{"id":939,"date":"2013-11-07T00:00:00","date_gmt":"2013-11-07T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2013\/11\/07\/feminicidio-alcances-de-la-penalizacion\/"},"modified":"2013-11-07T00:00:00","modified_gmt":"2013-11-07T02:00:00","slug":"feminicidio-alcances-de-la-penalizacion","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/feminicidio-alcances-de-la-penalizacion\/939\/","title":{"rendered":"Feminicidio: alcances de la penalizaci\u00f3n"},"content":{"rendered":"<p>A Comiss&atilde;o Parlamentar Mista de Inqu&eacute;rito da Viol&ecirc;ncia contra a Mulher, institu&iacute;da em 2011, finalizou seus trabalhos recentemente. O&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.senado.gov.br\/atividade\/materia\/getPDF.asp?t=130748&amp;tp=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relat&oacute;rio final<\/a>&nbsp;traz uma s&eacute;rie de recomenda&ccedil;&otilde;es e analisa as situa&ccedil;&otilde;es relativas aos 26 estados brasileiros mais o Distrito Federal. Um dos pontos principais que a Comiss&atilde;o prop&otilde;e &eacute; a categoriza&ccedil;&atilde;o do feminic&iacute;dio no rol de crimes previstos no C&oacute;digo Penal brasileiro, que passa por reforma no Congresso.<\/p>\n<p>O panorama da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero no Brasil revela dados tr&aacute;gicos. A cada dia, 15 mulheres s&atilde;o assassinadas, de acordo com&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/130925_sum_estudo_feminicidio_leilagarcia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudo do Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (Ipea)<\/a>&nbsp;divulgado recentemente. A cada 90 minutos, o pa&iacute;s registra um homic&iacute;dio.<\/p>\n<p>Os trabalhos da CPMI contabilizaram 92 mil mulheres assassinadas nos &uacute;ltimos 30 anos. A quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia contra a mulher tem sido uma preocupa&ccedil;&atilde;o antiga do poder p&uacute;blico. Em 1992, uma primeira CPI fora instalada para investigar o fen&ocirc;meno, apontando a dificuldade de se compilar dados. Passados mais de 20 anos, pesquisas sobre o fen&ocirc;meno j&aacute; foram incorporadas com mais frequencia ao cotidiano. Al&eacute;m da do IPEA, o Instituto Patr&iacute;cia Galv&atilde;o (IPG) e a Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo t&ecirc;m se preocupado em dimensionar a extens&atilde;o e a natureza do problema. H&aacute; poucos meses, o IPG revelou que 54% das pessoas conhecem uma mulher que j&aacute; foi agredida e que 56% conhecem algum homem que j&aacute; praticou viol&ecirc;ncia contra a parceira.<\/p>\n<p>Pela proposta da CPMI, o assassinato de mulheres pelo fato de ser mulher constituir&aacute; um qualificador. A pena para o crime, definido como &ldquo;forma extrema de viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero&rdquo;, &eacute; de reclus&atilde;o de 12 a 30 anos. Para Leila Linhares, advogada e coordenadora do Cepia (Cidadania, Educa&ccedil;&atilde;o, Pesquisa, Informa&ccedil;&atilde;o e A&ccedil;&atilde;o), &ldquo;a iniciativa &eacute; necess&aacute;ria para o cen&aacute;rio brasileiro. Convivemos com a viol&ecirc;ncia contra a mulher de forma enraizada. A inclus&atilde;o do feminic&iacute;dio como qualificador coloca o pa&iacute;s na lista de pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina que possuem legisla&ccedil;&atilde;o semelhante. O Brasil est&aacute; atrasado nesse sentido&rdquo;, afirma, lembrando que o Cepia subscreveu a proposta.