{"id":890,"date":"2013-05-28T00:00:00","date_gmt":"2013-05-28T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2013\/05\/28\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/"},"modified":"2013-05-28T00:00:00","modified_gmt":"2013-05-28T03:00:00","slug":"el-fenomeno-global-de-la-violacion","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/","title":{"rendered":"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>por Washington Castilhos<br \/> <\/em><\/p>\n<p>Depois de mais um caso de estupro que tomou os notici&aacute;rios nacionais e internacionais nos &uacute;ltimos dias &ndash; o caso do assaltante menor de idade que apontou uma arma para a cabe&ccedil;a de uma mulher enquanto a estuprava em um &ocirc;nibus em frente aos outros passageiros, um m&ecirc;s depois de uma turista norte-americana ser violentada dentro de uma van na zona sul carioca &ndash; tem-se ouvido constantemente o coment&aacute;rio de que o Brasil estaria se transformando na &Iacute;ndia. A compara&ccedil;&atilde;o se deve ao caso de estupro coletivo ocorrido em dezembro, em Nova Delhi, quando uma estudante de 23 anos morreu ap&oacute;s ser violentada por v&aacute;rios homens no interior de um &ocirc;nibus. De certo modo, pode-se ver uma mesma raiz nesses casos de estupro ocorridos aqui e l&aacute;. Embora haja especificidades sociais e culturais que diferenciem Brasil e &Iacute;ndia, ambos os pa&iacute;ses t&ecirc;m sociedades marcadas por uma forte hierarquia de g&ecirc;nero, que faz com que a viola&ccedil;&atilde;o de mulheres seja uma possibilidade.<\/p>\n<p>No entanto, como aponta a fil&oacute;sofa norte-americana Ann J. Cahill em&nbsp;<i>Rethinking rape<\/i>(Cornell University Press, 2001), &ldquo;qualquer experi&ecirc;ncia individual de estupro est&aacute; profundamente ancorada no meio social e pol&iacute;tico circundante, que &eacute; tamb&eacute;m afetado pelos modos como a v&iacute;tima, o agressor, suas fam&iacute;lias, e v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es reagem e representam o acontecido&rdquo;.<\/p>\n<p>&ldquo;Quanto mais tradicional um pa&iacute;s, mais fortes s&atilde;o os valores. Mas, embora o Brasil n&atilde;o seja t&atilde;o tradicional quanto a &Iacute;ndia, tamb&eacute;m temos nossos valores que desenham uma ordem social com percep&ccedil;&otilde;es e abordagens desiguais para homens e mulheres. O status legal da mulher na &Iacute;ndia, como no Brasil, reconhece a igualdade. No entanto, as desigualdades est&atilde;o inscritas culturalmente. As tradi&ccedil;&otilde;es, os costumes, as pr&aacute;ticas do cotidiano colidem com as previs&otilde;es legais. Na &Iacute;ndia, nos dias de hoje, &eacute; comum o uso do argumento da defesa da honra em casos de viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero&rdquo;, observa a advogada brasileira Leila Linhares, diretora da organiza&ccedil;&atilde;o feminista&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cepia.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cepia<\/a>.<\/p>\n<p>Para ela, o caso recente da mo&ccedil;a estuprada em uma van no Rio de Janeiro permite tra&ccedil;ar, sim, um paralelo entre Brasil e &Iacute;ndia. &ldquo;Um paralelo no sentido de que o estupro, assim como outras formas de viol&ecirc;ncia contra a mulher, n&atilde;o &eacute; uma realidade dos outros. &Eacute; tamb&eacute;m um problema nosso. A barb&aacute;rie n&atilde;o &eacute; exclusividade dos outros&rdquo;, sustenta.<\/p>\n<p>E n&atilde;o &eacute; mesmo. Os recentes casos de estupro acontecidos em transportes p&uacute;blicos na cidade do Rio de Janeiro &ndash; alardeados pela imprensa internacional pelo fato de o Rio ser a sede de importantes eventos esportivos at&eacute; 2016 &ndash; trouxeram &agrave; tona e a conhecimento p&uacute;blico a realidade de um fen&ocirc;meno que j&aacute; vinha crescendo de forma silenciosa: de acordo com dados do Instituto de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica (ISP), o estado do Rio de Janeiro, com uma popula&ccedil;&atilde;o de 16,3 milh&otilde;es de pessoas, reportou 6.029 casos de estupro em 2012 (o que significa um aumento de 24% em rela&ccedil;&atilde;o a 2011, quando foram reportados 4.917 casos). S&atilde;o 17 casos por dia. Por sua vez, em Nova Delhi, que tem uma popula&ccedil;&atilde;o de 16,7 milh&otilde;es de pessoas, foram reportados 572 casos em 2011.<\/p>\n<p>Por ser um crime brutal, que reduz, inclusive, o direito de ir e vir das mulheres, o estupro, aponta Ann J. Cahill, afeta n&atilde;o apenas as mulheres que s&atilde;o violentadas, mas todas as outras, que percebem seus corpos como &ldquo;estupr&aacute;veis&rdquo; e acabam por ajustar suas rotinas e imagens pr&oacute;prias de acordo com essa percep&ccedil;&atilde;o. Durante a prepara&ccedil;&atilde;o deste texto, algumas mulheres com quem conversei, usu&aacute;rias do transporte p&uacute;blico, afirmaram que n&atilde;o entram em &ocirc;nibus quando percebem a presen&ccedil;a de homens sentados no fundo do ve&iacute;culo.