nos &uacute;ltimos anos, para a proximidade da cura e da erradica&ccedil;&atilde;o da Aids. &ldquo;H&aacute;, de fato, uma esperan&ccedil;a cada vez maior sobre a possibilidade de encontrarmos a cura. No entanto, o Brasil encontra-se parado em rela&ccedil;&atilde;o a tais quest&otilde;es. O governo se omite de tratar a quest&atilde;o como deveria ser, com pol&iacute;ticas mais incisivas&rdquo;, afirmou. Pesquisa divulgada pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, no final de 2011, mostrou aumento em casos de infec&ccedil;&atilde;o pelo HIV entre homossexuais , travestis e mulheres jovens. Durante o carnaval deste ano, o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de recuou e tirou do ar uma pe&ccedil;a de campanha para preven&ccedil;&atilde;o que trazia um casal gay.<\/p>\n<p>&ldquo;O que tem feito o governo para enfrentar esta tend&ecirc;ncia? Omitir-se de tratar destas quest&otilde;es &eacute; um crime de sa&uacute;de p&uacute;blica, pois s&atilde;o popula&ccedil;&otilde;es diferentemente afetadas pela Aids, portanto, merecem medidas espec&iacute;ficas. &Eacute; uma quest&atilde;o de direito. Ao mesmo tempo em que faltam a&ccedil;&otilde;es, falta tamb&eacute;m qualidade nas iniciativas. A Rede Cegonha, por exemplo, que &eacute; o carro-chefe do governo para a sa&uacute;de das mulheres, n&atilde;o traz nada espec&iacute;fico sobre Aids. Al&eacute;m disso, o governo fica preso &agrave; quest&atilde;o da sa&uacute;de materno-infantil, quando a sa&uacute;de das mulheres &eacute; mais ampla. Sobre os testes r&aacute;pidos, o governo tem a inten&ccedil;&atilde;o de popularizar tais testes? N&atilde;o sabemos, pois h&aacute; uma falta de di&aacute;logo aguda com os movimentos sociais&rdquo;, apontou M&aacute;rio Scheffer.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, M&aacute;rio Scheffer afirmou que a crise atual tamb&eacute;m &eacute; uma crise da sociedade civil. &ldquo;De um lado, temos um governo que tem se omitido na quest&atilde;o da Aids, o que tem implicado, inclusive, em perda de compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica e de expertise de um pa&iacute;s que j&aacute; foi refer&ecirc;ncia mundial no tratamento da doen&ccedil;a. Do outro lado, h&aacute; uma diminui&ccedil;&atilde;o do protagonismo pol&iacute;tico da sociedade civil. N&atilde;o apenas as portas do governo est&atilde;o fechadas para n&oacute;s. Falta tamb&eacute;m pessoal do lado de c&aacute;. E, muitas vezes, sem gente n&atilde;o conseguimos pleitear e come&ccedil;ar projetos. &Eacute; uma crise de participa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, argumentou o presidente do Grupo pela Vidda-SP.<\/p>\n<p>K&aacute;tia Edmundo, diretora do Centro de Promo&ccedil;&atilde;o da Sa&uacute;de (CEDAPS), chamou a aten&ccedil;&atilde;o para a quest&atilde;o da Aids em contextos de pobreza. &ldquo;As pessoas negras e pobres, moradores de favelas, tamb&eacute;m constituem uma popula&ccedil;&atilde;o mais vulner&aacute;vel &agrave; infec&ccedil;&atilde;o. O contexto n&atilde;o favorece a sa&uacute;de. Elas est&atilde;o inseridas em um cen&aacute;rio de car&ecirc;ncias de servi&ccedil;os e direitos. Al&eacute;m disso, h&aacute; uma centralidade nas discuss&otilde;es da Aids sobre a pessoa soropositiva. No entanto, uma pessoa infectada n&atilde;o &eacute; apenas um indiv&iacute;duo isolado. Ela &eacute; uma pessoa com um n&iacute;vel de complexidade social significativo, por tudo o que implica em termos de rela&ccedil;&otilde;es interpessoais e com as institui&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o acionadas. H&aacute; uma din&acirc;mica cotidiana muito complexa, que exige a participa&ccedil;&atilde;o da sociedade civil para fazer frente aos desafios enormes que se apresentam&rdquo;, explicou K&aacute;tia Edmundo.