{"id":882,"date":"2013-04-18T00:00:00","date_gmt":"2013-04-18T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2013\/04\/18\/contornos-de-la-intolerancia\/"},"modified":"2013-04-18T00:00:00","modified_gmt":"2013-04-18T03:00:00","slug":"contornos-de-la-intolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/contornos-de-la-intolerancia\/882\/","title":{"rendered":"Contornos de la (in)tolerancia"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil tem assistido ao embate p&uacute;blico entre segmentos religiosos e movimentos sociais em torno da pauta dos direitos sexuais. O panorama op&otilde;e, de um lado, setores que se manifestam contr&aacute;rios, baseados em conte&uacute;dos doutrin&aacute;rios, &agrave;s pr&aacute;ticas e &agrave;s orienta&ccedil;&otilde;es sexuais e identidades de g&ecirc;nero n&atilde;o tradicionais, tais como a homossexualidade e os fen&ocirc;menos transg&ecirc;neros. O discurso tem sido direcionado n&atilde;o apenas para a perspectiva abstrata, dos valores morais, mas tamb&eacute;m para os espa&ccedil;os pol&iacute;ticos de defini&ccedil;&atilde;o de leis e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, interferindo no tr&acirc;mite de projetos e no encaminhamento de a&ccedil;&otilde;es governamentais. Do outro lado, movimentos de direitos humanos, apoiados por artistas e intelectuais, mobilizam-se contra o que entendem como uma articula&ccedil;&atilde;o indevida: pol&iacute;tica e religi&atilde;o. Em jogo, uma esp&eacute;cie de guerra cultural em que a coexist&ecirc;ncia das diferen&ccedil;as mostra-se conflituosa, jogando luz sobre os limites muitas vezes borrados entre a toler&acirc;ncia e o discurso de &oacute;dio.<\/p>\n<p>A ocupa&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os por parlamentares que representam segmentos religiosos &#8211; especialmente a bancada evang&eacute;lica &#8211; da sociedade brasileira tem sido destaque na m&iacute;dia, sobretudo ap&oacute;s a elei&ccedil;&atilde;o do deputado Marco Feliciano, pastor evang&eacute;lico, para a presid&ecirc;ncia da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos e Minorias da C&acirc;mara, em mar&ccedil;o. O fato desatou uma onda de protestos contra afirma&ccedil;&otilde;es do parlamentar a respeito de relacionamentos gays, Aids, negros e mulheres. De acordo com o congressista, em mensagens postadas h&aacute; algum tempo na internet, &ldquo;a podrid&atilde;o dos sentimentos homoafetivos leva ao &oacute;dio, ao crime, &agrave; rejei&ccedil;&atilde;o&rdquo; e &ldquo;africanos descendem de ancestral amaldi&ccedil;oado por No&eacute;. Isso &eacute; fato&rdquo;. Al&eacute;m disso, ele tamb&eacute;m tinha se manifestado associando a Aids a uma doen&ccedil;a gay.<\/p>\n<p>A conjuntura pol&iacute;tica atual tornou-se mais evidente ap&oacute;s a campanha presidencial de 2010, quando as articula&ccedil;&otilde;es entre religi&atilde;o e pol&iacute;tica foram postas em relevo como estrat&eacute;gia eleitoral. O aborto foi um tema fartamente explorado pela &oacute;tica conservadora, levando a ent&atilde;o candidata Dilma Rousseff a recuar em declara&ccedil;&otilde;es em que se manifestara a favor da legaliza&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica. Ap&oacute;s a vit&oacute;ria da candidata, a imers&atilde;o da pol&iacute;tica no campo do religioso preservou-se e tem adquirido contornos mais expressivos: campanhas de preven&ccedil;&atilde;o ao HIV\/Aids&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=9212&amp;sid=4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">foram canceladas<\/a>&nbsp;no carnaval de 2012, e o kit anti-homofobia, apoiado pela Unesco, teve sua&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?UserActiveTemplate=_BR&amp;from_info_index=11&amp;infoid=8170&amp;query=simple&amp;search_by_authorname=all&amp;search_by_field=tax&amp;search_by_headline=false&amp;search_by_keywords=any&amp;search_by_priority=all&amp;search_by_section=all&amp;search_by_state=all&amp;search_text_options=all&amp;sid=7&amp;text=kit\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">distribui&ccedil;&atilde;o suspensa<\/a>&nbsp;nas escolas em 2011.