<\/p>\n<p>As que s&atilde;o v&iacute;timas do crime sentem-se envergonhadas, culpadas e, por isso, n&atilde;o denunciam, n&atilde;o procuram o atendimento policial, o que torna poss&iacute;vel falar que, na &Iacute;ndia ou no Brasil, a sub-notifica&ccedil;&atilde;o seja uma realidade.<\/p>\n<p>&ldquo;&Eacute; um quadro de gravidade. H&aacute; uma s&eacute;rie de fatores, seja de ordem simb&oacute;lica ou pr&aacute;tica. N&atilde;o podemos precisar se l&aacute; ou aqui h&aacute; mais ou menos casos de estupro, comparativamente. Mas as condi&ccedil;&otilde;es culturais muitas vezes tolhem as mulheres a procurar ajuda, apesar de termos, no Brasil, instrumentos de puni&ccedil;&atilde;o, ferramentas de sistematiza&ccedil;&atilde;o dos casos e campanhas de preven&ccedil;&atilde;o ao estupro e a viol&ecirc;ncia contra a mulher como um todo&rdquo;, avalia Leila Linhares.<\/p>\n<p>As recentes not&iacute;cias de casos de estupro no Rio de Janeiro lan&ccedil;am luz sobre as contradi&ccedil;&otilde;es e paradoxos do Brasil, pa&iacute;s que j&aacute; na d&eacute;cada de 1980, de forma pioneira, inaugurou delegacias especiais de atendimento &agrave;s mulheres, em 2006 teve sancionada uma legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica para tratar da viol&ecirc;ncia contra a mulher e em 2010 elegeu uma mulher como presidente. Por&eacute;m, apesar dos instrumentos de prote&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o dos direitos das mulheres, acredita-se que os casos sejam ainda maiores do que os denunciados.<\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o tenho d&uacute;vidas de que tanto em Nova Delhi como no Rio a subnotifica&ccedil;&atilde;o exista. O Rio de Janeiro, certamente, teve mais que 6 mil casos em 2012. O aumento relatado em rela&ccedil;&atilde;o a 2011 n&atilde;o permite dizer se o n&uacute;mero real de estupros aumentou ou se as mulheres &eacute; que est&atilde;o passando a denunciar mais, quebrando a barreira do sil&ecirc;ncio. &Eacute; um caso a ser melhor aprofundado, at&eacute; porque h&aacute;, no Brasil, um problema no texto penal quanto ao estupro: &eacute; um crime caracterizado como sendo de a&ccedil;&atilde;o privada, ou seja, a v&iacute;tima precisa denunciar. Parte-se do princ&iacute;pio que &eacute; uma quest&atilde;o &iacute;ntima, o que &eacute; um dado desestimulante por causa dos aspectos culturais que penalizam a figura da mulher&rdquo;, completa Leila Linhares.<\/p>\n<p>O estupro &eacute; um fen&ocirc;meno global, define a soci&oacute;loga indiana Manjima Bhattacharjya, do centro de recursos feminista Jagori, de Nova Delhi. &ldquo;Existem algumas similaridades alarmantes entre os casos ocorridos em Delhi e no Rio &ndash; um estupro coletivo perpetrado em um ve&iacute;culo em movimento contra uma mulher (n&atilde;o oriunda de uma classe socioecon&ocirc;mica baixa), acompanhada de um homem em uma cidade grande. Mas as semelhan&ccedil;as param por a&iacute;: por exemplo, no Rio a v&iacute;tima era uma turista, o que pode ter sido uma das raz&otilde;es pelas quais o caso atraiu tanta aten&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia&rdquo;.<\/p>\n<p>A pesquisadora indiana se refere ao fato de, no Rio, os homens que atacaram a turista norte-americana no interior de uma van j&aacute; terem sido denunciados por outras v&iacute;timas antes dela, e a pol&iacute;cia n&atilde;o ter prestado a devida aten&ccedil;&atilde;o ao ocorrido.<i>&ldquo;Infelizmente, teve que acontecer com a turista at&eacute; que algu&eacute;m me ajudasse. O estupro dela n&atilde;o poderia ter sido evitado se eles tivessem prestado aten&ccedil;&atilde;o ao meu caso?&rdquo;<\/i>, indagou ao&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2013\/05\/25\/world\/americas\/rapes-in-brazil-spur-class-and-gender-debate.html?ref=global-home&amp;_r=1&amp;\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NY Times<\/a>&nbsp;uma das mulheres brasileiras v&iacute;timas do bando.<\/p>\n<p>&ldquo;Para mim, os dois incidentes legitimam o estupro como um fen&ocirc;meno global. Mas embora as estat&iacute;sticas em todo o mundo nos mostrem isto, os governos muitas vezes preferem n&atilde;o enxergar&rdquo;, avalia Manjima.<\/p>\n<p>O caso de Nova Delhi, que teve grande repercuss&atilde;o mundial e provocou uma onda de protestos na &Iacute;ndia, foi mais um entre muitos ocorridos no pa&iacute;s: dados do Escrit&oacute;rio Nacional de Registros de Crime mostram que 97% das indianas j&aacute; sofreram algum tipo de abuso, e que uma mulher &eacute; estuprada a cada 22 minutos.