A rede transnacional de pesquisas sobre maternidades destituídas, violadas e violentadas (REMA), em parceria com o Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM), realizou uma roda de conversa online no último dia 26 de novembro. Quase um mês após a chacina decorrente da operação policial mais letal da história do país, no Complexo da Penha e do Alemão na cidade do Rio de Janeiro, o encontro focou no tema das maternidades violentadas pelo Estado.
A atividade foi conduzida por professores da UERJ e integrantes da REMA, como parte do projeto e curso de extensão “Maternidades e violências: fortalecimento do direito à saúde e redes de acolhimento”. O curso é vinculado ao Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro em parceria com o Instituto de Ciências Sociais e está disponível pela Plataforma do Telessaúde da UER. O projeto organiza semestralmente rodas de conversa online, via zoom, com alunos de diferentes regiões do país que concluíram o curso na plataforma.
A última roda contou com a participação dos professores Ricardo Campelo (IMS/UERJ) e Juliana Farias (ICS/UERJ e REMA) e de Ivanir Mendes dos Santos, integrante do Movimento de Mães contra a Violência de Estado. Ricardo e Juliana abriram a conversa destacando duas faces da violência Estatal no Brasil: a subordinação das instituições de perícia à polícia bem como o encarceramento em massa, que atinge sobretudo a população negra. “A perícia para pobre não existe. Eles alegam que não tem perícia porque não tem segurança dentro das comunidades”, denuncia Ivanir.
Professora do terceiro módulo do curso da REMA, a ativista contou sua atuação na luta por direitos e justiça, dando destaque aos impactos na saúde física e psicológica dos familiares que têm suas vidas atravessadas pela violência estatal. “Quando a gente fala da violência e do adoecimento, psicologicamente a mãe nunca mais volta, nós tentamos o tempo todo lutar”, afirma Ivanir, que é mãe de Moisés de Santana, morto por policiais militares no Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, em outubro de 2016, aos 21 anos.
Em seguida, as alunas do curso que participaram da roda foram convidadas a compartilhar as possibilidades de resistência que elas acreditam que os agentes estatais podem promover a partir de seus campos de atuação. As participantes atuavam no tema em diferentes regiões do Brasil a partir de diferentes áreas – como enfermagem, direito, psicologia e serviços social – e compartilharam suas experiências. Foram debatidos também outros temas abordados no curso, como: violências obstétricas, destituição, intersecção de raça, gênero, classe e território e falta de humanização nos serviços. Participaram ainda da roda Laura Lowenkron (CLAM/IMS/UERJ) e Janaína Gentili, que integram a equipe de coordenação e corpo docente do curso pela REMA, e as estagiárias de extensão da UERJ, Alana Silva e Tainá Pereira.
Lançado em março de 2025, o curso de extensão online “Maternidades e violências: fortalecimento do direito à saúde e redes de acolhimento” é uma iniciativa da REMA, em parceria com o CLAM, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O projeto de extensão da UERJ vinculado ao curso conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Coordenado por Laura Lowenkron (UERJ), Lucia Eilbaum (UFF) e Natália Fazzioni (Fiocruz), o curso conta até o momento com um total de 843 inscritos e cerca de 190 concluintes.
*Texto de Alana Silva e Thainá Pereira (estagiárias de extensão da UERJ), sob supervisão de Laura Lowenkron