<\/p>\n<p>A crise de mobiliza&ccedil;&atilde;o a que se referiu M&aacute;rio Scheffer foi avaliada por Roberto Chateaubriand, do Grupo de Apoio e Preven&ccedil;&atilde;o &agrave; Aids (Gapa-MG), como uma consequ&ecirc;ncia dos espa&ccedil;os nos quais parte da sociedade civil optou por agir. &ldquo;Uma revis&atilde;o cr&iacute;tica do processo atual vai mostrar uma importante diferen&ccedil;a com o ativismo de 30 anos atr&aacute;s. Naquela &eacute;poca, a mobiliza&ccedil;&atilde;o era mais volunt&aacute;ria, alinhavada por compromissos pol&iacute;ticos auto-impostos. Apont&aacute;vamos as falhas do Estado na preven&ccedil;&atilde;o e na assist&ecirc;ncia aos infectados. Com o passar dos anos, as ONGs foram sendo tragadas para os financiamentos do Estado. O que era uma resposta da sociedade civil &agrave;s fraturas do poder p&uacute;blico tornou-se, rapidamente, uma experi&ecirc;ncia de presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o ao Estado. Perdemos o &iacute;mpeto de cr&iacute;tica e complementa&ccedil;&atilde;o do Estado. Ao inv&eacute;s de cobrar o governo, juntamo-nos a ele&rdquo;, avaliou Roberto Chateaubriand.<\/p>\n<p>Paulo Teixeira, ex-diretor do Programa Nacional de Aids e atual consultor do Programa Estadual de DST\/Aids de S&atilde;o Paulo, afirmou que a crise atual tamb&eacute;m &eacute; uma quest&atilde;o de financiamento. &ldquo;No cen&aacute;rio atual, a urg&ecirc;ncia acabou. N&atilde;o estamos mais em 2001, quando o Fundo Mundial de Combate &agrave; Aids foi criado na ONU. A cura est&aacute; na ordem do dia, parece que chegar&aacute; em n&atilde;o muitos anos. Mas a Aids n&atilde;o &eacute; uma coisa desimportante. E precisa de financiamentos. Os pa&iacute;ses pobres cresceram e, no xadrez geopol&iacute;tico Norte versus Sul, os pa&iacute;ses ricos acham que todos t&ecirc;m grana para bancar a preven&ccedil;&atilde;o e o tratamento. H&aacute; uma clara quest&atilde;o de autoritarismo na geopol&iacute;tica que desconsidera que pa&iacute;ses que cresceram n&atilde;o resolveram seus problemas. Pelo contr&aacute;rio, a desigualdade de renda e a pobreza s&atilde;o fatos reais, que est&atilde;o implicados na transmiss&atilde;o e devem ser ponderados para as estrat&eacute;gias de preven&ccedil;&atilde;o e combate. Mais do que nunca, cabe &agrave; sociedade civil fortalecer e incrementar sua atua&ccedil;&atilde;o&rdquo;, exortou Paulo Teixeira.<\/p>\n<p>A atua&ccedil;&atilde;o das entidades civis deve ser, segundo Francisco Pedrosa, presidente do Grupo de Resist&ecirc;ncia Asa Branca (GRAB), de cr&iacute;tica e proposi&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Experimentamos nos &uacute;ltimos anos as Confer&ecirc;ncias de discuss&atilde;o sobre tem&aacute;ticas caras &agrave; sociedade. No entanto, n&atilde;o &eacute; apenas por esse canal que as coisas se ajeitam ou se resolvem. &Eacute; preciso mais, e na quest&atilde;o do HIV precisamos refletir, criticar e propor ao poder p&uacute;blico que atue em prol dos direitos civis, da sa&uacute;de, da dignidade. O Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de (SUS) precisa ser o nosso norte atua&ccedil;&atilde;o, para que seja poss&iacute;vel pressionar as autoridades e faz&ecirc;-las agir corretamente&rdquo;, afirmou Francisco Pedrosa.