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, de acordo com o Instituto de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica (ISP), somente nos tr&ecirc;s primeiros meses de 2013, j&aacute; foram relatados 1500 casos. Delhi em particular teve mais de 500 reclama&ccedil;&otilde;es de estupro este ano, mas apenas uma condena&ccedil;&atilde;o at&eacute; agora.<\/p>\n<p>&ldquo;Isto nos mostra que n&atilde;o depende do quanto uma cultura ou uma cidade seja sexualizada ou aberta, ou do que uma mulher esteja vestindo para que ela seja estuprada. &Iacute;ndia e Brasil, por exemplo, s&atilde;o muito diferentes no que diz respeito ao que uma mulher veste em espa&ccedil;os p&uacute;blicos ou como se comporta. Pelo que sei, o Brasil &eacute; um pa&iacute;s muito mais aberto do que a &Iacute;ndia, mas em ambos os lugares as mulheres podem ser estupradas ou sexualmente violentadas impunemente. As similaridades nos casos de viol&ecirc;ncia sexual ocorridos nos dois pa&iacute;ses validam o estupro como um ato de poder e profunda misoginia que existe em todas as culturas e pa&iacute;ses&rdquo;, declara Manjima Bhattacharjya.<\/p>\n<p>Um exemplo da cultura universal do estupro, que tende a justificar e legitimar a viol&ecirc;ncia sexual contra mulheres, &eacute; o caso acontecido em Steubenville, cidade do estado norte-americano de Ohio, onde dois jogadores da equipe de futebol americano de uma escola local violentaram uma colega de classe de 16 anos em uma festa, em agosto de 2012. Os violadores divulgaram pelas redes sociais todos os detalhes do estupro, com fotos, v&iacute;deos, coment&aacute;rios e at&eacute; mesmo e-mails enquanto cometiam o crime. Foi a indiscri&ccedil;&atilde;o dos dois jovens &ndash; ent&atilde;o com 16 e 17 anos cada &ndash; que fez com que estes fossem culpados, uma vez que foram eles mesmos que colocaram a evid&ecirc;ncia na internet. O caso mostra que quem comete o crime de estupro ou quem o divulga nas redes sociais muitas vezes nem sabe que est&aacute; cometendo um crime, dada a naturaliza&ccedil;&atilde;o da misoginia e da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero.<\/p>\n<p>&ldquo;Infelizmente, o senso comum ocidental tem a tend&ecirc;ncia a usar o Sul Global (lugares como a &Iacute;ndia e at&eacute; mesmo o Oriente M&eacute;dio) para ilustrar a misoginia, mas casos como o de Ohio trazem &agrave; luz o fato de que a misoginia est&aacute; em todos os lugares&rdquo;, afirma a soci&oacute;loga indiana.<\/p>\n<p>No que diz respeito &agrave; viol&ecirc;ncia sexual, a situa&ccedil;&atilde;o nos Estados Unidos e na Europa n&atilde;o difere muito do resto do mundo e de pa&iacute;ses localizados no sul global: no estudo&nbsp;<i><a href=\"http:\/\/www.911rape.org\/facts-quotes\/statistics\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Prevalence, Incidence, and Consequences of Violence Against Women<\/a><\/i>, conduzido pelo Departamento de Justi&ccedil;a e pelos Centros de Controle de Doen&ccedil;as e de Preven&ccedil;&atilde;o norte-americanos em 1998, pesquisadores entrevistaram 8 mil mulheres e 8 mil homens. Usando uma defini&ccedil;&atilde;o de estupro que inclu&iacute;a a penetra&ccedil;&atilde;o vaginal, oral e anal for&ccedil;adas, o estudo detectou que uma em cada 6 mulheres j&aacute; fora estuprada ou sofrera uma tentativa de estupro (22% quando tinham menos de 12 anos, 54% quando eram menores de 18 e 83% com menos de 25 anos). J&aacute; o estudo&nbsp;<i><a href=\"http:\/\/www.911rape.org\/facts-quotes\/statistics\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rape in America: a report to the Nation<\/a><\/i>, realizado pelo National Victim Center em 1992, mostra que 60% das mulheres que reportaram terem sido estupradas tinham menos de 18 anos na ocasi&atilde;o do estupro, 80% das quais violentadas por conhecidos. Por sua vez, o&nbsp;<i>National Crime Victimization Survey<\/i>, feito em 2000, relata que os jovens americanos de idades entre 12 e 17 anos s&atilde;o mais propensos a serem sexualmente violentados do que os adultos.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2013, o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a brit&acirc;nico divulgou seu&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.rapecrisis.org.uk\/Statistics2.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">primeiro boletim de estat&iacute;sticas de viol&ecirc;ncia sexual<\/a>, que mostra que aproximadamente 400 mil mulheres s&atilde;o sexualmente violentadas na Inglaterra e no Pa&iacute;s de Gales anualmente, e que uma em cada 5 mulheres (de idades entre 16-59 anos) j&aacute; sofreu alguma forma de viol&ecirc;ncia sexual.