<\/p>\n<p>O assassinato de mulheres constitui um fen&ocirc;meno espec&iacute;fico, cuja natureza envolve rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero desiguais e hier&aacute;rquicas. N&atilde;o apenas os assassinatos, mas uma s&eacute;rie de outras viol&ecirc;ncias, como a agress&atilde;o f&iacute;sica, a sexual, a institucional, a psicol&oacute;gica, a patrimonial comp&otilde;em o quadro de vulnerabilidade social das mulheres. &ldquo;Assim como o estupro, o homic&iacute;dio de mulheres possui especificidades. &Eacute; pelo fato de ser mulher, e o que isso significa socialmente, que as circunst&acirc;ncias de viol&ecirc;ncia s&atilde;o criadas. No caso dos assassinatos, geralmente s&atilde;o cometidos no &acirc;mbito de rela&ccedil;&otilde;es privadas, &iacute;ntimas. S&atilde;o parceiros, ex-parceiros, familiares, conhecidos que cometem&rdquo; afirma Leila Linhares. &ldquo;N&atilde;o se pode ignorar que h&aacute; contornos de crime de &oacute;dio&rdquo;, complementa.<\/p>\n<p>A preocupa&ccedil;&atilde;o com o fen&ocirc;meno &eacute; antiga. A mobiliza&ccedil;&atilde;o do movimento feminista foi importante para tematizar o problema em termos pol&iacute;ticos. Isso levou o Estado a reconhecer a gravidade do problema. Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, foram criadas tentativas de lidar com o problema. Nos anos 1980, as Delegacias da Mulher consistiram em um passo inicial importante. O governo federal, na d&eacute;cada de 2000, criou a Secretaria de Pol&iacute;ticas para as Mulheres, cuja atua&ccedil;&atilde;o tem se dedicado a pensar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para lidar com o fen&ocirc;meno. Em 2006, a Lei Maria da Penha foi promulgada, aumentando o rigor nas puni&ccedil;&otilde;es dos agressores e ampliando as possibilidades de assist&ecirc;ncia e prote&ccedil;&atilde;o &agrave;s v&iacute;timas.<\/p>\n<p>A &ecirc;nfase em sa&iacute;das penais para lidar com o fen&ocirc;meno, no entanto, n&atilde;o &eacute; consensual entre especialistas e operadores do direito. Para o juiz federal e professor de Direito da IBMEC-RJ Rubena Casara, medidas penais n&atilde;o solucionam problemas estruturais como o machismo, que est&aacute; na raiz da viol&ecirc;ncia contra a mulher. &ldquo;N&atilde;o discordo de que h&aacute; um efeito simb&oacute;lico importante na altera&ccedil;&atilde;o proposta pela CPMI ao reconhecer a particularidade do crime contra as mulheres. No entanto, vejo um problema mais de fundo. No Brasil, h&aacute; uma tend&ecirc;ncia a se descontextualizar os fatos sociais e torn&aacute;-los quest&otilde;es penais. A resposta penal, por seu lado, &eacute; sempre atrasada, ela se d&aacute; ap&oacute;s o ocorrido. Nesse sentido, n&atilde;o acredito que seja uma sa&iacute;da para o problema da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero&rdquo;, argumenta o juiz.<\/p>\n<p>A pesquisa do IPEA demonstrou que desde a promulga&ccedil;&atilde;o da Lei Maria da Penha, a taxa de mortalidade das mulheres n&atilde;o diminuiu. Em 2007, para cada 100 mil, 4,74 mulheres foram mortas; em 2008, a taxa ficou em 5,07; em 2009, 5,38; e em 2011 o &iacute;ndice ficou em 5,43. Isto &eacute;, os dados t&ecirc;m apresentado certa estabilidade, com sens&iacute;vel altera&ccedil;&atilde;o. Como analisar tais n&uacute;meros na discuss&atilde;o sobre tipifica&ccedil;&atilde;o do feminic&iacute;dio? Afinal, mesmo ap&oacute;s a Lei Maria da Penha, considerada um marco no