{"id":976,"date":"2014-06-18T00:00:00","date_gmt":"2014-06-18T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/clam.org.br\/es\/2014\/06\/18\/la-logica-punitiva\/"},"modified":"2014-06-18T00:00:00","modified_gmt":"2014-06-18T03:00:00","slug":"la-logica-punitiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clam.org.br\/es\/noticias-clam\/la-logica-punitiva\/976\/","title":{"rendered":"La l\u00f3gica punitiva"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><i>por F&aacute;bio Grotz<\/i><\/p>\n<p>A presidente Dilma Rousseff promulgou no in&iacute;cio do m&ecirc;s de junho a&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2011-2014\/2014\/Lei\/L12984.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lei 12.984<\/a>. O texto criminaliza a discrimina&ccedil;&atilde;o contra pessoas vivendo com HIV\/Aids. A partir de agora, casos como a divulga&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o de portador do v&iacute;rus com o intuito de ofensa, a recusa de escolas em matricular alunos soropositivos, a demiss&atilde;o ou segrega&ccedil;&atilde;o no ambiente de trabalho e a demora ou recusa de atendimento de sa&uacute;de passam a ser punidos com multa e pris&atilde;o de 1 a 4 anos. A lei foi&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.agenciaaids.com.br\/noticias\/interna.php?id=22335\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">comemorada&nbsp;<\/a>por entidades e movimentos de direitos humanos; entretanto, de acordo com ativistas e operadores do direito ouvidos pelo CLAM, &eacute; preciso ter cautela diante das limita&ccedil;&otilde;es do texto e, especialmente, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua efic&aacute;cia e l&oacute;gica punitiva.<\/p>\n<p>A lei, que tramitou por 11 anos, &eacute; vista por Cazu Barroz, coordenador da Federa&ccedil;&atilde;o de Bandeirantes do Brasil, como uma medida importante. Apesar disso, ele ressalta que a necessidade de uma lei espec&iacute;fica para punir a discrimina&ccedil;&atilde;o &eacute; um sinal de que o pa&iacute;s ainda precisa avan&ccedil;ar. &ldquo;A lei &eacute; um instrumento para facilitar o conv&iacute;vio social. Infelizmente, precisamos de uma legisla&ccedil;&atilde;o do tipo para que as coisas funcionem conforme previsto na Constitui&ccedil;&atilde;o, que preza pelo respeito, pela dignidade e pela n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o. Desde o in&iacute;cio da epidemia nos anos 1980, n&oacute;s, os portadores do HIV, somos v&iacute;timas de preconceito e estigma nos mais diversos espa&ccedil;os&rdquo;, afirma Cazu Barroz.<\/p>\n<p>Em 1992, Cazu Barroz foi demitido de uma rede de restaurantes&nbsp;<i>fast food<\/i>&nbsp;por ser soropositivo. Ele processou a empresa e conseguiu um acordo no qual receber&aacute; por toda a vida sal&aacute;rio e benef&iacute;cios. Em 2007, ele foi chamado pela empresa para trabalhar l&aacute; novamente. No entanto, em condi&ccedil;&otilde;es claramente discriminat&oacute;rias, pois ficaria sozinho em uma sala, sem contato com outros funcion&aacute;rios.