CLAM – Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos

Lançamento de dossiê sobre HIV/Aids, gênero e sexualidades 

Acaba de ser lançado o dossiê “ISTs, HIV/Aids, gênero e sexualidades: vivências, assujeitamentos e politizações”, organizado por Mónica Franch (UFPB), Claudia Mora (CLAM/IMS/UERJ), Ivia Maksud (Fiocruz), Luís Felipe Rios (UFPE) e Lírio Ferreira do Nascimento (UFRN), publicado na Revista Artemis, v.40, nº1 (2025). 

O dossiê reúne pesquisas, relatos de experiência e produções artísticas que analisam o HIV/Aids como um fenômeno social, capaz de produzir discursos e práticas que permeiam questões relacionadas ao gênero e às sexualidades. As pesquisas que compõem o dossiê discutem aspectos sociais e simbólicos relacionados à epidemia do HIV/Aids, enfatizando o estigma e a discriminação, especialmente nos serviços de saúde e nos espaços de sociabilidade LGBTQIAPN+, tanto presenciais quanto digitais. Parte das pesquisas aqui reunidas foi desenvolvida durante a pandemia de Covid-19, o que influenciou tanto os percursos metodológicos quanto as experiências psicossociais envolvidas. 

O dossiê dialoga com uma ampla tradição socioantropológica dedicada às relações entre Aids, gênero e sexualidade, conferindo visibilidade às diversas formas de viver com HIV, visando contribuir para a compreensão dos sentidos atribuídos às identidades e práticas sexuais, bem como para os processos de politização dessas. As pesquisas também incluem abordagens interseccionais que consideram fatores como desigualdades sociais, raciais e geracionais no adoecimento e nas lacunas das políticas públicas profiláticas, especialmente entre jovens negros LGBTQIAPN+.  

O dossiê é composto por onze artigos, organizados em três eixos principais: o primeiro aborda questões relacionadas às subjetividades, saúde mental, práticas artísticas em torno da temática, além de redes de cuidado relacionadas às pessoas que vivem com HIV; o segundo analisa aspectos relacionados à sociabilidade, ao estigma e às estratégias de resistências; o terceiro discute políticas públicas e direitos sexuais e reprodutivos, considerando diferentes contextos.   

O artigo que inaugura o dossiê “O drama da condição humana nas próprias veias”, de Claudia Cunha, Miguel Álvarez e Luciane Stochero, aborda saúde mental de jovens vivendo com HIV. O texto reflete sobre equilíbrio emocional, silêncios e silenciamentos, além da ética relacionada ao cuidado. A pesquisa evidencia a distância entre as políticas públicas voltadas à saúde mental e a realidade cotidiana das pessoas que vivem com HIV, enfatizando a necessidade de cuidados integrados. 

No artigo “Todo mundo conhece todo mundo”, Francisco Oliveira Neto e Luziana Silva refletem sobre a descentralização em relação ao HIV/Aids na Atenção Básica em um município do interior da Paraíba. A pesquisa evidencia os desafios presentes nos processos de políticas públicas que englobem ações de diagnóstico e acompanhamento, revelando estigmas e tensões.  

O ensaio “A po(ética) da aids e seus movimentos em Blue, de Derek Jarman”, de Flávio Nantes, se dedica ao último filme de Jarman, que representa, por sua vez, uma obra de resistência ao estigma. O filme é autobiográfico e produz reflexões sobre a ética da vida diante do enfrentamento da doença.   

No artigo “Assim vivemos agora”, Eliza Vianna realiza uma análise do conto de Susan Sontag demonstrando que a literatura revela vivências durante as primeiras décadas da epidemia. O artigo destaca a importância das redes de solidariedade LGBTQIAPN+ como formas de cuidado e resistência em relação ao HIV/Aids.  

Ingrid Melo Silva e Luís Felipe Rios, no artigo “‘Padrãozinho com alma de poc’: desejabilidade sexual entre homens que fazem sexo com homens e vulnerabilidade ao HIV/Aids na região metropolitana do Recife”, realizam uma etnografia sobre desejabilidade sexual entre homens que fazem sexo com homens na Região Metropolitana do Recife, considerando aspectos interseccionais. A pesquisa revela que hierarquias relacionadas à corporeidade, raça e classe influenciam escolhas na área da sexualidade, assim como vulnerabilidades ao HIV, nas relações homoeróticas masculinas.  

No artigo “Swipeando o estigma”, Ana Beatriz Reis e Cíntia Oliveira investigam aplicativos que promovem encontros, a partir da promessa de diversidade, quando, na prática, reproduzem normatividades, hierarquias e papéis de gênero tradicionais, ainda que possibilitem algumas formas de resistências.  

Luciana Miranda e Ivia Maksud, no artigo “Tensões e disputas sobre a doação de sangue LGBTQIAPN+: violência simbólica nos espaços de saúde” examinam os processos de doação de sangue por pessoas LGBTQIAPN+. A pesquisa revela que mesmo após o cancelamento de normas discriminatórias, ainda persistem preconceitos e discriminações contra minorias sexuais.  

No artigo “Prevenção em disputa: Prep, biopoder e desigualdades na política de HIV no Brasil”, Mayllon Lyggon Oliveira e Kátia Lerner analisam as contendas concernentes às políticas públicas de prevenção ao HIV. A partir de inspiração foucaultiana, os autores analisam documentos e revelam que tais políticas reforçam desigualdades sócio-econômicas, raciais, de gênero e territoriais e defendem políticas preventivas que articulem justiça social e cuidado integral à saúde.  

Lídia Arnaud, Márcia Longhi e Akim de Paula, no artigo “Polifonias: falando sobre HIV/Aids na extensão universitária”, a partir do projeto desenvolvido na Universidade Federal da Paraíba, Falando sobre Aids, refletem sobre extensão universitária e enfrentamento ao estigma em relação às pessoas vivendo com HIV. O artigo ressalta a importância das universidades como espaços de produção de saberes e defesa dos direitos humanos.   

No artigo “Trabalho sexual, saúde mental e IST: a precariedade vital e laboral de homens produtores de conteúdo adulto em plataformas digitais”, Luiz Henrique Braúna Lopes de Souza aborda o trabalho sexual masculino em plataformas digitais, revelando a precariedade laboral, os riscos relacionados às ISTs e os impactos na saúde mental desses trabalhadores. A pesquisa enfatiza a urgência de políticas públicas que promovam proteção à saúde dos trabalhadores que atuam nessa área.  

Encerrando o dossiê, há o artigo “Atenção à saúde sexual e reprodutiva entre jovens em uma favela carioca: qual o lugar da AIDS?”, de Mariana Barroso e Simone Monteiro, que analisa a atenção à saúde sexual e reprodutiva de jovens moradores de uma favela carioca, a partir do ponto de vista de profissionais da Atenção Básica. A pesquisa revela a carência de ações preventivas às ISTs, a concentração dos atendimentos às mulheres e a baixa presença de homens jovens que buscam esses serviços. A pesquisa enfatiza a importância do fortalecimento de ações territoriais que visem ampliar os cuidados à saúde sexual e reprodutiva. 

Acesse aqui o dossiê na íntegra. 

*Texto de divulgação adaptado a partir do texto introdutório ao dossiê, de autoria de Mónica Franch (UFPB), Claudia Mora (CLAM/IMS/UERJ), Luís Felipe Rios (UFPE) e Lírio Ferreira do Nascimento (UFRN). 

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