{"id":930,"date":"2013-10-02T00:00:00","date_gmt":"2013-10-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2013\/10\/02\/por-que-legalizar-el-aborto\/"},"modified":"2013-10-02T00:00:00","modified_gmt":"2013-10-02T03:00:00","slug":"por-que-legalizar-el-aborto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/por-que-legalizar-el-aborto\/930\/","title":{"rendered":"\u00bfPor qu\u00e9 legalizar el aborto?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right; \"><i>por Ana Maria Costa*<\/i><\/p>\n<p>O dia 28 de setembro &eacute; marcado pelos movimentos sociais latino-americanos como data de luta pela descriminaliza&ccedil;&atilde;o do aborto. Por que legalizar o aborto? Para consolidar o Estado laico, aperfei&ccedil;oar a democracia e promover os direitos sexuais e reprodutivos e a sa&uacute;de das mulheres.<\/p>\n<p>Ao contrario do Uruguai que optou pela vida e os direitos das mulheres legalizando o aborto, o Brasil estancou o debate sobre o tema no parlamento e no governo, barrando direitos essenciais para a democracia.<\/p>\n<p>Na vida real, as mulheres brasileiras que engravidam contra a vontade, planos ou desejos, prosseguem interrompendo gesta&ccedil;&otilde;es de forma clandestina e insegura, morrendo ou adquirindo sequelas que na maioria das vezes impedem os futuros planos reprodutivos.<\/p>\n<p>Sempre &eacute; pertinente lembrar que todas as mulheres, de todas as idades, classes sociais, etnias e religi&otilde;es abortam, mas a ocorr&ecirc;ncia de problemas de sa&uacute;de relacionados ao aborto clandestino &eacute; bem maior para as mulheres pobres e negras que, nestas ocasi&otilde;es, s&atilde;o as que de fato se submetem a atendimentos e condi&ccedil;&otilde;es mais prec&aacute;rias e arriscadas.<\/p>\n<p>A sociedade brasileira deve encarar a legaliza&ccedil;&atilde;o do aborto por diversas raz&otilde;es. Trata se de um reconhecido problema de sa&uacute;de publica cujas evidencias, ainda que subdimensionadas, t&ecirc;m sido amplamente demonstradas e discutidas.<\/p>\n<p>A ilegalidade do aborto compromete os direitos inerentes &agrave; democracia e, por isso, &eacute; premente o seu aperfei&ccedil;oamento articulado &agrave; laicidade do Estado, garantindo, &agrave;s mulheres, mais direitos e mais cidadania.<\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, &eacute; inconceb&iacute;vel que o pa&iacute;s que hoje avan&ccedil;a rumo ao grupo de na&ccedil;&otilde;es mais poderosas do planeta, mantenha-se alienado no reconhecimento do direito legal &agrave; interrup&ccedil;&atilde;o da gravidez, acuado por grupos religiosos, recusando a analisar e aprovar mudan&ccedil;as na legisla&ccedil;&atilde;o sobre o aborto que atende aos interesses coletivos.<\/p>\n<p>O conceito de laicidade deve ser entendido como um dispositivo democr&aacute;tico que garante a liberdade religiosa na sua ampla diversidade e ao mesmo tempo garante a independ&ecirc;ncia das decis&otilde;es do Estado relacionadas aos interesses p&uacute;blicos. Em outra perspectiva, no Brasil a laicidade &eacute; afirmativa no marco constitucional ao expressar e conferir garantias &agrave; liberdade religiosa aos cidad&atilde;os, o que requer a neutralidade do Estado.<\/p>\n<p>Entretanto, a pr&aacute;tica da laicidade n&atilde;o tem sido observada e os poderes p&uacute;blicos est&atilde;o contaminados com referencias, signos e valores religiosos, mais especificamente os crist&atilde;os cat&oacute;licos. A maioria das reparti&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, hospitais e outros servi&ccedil;os t&ecirc;m crucifixos na parede ou outras imagens cat&oacute;licas. H&aacute; alguns anos, o fato do plen&aacute;rio do Supremo Tribunal Federal dispor de um grande crucifixo, gerou uma polemica por oportunos questionamentos de feministas e de defensores da laicidade.<\/p>\n<p>A mensagem do s&iacute;mbolo religioso presente nos espa&ccedil;os p&uacute;blicos imp&otilde;e o falso pressuposto de que a religi&atilde;o &eacute; anterior &agrave; pr&oacute;pria democracia quando, de fato, a religi&atilde;o deveria estar submetida ao pacto democr&aacute;tico.<\/p>\n<p>O direito constitucional &agrave; liberdade religiosa garante que os crentes tenham qualquer religi&atilde;o e que os n&atilde;o crentes n&atilde;o tenham religi&atilde;o. Entretanto, o Estado tem o dever de contestar, pelo bem comum e pela preserva&ccedil;&atilde;o dos interesses coletivos, a imposi&ccedil;&atilde;o de dogmas religiosos.<\/p>\n<p>&Agrave;s religi&otilde;es e &agrave;s igrejas &eacute; dado criar suas pr&oacute;prias verdades que nem sempre est&atilde;o baseadas em constata&ccedil;&otilde;es objetivas e cientificas e, nem sempre s&atilde;o capazes de permitir a liberdade dos que n&atilde;o agem ou pensam de forma semelhante aos seus preceitos. J&aacute; ao Estado n&atilde;o &eacute; permitido atuar ou decidir sem fundamenta&ccedil;&atilde;o cientifica ou baseado em argumentos que n&atilde;o possam ser comprovados. Nem decidir com base em preceitos e valores religiosos de grupos sociais, contrariando os interesses do conjunto da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A invers&atilde;o do lugar da religi&atilde;o emprenha os poderes e as institui&ccedil;&otilde;es, cujas consequ&ecirc;ncias se manifestam na vida social. Um bom exemplo desta invers&atilde;o &eacute; a obje&ccedil;&atilde;o de consci&ecirc;ncia dos profissionais de sa&uacute;de no atendimento ao aborto, mesmo nos casos legalizados ou permitidos pela lei.