<\/p>\n<p>A epidemia de HIV\/Aids tem sido, desde o seu in&iacute;cio, envolta em estigmas. Nos anos 1980, quando emergiu, a Aids esteve associada &agrave; no&ccedil;&atilde;o de desvio, em um contexto moral que se revelou destacadamente contra indiv&iacute;duos homossexuais, atrav&eacute;s da ideia da doen&ccedil;a como castigo. Assim, ser portador do v&iacute;rus e\/ou da doen&ccedil;a remete a uma s&eacute;rie de representa&ccedil;&otilde;es negativas que em geral desdobram-se em preconceito e discrimina&ccedil;&atilde;o. Nesse contexto, alguns casos emblem&aacute;ticos ilustram a trajet&oacute;ria que a epidemia tem percorrido no contexto brasileiro, bem como as respostas de direitos humanos que foram pensadas e desenvolvidas para enfrentar a situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Um dos casos mais not&oacute;rios foi o da menina Sheila Cartopassi de Oliveira que, em 1992, aos 5 anos de idade, n&atilde;o foi aceita por um escola na cidade de S&atilde;o Paulo por ser portadora do v&iacute;rus HIV. A recusa do estabelecimento de ensino mobilizou a sociedade civil e levou o governo federal, atrav&eacute;s de uma portaria interministerial, a proibir esse tipo de discrimina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, entidades ligadas aos direitos das pessoas vivendo com HIV\/Aids lograram vit&oacute;rias judiciais que culminaram tanto na constru&ccedil;&atilde;o de uma jurisprud&ecirc;ncia s&oacute;lida quanto de um arcabou&ccedil;o te&oacute;rico e de um clima pol&iacute;tico voltado para a inclus&atilde;o dos indiv&iacute;duos soropositivos.<\/p>\n<p>Cotidianamente, a advogada Patr&iacute;cia Rios, coordenadora da assessoria jur&iacute;dica do Grupo Pela Vidda de Niter&oacute;i, assiste pessoas v&iacute;timas de discrimina&ccedil;&atilde;o, constrangimentos e segrega&ccedil;&atilde;o no ambiente de trabalho, na escola e nos servi&ccedil;os de sa&uacute;de. &ldquo;Temos consolidado um arsenal importante de decis&otilde;es que promovem e garantem os direitos das pessoas soropositivas. Isso tem for&ccedil;ado o Estado a pensar e criar pol&iacute;ticas e leis em rela&ccedil;&atilde;o ao direito &agrave; sa&uacute;de e ao trabalho, a partir de uma perspectiva dos direitos humanos&rdquo;, destaca a advogada.<\/p>\n<p>A distribui&ccedil;&atilde;o gratuita de medica&ccedil;&atilde;o antirretroviral pela rede p&uacute;blica de sa&uacute;de, a partir de 1996, foi uma conquista possibilitada pela mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil, por exemplo. No entanto, para Patr&iacute;cia Rios, avaliar a nova lei requer um exerc&iacute;cio de perguntas e pondera&ccedil;&otilde;es. &ldquo;Precisamos de uma lei para trazer a culpabiliza&ccedil;&atilde;o? Se tiv&eacute;ssemos um Estado e uma sociedade que respeitassem a dignidade das pessoas vivendo com HIV\/Aids, precisar&iacute;amos dessa lei? A nova legisla&ccedil;&atilde;o, que criminaliza a discrimina&ccedil;&atilde;o contra indiv&iacute;duos com o v&iacute;rus e a doen&ccedil;a, sinaliza que, infelizmente, a epidemia ainda preserva muitos tra&ccedil;os de seu in&iacute;cio. O estigma permanece&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p>Um desses estigmas &eacute; endossado pelas For&ccedil;as Armadas. A admiss&atilde;o e perman&ecirc;ncia nas corpora&ccedil;&otilde;es militares s&atilde;o condicionadas pelo status sorol&oacute;gico. A promulga&ccedil;&atilde;o da lei 12.984, no entanto, n&atilde;o garante que tal situa&ccedil;&atilde;o seja mudada, fazendo pensar sobre os limites do texto. De acordo com Patr&iacute;cia Rios, a lei &eacute; um mecanismo importante para questionar na Justi&ccedil;a o uso do HIV\/Aids como crit&eacute;rio de sele&ccedil;&atilde;o e demiss&atilde;o. &ldquo;Mas eu posso ganhar ou perder. Vai depender da decis&atilde;o judicial. Meu medo &eacute; que essa lei seja mais uma. Legisla&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o suficientes para modificar a realidade&rdquo;, pondera.