<\/p>\n<p>Estado constitucionalmente laico, o Brasil tem sido palco para um debate cada vez mais incitado: at&eacute; que ponto o casamento entre pol&iacute;tica e religi&atilde;o &eacute; leg&iacute;timo, especialmente na elabora&ccedil;&atilde;o de leis e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas? Em que medida a atividade religiosa parlamentar expressa valores que podem levar ao discurso de &oacute;dio e &agrave; intoler&acirc;ncia? A neutralidade das esferas pol&iacute;tico-institucionais ante aos discursos religiosos &eacute; poss&iacute;vel? Como, afinal, conciliar a liberdade religiosa com a universalidade dos direitos, a toler&acirc;ncia e a igualdade?<\/p>\n<p>A constitui&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da toler&acirc;ncia como ferramenta de organiza&ccedil;&atilde;o e conv&iacute;cio social envolve s&eacute;culos de reflex&atilde;o filos&oacute;fica e pol&iacute;tica. O movimento iluminista (s&eacute;culo XVIII) representou uma altera&ccedil;&atilde;o paradigm&aacute;tica para as sociedades Ocidentais, conferindo &agrave; racionalidade o papel de media&ccedil;&atilde;o dos desafios que se impunham &agrave; humanidade. O empirismo e o rigor metodol&oacute;gico tornaram-se elementos centrais para o pensamento moderno, concorrendo diretamente com os paradigmas religiosos e m&iacute;ticos para dar respostas e sentidos &agrave; realidade. A ci&ecirc;ncia, nesse sentido, surgia com a proposta de eliminar o conhecimento que n&atilde;o tivesse um fundamento verific&aacute;vel e prov&aacute;vel, visto como da ordem da supersti&ccedil;&atilde;o. Surgia tamb&eacute;m como um caminho que traria a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Na esteira do movimento iluminista, surgiram os esbo&ccedil;os do que viriam a ser as id&eacute;ias de direitos, igualdade e liberdade. Uma tentativa de fazer frente &agrave;s atrocidades perpetradas nos s&eacute;culos anteriores, em nome das mais variadas justificativas. A l&oacute;gica racional e cient&iacute;fica, no entanto, n&atilde;o foi suficiente para que discursos e pr&aacute;ticas de afirma&ccedil;&atilde;o e legitima&ccedil;&atilde;o das desigualdades surgissem, do que provam as proposi&ccedil;&otilde;es do racismo cientifico (s&eacute;culo XIX), que viam na biologia um argumento para a inferioridade supostamente natural dos negros.<\/p>\n<p>A pluralidade de discursos e ideologias, de diversas ordens, &eacute; uma marca das sociedades, em qualquer tempo. Para o fil&oacute;sofo e professor Ricardo Timm (PUC-RS), &ldquo;a reflex&atilde;o filos&oacute;fica se justifica, na contemporaneidade, essencialmente enquanto atividade que problematiza o v&aacute;cuo entre as promessas da Modernidade e a realidade que vivemos&rdquo;.<\/p>\n<p>A realidade atual, no contexto brasileiro, tem se mostrado conflituosa, em termos de discuss&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o de direitos de minorias. O deputado Marco Feliciano personifica o quadro de tens&otilde;es, evidenciando os contornos religiosos da ordem social e pol&iacute;tica no que tange &agrave; toler&acirc;ncia. A pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de toler&acirc;ncia, destaca Ricardo Timm, &eacute; um conceito moderno, que irrompe com vigor no contexto da tem&aacute;tica religiosa, mas que traz, para ele, um car&aacute;ter de negatividade ao evocar a no&ccedil;&atilde;o de que &ldquo;s&oacute; tolero o que, se pudesse escolher, n&atilde;o toleraria&rdquo;.