enfrentamento ao problema, os &iacute;ndices n&atilde;o apresentaram melhoras<\/p>\n<p>Para o juiz Rubens Casara, que ressalta n&atilde;o conhecer a pesquisa, a criminaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o diminui fen&ocirc;menos sociais. &ldquo;A lei Ca&oacute;, que criminalizou o racismo no pa&iacute;s, n&atilde;o fez com que o fen&ocirc;meno diminu&iacute;sse. Da mesma maneira, acredito que criminaliza&ccedil;&atilde;o da homofobia tamb&eacute;m n&atilde;o ter&aacute; o efeito de reduzir os casos. As pessoas n&atilde;o se tornam menos racistas ou homof&oacute;bicas por causa de medidas penais. O machismo, portanto, n&atilde;o ser&aacute; efetivamente eliminado com o C&oacute;digo Penal&rdquo;, afirma Rubens Casara.<\/p>\n<p>A defensora p&uacute;blica Arlanza Rebello, que durante 12 anos coordenou o N&uacute;cleo de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria P&uacute;blica do RJ (NUDEM), &eacute; favor&aacute;vel &agrave; inclus&atilde;o do feminic&iacute;dio no C&oacute;digo Penal. &ldquo;Ser&aacute; mais um reconhecimento do Estado para a gravidade do problema, assim como foi com a Lei Maria da Penha. Tais medidas permitem a cria&ccedil;&atilde;o de dados e estat&iacute;sticas para se pensar em pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. Assim, a tipifica&ccedil;&atilde;o contribui para fazer o Estado se mover diante do problema&rdquo;, argumenta a defensora, que n&atilde;o acredita, no entanto, que o direito penal seja a &uacute;nica solu&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Criminalizar e encarcerar, isoladamente, n&atilde;o resolve o problema. &Eacute; preciso pensar em uma atua&ccedil;&atilde;o ampla, que articule uma educa&ccedil;&atilde;o consciente e a forma&ccedil;&atilde;o de profissionais capacitados para lidar com o problema. O combate &agrave; viol&ecirc;ncia contra a mulher deve ser feito em v&aacute;rias frentes&rdquo;, ressalta.<\/p>\n<p>Leila Linhares, do Cepia, destaca que leis n&atilde;o mudam a realidade de imediato. &ldquo;No entanto, sinalizam uma postura de uma nova cultura. A lei diz &agrave; sociedade o que &eacute; certo e errado. Naturalmente, deve haver uma atua&ccedil;&atilde;o exemplar do Estado para fazer valer, pois assim a lei torna-se um movimento de cultura, de mentalidade. Tais mudan&ccedil;as podem ser lentas, mas precisamos colocar em pr&aacute;ticas mecanismos para fazer esse processo&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p>Sobre o argumento cr&iacute;tico &agrave; penaliza&ccedil;&atilde;o, a coordenadora do Cepia pondera que, de fato, &eacute; uma reflex&atilde;o v&aacute;lida. &ldquo;Quais s&atilde;o as sa&iacute;das para a viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero? &Eacute; preciso pensar na educa&ccedil;&atilde;o, na comunica&ccedil;&atilde;o e em outros aspectos que, em conjunto com medidas penais, possam combater o machismo&rdquo;, afirma Leila Linhares. &ldquo;Vivemos em uma sociedade cuja programa&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o privilegia a mulher por uma &oacute;tica discriminat&oacute;ria, perpetuando rela&ccedil;&otilde;es de poder que est&atilde;o na base dos casos de viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero. Portanto, &eacute; importante refletir sobre como os meios culturais reproduzem certos valores. A lei, a meu ver, tamb&eacute;m traz reflex&otilde;es sobre as percep&ccedil;&otilde;es que a sociedade tem. Por isso, o enfrentamento deve ser amplo&rdquo;, completa Leila Linhares.