<\/p>\n<p>Uma quest&atilde;o que Cazu Barroz aponta &eacute; o fato de que nem sempre se pode provar que um empregador usou a soropositividade para negar a admiss&atilde;o ou a perman&ecirc;ncia de uma pessoa no emprego. Ele relata que grandes empresas contratam m&eacute;dicos infectologistas que detectam a presen&ccedil;a do v&iacute;rus sem a necessidade do teste de HIV, apenas com exames simples que mensuram marcadores cl&iacute;nicos como triglicer&iacute;deos e ureia, o que dificulta a configura&ccedil;&atilde;o da discrimina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a lei 12.984 n&atilde;o contempla todos os desafios que a epidemia apresenta no cotidiano. Seu texto define casos espec&iacute;ficos de discrimina&ccedil;&atilde;o, tendo um escopo restrito. Tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; clareza, conforme aponta Patr&iacute;cia Rios. &ldquo;A lei aponta que a pessoa pode ir a uma delegacia e denunciar que &eacute; v&iacute;tima de discrimina&ccedil;&atilde;o. No entanto, em rela&ccedil;&atilde;o a casos no &acirc;mbito do mercado de trabalho, j&aacute; h&aacute; uma s&uacute;mula do Tribunal Superior do Trabalho que protege a pessoa portadora do HIV, presumindo como discriminat&oacute;ria a demiss&atilde;o de pessoas com HIV\/Aids e, assim, invalidando o ato. A lei, portanto, n&atilde;o avan&ccedil;a nesse sentido. Por si s&oacute;, o texto n&atilde;o garante estabilidade ao empregado&rdquo;, destaca a advogada.<\/p>\n<p>Para Cazu Barroz, n&atilde;o se pode esperar grandes mudan&ccedil;as. &ldquo;A Lei Maria da Penha [que endureceu as penas nos casos de viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero e dom&eacute;stica] mudou a realidade?&rdquo;, questiona. Al&eacute;m dessas quest&otilde;es e limites da nova lei, o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de tem sido muito criticado em raz&atilde;o da falta do di&aacute;logo com a sociedade civil que marcou e consagrou a constru&ccedil;&atilde;o da resposta brasileira &agrave; epidemia.<\/p>\n<p>Ainda que o governo mantivesse uma articula&ccedil;&atilde;o s&oacute;lida com a sociedade civil, privilegiar a criminaliza&ccedil;&atilde;o como recurso pedag&oacute;gico, ressaltam tanto Patr&iacute;cia Rios quanto Cazu Barroz, n&atilde;o parece a sa&iacute;da mais adequada. Opini&atilde;o semelhante tem a professora e diretora do Instituto de Estudos em Sa&uacute;de Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro(Iesc\/UFRJ), Miriam Ventura. Advogada por forma&ccedil;&atilde;o e atuante durante anos na defesa dos direitos das pessoas com HIV\/Aids, ela tem uma posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; lei 12.984, sobretudo pela l&oacute;gica punitiva que a fundamenta.<\/p>\n<p>&ldquo;No in&iacute;cio da epidemia, o estigma e a discrimina&ccedil;&atilde;o foram tra&ccedil;os muito fortes, caracterizando uma abordagem punitiva e discriminat&oacute;ria &agrave;s pessoas soropositivas. A mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil possibilitou o encontro de uma perspectiva de direitos humanos com a sa&uacute;de. Assim, buscou-se escapar da l&oacute;gica punitiva como caminho para lidar com a epidemia. O referencial dos direitos humanos foi fundamental para a conquista de muitas vit&oacute;rias. A cidadania foi promovida nesses termos. A quest&atilde;o do HIV\/Aids &eacute; muito complexa. N&atilde;o se pode pens&aacute;-la de forma restrita. As dimens&otilde;es social e cultural s&atilde;o essenciais. Foi assim que conseguimos produzir vasta reflex&atilde;o sobre o estigma. Nesse sentido, o uso da legisla&ccedil;&atilde;o criminal resgata uma perspectiva que estamos tentando desconstruir desde os anos 1980 e que nos afasta da linguagem dos direitos humanos ao privilegiar a criminaliza&ccedil;&atilde;o como forma de garantir direitos&rdquo;, argumenta Miriam Ventura.