<\/p>\n<p>Para Ricardo Timm, a no&ccedil;&atilde;o de toler&acirc;ncia pode ser repensada &agrave; luz das id&eacute;ias de Jacques Derrida, fil&oacute;sofo franc&ecirc;s que prop&ocirc;s o deslocamento para o conceito da hospitalidade. De acordo com o professor da PUC-RS, a categoria da toler&acirc;ncia &eacute; insuficiente para dar respostas aos fen&ocirc;menos da viol&ecirc;ncia que transcendem o estatuto da raz&atilde;o. &ldquo;A no&ccedil;&atilde;o de hospitalidade n&atilde;o sugere concess&atilde;o. Ela pressup&otilde;e que a rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma certeza de seguran&ccedil;a ou uma formalidade, mas uma facticidade inelut&aacute;vel que deriva do viver com outras singularidades que n&atilde;o s&atilde;o m&ocirc;nadas. A hospitalidade &eacute; a virtude social positiva, ou seja, o que sucede a toler&acirc;ncia&rdquo;, argumenta Ricardo Timm.<\/p>\n<p>A hospitalidade tem sido uma possibilidade vi&aacute;vel, no horizonte social brasileiro? Movimentos ligados aos direitos sexuais e reprodutivos t&ecirc;m se confrontado com segmentos religiosos, especialmente evang&eacute;licos, em torno de diversas tem&aacute;ticas que esperam, no Congresso e no Executivo, encaminhamentos legais e administrativos. No m&ecirc;s de mar&ccedil;o, o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/na-midia\/conteudo.asp?cod=10255\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">suspendeu a distribui&ccedil;&atilde;o<\/a>&nbsp;nas escolas de kits educativos sobre o HIV\/Aids voltados para adolescentes, o que gerou protestos de movimentos sociais sobre as raz&otilde;es da medida &ndash; que estaria ligada a n&atilde;o confronta&ccedil;&atilde;o com setores religiosos conservadores, j&aacute; que a elei&ccedil;&atilde;o presidencial &eacute; no pr&oacute;ximo ano e a popula&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica, especialmente, tem crescido significativamente no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Tramita ainda na C&acirc;mara dos Deputados projeto de decreto legislativo que objetiva sustar resolu&ccedil;&atilde;o do Conselho Federal de Psicologia que pro&iacute;be que profissionais da &aacute;rea articulem e implementem terapias de &ldquo;cura&rdquo; da homossexualidade. A homossexualidade n&atilde;o &eacute; considerada doen&ccedil;a pela Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de, organismo pol&iacute;tico mundial de refer&ecirc;ncia no campo da sa&uacute;de. A Psiquiatria tamb&eacute;m n&atilde;o classifica o desejo por pessoas do mesmo sexo como uma enfermidade. As Ci&ecirc;ncias Sociais, do mesmo modo, t&ecirc;m procurado demonstrar o car&aacute;ter cultural da experi&ecirc;ncia sexual, desvinculando-a de determinismos naturalizantes.<\/p>\n<p>O caso brasileiro, no entanto, traz &agrave; tona a opera&ccedil;&atilde;o de aproxima&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o que setores dogm&aacute;ticos t&ecirc;m buscado realizar. Durante audi&ecirc;ncia p&uacute;blica sobre o projeto, realizada no final de 2012, o pastor Silas Malafaia, cr&iacute;tico do que tem sido nomeado por tais setores como &ldquo;gayzismo&rdquo;, afirmou que &eacute; leg&iacute;timo um profissional de Psicologia tratar algu&eacute;m que n&atilde;o se sinta bem em uma condi&ccedil;&atilde;o e que, portanto, &ldquo;todo paciente adulto com sa&uacute;de mental tem direito a decidir sobre seu pr&oacute;prio corpo&rdquo;. O pastor foi defendido pelo deputado Marco Feliciano, cujo discurso tamb&eacute;m sustentou a l&oacute;gica da orienta&ccedil;&atilde;o sexual como um fen&ocirc;meno pass&iacute;vel abordagem m&eacute;dica. Diante dos protestos na audi&ecirc;ncia, o deputado lamentou a confus&atilde;o argumentando que a discuss&atilde;o era para um &ldquo;assunto cient&iacute;fico&rdquo; que precisaria de mais entendimentos.