<\/p>\n<p>Tem sido assim nos servi&ccedil;os de sa&uacute;de que, mesmo incorporando objetivos quanto ao cuidado seguro das mulheres em situa&ccedil;&atilde;o de abortamento, os profissionais alegam &ldquo;obje&ccedil;&atilde;o de consci&ecirc;ncia&rdquo; e negam ao atendimento, subtraindo o direito &agrave; sa&uacute;de e &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o da vida das mulheres. Trata-se, em &uacute;ltima instancia, de uma imposi&ccedil;&atilde;o de poder do profissional e de seus valores morais &agrave;s mulheres. E o fazem amparado, geralmente, pelos respectivos c&oacute;digos de &eacute;tica profissional.<\/p>\n<p>Como advogar pela laicidade do Estado quando o pa&iacute;s incentiva o ensino da religi&atilde;o cat&oacute;lica na escola p&uacute;blica, em obedi&ecirc;ncia a acordos entre governos nacionais e o Vaticano? Na sa&uacute;de &eacute; expressiva a presen&ccedil;a das organiza&ccedil;&otilde;es sociais religiosas na assist&ecirc;ncia hospitalar, que contam com apoio financeiro e subs&iacute;dios governamentais. Ser&aacute; que estas institui&ccedil;&otilde;es atendem de forma correta, pronta e segura a mulher que busca atendimento nas situa&ccedil;&otilde;es de abortamento, mesmo nos casos permitidos pela Lei?<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos anos a situa&ccedil;&atilde;o do aborto no Brasil vem sendo esclarecida pelos diversos estudos realizados. J&aacute; n&atilde;o sobram duvidas que o aborto &eacute; uma importante causa de morte na mortalidade materna. Mesmo que a ampla comercializa&ccedil;&atilde;o seja lamentavelmente proibida pela Anvisa, o uso do Cytotec (misoprostol) adquirido pelas mulheres clandestinamente, reduziu de modo significativo as complica&ccedil;&otilde;es por aborto inseguro. Mas nem sempre o processo de abortamento por uso do Cytotec prescinde da assist&ecirc;ncia m&eacute;dica e, nesses casos, quando as mulheres buscam os servi&ccedil;os de sa&uacute;de, acabam vitimadas por censuras, amea&ccedil;as ou maus tratos dos pr&oacute;prios profissionais de sa&uacute;de.<\/p>\n<p>Os estudos de itiner&aacute;rios de mulheres que abortam mostram que quanto mais pobres, mais tempo e mais dif&iacute;cil &eacute; para elas o acesso a um atendimento em servi&ccedil;o de sa&uacute;de. Por isso morrem ou adquirem doen&ccedil;as em decorr&ecirc;ncia do abortamento desassistido. Aborto &eacute; de fato um problema complexo de sa&uacute;de p&uacute;blica e a sua legaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma necessidade de sa&uacute;de. O sofrimento das mulheres e das fam&iacute;lias que vivenciam o abandono e a aus&ecirc;ncia do Estado quando precisam ou desejam abortar, deve ser dimensionado por todos os atores p&uacute;blicos se &eacute; que ocupam esta posi&ccedil;&atilde;o para defender os interesses p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>No lugar de comprometer com a cidadania e a sa&uacute;de das mulheres brasileiras, grupos religiosos imp&otilde;em ao pa&iacute;s, sob a aquiesc&ecirc;ncia pac&iacute;fica do governo, aberra&ccedil;&otilde;es como o Estatuto do Nascituro, bolsa estupro e outras propostas de igual teor de viol&ecirc;ncia contra as mulheres. Se estes atores que atuam no governo e no Congresso Nacional, tivessem a sensibilidade, humanizada e solidaria, de perceber, sentir e compreender a situa&ccedil;&atilde;o de abandono, o desespero e a dor das mulheres quando se encontram diante de uma gravidez indesejada, teriam a chance de colocar seus valores religiosos na estrita esfera do pessoal e do privado. Mas para isso &eacute; imprescind&iacute;vel que se aproximem da condi&ccedil;&atilde;o humana. As decis&otilde;es destinadas ao conjunto da sociedade devem ser pautadas pelo respeito ao outro e pela solidariedade humana. Assim o pa&iacute;s avan&ccedil;aria para promover, n&atilde;o apenas a laicidade e a democracia, mas, especialmente, os direitos, a autonomia, a cidadania e a sa&uacute;de das mulheres.<\/p>\n<p><i>*Ana Maria Costa &eacute; m&eacute;dica, feminista, presidenta do Cebes<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>El 28 de septiembre fue la fecha elegida por movimientos sociales latinoamericanos para conmemorar la lucha por la despenalizaci\u00f3n del aborto. Pero \u00bfpor qu\u00e9 legalizar el aborto? Para consolidar el Estado laico, profundizar la democracia y promover los derechos sexuales y reproductivos y la salud de las mujeres. 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