<\/p>\n<p>Ela destaca que o referencial dos direitos deve ser priorizado em sua dimens&atilde;o instauradora. &ldquo;O caso Sheila, por exemplo, foi enfrentado de uma forma propositiva. A partir do referencial de direitos universais, como o direito &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, conseguimos deslegitimar aquela viola&ccedil;&atilde;o. Da mesma forma, os tribunais t&ecirc;m decidido a favor das pessoas discriminadas a partir de a&ccedil;&otilde;es positivas que valorizam os direitos&rdquo;, afirma a advogada e pesquisadora.<\/p>\n<p>Dentre as a&ccedil;&otilde;es positivas, Miriam Ventura cita a previs&atilde;o de que pessoas soropositivas possam utilizar o Fundo de Garantia por Tempo de Servi&ccedil;o (FGTS), benef&iacute;cio que os empregadores devem depositar mensalmente em nome do empregado para ser resgatado em caso de demiss&atilde;o.<\/p>\n<p>An&aacute;lise similar tem Patr&iacute;cia Rios, do Grupo Pela Vidda, para quem pol&iacute;ticas e leis afirmativas s&atilde;o mais adequadas para lidar com a discrimina&ccedil;&atilde;o. &ldquo;A penaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o cria um parceiro, cria um inimigo. Vamos tratar os direitos das pessoas com pol&iacute;cia e pris&atilde;o? H&aacute; outras formas de lidar com a quest&atilde;o. Por que n&atilde;o priorizar a educa&ccedil;&atilde;o como instrumento de combate do preconceito? A educa&ccedil;&atilde;o continuada de profissionais da sa&uacute;de e da educa&ccedil;&atilde;o, por exemplo, &eacute; uma forma valiosa de enfrentar o preconceito, pois o alvo &eacute; a mentalidade das pessoas. Certamente, mudamos as condutas atrav&eacute;s de a&ccedil;&otilde;es educativas, que contagiam e levam a reflex&atilde;o para outros espa&ccedil;os&rdquo;, enfatiza.<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer certo valor simb&oacute;lico na lei, Miriam Ventura n&atilde;o aprova tratar, pela via da penaliza&ccedil;&atilde;o, os agressores. &ldquo;Vamos trat&aacute;-los como trat&aacute;vamos e ainda tratamos as v&iacute;timas, com uma linguagem que exclui ao inv&eacute;s de incluir? O direito penal atinge o indiv&iacute;duo, n&atilde;o lida com o contexto social de desigualdades que est&aacute; na raiz do estigma contra pessoas vivendo com HIV\/Aids. N&atilde;o demonizo o encarceramento, mas nos casos de discrimina&ccedil;&atilde;o seria interessante refletirmos sobre a efic&aacute;cia dessa resposta e pensarmos em formas mais propositivas e afirmativas. Trabalhar com direitos pela via da criminaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o me parece produtivo. Um grande esfor&ccedil;o tem sido empreendido por pesquisadores, organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil e gestores no mundo todo em prol de um direito penal m&iacute;nimo. Seria importante alargar essa discuss&atilde;o e problematizar as solu&ccedil;&otilde;es penais&rdquo;, conclui a professora do IESC\/UFRJ.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Festejada como conquista, fue promulgada recientemente por el gobierno brasile\u00f1o una ley que criminaliza la discriminaci\u00f3n contra personas viviendo con VIH\/Sida. Pero, \u00bfconviene a una pol\u00edtica de defensa de derechos humanos el \u00e9nfasis en la penalizaci\u00f3n? 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