<\/p>\n<p>At&eacute; que ponto &eacute; poss&iacute;vel pensar na hospitalidade diante de proposi&ccedil;&otilde;es legais, baseadas em conte&uacute;dos religiosos, que se destinam a interferir nos direitos da popula&ccedil;&atilde;o LGBT? Estudo recente da advogada Rosa Oliveira mostrou que a atua&ccedil;&atilde;o dos tr&ecirc;s Poderes tem sido permeada, em boa medida, pela&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/destaque\/conteudo.asp?cod=10267\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">l&oacute;gica religiosa<\/a>. H&aacute; propostas, por exemplo, com o objetivo de impedir a ado&ccedil;&atilde;o por casais do mesmo sexo e de proibir a mudan&ccedil;a de nome para indiv&iacute;duos transexuais. A essencializa&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia sexual e de g&ecirc;nero, pela moral religiosa, expressa uma l&oacute;gica determinista: setores religiosos orientam-se por discursos tradicionais, recortando o mundo apenas pelas suas no&ccedil;&otilde;es de verdade. A defesa de categorias sociais e pressupostos inflex&iacute;veis, como a ideia de homem e mulher opostos no g&ecirc;nero e complementares na reprodu&ccedil;&atilde;o, tem pressionado o Estado brasileiro na sua tarefa de promover justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Para Ricardo Timm, &eacute; necess&aacute;rio que se desnaturalize as diferen&ccedil;as em todos os sentidos da palavra. &ldquo;Toda naturaliza&ccedil;&atilde;o tem levado ao que chamamos de &lsquo;folcloriza&ccedil;&atilde;o&rsquo; da diferen&ccedil;a, &agrave; sua domestica&ccedil;&atilde;o, &agrave; sua despotencializa&ccedil;&atilde;o enquanto dimens&atilde;o que, exatamente, no &acirc;mbito daquilo que o trauma da alteridade significa, cria e recria rela&ccedil;&otilde;es humanas propriamente ditas&rdquo;, observa o fil&oacute;sofo, para quem a tem&aacute;tica da Justi&ccedil;a necessita ser pensada como uma quest&atilde;o elementar que condiciona a pr&oacute;pria id&eacute;ia de racionalidade em desconstru&ccedil;&atilde;o e reconstru&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tem sido comum a articula&ccedil;&atilde;o de discursos de ordem cient&iacute;fica e religiosa nas falas dos movimentos conservadores, especialmente os evang&eacute;licos. Seria essa uma maneira de buscar, atrav&eacute;s de um vocabul&aacute;rio racional, maior legitimidade para as representa&ccedil;&otilde;es sobre g&ecirc;nero e orienta&ccedil;&atilde;o sexual?<\/p>\n<p>De acordo com o antrop&oacute;logo Marcelo Natividade (Universidade Federal do Cear&aacute;-UFC), que tem pesquisado em sua trajet&oacute;ria acad&ecirc;mica as interfaces entre doutrinas evang&eacute;licas e diversidade sexual, h&aacute; uma percep&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica de rep&uacute;dio e desqualifica&ccedil;&atilde;o quanto &agrave;s sexualidades n&atilde;o heterossexuais e desvinculadas dos pap&eacute;is tradicionais do feminino e masculino. &ldquo;O movimento evang&eacute;lico &eacute; muito plural. H&aacute; os de vertente hist&oacute;rica, os pentecostais, os neopentecostais. No entanto, h&aacute; uma unidade de sentido quanto &agrave; homossexualidade. &Eacute; vista como abomin&aacute;vel, anti-natural, exclu&iacute;da do campo do sagrado&rdquo;, afirma o antrop&oacute;logo.