<\/p>\n<p><i><b>A &Aacute;frica do Sul e o &quot;estupro corretivo&quot;<\/b><\/i><\/p>\n<p>Segundo um estudo da Universidade da &Aacute;frica do Sul (UNISA), um milh&atilde;o de mulheres, meninas e meninos s&atilde;o violentados todos os anos no pa&iacute;s. Uma parcela deste n&uacute;mero refere-se ao chamado &ldquo;estupro corretivo&rdquo; de mulheres homossexualmente orientadas, modalidade de viol&ecirc;ncia sexual que potencializa ainda mais a situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade da v&iacute;tima. Sendo l&eacute;sbica, a mulher n&atilde;o se sente segura de que possa ter acesso aos servi&ccedil;os oferecidos pelos estabelecimentos de sa&uacute;de p&uacute;blica do governo.<\/p>\n<p>&ldquo;Estes casos mostram o grau de vulnerabilidade destas mulheres, tanto individualmente quanto como um grupo social, por sua orienta&ccedil;&atilde;o sexual e porque o acesso a servi&ccedil;os que est&atilde;o &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de &lsquo;mulheres em geral&rsquo; n&atilde;o lhes garante que suas necessidades como mulheres que fazem sexo com outras mulheres sejam satisfeitas. Essas duas dimens&otilde;es se interrelacionam de tal modo que torna imposs&iacute;vel analisar a primeira sem se referir &agrave; segunda&rdquo;, analisam a antrop&oacute;loga Maria Luiza Heilborn (CLAM\/IMS\/UERJ) e a m&eacute;dica Regina Maria Barbosa (Unicamp) em artigo do livro&nbsp;<i>Aprendiendo a bailar: como impulsar La salud y El bienestar reproductivo de las mujeres desde perspectivas de salud p&uacute;blica y de derechos humanos<\/i>(Harvard University Press\/CLADEM, 2007).<\/p>\n<p>Desde 2002, o governo sul africano tem permitido que os servi&ccedil;os p&uacute;blicos de sa&uacute;de disponibilizem medicamentos antirretrovirais &agrave;s sobreviventes da viol&ecirc;ncia sexual, dada a preval&ecirc;ncia da Aids no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Embora ocorra com bastante frequ&ecirc;ncia na &Aacute;frica do Sul, o estupro corretivo &#8211; tipo de agress&atilde;o praticada por um ou mais homens contra mulheres l&eacute;sbicas, supostamente como forma de &quot;corrigir&quot; ou reverter sua orienta&ccedil;&atilde;o sexual &#8211; n&atilde;o &eacute; exclusividade daquele pa&iacute;s. No Brasil tem crescido o n&uacute;mero de den&uacute;ncias deste tipo de viol&ecirc;ncia. O &uacute;ltimo caso not&oacute;rio ocorreu no dia 11 de maio em uma festa de calouros na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A v&iacute;tima, que teria beijado outra mo&ccedil;a durante a festa, foi abordada no estacionamento da universidade por um aluno do curso de Engenharia que lhe disse que iria &quot;ensin&aacute;-la a gostar de homem&quot;.<\/p>\n<p><i><b>&ldquo;Convite &agrave; viola&ccedil;&atilde;o&rdquo;<\/b><\/i><\/p>\n<p>Na an&aacute;lise da advogada brasileira Leila Linhares, antes de tudo &eacute; preciso mudar a mentalidade que circula nas fam&iacute;lias e na sociedade como um todo. &ldquo;A mulher permanece sendo desvalorizada socialmente e o estupro &eacute; uma das manifesta&ccedil;&otilde;es extremas que espelham essa desvaloriza&ccedil;&atilde;o. Especialmente porque o estupro, para al&eacute;m da crueldade, carrega forte simbologia: a humilha&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima e o triunfo do agressor. N&atilde;o basta ficar apenas na repress&atilde;o, que &eacute; importante. &Eacute; preciso refletir sobre os valores que criam as condi&ccedil;&otilde;es para tais atos&rdquo;, diz.<\/p>\n<p>Para a soci&oacute;loga indiana Manjima Bhattacharjya, o problema &eacute; que o estupro continua a ser tratado como um tipo comum de crime, n&atilde;o como um crime s&eacute;rio. &ldquo;O caso de Nova Delhi pelo menos nos ajudou a ir al&eacute;m desta barreira e a conquistar apoio popular para mudar leis e trazer reformas judiciais referentes &agrave; viol&ecirc;ncia sexual contra mulheres. O movimento feminista indiano tem debatido o uso do termo &lsquo;estupro&rsquo;. Por d&eacute;cadas, temos tentado mudar para &lsquo;agress&atilde;o sexual&rsquo;, uma vez que o termo &lsquo;estupro&rsquo; &eacute; associado a muitas outras coisas &ndash; como a vergonha e o estigma. O estupro &eacute; constru&iacute;do como um incidente social vergonhoso para a v&iacute;tima, por isso as mulheres preferem manter o sil&ecirc;ncio&rdquo;.<\/p>\n<p>Segundo ela, na &Iacute;ndia os casos s&atilde;o sub-notificados por v&aacute;rias raz&otilde;es. Uma delas &eacute; que o n&uacute;mero de condena&ccedil;&otilde;es &eacute; baixo. &ldquo;As mulheres n&atilde;o veem sentido em denunciar o caso, j&aacute; que acreditam que nada vai ser feito&rdquo;, diz. Outra raz&atilde;o para a sub-notifica&ccedil;&atilde;o diz respeito &agrave;s posturas da pol&iacute;cia e do judici&aacute;rio. &ldquo;A pol&iacute;cia frequentemente se nega a registrar a den&uacute;ncia, por n&atilde;o acreditar na mulher. Por sua vez, os ju&iacute;zes s&atilde;o, em sua maioria, sexistas. J&aacute; houve at&eacute; casos em que o juiz sugeriu &agrave; v&iacute;tima que se casasse com o acusado para que o caso se resolvesse da melhor maneira&rdquo;, lembra Manjima.