<\/p>\n<p>Veriano Terto, coordenador-geral da ABIA, refor&ccedil;ou a import&acirc;ncia do ativismo e das ONGs. &ldquo;S&atilde;o atua&ccedil;&otilde;es que d&atilde;o um retorno &agrave; sociedade. As ONGs s&atilde;o espa&ccedil;os de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento. Elas t&ecirc;m a miss&atilde;o de produzir informa&ccedil;&atilde;o, consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica. S&atilde;o entidades que devem primar pela criatividade e pela ousadia, pois dessa forma ir&atilde;o produzir experi&ecirc;ncia e li&ccedil;&otilde;es. Ir&atilde;o intervir nos processos sociais, em prol da cidadania&rdquo;, concluiu.&nbsp;<\/p>\n<p> <b><i>Betinho<\/i><\/b><\/p>\n<p>Os participantes do semin&aacute;rio da Abia tamb&eacute;m falaram sobre o legado do soci&oacute;logo Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), importante ativista brasileiro e um dos fundadores da Abia. Para o soci&oacute;logo C&acirc;ndido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de An&aacute;lises Sociais e Econ&ocirc;micas (Ibase), o papel de Betinho &ndash; tamb&eacute;m um dos fundadores da institui&ccedil;&atilde;o &#8211; no campo dos direitos humanos foi de fundamental import&acirc;ncia no contexto do avan&ccedil;o da epidemia de Aids no pa&iacute;s. &ldquo;A atua&ccedil;&atilde;o dele foi acima de tudo voltada para a quest&atilde;o da cidadania. Cidadania como constituinte da sociedade, como elemento de emancipa&ccedil;&atilde;o social. A democracia, para o Betinho, era um m&eacute;todo de constru&ccedil;&atilde;o n&atilde;o por parte do Estado, mas um m&eacute;todo de constru&ccedil;&atilde;o no qual os movimentos sociais deveriam ser parte fundamental do processo&rdquo;, observou.<\/p>\n<p>Para o soci&oacute;logo Luiz Alberto Gomes de Souza, da Universidade C&acirc;ndido Mendes e colega de Betinho durante d&eacute;cadas, o amigo sempre foi um insatisfeito. &ldquo;O Betinho tinha como marca a inquietude. Isso servia de est&iacute;mulo para que ele atuasse em benef&iacute;cio da democracia e dos direitos. As organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais (ONGs) eram uma forma de tocar a agenda cidad&atilde;, alimentando o pr&oacute;prio processo democr&aacute;tico que, para ele, era marcado pela insatisfa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, afirmou Luiz Alberto Gomes de Souza, que, no entanto, lamentou que, nos dias atuais, a conjuntura n&atilde;o seja das mais favor&aacute;veis para a atua&ccedil;&atilde;o das ONGs.<\/p>\n<p>Veriano Terto, coordenador-geral da ABIA, falou sobre a import&acirc;ncia de Betinho diante da onda inicial da Aids, nos anos 1980. &ldquo;Ele buscou indicar os contornos e as dimens&otilde;es sociais da epidemia. A infec&ccedil;&atilde;o &eacute; algo mais complexo do que um diagn&oacute;stico ou defini&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica. &Eacute; um evento que envolve diversos &acirc;mbitos da sociedade. Betinho trouxe para a agenda p&uacute;blica a perspectiva dos direitos humanos articulada &agrave; epidemia&rdquo;, afirmou Veriano Terto, que tamb&eacute;m lamentou o que considera como retrocessos no campo da Aids, sobretudo com a rela&ccedil;&atilde;o burocratizada entre sociedade civil e Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seminario conmemorativo de los 25 a\u00f1os de la Asociaci\u00f3n Brasile\u00f1a Interdisciplinar de Sida (ABIA) se\u00f1ala que la sociedad civil que act\u00faa en el campo de la enfermedad enfrenta obst\u00e1culos, como falta de movilizaci\u00f3n, escasez de financiamiento y cooptaci\u00f3n por el Estado. 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