<\/p>\n<p>De acordo com Marcelo Natividade, a mescla entre religi&atilde;o e ci&ecirc;ncia tem sido uma t&ocirc;nica. Em sua pesquisa de mestrado, o professor da Universidade Federal do Cear&aacute; observou casos de pessoas gays que s&atilde;o levadas para cl&iacute;nicas de recupera&ccedil;&atilde;o, onde s&atilde;o submetidas a uma pedagogia de g&ecirc;nero de modo que se possa realizar uma suposta convers&atilde;o do desejo para o sexo oposto. &ldquo;A quest&atilde;o da diversidade &eacute; enquadrada no modelo hegem&ocirc;nico heteroc&ecirc;ntrico, no qual o suposto discurso cient&iacute;fico muitas vezes &eacute; usado como ferramenta pretensamente terap&ecirc;utica. &Eacute; nesse sentido que podemos ver o retrocesso que a proposta da cura da homossexualidade traz. Vamos voltar ao passado, quando os gays eram considerados doentes. H&aacute; um movimento de repatologiza&ccedil;&atilde;o da homossexualidade que deve ser combatido, porque nele se esconde o preconceito puro e simples, que se tenta amaciar com um verniz religioso e pseudocient&iacute;fico&rdquo;, destaca Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>A percep&ccedil;&atilde;o negativa da homossexualidade expressa pelos setores religiosos fala menos de religi&atilde;o, argumenta o antrop&oacute;logo, do que indica a exist&ecirc;ncia de um p&acirc;nico moral. &ldquo;Isso significa dizer que interpreta&ccedil;&otilde;es doutrin&aacute;rias apontam para as rela&ccedil;&otilde;es entre pessoas do mesmo sexo como um perigo que amea&ccedil;a outras esferas da sociedade. A fam&iacute;lia, a heterossexualidade, a figura do feminino e do masculino estariam em xeque por causa dos homossexuais&rdquo;, argumenta o pesquisador, lembrando que a Igreja Cat&oacute;lica, atrav&eacute;s das declara&ccedil;&otilde;es papais, por vezes se alinha a esses posicionamentos de rep&uacute;dio.<\/p>\n<p>O destaque que a elei&ccedil;&atilde;o do deputado Marco Feliciano &agrave; Comiss&atilde;o de Direitos Humanos e Minorias ganhou e a conseq&uuml;ente onda de protestos de movimentos LGBT representam fatos que integram uma conjuntura maior. A bancada evang&eacute;lica cresceu significativamente nas elei&ccedil;&otilde;es de 2010, alcan&ccedil;ando o n&uacute;mero de 66 parlamentares (63 deputados e 3 senadores). &Eacute; um grupo que tem atuado ostensivamente no processo de reforma do C&oacute;digo Penal, que trata de temas sens&iacute;veis moralmente, como aborto e homofobia. E tornou-se, para efeitos eleitorais, um eixo de composi&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria relevante. De acordo com<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/1262640-dilma-foge-de-polemica-para-manter-paz-com-evangelicos.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">not&iacute;cia do jornal Folha de S&atilde;o Paulo<\/a>, publicada no dia 15\/04, a presidente Dilma Rousseff pretende manter intocada as legisla&ccedil;&otilde;es sobre aborto e casamento gay para n&atilde;o se indispor com a bancada evang&eacute;lica.<\/p>\n<p>A bancada evang&eacute;lica, lembra Marcelo Natividade, &eacute; um grupo com diferen&ccedil;as internas. H&aacute; posi&ccedil;&otilde;es plurais, discursos que s&atilde;o negociados, como, por exemplo, na quest&atilde;o do aborto. Diferentemente da quest&atilde;o da homossexualidade, em torno da qual h&aacute; um absoluto alinhamento quando tratada em n&iacute;vel legal. &ldquo;O consenso &eacute; o de barrar direitos para os gays&rdquo;, observa o antrop&oacute;logo, lembrando que em 1988, durante o processo da Constituinte, a express&atilde;o &ldquo;orienta&ccedil;&atilde;o sexual&rdquo; n&atilde;o foi inclu&iacute;da no texto que tratava sobre discrimina&ccedil;&otilde;es. &ldquo;A fala religiosa teve e tem um forte poder obstrutivo&rdquo;, completa Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>O enraizamento da religi&atilde;o nos espa&ccedil;os pol&iacute;ticos &eacute; geralmente criticado com o argumento de que o Brasil &eacute; um estado laico. A previs&atilde;o de que o pa&iacute;s n&atilde;o tenha uma religi&atilde;o oficial, posicionando-se institucionalmente de maneira neutra em rela&ccedil;&atilde;o a assuntos religiosos, n&atilde;o ocorre na pr&aacute;tica. Sabe-se que o pa&iacute;s tem um quadro de conflitos entre religi&otilde;es que muitas vezes se concretiza com invas&otilde;es