<\/p>\n<p>Em pesquisa conduzida por conta da morte da estudante de 23 anos ap&oacute;s ter sido violentada por 6 homens em um &ocirc;nibus, 68% dos ju&iacute;zes opinaram que um &quot;vestido provocativo de uma mulher&quot; &eacute; &quot;um convite &agrave; viola&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>H&aacute; a&iacute; uma quest&atilde;o importante a ser discutida: a ideia de que as mulheres s&atilde;o culpadas pela viol&ecirc;ncia sexual sofrida por elas, e de que &lsquo;homens s&atilde;o homens&rsquo;. No Egito, assim como est&aacute; acontecendo no Brasil, o aumento no n&uacute;mero de casos de ass&eacute;dio sexual contra mulheres em locais p&uacute;blicos fez com que o tema do estupro passasse a merecer cada vez mais aten&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia e dos c&iacute;rculos acad&ecirc;micos.&nbsp;<a href=\"http:\/\/egypt.unfpa.org\/Images\/Publication\/2010_03\/6eeeb05a-3040-42d2-9e1c-2bd2e1ac8cac.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Um estudo<\/a>&nbsp;conduzido pelo&nbsp;<a href=\"http:\/\/ecwronline.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Egyptian Center for Women&rsquo;s Rights (ECWR)<\/a>&nbsp;nos estados do Cairo, Giz&eacute; e Qalubiya com mulheres e homens, mostrou que n&atilde;o existe um grupo espec&iacute;fico de mulheres que esteja mais sujeito &agrave; viol&ecirc;ncia sexual e que o agressor n&atilde;o faz distin&ccedil;&atilde;o entre categorias de v&iacute;timas ou se limita a um tipo de mulher. Todas as mulheres podem se tornar v&iacute;timas da viol&ecirc;ncia sexual.<\/p>\n<p>A pesquisa revela que 48,4% das eg&iacute;pcias e 51,4% das turistas estrangeiras entrevistadas (em todas as faixas de idade) est&atilde;o sujeitas ao ass&eacute;dio sexual. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; apar&ecirc;ncia f&iacute;sica da v&iacute;tima, 62,5% das eg&iacute;pcias e 65,3% dos homens envolvidos no estudo declararam que roupas que exp&otilde;em mais o corpo tornam a mulher mais vulner&aacute;vel; por sua vez, 44% das mulheres estrangeiras ouvidas rejeitaram esta ideia. Para elas, a apar&ecirc;ncia de uma mulher n&atilde;o &eacute; determinante para que o ass&eacute;dio ocorra.<\/p>\n<p><i><b>Arma de guerra<\/b><\/i><\/p>\n<p>Em&nbsp;<i>Balkan as metaphor: between globalization and fragmentation<\/i>&nbsp;(MIT Press, 2002), a feminista croata Vesna Kesi\u0107 lembra que todas as mulheres sentem medo e vergonha do que lhes aconteceu, sejam estupros ocorridos em uma viagem &agrave; praia, sejam no contexto da guerra, onde &eacute; frequente o uso da viol&ecirc;ncia sexual por parte de atores armados (legais e ilegais), n&atilde;o apenas como arma de guerra contra o inimigo, mas tamb&eacute;m como mecanismo para impor ou refor&ccedil;ar hierarquias sociais e pol&iacute;ticas. Estes tipos de situa&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m sido observados em pa&iacute;ses como Col&ocirc;mbia e M&eacute;xico, onde a luta contra os grupos armados e o narcotr&aacute;fico tem ocasionado em graves agress&otilde;es contra as mulheres. Apesar de a viol&ecirc;ncia sexual ser considerada crime de guerra pela Corte Penal Internacional, estes delitos continuam a ser julgados como crimes ordin&aacute;rios.<\/p>\n<p>Na Col&ocirc;mbia, 30% dos casos de abuso sexual denunciados acontecem em &aacute;reas rurais, e t&ecirc;m a ver com o conflito armado, ocorrendo sob distintas modalidades. A mais recorrente &eacute; o recrutamento de mulheres e crian&ccedil;as pelos grupos armados ilegais com fins de escravid&atilde;o sexual, o controle da vida sexual e afetiva das mulheres mediante a imposi&ccedil;&atilde;o de normas de comportamento, o ass&eacute;dio e o abuso sexual de mulheres que se negam a ter rela&ccedil;&otilde;es com integrantes destes grupos, assim como a troca for&ccedil;ada de alimentos e objetos de luxo por favores sexuais com menores de idade.<\/p>\n<p>Em outros casos t&ecirc;m-se registrado agress&otilde;es sexuais como resposta intimidat&oacute;ria de atores armados legais e ilegais contra mulheres defensoras dos direitos humanos. No M&eacute;xico, por exemplo, as mulheres camponesas e ind&iacute;genas do estado de Guerrero t&ecirc;m confrontado o ex&eacute;rcito por sua responsabilidade em v&aacute;rios casos de abuso sexual, assassinatos seletivos e torturas contra a popula&ccedil;&atilde;o. Em repres&aacute;lia, membros das for&ccedil;as armadas t&ecirc;m torturado, violado e assassinado estas l&iacute;deres, numa forma de castigar a toda a comunidade por seu trabalho de defesa dos direitos humanos. Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos emitiu duas senten&ccedil;as a respeito, condenando o Estado mexicano.<\/p>\n<p>Em pa&iacute;ses onde a a&ccedil;&atilde;o do governo &eacute; fraca e onde companhias multinacionais exploram seus recursos naturais &ndash; muitas vezes em detrimento da popula&ccedil;&atilde;o &ndash;, grupos armados ilegais contratados por estas empresas cometem crimes do tipo para evitar que as comunidades ameacem seus interesses econ&ocirc;micos. Isto se observa na Guatemala, onde as l&iacute;deres ind&iacute;genas que denunciam a expropria&ccedil;&atilde;o de terras e recursos naturais por agentes privados s&atilde;o v&iacute;timas de m&uacute;ltiplas formas de viol&ecirc;ncia, especialmente de agress&otilde;es sexuais.<\/p>\n<p>A resposta dos Estados frente a esta situa&ccedil;&atilde;o ainda &eacute; inconsistente. Na Col&ocirc;mbia, a Corte Constitucional se pronunciou a esse respeito. Em 2008, expediu o Auto 092 a fim de proteger os direitos fundamentais de mulheres vitimizadas pelo conflito armado. Atualmente tramita no Congresso colombiano um projeto de lei para reduzir a impunidade de casos de viol&ecirc;ncia sexual no marco do conflito armado e outorgar-lhe status de crime contra a humanidade. Se aprovada na C&acirc;mara de Representantes, a iniciativa ser&aacute; debatida no Senado.<\/p>\n<p>O estupro tem sido usado como arma para desonrar indiv&iacute;duos, grupos e na&ccedil;&otilde;es, vulnerar o inimigo e controlar a descend&ecirc;ncia na disputa inclusive por territ&oacute;rio. Foi o que aconteceu na guerra da B&oacute;snia.<\/p>\n<p>Nas palavras da antrop&oacute;loga Andr&eacute;a Carolina Schvartz Peres, que em artigo publicado nos&nbsp;<a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/S0104-83332011000200005\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cadernos Pagu<\/a>&nbsp;analisa os estupros em s&eacute;rie, em campos ou com intuito de engravidar a mulher, o estupro na guerra seria uma mensagem entre os homens, em que o lado derrotado perde todas as ilus&otilde;es de poder e propriedade.<\/p>\n<p>&ldquo;O estupro foi em si um instrumento de propaga&ccedil;&atilde;o do medo, mas seu uso &ndash; em n&uacute;meros, not&iacute;cias etc. &ndash; fez com que a mensagem &lsquo;entre homens&rsquo; fosse passada: a mulher enquanto um corpo &eacute;tnico, s&iacute;mbolo da fam&iacute;lia, m&atilde;e da na&ccedil;&atilde;o, quando violentado, encerrava a vitimiza&ccedil;&atilde;o de toda a na&ccedil;&atilde;o e a necessidade de prote&ccedil;&atilde;o por seus homens, ou apontava para seu fracasso, esp&eacute;cie de castra&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica dos seus defensores&rdquo;, ressalta.<\/p>\n<p>Segundo a autora, o estupro enquanto arma de guerra foi, contudo, eficaz: infringiu o medo, facilitando a limpeza &eacute;tnica, consumou a partilha e objetificou suas v&iacute;timas, definindo-as de acordo com sua etnia\/nacionalidade.<\/p>\n<p>&ldquo;Em suma, a limpeza &eacute;tnica dos habitantes bosniacs desenrolou-se de acordo com um cen&aacute;rio planejado de antem&atilde;o. Aqueles que planejaram a agress&atilde;o &agrave; B&oacute;snia-Herzeg&oacute;vina sabiam bem que a partir de estupros brutais em massa e do abuso das bosniaquinhas atingiriam o cume da pir&acirc;mide &eacute;tnica da na&ccedil;&atilde;o bosniac, e deste modo, com o objetivo da limpeza &eacute;tnica, impeliriam as pessoas ao &ecirc;xodo, especialmente daqueles lugares onde formavam a maioria da popula&ccedil;&atilde;o, como foi o caso no leste da B&oacute;snia&rdquo;, analisa a antrop&oacute;loga.<\/p>\n<p>Meldijana Arnaut, jornalista e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Crimes contra a Humanidade e contra o Direito Internacional, de Sarajevo, destaca:<\/p>\n<p><i>&ldquo;O papel da mulher &eacute; sempre relacionado ao papel da m&atilde;e e, em muitas culturas, &eacute; o s&iacute;mbolo do esp&iacute;rito da coletividade. As mulheres, na consci&ecirc;ncia coletiva, est&atilde;o ligadas &agrave;s crian&ccedil;as, &agrave;s fam&iacute;lias &agrave;s quais d&atilde;o continuidade, e &agrave; coletividade &agrave; qual pertencem (&#8230;) Os planejadores da agress&atilde;o conheciam bem a mentalidade do habitante daqui. Seus objetivos eram ferir e humilhar a mulher enquanto membro de uma na&ccedil;&atilde;o, de um povo&rdquo;.