Acaba de ser publicado o número 73 da Revista Horizontes Antropológicos, com dossiê sobre parentalidades, cuidado e políticas públicas. O dossiê conta com artigos de pesquisadoras/es vinculados ao CLAM.
O artigo “Maternidade e pandemia nas classes populares: a relação entre o ordinário e o extraordinário nas experiências de cuidado de crianças durante o fechamento das creches públicas no Rio de Janeiro”, de autoria da pesquisadora Leticia Hastenreiter e da professora Laura Lowenkron (CLAM/IMS/UERJ), analisa os impactos dos fechamentos prolongados das creches públicas durante a pandemia de Covid-19 para mães das classes populares, principalmente para mulheres negras moradoras de favelas. A pesquisa analisa como essas mulheres vivenciaram a maternidade em um contexto marcado pela sobrecarga de cuidados, pela precarização da vida cotidiana e pela interrupção e, consequentemente, ausência de políticas públicas de suporte.
A investigação foi conduzida em 2023, a partir de conversas informais, uma roda de conversa em uma creche pública, localizada em uma favela da Zona Norte do Rio, e entrevistas com mães cujos filhos estavam matriculados na instituição antes da pandemia. O material revela como o fechamento das creches intensificou desigualdades estruturais já presentes no cotidiano dessas famílias.
O estudo dialoga com os conceitos de colonialidade do cuidado e reprodução estratificada, a partir de uma perspectiva interseccional e evidencia como os entrecruzamentos das variáveis gênero, raça, classe e território podem produzir experiências bem diversas sobre a maternidade.
A pesquisa contribui para o debate público sobre políticas de cuidado, educação infantil e justiça social, reforçando a urgência de pensar a creche como direito das crianças e das mulheres, especialmente em contextos de vulnerabilidade.
Este estudo foi realizado no âmbito do mestrado acadêmico de Leticia Hastenreiter no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), e do Projeto “Gênero, família e Estado: governo da infância, pandemia e a gestão da (não) reabertura escolar no Rio de Janeiro” de Laura Lowenkron (Jovem Cientista do Nosso Estado/FAPERJ), vinculado à mesma instituição.
Acesse aqui o artigo na íntegra.
Referência do artigo:
HASTENREITER, Letícia; LOWENKRON, Laura. Maternidade e pandemia nas classes populares: a relação entre o ordinário e o extraordinário nas experiências de cuidado de crianças durante o fechamento das creches públicas no Rio de Janeiro. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 31, n. 73, set./dez. 2025.
O artigo “Corpos partilhados, afetos controlados: constituição do parentesco e da parentalidade na experiência da gestação de substituição no Brasil”, de autoria de Aureliano Lopes da Silva Junior (UFRRJ), Mônica Fortuna Pontes (UERJ) e Anna Paula Uziel (CLAM/IP/UERJ), analisa como se constroem a parentalidade e o parentesco em contextos de gestação de substituição no Brasil, prática ainda em processo de regulamentação no país, e mediada por vínculos familiares e sociais.
A pesquisa adota uma perspectiva socioantropológica e articula debates do campo das biotecnologias reprodutivas com entrevistas realizadas com mulheres que gestaram voluntariamente para outras pessoas. O objetivo foi compreender como corpos, afetos e relações sociais participam da produção de vínculos familiares nesse tipo de experiência.
Entre os principais eixos analisados estão a centralidade do corpo da gestante na construção de vínculos com a criança por ela gestada, as relações estabelecidas entre a gestante de substituição e a família para quem ela gestou, e os laços criados entre a criança e os filhos da própria gestante.
Os resultados indicam que, dentro dos limites permitidos pela regulamentação brasileira, as relações construídas durante a gestação frequentemente se estendem para além da gravidez e do parto. Esses vínculos são geridos de diferentes maneiras ao longo do tempo, possibilitando variados arranjos entre as pessoas que participam dessas dinâmicas familiares.
Ao evidenciar a complexidade das relações de afeto, parentesco e parentalidade envolvidas na gestação de substituição, o estudo contribui para ampliar o debate público sobre novas configurações familiares, evidenciando que elas não podem ser compreendidas apenas a partir de normas jurídicas ou biomédicas, mas também das experiências vividas e dos arranjos afetivos construídos no cotidiano.
Acesse aqui o artigo na íntegra.
Referência do artigo:
SILVA JUNIOR, Aureliano Lopes da; PONTES, Mônica Fortuna; UZIEL, Anna Paula. Corpos partilhados, afetos controlados: constituição do parentesco e da parentalidade na experiência da gestação de substituição no Brasil. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 31, n. 73, set./dez. 2025.