de espa&ccedil;os religiosos, especialmente em rela&ccedil;&atilde;o a doutrinas afro-brasileiras. As a&ccedil;&otilde;es no intuito de promover uma conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica, hospitaleira, enfrentam resist&ecirc;ncias nas mais variadas institui&ccedil;&otilde;es. Marcelo Natividade, que atua com projetos educativos, afirma que h&aacute; grandes dificuldades de se tratar a escola como espa&ccedil;o laico. &ldquo;As propostas de levar &agrave; tem&aacute;tica da diversidade sexual enfrenta resist&ecirc;ncia nas dire&ccedil;&otilde;es, nos corpos docentes, nos pais dos alunos. A articula&ccedil;&atilde;o entre sexualidade e religi&atilde;o e mesmo entre religi&otilde;es &eacute; muito dif&iacute;cil, repleta de conting&ecirc;ncias&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p>A universalidade dos direitos tem sido questionada com o argumento de que &eacute; preciso levar em conta os valores religiosos. Para Marcelo Natividade,est&aacute; em jogo mais do que a liberdade de culto e de express&atilde;o de valores religiosos. &ldquo;Vejo que a luta pela preserva&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es de poder &eacute; o objetivo. O proselitismo religioso &eacute; apenas um pretexto. Os direitos da mulher j&aacute; s&atilde;o reconhecidos e, embora concep&ccedil;&otilde;es sexistas e mis&oacute;ginas permane&ccedil;am, ningu&eacute;m mais aceita a id&eacute;ia de que os homens s&atilde;o superiores a elas. O mesmo vale para os negros no caso do racismo: apesar de existir, a id&eacute;ia de superioridade branca n&atilde;o &eacute; mais aceita. No caso dos homossexuais, no entanto, predomina socialmente uma id&eacute;ia de inferioridade em rela&ccedil;&atilde;o aos heterossexuais. Os movimentos religiosos, dos quais os evang&eacute;licos s&atilde;o ator de grande peso nos espa&ccedil;os pol&iacute;ticos, n&atilde;o querem perder suas posi&ccedil;&otilde;es e estruturas de poder. E usam a quest&atilde;o da diversidade sexual como ferramenta de preserva&ccedil;&atilde;o desse status&rdquo;, argumenta Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>Para Marcelo Natividade, o avan&ccedil;o da bancada evang&eacute;lica sobre a tem&aacute;tica dos direitos sexuais representa, inclusive, uma afronta &agrave; liberdade religiosa dos indiv&iacute;duos LGBT que s&atilde;o crist&atilde;os e pertencem a denomina&ccedil;&otilde;es evang&eacute;licas. &ldquo;H&aacute; mecanismos de puni&ccedil;&atilde;o, dentro de correntes evang&eacute;licas, que punem at&eacute; com expuls&atilde;o o fiel que se revela homossexual. &Eacute; um grau de controle e vigil&acirc;ncia muito invasivo, desrespeitoso, como se o exerc&iacute;cio da religi&atilde;o fosse monop&oacute;lio de poucos privilegiados&rdquo;, critica.<\/p>\n<p>Seria o tom muitas vezes utilizado, comparando, por exemplo, rela&ccedil;&otilde;es gays &agrave; malignidade, um discurso de &oacute;dio? Para Marcelo Natividade, sim. &ldquo;Essas falas agressivas poucas vezes falam de religi&atilde;o. S&atilde;o discursos estereotipados, que fomentam o &oacute;dio e a discrimina&ccedil;&atilde;o. &Eacute; muito grave um parlamentar ou autoridade qualquer se pronunciar de maneira pejorativa, de ataque&rdquo;, argumenta, sendo favor&aacute;vel que o projeto de lei (PL 122) que criminaliza a homofobia possa ser aplicado at&eacute; mesmo dentro dos templos, o que tem gerado forte oposi&ccedil;&atilde;o da bancada evang&eacute;lica sob a justificativa de que violaria a liberdade de culto. &ldquo;Se um negro se sente ofendido dentro de uma igreja, ele pode fazer queixa &agrave; pol&iacute;cia. Por que isso n&atilde;o valeria no caso dos gays?