<\/p>\n<p>Apesar dos dados do IPEA indicarem que a viol&ecirc;ncia contra a mulher permanecem em n&iacute;veis elevados, Leila Linhares e Arlanza Rebello ressaltam que n&atilde;o se pode afirmar categoricamente que a Lei Maria da Penha n&atilde;o trouxe efeitos. &ldquo;N&atilde;o podemos subestimar que as mulheres est&atilde;o denunciando mais o que anteriormente n&atilde;o era denunciado. E o Estado tem sido mais atento ao fen&ocirc;meno. Assim, a quest&atilde;o tem obtido uma difus&atilde;o maior do que antes da lei. &Eacute; importante ter isso em mente. Al&eacute;m disso, a participa&ccedil;&atilde;o de mulheres em organiza&ccedil;&otilde;es criminosas aumentou nos &uacute;ltimos anos. Assim, elas est&atilde;o crescendo dentro do quadro de v&iacute;timas de homic&iacute;dio&rdquo;, aponta Leila Linhares.<\/p>\n<p>Para Arlanza Rebello, &eacute; dif&iacute;cil falar sobre a efic&aacute;cia da Lei Maria da Penha em fun&ccedil;&atilde;o do pouco tempo da promulga&ccedil;&atilde;o. &ldquo;S&atilde;o apenas 7 anos. A lei, no entanto, traz mecanismos importantes de preven&ccedil;&atilde;o, prote&ccedil;&atilde;o e puni&ccedil;&atilde;o. Naturalmente, deve ser aplicada em conjunto com outras medidas. Uma das dificuldades tem sido a falta de uniformiza&ccedil;&atilde;o. H&aacute; posturas diferentes entre os Estados. H&aacute; ju&iacute;zes que ainda sentenciam baseados no ran&ccedil;o antigo de n&atilde;o encarar o problema como sendo grave e espec&iacute;fico. No entanto, a lei trouxe visibilidade e dados. N&atilde;o podemos ser categ&oacute;ricos em dizer que n&atilde;o trouxe efeitos porque n&atilde;o diminuiu o n&uacute;mero de homic&iacute;dios. N&atilde;o houve aumento dos assassinatos, por outro lado. Considero prematuro jogar sobre a lei a responsabilidade de modificar uma cultura. Tanto a lei quanto a poss&iacute;vel tipifica&ccedil;&atilde;o do feminic&iacute;dio s&atilde;o alternativas para lidar com o problema&rdquo;, observa a defensora Arlanza Rebello.<\/p>\n<p>Para o juiz Rubens Casara, o feminic&iacute;dio j&aacute; &eacute; punido no Brasil. &ldquo;Pela atual legisla&ccedil;&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel dar a senten&ccedil;a a partir de uma vis&atilde;o do assassinato de mulher tendo agravante. O juiz pode levar em conta a quest&atilde;o do g&ecirc;nero na hora de aplicar a pena. Quem defende a criminaliza&ccedil;&atilde;o revela um ato de f&eacute; e acredita que isso ir&aacute; mudar o imagin&aacute;rio. No entanto, em termos pr&aacute;ticos, n&atilde;o acredito haja efeito&rdquo;, conclui o juiz.<\/p>\n<p>A tramita&ccedil;&atilde;o da reforma do C&oacute;digo Penal permanece no Congresso Nacional. No final de outubro, 806 emendas obrigaram o texto a ser novamente apreciado pela comiss&atilde;o especial que o abriga. O prazo final para a conclus&atilde;o dos trabalhos &eacute; 16 de dezembro, quando o projeto ser&aacute; analisado pela Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o, Justi&ccedil;a e Cidadania.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>La violencia de g\u00e9nero en Brasil alcanza cifras alarmantes: seg\u00fan investigaci\u00f3n, cada 90 minutos una mujer es asesinada. Comisi\u00f3n Parlamentaria de Investigaci\u00f3n sobre el tema propuso tipificar, en el marco de reforma al C\u00f3digo Penal, el feminicidio. \u00bfQu\u00e9 beneficios puede traer la medida? 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