<\/i><\/p>\n<p>&ldquo;Numa sociedade como a b&oacute;snia &ndash; e mesmo a nossa &ndash; casar e ter filhos s&atilde;o valores fundamentais. Podemos ler isso como sociedade patriarcal, ou como fez Meldijana, afirmando que as mulheres exercem papel fundamental na sociedade, na medida em que s&atilde;o a fonte biol&oacute;gica e cultural da na&ccedil;&atilde;o. Essa na&ccedil;&atilde;o, ou sociedade patriarcal, foi de fato amea&ccedil;ada pelos estupros em massa: tanto pelo fato em si, como pelas consequ&ecirc;ncias do estupro para a mulher&rdquo;, completa Andr&eacute;a Schvartz Peres.<\/p>\n<p>De acordo com a antrop&oacute;loga, &eacute; dif&iacute;cil dizer o n&uacute;mero exato de mulheres estupradas e v&iacute;timas de abuso durante a agress&atilde;o &agrave; B&oacute;snia-Herzeg&oacute;vina (BiH). Sabe-se que n&atilde;o &eacute; pequeno o n&uacute;mero de mulheres que preferiram o sil&ecirc;ncio, tamanha a dor. A Comiss&atilde;o da Comunidade Europeia aponta para 20.000 casos, mas outras fontes apontam para estat&iacute;sticas bem maiores (entre 60 e 100 mil).<\/p>\n<p>Em seu artigo, a jornalista Meldijana Arnaut explica que os n&uacute;meros da comiss&atilde;o de pesquisa da Comunidade Europeia contabilizam as estupradas at&eacute; dezembro de 1992. O centro m&eacute;dico de tratamento de v&iacute;timas de estupro e viol&ecirc;ncia sexual &quot;Medica Zenica&quot;, segundo a autora, tratou em torno de 28 mil mulheres de 1993 a 1997. A associa&ccedil;&atilde;o &quot;Mulheres &ndash; v&iacute;timas da guerra&quot;, de Sarajevo, possui dados de 25 mil pessoas estupradas ou v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia sexual. Sobre os filhos nascidos do estupro n&atilde;o h&aacute; n&uacute;meros aproximados.<\/p>\n<p>Homens e crian&ccedil;as tamb&eacute;m foram estuprados ou sofreram viol&ecirc;ncia sexual na B&oacute;snia, assim como acontece atualmente em pa&iacute;ses africanos em conflito, como a Som&aacute;lia e o Congo, onde rebeldes estupram beb&ecirc;s. No entanto, a viol&ecirc;ncia sexual contra homens e crian&ccedil;as &eacute; invisibilizada devido a uma perigosa hierarquia de plausibilidades, segundo a autora. &ldquo;A viol&ecirc;ncia sexual contra a mulher &eacute; vista como algo mais normal, mais diz&iacute;vel, mais compreens&iacute;vel, do que a viol&ecirc;ncia sexual contra homens, crian&ccedil;as e idosas. Essa hierarquiza&ccedil;&atilde;o invisibiliza as consideradas formas &lsquo;menores&rsquo; ou &lsquo;menos atrozes&rsquo; de estupro na guerra&rdquo;, finaliza. Essa economia do diz&iacute;vel e o indiz&iacute;vel parece aplicar-se &agrave; vol&ecirc;ncia sexual como um fen&ocirc;meno universal.<\/p>\n<p><em>* Contribu&iacute;ram F&aacute;bio Grotz, do Rio de Janeiro, e Manuel Rodriguez, de Bogot&aacute;<\/em>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Los casos de violacion ocurridos en R\u00edo de Janeiro, Nueva Delhi, Cairo o EEUU se\u00f1alan la pr\u00e1ctica como un fen\u00f3meno universal, aunque cualquier experiencia individual de abuso est\u00e1 profundamente anclada en el medio social y pol\u00edtico circundante, que es tambi\u00e9n afectado por los modos como la v\u00edctima, el agresor y las instituciones reaccionan y representan lo ocurrido. <i>(Texto en portugu\u00e9s)<\/i><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-890","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-clam"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n - CLAM - ES<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n - CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Los casos de violacion ocurridos en R\u00edo de Janeiro, Nueva Delhi, Cairo o EEUU se\u00f1alan la pr\u00e1ctica como un fen\u00f3meno universal, aunque cualquier experiencia individual de abuso est\u00e1 profundamente anclada en el medio social y pol\u00edtico circundante, que es tambi\u00e9n afectado por los modos como la v\u00edctima, el agresor y las instituciones reaccionan y representan lo ocurrido. (Texto en portugu\u00e9s)\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"CLAM - ES\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2013-05-28T03:00:00+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"fw2\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"fw2\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tiempo de lectura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"25 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"fw2\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/fbd9a86032bf7479f94b0ded196f1010\"},\"headline\":\"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n\",\"datePublished\":\"2013-05-28T03:00:00+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/\"},\"wordCount\":4922,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"noticias CLAM\"],\"inLanguage\":\"es\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/\",\"name\":\"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n - CLAM - ES\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2013-05-28T03:00:00+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/fbd9a86032bf7479f94b0ded196f1010\"},\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"es\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/noticias-clam\\\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\\\/890\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/\",\"name\":\"CLAM - ES\",\"description\":\"S\u00f3 mais um site CLAM - Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos sites\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"es\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/fbd9a86032bf7479f94b0ded196f1010\",\"name\":\"fw2\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"es\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/54ecf5cded291fb93319a89ac5574f1a59c63c407a36d7ccb710f487e3467ea0?s=96&d=mm&r=g\",\"url\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/54ecf5cded291fb93319a89ac5574f1a59c63c407a36d7ccb710f487e3467ea0?s=96&d=mm&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/54ecf5cded291fb93319a89ac5574f1a59c63c407a36d7ccb710f487e3467ea0?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"fw2\"},\"sameAs\":[\"https:\\\/\\\/clam.org.br\"],\"url\":\"https:\\\/\\\/clam.org.br\\\/es\\\/author\\\/fw2\\\/\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n - CLAM - ES","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/","og_locale":"es_ES","og_type":"article","og_title":"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n - CLAM - ES","og_description":"Los casos de violacion ocurridos en R\u00edo de Janeiro, Nueva Delhi, Cairo o EEUU se\u00f1alan la pr\u00e1ctica como un fen\u00f3meno universal, aunque cualquier experiencia individual de abuso est\u00e1 profundamente anclada en el medio social y pol\u00edtico circundante, que es tambi\u00e9n afectado por los modos como la v\u00edctima, el agresor y las instituciones reaccionan y representan lo ocurrido. (Texto en portugu\u00e9s)","og_url":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/","og_site_name":"CLAM - ES","article_published_time":"2013-05-28T03:00:00+00:00","author":"fw2","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"fw2","Tiempo de lectura":"25 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/"},"author":{"name":"fw2","@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/#\/schema\/person\/fbd9a86032bf7479f94b0ded196f1010"},"headline":"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n","datePublished":"2013-05-28T03:00:00+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/"},"wordCount":4922,"commentCount":0,"articleSection":["noticias CLAM"],"inLanguage":"es","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/","url":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/","name":"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n - CLAM - ES","isPartOf":{"@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/#website"},"datePublished":"2013-05-28T03:00:00+00:00","author":{"@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/#\/schema\/person\/fbd9a86032bf7479f94b0ded196f1010"},"breadcrumb":{"@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/#breadcrumb"},"inLanguage":"es","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/el-fenomeno-global-de-la-violacion\/890\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/clam.org.br\/es\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"El fen\u00f3meno global de la violaci\u00f3n"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/#website","url":"https:\/\/clam.org.br\/es\/","name":"CLAM - ES","description":"S\u00f3 mais um site CLAM - Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos sites","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/clam.org.br\/es\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"es"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/clam.org.br\/es\/#\/schema\/person\/fbd9a86032bf7479f94b0ded196f1010","name":"fw2","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"es","@id":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/54ecf5cded291fb93319a89ac5574f1a59c63c407a36d7ccb710f487e3467ea0?s=96&d=mm&r=g","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/54ecf5cded291fb93319a89ac5574f1a59c63c407a36d7ccb710f487e3467ea0?s=96&d=mm&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/54ecf5cded291fb93319a89ac5574f1a59c63c407a36d7ccb710f487e3467ea0?s=96&d=mm&r=g","caption":"fw2"},"sameAs":["https:\/\/clam.org.br"],"url":"https:\/\/clam.org.br\/es\/author\/fw2\/"}]}},"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=890"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/890\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/clam.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}