&rdquo;, opina Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>A bancada evang&eacute;lica tem se posicionado de maneira resistente. O deputado Marco Feliciano, apesar de semanas sendo alvo de protestos no Congresso e na m&iacute;dia, permanece na presid&ecirc;ncia da Comiss&atilde;o. Os protestos, inclusive, serviram para que a bancada afirmasse que h&aacute; em curso um movimento de intoler&acirc;ncia religiosa. &ldquo;Quando direitos est&atilde;o em jogo, as coisas adquirem propor&ccedil;&otilde;es maiores. Penso que a popula&ccedil;&atilde;o LGBT &eacute; um alvo hist&oacute;rico de injusti&ccedil;as que lhes retiram direitos e afetam a dignidade. As demandas s&atilde;o colocadas em pauta e fica dif&iacute;cil negociar quando o advers&aacute;rio ataca por meio de argumentos desqualificantes, que inferiorizam. A bancada alega ser contra a pr&aacute;tica homossexual, mas n&atilde;o contra o gay. Nunca os ouvi se manifestar contra a pena de morte aos gays que tramita em Uganda. Que religi&atilde;o &eacute; essa que advoga o privil&eacute;gio do tratamento diferenciado, que &agrave;s vezes embasa discursos de &oacute;dio, e que se cala diante da pena de morte?&rdquo;, opina Natividade.<\/p>\n<p>Apesar do panorama de fortalecimento pol&iacute;tico de grupos religiosos, especialmente do evang&eacute;lico, Marcelo Natividade pontua que h&aacute; igrejas inclusivas que buscam um respaldo b&iacute;blico mais contextualizado, diante das crescentes demandas por direitos. &ldquo;N&atilde;o s&atilde;o movimentos, no entanto, ainda reconhecidos. N&atilde;o encontram espa&ccedil;os de express&atilde;o, seja dentro do movimento evang&eacute;lico, seja nos espa&ccedil;os pol&iacute;ticos. Mas &eacute; um sinal de que &eacute; poss&iacute;vel dar um outro sentido &agrave; religi&atilde;o, atrelado ao respeito e &agrave; dignidade&rdquo;, afirma o professor da UFC, que lan&ccedil;ar&aacute; em maio o livro &ldquo;As novas guerras sexuais: diferen&ccedil;a, poder religioso e identidades LGBT no Brasil&quot;, juntamente com o antrop&oacute;logo Leandro de Oliveira.<\/p>\n<p>O reconhecimento de identidades, desejos e comportamentos n&atilde;o convencionais tem sido um processo lento e tenso. Nenhuma mudan&ccedil;a, no entanto, vem sem resist&ecirc;ncias. Apesar da conjuntura, o pa&iacute;s tem testemunhado uma discuss&atilde;o mais aberta, o que prova que a tem&aacute;tica tem adquirido legitimidade pol&iacute;tica. Do contr&aacute;rio, n&atilde;o estaria em pauta nos espa&ccedil;os legislativos, mobilizando movimentos sociais e parte da sociedade. A situa&ccedil;&atilde;o atual envolve, mais do que temas religiosos, valores culturalmente arraigados, num pa&iacute;s cuja experi&ecirc;ncia sexual e de g&ecirc;nero &eacute; marcada por hierarquias, desigualdades e rela&ccedil;&otilde;es de poder. Os desafios que os direitos sexuais imp&otilde;em articulam-se a costumes e discursos historicamente constitu&iacute;dos. Podem tais desafios ser considerados um sinal em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; ideia de hospitalidade, que projete uma negocia&ccedil;&atilde;o mais inclusiva entre religi&atilde;o e pol&iacute;tica e aceite a universalidade dos direitos independente de convic&ccedil;&otilde;es? Para Ricardo Timm, da PUC-RS, sim. &ldquo;O profetismo b&iacute;blico mais remoto faz ecoar hoje seu anseio por justi&ccedil;a. A &lsquo;loucura pela justi&ccedil;a&rsquo; &ndash; express&atilde;o de Derrida &ndash; nos move no mundo. &Eacute; a exterioriza&ccedil;&atilde;o da cren&ccedil;a profunda de que a esperan&ccedil;a n&atilde;o morre e que, portanto, o que desejamos n&atilde;o &eacute; a paz dos cemit&eacute;rios, mas a paz da vida e da consci&ecirc;ncia moral tranquila&rdquo;, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>La ocupaci\u00f3n de espacios pol\u00edticos brasile\u00f1os por movimientos religiosos es cada vez m\u00e1s evidente. 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